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Ressurreição de Jesus: Uma Conclusão

Quando criei este blog, um dos meus objetivos era explorar profundamente alguns dos temas mais importantes nos debates entre ateus e religiosos (mais especificamente os apologistas cristãos). O primeiro tema que escolhi foi a ressurreição de Jesus, pois acredito que seja um dos temas mais importantes dentro do cristianismo em si, e a forma como conhecemos tal religião hoje talvez não faça o mínimo sentido se Jesus não morreu e reviveu.

Não achem que eu esteja aqui defendendo que Jesus não ressuscitou. Eu defendo dados os problemas na hipótese da ressurreição, a crença em sua não existência é incomparavelmente mais sensata. Além do mais, o que uma pessoa pode fazer para provar que uma outra pessoa não ressuscitou? Ou seja, não podemos declarar através de argumentos racionais que Jesus ressuscitou, só podemos acreditar nisso pela fé. E irei mostrar que os cristãos deveriam tratar pessoas que negam isso como Difamadores da Fé.

Mas o meu foco é demonstrar a primeira ideia: a de que eventos como ressurreição não podem ser acreditados através da razão, em hipótese alguma. Apologistas como William Lane Craig discordam veementemente de mim. Para ele, é absolutamente racional acreditar em qualquer doutrina ou narrativa associados ao cristianismo, incluindo toda a história de Jesus narrada no Novo Testamento, em especial nos evangelhos. Craig vai além e diz que o Método Histórico pode ser usado para indicar com quase 100% de certeza que Jesus ressuscitou dos mortos!

Não vou me estender aqui explicando quais os perigos de tentar dar às religiões em geral, que são inventadas, o status de racional. (Não cometo aqui a falácia genética pois não afirmo que são falsas por serem inventadas, mas que não são racionais. Como demonstrado em A Falácia Genética e o Ateísmo – Parte 2: O Erro de Parsons, uma invenção irracional pode ser verdadeira por pura sorte, e inclusive é esta possibilidade que serve como contraexemplo fundamental da falácia genética.) Só digo que quando tratamos como racional um conjunto de ideias inventadas que possui implicações em nossas vidas social, cultural, econômica, política etc estamos agindo de forma contrária ao progresso. As religiões são ótimas em nos prover amparo em situações emocionais delicadas tais como a morte, o sentido da vida, a necessidade de agradecer pelas coisas boas que não podem ser explicadas, a expectativa e a vontade de pedir a alguém que atenda nossos desejos, a introspecção, a meditação etc. Quando difamadores da fé como Craig começam a dizer que histórias fantásticas são reais e racionais, abre as portas não só para a anti-intelectualidade, mas também para pessoas que querem reger a vida alheia e a política de acordo com suas crenças religiosas.

Acreditar na ressurreição de Jesus (ou na reencarnação dos espíritas, ou nas quarenta virgens dos muçulmanos etc) não é um exercício de burrice. Burrice, no meu mais humilde ponto de vista, é achar que isso pode ser alcançado de forma racional. Temos crenças irracionais o tempo todo: acreditamos que iremos nos curar de um câncer agressivo, que nosso time vai ser campeão, que tiraremos o Renan Calheiros da presidência do Senado com um abaixo-assinado, que ganharemos mais dinheiro esse ano, que perderemos peso na nova dieta… e nenhuma dessas crenças nos torna idiotas ambulantes. O que nos tornaria verdadeiros tolos é dar a essas crenças o mesmo grau de confiança que damos a teorias científicas como as Leis de Newton, por exemplo.

E por que a crença na ressurreição não tem respaldo nenhum? Porque se trata de um evento extremamente improvável por si só e porque relatos bíblicos não acrescentam quase nada à sua probabilidade. Craig concorda com a primeira parte, mas discorda completamente da segunda, usando como argumentos os pontos colocados no debate entre ele e Bart Ehrman. Eu já disponibilizei aqui transcrições em português e em inglês de tal debate e fiz um resumo em uma série de postagens, mas vou colocar aqui um guia geral dessa série para apresentar por alto o raciocínio de Craig:

(1) Craig x Ehrman Parte 1: Introdução: Apresentação do debate com vídeos e transcrições.

(2) Craig x Ehrman Parte 2: Discurso de Abertura de Craig: Craig expõe seu argumento histórico pela ressurreição de Jesus: (I) Existem quatro fatos históricos que precisam ser explicados por alguma hipótese histórica adequada: o sepultamento de Jesus, a descoberta de seu túmulo vazio, suas aparições post-mortem, e a origem da crença dos discípulos em sua ressurreição; e (II) A melhor explicação para estes fatos é que Jesus ressuscitou dentre os mortos.

(3) Craig x Ehrman Parte 3: Discurso de Abertura de Ehrman: Ehrman argumenta que a explicação (II) de Craig não é histórica, mas sim teológica. Tanto é verdade que ela pressupõe a existência de Deus como agente causador do milagre. Ora, historiadores não podem pressupor a existência de um deus, muito menos a existência de Deus especificamente, pois eles não possuem acesso a Ele. A pesquisa histórica só tem acesso àquilo que ocorre no plano terreno, sendo que supostos eventos que ocorreram em outros planos são discussões teológicas. Além disso, os relatos evangélicos não são confiáveis o suficiente a ponto de se dizer que as afirmações em (I) são fatos históricos.

(4) Craig x Ehrman Parte 4: A primeira Refutação de Craig: Ehrman havia afirmado anteriormente que é contraditório afirmar que um milagre – que é a maior das explicações improváveis – é a explicação mais provável. Mas Craig afirma que Ehrman só diz isso porque confunde Pr(R|B & E) com Pr(R|B). A probabilidade do primeiro (probabilidade de Jesus ter ressuscitado dadas as evidências do evangelho) pode ser muito alta enquanto a do segundo (probabilidade de Jesus ter ressuscitado) pode ser muito baixa. Através de cálculos matemáticos, é possível provar que Pr(R|B & E) é praticamente igual a 1.

(5) Craig x Ehrman Parte 5: A primeira Refutação de Ehrman: Ehrman pergunta a Craig se ele analisou criticamente os documentos que usou em sua pesquisa e se, caso positivo, ele foi capaz de encontrar algum erro neles. E se ele não encontrou nenhum erro, como espera que acreditemos que ele está avaliando historicamente tais fontes? Por ser um adepto da inerrância bíblia, Craig deve pensar que os textos necessariamente são corretos.

(6) Craig x Ehrman Parte 6: A segunda Refutação dos debatedores: Craig também argumenta que um historiador não precisa ter acesso direto às entidades explicativas em suas hipóteses, a exemplo dos físicos contemporâneos e teorias como a das cordas. Ehrman tenta sustentar que: “Mesmo que nós queiramos acreditar na ressurreição de Jesus, esta crença seria uma crença teológica. Você não pode provar a ressurreição. Este evento não é suscetível à evidência histórica; é fé. Os crentes acreditam na ressurreição e o fazem pela fé; história não pode prová-la.”

A argumentação de Craig tem como base a confiabilidade das narrativas bíblicas e a inferência de que a melhor explicação para elas é a ressurreição. Sobre a confiabilidade dos evangelhos, Ehrman, bem como várias outras pessoas, já demonstraram que as inúmeras contradições desmoronam qualquer alegação neste sentido. Mas mesmo que fossem confiáveis, elas ainda assim não sustentariam a ressurreição. Por este motivo, foquei a segunda parte da análise no estudo de tal inferência.

Para começar, Craig usa um argumento matemático baseado no Teorema de Bayes para demonstrar que a probabilidade de Jesus ter ressuscitado dadas as evidências contidas nos evangelhos é praticamente 100% (veja a explicação completa na parte 4 do resumo do debate). Mas esse argumento é completamente falacioso. Na verdade, os três posts abaixo mostram que tal probabilidade independe da confiabilidade das narrativas bíblicas:

(1) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 1: O Erro Matemático Escandaloso de Craig
(2) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 7: A Cagada Calamitosa de Craig
(3) 

Uma outra série de postagens, composta basicamente pela tradução de um capítulo de livro escrito por Robert Price, mostra que mesmo que acreditemos piamente na Bíblia, podemos chegar à conclusão de que Jesus não ressuscitou. É perfeitamente plausível que os relatos sejam verdadeiros (na verdade sinceros) e que os evangelistas olharam para os fatos e acreditaram inocentemente que Jesus voltou dos mortos.

(1) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 1: Entrando no Jogo: E, no entanto, é o que eu vou fazer aqui. É simplesmente uma experiência de pensamento. Vou assumir como verdadeiro o caráter essencialmente histórico dos “eventos” que precederam a ressurreição. A única diferença é a seguinte: eu não acho que alguém tem que ir muito longe para chegar a uma explicação completamente natural para a suposta ressurreição. Tenha paciência comigo enquanto eu me aventuro na defesa da Teoria do Desmaio, da Teoria do Reenterro, da Teoria da Identidade Trocada, e da Teoria da Dissonância Cognitiva (“Transformação dos Discípulos”). 

(2) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 2: Jesus não morreu: O que sugere a Teoria do Desmaio? Logo acima eu a retratei como um produto de pressupostos Racionalistas: como uma explicação, é tudo o que restou a eles. Mas agora vou comprovar que há muito mais do que isso. Eu acho que os próprios textos sugerem isso, e na verdade sugerem com tanta força, que me parece que o modelo de Scheintod foi o ensinamento real dos Evangelhos, em algum estágio anterior. Desde então, tal ensinamento foi editado no curso da evolução da crença cristã.

(3) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 3: A Tumba Provisória: Ao ler o relato de Páscoa em João 20:11-15, eu não preciso impor algum tipo de ódio de Jesus ao ceticismo para que ele pudesse “escapar” das implicações do texto. Não, eu me vejo lendo o texto com reverência, valorizando sua atmosfera sobrenaturalmente refrescante nessa história maravilhosa e, de repente, sou surpreendido com Maria Madalena não encontrando ninguém no túmulo: Ó Deus! Haverá um fim para os horrores desse fim de semana? E agora?

(4) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 4: Os Sósias: Vamos dar aos apologistas o benefício da dúvida e agir como se essas histórias evangélicas da Páscoa fossem, como eles insistem, narrativas genuínas de encontros. Todo esse negócio de não reconhecimento, que nós jamais esperaríamos, inevitavelmente convida à suspeita de que os encontros de Páscoa eram realmente avistamentos de encontros com figuras só mais tarde identificadas como Jesus, e depois como um meio de escapar da tristeza e do desespero.

(5) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 4b: Mudanças de aparência: Agora me digam: o que é mais provável? Que pessoas tenham visto homens parecidos com Jesus e, dado o enorme burburinho de ressurreição, os tomaram pelo Cristo ressurreto e depois contornaram alegando que ele mudava de aparência ou será que Jesus ressuscitou e ficou trocando de forma física, sendo que já mostrei que tal mudança é teologicamente problemática? Como podem ver, não preciso supor nenhum milagre para explicar nada.

(6) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Conclusão: A Dissonância Cognitiva (ou: Não é preciso nenhum milagre aqui!): Eis o que acho dos discípulos de Jesus: eles tinham abandonado todos os trabalhos e atividades mundanas, até mesmo a família, a fim de juntar-se a Jesus e sentar-se à sua direita e à sua esquerda em sua glória que estava se aproximando. Agora ele é vergonhosamente morto, e só se pode imaginar as piadinhas que guardavam, por exemplo, para os dois discípulos assim que voltassem para a casa em Emaús. Talvez eles tenham programado de chegar em casa na calada da noite!

Além disso, forneço uma visão geral do debate com foco nas estratégias dos dois debatedores. Esses posts não somaram muito à questão da ressurreição, sendo mais interessante para aqueles que se interessam pela prática do debate em si. Destaque para a parte 5: “Por que Craig venceu o debate antes mesmo dele começar?”

(1) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 2: Uma visão geral do debate
(2) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 3: Estratégias dos debatedores
(3) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 4: Guarnecendo o Plano B
(4) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 5: Por que Craig venceu o debate antes mesmo dele começar?
(5) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 6: Craig, o Mr. C do Power Point

Por fim, uma discussão teológica da ressurreição de Jesus. Em um debate contra um rabino, Craig apanha feito criança ao não ser capaz de explicar diversos detalhes exigidos pelo judeu. Na verdade, a crença na ressurreição de Jesus, segundo os judeus, se parece com uma má interpretação histórica da vida desse homem comum. Além disso, adentrando na teologia de maneira mais profunda, vemos que a ressurreição de Jesus é um evento desprovido de significado real objetivo. Ambas objeções teológicas formaram a última série que fiz sobre o assunto:

(1) Teologia da Ressurreição de Jesus – Parte 1: A Trindade Cristã contradiz o Monoteísmo?: Ver Craig dizendo que o cristianismo está certo porque a Trindade é verdade não tem preço. Só faltou ele dizer que é porque é e pronto. E em saber que ele é ovacionado por certos grupos de cristãos… é, uma hora a máscara cai.

(2) Teologia da Ressurreição de Jesus – Parte 2: Afinal, qual a finalidade da morte de Jesus?: Aqui analiso as principais respostas para a pergunta: “Qual o propósito da morte de Jesus?”. Demonstro que mesmo dentro da teologia, isso não faz muito sentido. No máximo é algo que as pessoas usam para sentirem que existe alguém que se importa com elas.

A conclusão pode ser tirada por qualquer um que ler o material que disponibilizei aqui no blog. A crença na ressurreição de Jesus pode ser defendida racionalmente ou deve ficar apenas nos domínios da fé? Como mostrei, a crença na ressurreição é discutível não somente na história, mas também na teologia, sendo que isso a torna ainda mais distante de qualquer defesa racional. Além disso, adotar a segunda posição não é adotar um ponto de vista ateu, pois é algo compatível com o cristianismo. Talvez até mesmo o próprio Jesus preferisse a segunda opção caso ele tenha realmente ressuscitado.

Um ateu como eu não crê, evidentemente, na ressurreição de Jesus. Mas eu não tenho porque condenar aqueles que acreditam nisso porque se sentem de certa forma amparados: “Um homem deu sua vida por mim! Eu tenho algum valor e os deuses me amam e querem meu bem!” Eu já argumentei que isso não faz muito sentido, mas nem por isso tal pensamento é condenável. Condenável seria dizer algo como “Jesus ressuscitou, provando ser ele mesmo Deus, e eu como seu seguidor tenho a obrigação de fazer com que todas as pessoas acreditem nisso e sigam a sua palavra, custe o que custar.” Isso se chama ignorância, é perigoso para a sociedade e deve ser combatido. Todo mundo tem direito de evangelizar, mas ninguém tem o direito de impôr seu ponto de vista. É por isso que peço para que não acreditem em difamadores da fé como Craig, que querem tirar da religião aquilo que ela sabe fazer de melhor e transformá-la, mesmo que de maneira inocente, em um instrumento político e de alienação intelectual.

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Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Conclusão: A Dissonância Cognitiva (ou: Não é preciso nenhum milagre aqui!)

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Título Original: Explaining the Resurrection without Recourse to Miracle
Autor: Dr. Robert M. Price
Publicado Originalmente em: The End of Christinaity,
editado por John W. Loftus, Prometheus Books, EUA, 2011, Capítulo 9
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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SÓ PRECISA DE UMA FAÍSCA PARA ACENDER O FOGO – NÃO DE UM MILAGRE

Será que imaginar o começo de uma nova religião requer que se force os limites de lei natural? Muitas delas alcançaram êxitos impressionantes, não somente numéricos, e ninguém fica tão intrigado. O Sociólogo Rodney Stark mostra como a expansão do cristianismo a partir de um círculo de fiéis sectários a uma crescente e influente seita que se tornou uma candidata credível para a religião do estado de Roma (assim como o mitraísmo e o louvor a Baal [35] tinham sido candidatos antes) se emparelha ao sucesso de seitas modernas análogas, tais como a Igreja Mórmon e a Igreja da Unificação, no mesmo período de tempo. [36] Nenhum milagre foi necessário, embora certamente houvessem virtudes cristãs que a tornou atraente, como o judaísmo tinha feito antes com os estranhos e com os pagãos. Os cristãos devem estar orgulhosos do sucesso inicial de sua fé, mas não há nada de sobrenatural nisso. [37] Tenha em mente que apelar para um milagre é simplesmente admitir que não podemos ainda explicar o fenômeno. Mas nós podemos. Existem inúmeros fatores que não envolvem sobrenaturalismo que explicam o sucesso cristão.

Algumas pessoas se focam diretamente nas consequências da morte de Jesus. Se ele não ressuscitou dos mortos de fato, como podemos explicar a súbita expansão da nova fé? Por que o círculo dos discípulos simplesmente não desistiu e não voltou para casa? Não é necessária nenhuma rejeição a milagres propriamente dita para julgar que a ascensão do cristianismo após a morte decepcionante de Jesus não precisa de um. Ela pode ser facilmente explicada em termos de redução via dissonância cognitiva. Leon Festinger, Henry Riecken e Stanley Schachter, em seu clássico psicossocial “Quando a profecia falha”, [38] desenvolveu uma teoria da “dissonância cognitiva” para explicar as reações de um culto UFO ao fracasso de sua profecia de uma invasão alienígena. [39] Extremamente constrangidos publicamente, muitos ainda assim ficaram com o grupo e, de fato, redobraram seus esforços de recrutamento. Por quê? Aparentemente, por um lado, o nível de humilhação teria sido muito profundo para enfrentar e aceitar. Não importa o quão difícil deve ser engoli-la, qualquer racionalização seria menos dolorosa do que a ter que lidar consigo mesmo e com os outros caso quisessem admitir os erros e encarar a realidade. (Alguns membros decepcionados dos modernos cultos messiânicos cometeram suicídio ao invés de encarar os fatos.) Eis o que acho dos discípulos de Jesus: eles tinham abandonado todos os trabalhos e atividades mundanas, até mesmo a família, a fim de juntar-se a Jesus e sentar-se à sua direita e à sua esquerda em sua glória que estava se aproximando. Agora ele é vergonhosamente morto, e só se pode imaginar as piadinhas que guardavam, por exemplo, para os dois discípulos assim que voltassem para a casa em Emaús. Talvez eles tenham programado de chegar em casa na calada da noite!

Por outro lado, alguém pode esperar atenuar, ou mesmo reverter, a repulsa do público à sua fé redobrando os esforços para converter estranhos a ela. Cada nova pessoa recrutada significava mais um que admitia que sua parte na campanha de ridicularização pública estava errada (como o ladrão arrependido na cruz). Então essa pessoa fica mais ocupada do que nunca batendo nas portas. “Quando as pessoas estão comprometidas com uma crença e com um curso de ação, uma evidência que claramente a refuta pode simplesmente resultar no aprofundamento da convicção e no aumento do proselitismo.” [40] Eles simplesmente começaram de novo, racionalizando que eles haviam interpretado mal isso ou aquilo da primeira vez, mas que nada iria parar o trem dessa vez! Não há milagre envolvido em nada disso. Uma reviravolta de 180 graus não é suficiente para conter as esperanças de crentes. [41] Na verdade, a derrota súbita e total pode funcionar como uma catalisador para acender a bomba com mais força do que da primeira vez. Longe de ir contra a natureza, essa é precisamente a forma como a natureza humana funciona!

Mas, realmente, todo esse maquinamento é necessário? Isso não seria como atirar num rato com uma espingarda? Alguém é incapaz de retratar os discípulos desolados, seja de Jesus ou do Dr. King, se reunindo após o choque inicial do assassinato de seu líder, se recompondo de seu pânico momentâneo, e depois se unindo uns aos outros para redobrar seus esforços em levar a causa do mestre em seu nome, e inventando histórias de que eles precisavam fazer isso? Isso é a coisa mais natural do mundo; o único “milagre” que precisamos para explicar “a transformação dos discípulos.”

CONCLUSÃO: ELEMENTAR, MEU CARO WATSON!

A ascensão do cristianismo é notável, mas não misteriosa. Gostaríamos de saber muito mais do que sabemos sobre um grande número de aspectos de origens cristãs. Mas é apenas falsa e absurda a alegação de que não poderíamos explicar o aumento da fé cristã na ressurreição sem apelarmos a um milagre. Não é o caso de só nos ter restado postular circunstâncias especiais ou multiplicar hipóteses. O crescimento da fé na ressurreição simplesmente não é nenhum problema. Se colocarmos a questão nos termos preferidos pelos apologistas da fé, negaríamos que há qualquer problema em explicar os “fatos da manhã de Páscoa”, sem recorrer a uma suspensão da lei natural. Argumentar que a fé na ressurreição não poderia ter aparecido e se espalhado a menos que tivesse sido iniciada por um verdadeiro milagre da ressurreição é como dizer que alienígenas do espaço devem ter construído as pirâmides, uma vez que não sabemos como isso poderia ter sido feito com os recursos que é sabido que os antigos egípcios dispunham. Não, mesmo que não soubéssemos como os antigos egípcios poderiam ter projetado e produzido as estruturas, a nossa ignorância de nenhuma forma poderia justificar algum apelo a uma “explicação” sobre a qual nós sabemos menos ainda. Mas não estamos sequer em tal posição. Nós não estamos coçando a cabeça nos perguntando como a fé na ressurreição surgiu. Simplesmente não há nenhum mistério.

Notas e Referências:

35. Sim, culto a Baal! Isso foi ideia do imperador Heliogábalo; tal culto já havia sido popular na Síria Romana.

36. Rodney Stark, The Rise of Christianity: A Sociologist Reconsiders History (Princeton: Princeton University Press, 1996).

37. Richard Carrier, Not the Impossible Faith: Why Christianity Didn’t Need a Miracle to Succeed (Raleigh, NC: Lulu, 2009). Veja o capítulo 2, do Carrier, neste volume.

38. Leon Festinger, Henry Riecken, and Stanley Schachter, When Prophecy Fails: A Social and Psychological Study of a Modern Group that Predicted the Destruction of the World (New York: Harper and Row Torchbooks, 1964).

39. A teoria da dissonância cognitiva está bem estabelecida na psicologia e tem sido aplicada sobre as origens do cristianismo por Adela Collins e outros: ver Carrier, “Burial of Jesus,” 387–88 (com nota 55, 392); e Carrier, “Plausibility of Theft,” 356–57, para vários outros exemplos na história da religião.

40. Festinger, Riecken, and Schachter, When Prophecy Fails, 12.

41. Eric Hoffer, The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements (New York: Harper and Row, 1951).

Craig e o Massacre de Newtown – Parte 2: O que está em jogo

Este post é um pequeno complemento ao que foi publicado há alguns dias intitulado Craig e o Massacre de Newtown. Julguei erroneamente que a maioria dos cristãos fosse entender o que realmente estava em jogo naquela publicação, que fossem entender que esta não era uma crítica do ateísmo à religião como um todo, mas uma crítica àquela visão apresentada por Craig.

Desconfiei que houve um erro de interpretação quando, em mídias sociais, alguns cristãos tentaram defender Craig. Desconfiei porque acredito que a grande maioria dos cristãos não concorda com aquilo que o apologista realmente quis dizer na ocasião. Acredito que algumas pessoas que discordam dele o defenderam porque não entenderam, e num ato de automatismo, o defenderam achando que estavam defendendo sua própria fé. Então vamos explicar o que Craig realmente estava dizendo e colocar a limpo o que realmente estava em jogo.

A primeira coisa a se saber é que Craig parte do pressuposto de que a teoria moral válida é a Teoria do Comando Divino (doravante TdoCD), que basicamente diz que tudo que Deus ordenar é certo, mesmo que possa parecer absurdo. Essa teoria, entretanto, não é unânime sequer dentro da teologia. A maioria dos cristãos tem preferido a Teoria da Lei Natural (doravante TdaLN), que diz que Deus embutiu uma moralidade correta no mundo, ou na natureza, e que pode ser deduzida pela razão.

Teologicamente falando, cabe a mim provar que qualquer uma delas é falsa? Não! Para mim, que não acredito em Deus, ambas são falsas, logo não preciso fazer demonstrações teológicas.

Contudo, dentro de um ponto de vista um pouco mais amplo, fora da teologia, aí sim faz sentido – para mim – tentar desacreditar a TdoCD. Mas o que eu posso fazer? Se eu fosse capaz de mais do que provar – provar E convencer – qualquer pessoa de que Deus não existe, eu estaria feito e tudo se resolveria. Mas não posso.

Então me resta tentar demonstrar o absurdo que é acreditar na TdoCD. Veja, ela leva uma pessoa como Craig acreditar que tudo bem: Deus pode permitir um massacre de inocentes desde que isso ajude ele a ter um relacionamento melhor com sua criação. Parece razoável?

Daí alguém pode dizer: “mas o mundo é um lugar muito mal, precisamos dessa relação com Deus para nos sentirmos melhor” ou algo parecido, mas daí vem a pergunta: é preferível viver em mundo onde Deus evita o mal e nós temos menos motivos pelos quais temer e sofrer ou num mundo onde Deus não evita o mal e nós temos que procurá-lo para renovar nossa esperança?

Aliás, segundo Craig, Deus não só permite o mal, como o usa como forma de nos lembrar que devemos nos relacionar com ele! Será que nos relacionar com ele é mais importante do que uma vida menos miserável? Será que é moralmente aceitável um ser que usa crimes para nos deixar em pânico e nos forçar a buscar auxílio dele? Será que é moralmente aceitável ser coagido a se relacionar com alguém, mesmo que esse alguém seja nosso criador?

Se eu pudesse estabelecer como metáfora a história de um policial que ao invés de impedir crimes, apenas consola as vítimas, poderíamos pelo menos nos degladiar sobre um assunto muito mais delicado: esse livre-arbítrio “hard core” realmente faz sentido? Mas essa não é a metáfora mais correta. A metáfora mais adequada seria a de um policial que deliberadamente permite os crimes que poderia evitar para depois consolar as vítimas. Um policial que fizesse isso, seria um canalha com sérios problemas sociais e afetivos. Por que um Deus que faz isso não é?

Só a TdoCD pode justificar Deus se comportando dessa maneira. Por isso, ela é errada e por isso acho desprezíveis as conclusões que se tira delas e, de certa forma, as pessoas que recorrem a ela.

Se por outro lado Craig seguisse a TdaLN, ele diria que Deus permitiu os ataques porque não se permite agir sobre o mundo, mas espera que as pessoas, ao verem isso, reflitam e busquem melhorar e que ele pode ajudar quem não estiver suportando os males do mundo. Seria a metáfora do policial omisso mas que tem ombro amigo, e eu não ficaria tão indignado como fiquei.

Veja que minha crítica foi feita pelo lado de fora, sem entrar na questão teológica de qual das duas teorias é correta. Aliás, minha crítica pode ser feita perfeitamente por qualquer cristão que siga a TdaLN e que condene o uso da TdoCD.

O que está em jogo aqui é o quão absurda era essa ideia de Craig de que Deus promove o mal no mundo como uma mensagem de que devemos nos relacionar com ele para termos mais esperança. Se ao menos o “maldito” ficasse quieto no canto dele, o mundo seria melhor e, pobrezinho, não daríamos a mínima para ele. O que está em jogo aqui é uma crítica à TdoCD e não uma crítica a toda moralidade cristã. Não que eu não queira criticar toda ela, mas esse caso só me dá material para criticar a TdoCD especificamente. Eu desejava mostrar o quanto é absurda a ideia de Craig de Deus usando o massacre como mensagem de Natal e que de quebra colocar a base dele em cheque.

Alguns cristãos, imersos em sua (completamente negada) falta de conhecimento sobre religião, trocaram os pés pelas mãos e acharam que ao me criticar estavam defendendo a crença em Deus sendo que, na verdade, defender Craig nesse caso é defender um Deus que usa os crimes dos outros para promover a si mesmo, numa atitude que seria claramente mesquinha e desprezível se feita por qualquer outra pessoa.

Se não foi isso que aconteceu, então quem me criticou prefere a TdoCD à TdaLN e concorda que está tudo bem em acreditar num Deus que age dessa forma, mas meu palpite é que eles não sabiam sequer o que estava em jogo nessa conversa toda.

E aí? Vão continuar defendendo Craig e a visão de Deus que ELE tem?

Craig e o Massacre de Newtown

Para quem não entende inglês, uma pequena tradução da transcrição. Eu fiz bem rápido, de ouvido mesmo, então não ficou muito fiel à forma como ele falou, apesar de ter ficado bem fiel a tudo que ele quis dizer. Até 1:15 min, Craig lamenta pelas vítimas e se diz solidário à dor dos pais das crianças assassinadas na pequena cidade norte-americana. Mas a partir de então, ele esquece tais lamentos (ou pára de fingi-los… vai saber!) para dizer algo que só não é mais surpreendente porque ele já fez coisas parecidas antes.

Mas depois, enquanto eu lia sobre o assunto, me ocorreu com bastante força que o Natal original também foi marcado por uma série de assassinatos de… crianças! Estou me referindo, obviamente, ao que foi feito pelo Rei Herodes fez. Vamos ler a narrativa de Mateus, capítulo 2 [1-18]:

1. Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.

2. Perguntaram eles: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo.

3. A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele.

4. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo.

5. Disseram-lhe: Em Belém, na Judéia, porque assim foi escrito pelo profeta:

6. E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo(Miq 5,2).

7. Herodes, então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a época exata em que o astro lhes tinha aparecido.

8. E, enviando-os a Belém, disse: Ide e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo.

9. Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que e estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.

10. A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria.

11. Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.

12. Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.

13. Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar.

14. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito.

15. Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: Eu chamei do Egito meu filho (Os 11,1).

16. Vendo, então, Herodes que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos magos.

17. Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias:

18. Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem (Jer 31,15)!

Então me ocorreu que longe de ser incongruente com o Natal, essa terrível tragédia de certa forma reverbera o Natal original, que envolveu a morte de crianças por Herodes.

É um lembrete de para quê serve o Natal, o que ele representa. Esse é o modo que Deus usa para entrar no mundo, que está decadente, cheio de maldades impronunciáveis e de sofrimentos terríveis. E é a mensagem de Natal de que Deus não nos abandonou neste mundo, mas que ele próprio entrou na história humana através da pessoa de Jesus para acumular sob si mesmo toda essa maldade e esse sofrimento, para assim nos redimir do mal, nosso próprio mal, e nos trazer a um relacionamento correto com ele, e nos dar cura e vida eterna.

Então espero que essa tragédia seja um lembrete do que realmente significa o Natal, de seu significado mais profundo. Não apenas alegria, troca de presentes e festividades do feriado, mas sim esperança que nos é dada e que sem a qual estaríamos perdidos neste mundo mal e indescritivelmente perverso. Então, em meio a esse sofrimento, a mensagem de Natal que eu penso que temos é que existe esperança e que Deus nos provido com ela.

Como diria o pessoal do blog Why Evolution is True, é quase como se Deus tivesse perpetrado esse massacre para nos lembrar de que existe esperança nesse mundo e que ele está disposto a sofrer em nosso lugar!

E já que ele deseja sofrer no nosso lugar, nada mais lógico do que maquinar um homicídio de 25 crianças inocentes, porque assim ele não precisa ficar à toa sem receber nenhum sofrimento por nós.

Não surpreende que ele pense assim. Craig é um dos poucos apologistas que seguem a Teoria do Comando Divino, na qual qualquer coisa que Deus ordene é boa por si só, independente do quão horrível isso possa parecer se executado por outra pessoa. Leiam esse artigo aqui do blog explicando a Teoria do Comando Divino em maiores detalhes.

Craig chegou ao absurdo de dizer que no massacre de Canaã, as verdadeiras vítimas eram os soldados israelenses que, ó tadinhos, tiveram que matar crianças e mulheres inocentes porque Deus mandou! Será que já existiam psicólogos cristãos naquela época para ajudar esses soldados a superarem esse terrível trauma? Se duvidam que ele disse isso, vejam esse artigo do Rebeldia Metafísica.

Willian Lane Craig é mesmo um excelente orador, tanto é que consegue tirar lindas mensagens de Natal até de tragédias como essa!

Continuação: Craig e o Massacre de Newtown – Parte 2: O que está em jogo

Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 4: Os Sósias

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Título Original: Explaining the Resurrection without Recourse to Miracle
Autor: Dr. Robert M. Price
Publicado Originalmente em: The End of Christinaity,
editado por John W. Loftus, Prometheus Books, EUA, 2011, Capítulo 9
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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NÓS JÁ NOS VIMOS ANTES?

À primeira vista, a ideia de que o Senhor Ressuscitado era, hm, uma outra pessoa, talvez algum outro salvador, ou alguém representando Jesus, parece bobagem. Identidade errada? Você só pode estar brincando! Mas os próprios Evangelhos introduzem esta suspeita – não a de que alguém estava representando o Jesus morto (como as pessoas que posteriormente alegaram ser David Koresh, por exemplo [N.doT.: é mais ou menos como alguém alegando ser Cleópatra ou Júlio César hoje em dia]), mas sim a suspeita de que os seus discípulos em luto, resistentes em deixá-lo ir, agarraram-se à ilusão de que algum indivíduo desconhecido que encontraram logo após a crucificação deve realmente ter sido Jesus, vivo novamente.

Se quiséssemos fazer o papel de verdadeiros críticos do Novo Testamento, e não apenas jogar o jogo dos apologistas, nós provavelmente devemos chegar a algo como a teoria de James M. Robinson na qual o motivo para o não reconhecimento era decorrente do entendimento original de que aparições de ressurreição seriam como explosões de luz brilhante e ofuscante, na qual nenhuma forma humana poderia ser facilmente delineada. [29] Pense em Apocalipse 1:14-16; ou Marcos 9:2-3; ou Mateus 17:2 (muitas vezes tomada como uma narrativa deslocada da ressurreição); ou Atos 9:3-6: todos estes representam um Jesus brilhante com uma radiação sobrenatural. [30]

Como tal, ele não é facilmente reconhecível. “Quem és tu, Senhor?” (Atos 9:5). Robinson acha que esta é a origem e o ambiente natural do motivo. O problema é que ela foi herdada por narrativas da Páscoa que foram reescritas como se o Jesus carnal tivesse se levantado da maca do necrotério e se anunciado: o mesmo homem, no mesmo corpo. Nesse caso, por que eles não conseguiram reconhecê-lo da mesma forma que faz um parente chamado para o identificar um defunto?

O motivo do não reconhecimento já não serve, funcionando apenas como um lembrete revelador da fé pascal de tempos passados. (Do mesmo modo, as histórias que ainda retratam o Jesus Ressuscitado no meio de uma luz da qual não conseguimos chegar perto não são mais apresentados como tecnicamente histórias de ressurreição! Agora elas são visões especiais concedidas a indivíduos ou pequenos grupos, antes ou depois da Páscoa).

As histórias de Páscoa que são contadas atualmente apresentam um Jesus carnal, sem os efeitos especiais, mas ainda há este persistente detalhe de duvidar que é ele mesmo, ou até mesmo de pensar que ele é uma outra pessoa. Os discípulos a caminho dos Emaús  (Lucas 24:13-35) conversam com o homem durante horas, e apenas quando ele desaparece, ocorre a eles que era seu velho mestre. Os discípulos, mesmo ao receberem ordens diretas, ponderam se é realmente ele (Mateus 28:17“mas eles [não “alguns deles”] duvidavam”). [31] (N.doT.: Não deixem de ler essa nota!) Maria Madalena no túmulo também não reconhece Jesus (João 20:14). Os discípulos desiludidos, se reajustando a uma vida mundana, vêm Jesus na praia, mas eles não o reconheceram (João 21:4). Vamos dar aos apologistas o benefício da dúvida e agir como se essas histórias evangélicas da Páscoa fossem, como eles insistem, narrativas genuínas de encontros. Todo esse negócio de não reconhecimento, que nós jamais esperaríamos, inevitavelmente convida à suspeita de que os encontros de Páscoa eram realmente avistamentos de, encontros com, figuras só mais tarde identificadas como Jesus, e depois como um meio de escapar da tristeza e do desespero.

“Percebendo” que era Jesus em retrospecto não era tão bom como percebê-lo no momento exato, mas depois surgiu uma vantagem: tal afirmação não poderia ser desmascarada. É como quando alguém dá instruções a uma pessoa perdida que parece familiar, mas não pode ser reconhecida, e mais tarde um amigo lhe diz: “Eu ouvi tal celebridade estava na cidade hoje, sem aviso prévio.” E então se pensa, “Deve ter sido ele! Se eu tivesse percebido isso naquele momento! Eu poderia ter pedido um autógrafo!” Mas que diabos, ainda assim é muito emocionante. E, claro, poderia não ter sido a celebridade, e uma vez que você não pode mais verificar de uma forma ou de outra, você ainda pode contar a história, usando o elemento de incerteza apenas como tempero.

Marcos (6:14; 8:28) fornece um precedente marcante quando nos diz (duas vezes, não menos) que muitas pessoas acreditavam que estavam vendo ou ouvindo sobre um João Batista ressuscitado, apesar de Marcos afirmar saber mais: era um caso de identidade trocada, uma vez que a figura era na verdade Jesus. Não é exagero se perguntar se a mesma coisa aconteceu no caso de Jesus. Afinal, havia uma abundância de tais figuras ao redor. Celso nos diz que sempre havia um profeta circulando pela Fenícia e pela Palestina:

Há muitos, que não possuem nome …, que profetizam pela menor desculpa por alguma causa trivial dentro e fora dos templos, e há alguns que vagueiam mendigando em torno de cidades e campos militares; e eles fingem se moverem como se tivessem dando algum auxílio oracular. É um costume ordinário e comum para eles dizer: “Eu sou Deus (ou um filho de Deus, ou um espírito divino). E eu vim. O mundo já está sendo destruído. E vocês, ó homens, estão prestes a perecer por causa de suas iniquidades. Mas eu gostaria de vos salvar. E vocês devem me ver voltar novamente com o poder celestial. Bendito é aquele que me adora agora! Mas eu lançarei fogo eterno sobre todo o resto, tanto em cidades e quanto em lugares do país. E os homens que não conseguem perceber as penalidades que os aguardam irão em vão se arrepender e gemer. Mas vou preservar para sempre aqueles que foram convencidos por mim.” [32]

Jesus pode ter sido tomado por um destes, ou um desses por Jesus. O Sermão do Monte das Oliveiras explicitamente adverte seus leitores a não misturar pessoas como Simão bar-Giora e Jesus ben-Ananias com Jesus Cristo (Marcos 13:5-6, 21-23), alguma coisa alguém deve ter feito, ou nós não estaríamos lendo nenhum aviso! Da mesma forma, Paulo foi levado para o profeta revolucionário egípcio em Atos 21:38, também mencionado por Josefo. É dito que Simão Mago alegou ser Jesus: “Ele contou que era ele mesmo que, em verdade, apareceu entre os judeus como o Filho…. e pensaram que ele tinha sofrido na Judéia, embora ele realmente não tenha sofrido.” [33]

Essas identificações errôneas não são difíceis de entender, uma vez que compreender a forma como “heróis locais” (incluindo os santos populares e revolucionários) são venerados no Oriente Médio e tem sido por milênios. Scott D. Hill diz: “Muitas vezes, os homens vivos são vistos como encarnações ou representantes de um herói local conhecido.” [34]

Vamos nos imaginar entre a comunidade apostólica nos primeiros dias. Ouvimos relatos de vários dos irmãos que viram o retalhado Jesus vivo novamente. Naturalmente, nossos olhos se arregalam; nossos ouvidos ficam em pé. E, como Thomas, perguntamos: “Você têm certeza? Conte-me mais sobre isso!” E alguém diz: “É claro que eu não sabia que era Jesus na época. Eu só me dei conta depois.” (assim como em Lucas 24:13-32). Outro diz: “A pessoa que vi não se parecia exatamente com ele, eu admito, mas depois eu percebi que deve ter sido Jesus.” (assim como em Mateus 28:17; João 20:14-15; 21:2-12). E assim por diante. Eu digo a você que estaríamos justificados em imaginar o que poderia ter acontecido, ao invés de ficarmos convencidos de que os nossos amigos tinham realmente visto Jesus. Seus próprios testemunhos criam dúvida em vez de fé.

Continua…

Notas e Referências:

29. James M. Robinson, “Jesus from Easter to Valentinus (or to the Apostles Creed),” em Jesus according to the Earliest Witness, ed. James M. Robinson (Minneapolis: Fortress, 2007), 38–39.

30. Rudolf Bultmann, History of the Synoptic Tradition, tradz. John Marsh (New York: Harper and Row, 1972), 259–61.

31. Ao contrário das contenciosas mas populares traduções modernas, o texto simplesmente diz kai idontes autonprosekunesan hoi de edistasan, “e ao vê-lo eles o adoraram, mas duvidaram”, implicando todos os 11 discípulos (o hoi de Mateus 28:17 é o mesmo de hoi de Mateus 28:16, especificamente hoi endeka mathetai“os 11 discípulos”).

32. Citado em Origen, Contra Celsum, tradz. Henry Chadwick (New York: Cambridge University Press, 1980), 402.

33. Irenaeus, Against Heresies 1.23.1, 3.

34. Scott D. Hill, “The Local Hero in Palestine in Comparative Perspective,” em Elijah and Elisha em Socioliterary Perspective, ed. Robert B. Coote (Atlanta: Scholars Press, 1992), 37–74.