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Ressurreição de Jesus: Uma Conclusão

Quando criei este blog, um dos meus objetivos era explorar profundamente alguns dos temas mais importantes nos debates entre ateus e religiosos (mais especificamente os apologistas cristãos). O primeiro tema que escolhi foi a ressurreição de Jesus, pois acredito que seja um dos temas mais importantes dentro do cristianismo em si, e a forma como conhecemos tal religião hoje talvez não faça o mínimo sentido se Jesus não morreu e reviveu.

Não achem que eu esteja aqui defendendo que Jesus não ressuscitou. Eu defendo dados os problemas na hipótese da ressurreição, a crença em sua não existência é incomparavelmente mais sensata. Além do mais, o que uma pessoa pode fazer para provar que uma outra pessoa não ressuscitou? Ou seja, não podemos declarar através de argumentos racionais que Jesus ressuscitou, só podemos acreditar nisso pela fé. E irei mostrar que os cristãos deveriam tratar pessoas que negam isso como Difamadores da Fé.

Mas o meu foco é demonstrar a primeira ideia: a de que eventos como ressurreição não podem ser acreditados através da razão, em hipótese alguma. Apologistas como William Lane Craig discordam veementemente de mim. Para ele, é absolutamente racional acreditar em qualquer doutrina ou narrativa associados ao cristianismo, incluindo toda a história de Jesus narrada no Novo Testamento, em especial nos evangelhos. Craig vai além e diz que o Método Histórico pode ser usado para indicar com quase 100% de certeza que Jesus ressuscitou dos mortos!

Não vou me estender aqui explicando quais os perigos de tentar dar às religiões em geral, que são inventadas, o status de racional. (Não cometo aqui a falácia genética pois não afirmo que são falsas por serem inventadas, mas que não são racionais. Como demonstrado em A Falácia Genética e o Ateísmo – Parte 2: O Erro de Parsons, uma invenção irracional pode ser verdadeira por pura sorte, e inclusive é esta possibilidade que serve como contraexemplo fundamental da falácia genética.) Só digo que quando tratamos como racional um conjunto de ideias inventadas que possui implicações em nossas vidas social, cultural, econômica, política etc estamos agindo de forma contrária ao progresso. As religiões são ótimas em nos prover amparo em situações emocionais delicadas tais como a morte, o sentido da vida, a necessidade de agradecer pelas coisas boas que não podem ser explicadas, a expectativa e a vontade de pedir a alguém que atenda nossos desejos, a introspecção, a meditação etc. Quando difamadores da fé como Craig começam a dizer que histórias fantásticas são reais e racionais, abre as portas não só para a anti-intelectualidade, mas também para pessoas que querem reger a vida alheia e a política de acordo com suas crenças religiosas.

Acreditar na ressurreição de Jesus (ou na reencarnação dos espíritas, ou nas quarenta virgens dos muçulmanos etc) não é um exercício de burrice. Burrice, no meu mais humilde ponto de vista, é achar que isso pode ser alcançado de forma racional. Temos crenças irracionais o tempo todo: acreditamos que iremos nos curar de um câncer agressivo, que nosso time vai ser campeão, que tiraremos o Renan Calheiros da presidência do Senado com um abaixo-assinado, que ganharemos mais dinheiro esse ano, que perderemos peso na nova dieta… e nenhuma dessas crenças nos torna idiotas ambulantes. O que nos tornaria verdadeiros tolos é dar a essas crenças o mesmo grau de confiança que damos a teorias científicas como as Leis de Newton, por exemplo.

E por que a crença na ressurreição não tem respaldo nenhum? Porque se trata de um evento extremamente improvável por si só e porque relatos bíblicos não acrescentam quase nada à sua probabilidade. Craig concorda com a primeira parte, mas discorda completamente da segunda, usando como argumentos os pontos colocados no debate entre ele e Bart Ehrman. Eu já disponibilizei aqui transcrições em português e em inglês de tal debate e fiz um resumo em uma série de postagens, mas vou colocar aqui um guia geral dessa série para apresentar por alto o raciocínio de Craig:

(1) Craig x Ehrman Parte 1: Introdução: Apresentação do debate com vídeos e transcrições.

(2) Craig x Ehrman Parte 2: Discurso de Abertura de Craig: Craig expõe seu argumento histórico pela ressurreição de Jesus: (I) Existem quatro fatos históricos que precisam ser explicados por alguma hipótese histórica adequada: o sepultamento de Jesus, a descoberta de seu túmulo vazio, suas aparições post-mortem, e a origem da crença dos discípulos em sua ressurreição; e (II) A melhor explicação para estes fatos é que Jesus ressuscitou dentre os mortos.

(3) Craig x Ehrman Parte 3: Discurso de Abertura de Ehrman: Ehrman argumenta que a explicação (II) de Craig não é histórica, mas sim teológica. Tanto é verdade que ela pressupõe a existência de Deus como agente causador do milagre. Ora, historiadores não podem pressupor a existência de um deus, muito menos a existência de Deus especificamente, pois eles não possuem acesso a Ele. A pesquisa histórica só tem acesso àquilo que ocorre no plano terreno, sendo que supostos eventos que ocorreram em outros planos são discussões teológicas. Além disso, os relatos evangélicos não são confiáveis o suficiente a ponto de se dizer que as afirmações em (I) são fatos históricos.

(4) Craig x Ehrman Parte 4: A primeira Refutação de Craig: Ehrman havia afirmado anteriormente que é contraditório afirmar que um milagre – que é a maior das explicações improváveis – é a explicação mais provável. Mas Craig afirma que Ehrman só diz isso porque confunde Pr(R|B & E) com Pr(R|B). A probabilidade do primeiro (probabilidade de Jesus ter ressuscitado dadas as evidências do evangelho) pode ser muito alta enquanto a do segundo (probabilidade de Jesus ter ressuscitado) pode ser muito baixa. Através de cálculos matemáticos, é possível provar que Pr(R|B & E) é praticamente igual a 1.

(5) Craig x Ehrman Parte 5: A primeira Refutação de Ehrman: Ehrman pergunta a Craig se ele analisou criticamente os documentos que usou em sua pesquisa e se, caso positivo, ele foi capaz de encontrar algum erro neles. E se ele não encontrou nenhum erro, como espera que acreditemos que ele está avaliando historicamente tais fontes? Por ser um adepto da inerrância bíblia, Craig deve pensar que os textos necessariamente são corretos.

(6) Craig x Ehrman Parte 6: A segunda Refutação dos debatedores: Craig também argumenta que um historiador não precisa ter acesso direto às entidades explicativas em suas hipóteses, a exemplo dos físicos contemporâneos e teorias como a das cordas. Ehrman tenta sustentar que: “Mesmo que nós queiramos acreditar na ressurreição de Jesus, esta crença seria uma crença teológica. Você não pode provar a ressurreição. Este evento não é suscetível à evidência histórica; é fé. Os crentes acreditam na ressurreição e o fazem pela fé; história não pode prová-la.”

A argumentação de Craig tem como base a confiabilidade das narrativas bíblicas e a inferência de que a melhor explicação para elas é a ressurreição. Sobre a confiabilidade dos evangelhos, Ehrman, bem como várias outras pessoas, já demonstraram que as inúmeras contradições desmoronam qualquer alegação neste sentido. Mas mesmo que fossem confiáveis, elas ainda assim não sustentariam a ressurreição. Por este motivo, foquei a segunda parte da análise no estudo de tal inferência.

Para começar, Craig usa um argumento matemático baseado no Teorema de Bayes para demonstrar que a probabilidade de Jesus ter ressuscitado dadas as evidências contidas nos evangelhos é praticamente 100% (veja a explicação completa na parte 4 do resumo do debate). Mas esse argumento é completamente falacioso. Na verdade, os três posts abaixo mostram que tal probabilidade independe da confiabilidade das narrativas bíblicas:

(1) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 1: O Erro Matemático Escandaloso de Craig
(2) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 7: A Cagada Calamitosa de Craig
(3) 

Uma outra série de postagens, composta basicamente pela tradução de um capítulo de livro escrito por Robert Price, mostra que mesmo que acreditemos piamente na Bíblia, podemos chegar à conclusão de que Jesus não ressuscitou. É perfeitamente plausível que os relatos sejam verdadeiros (na verdade sinceros) e que os evangelistas olharam para os fatos e acreditaram inocentemente que Jesus voltou dos mortos.

(1) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 1: Entrando no Jogo: E, no entanto, é o que eu vou fazer aqui. É simplesmente uma experiência de pensamento. Vou assumir como verdadeiro o caráter essencialmente histórico dos “eventos” que precederam a ressurreição. A única diferença é a seguinte: eu não acho que alguém tem que ir muito longe para chegar a uma explicação completamente natural para a suposta ressurreição. Tenha paciência comigo enquanto eu me aventuro na defesa da Teoria do Desmaio, da Teoria do Reenterro, da Teoria da Identidade Trocada, e da Teoria da Dissonância Cognitiva (“Transformação dos Discípulos”). 

(2) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 2: Jesus não morreu: O que sugere a Teoria do Desmaio? Logo acima eu a retratei como um produto de pressupostos Racionalistas: como uma explicação, é tudo o que restou a eles. Mas agora vou comprovar que há muito mais do que isso. Eu acho que os próprios textos sugerem isso, e na verdade sugerem com tanta força, que me parece que o modelo de Scheintod foi o ensinamento real dos Evangelhos, em algum estágio anterior. Desde então, tal ensinamento foi editado no curso da evolução da crença cristã.

(3) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 3: A Tumba Provisória: Ao ler o relato de Páscoa em João 20:11-15, eu não preciso impor algum tipo de ódio de Jesus ao ceticismo para que ele pudesse “escapar” das implicações do texto. Não, eu me vejo lendo o texto com reverência, valorizando sua atmosfera sobrenaturalmente refrescante nessa história maravilhosa e, de repente, sou surpreendido com Maria Madalena não encontrando ninguém no túmulo: Ó Deus! Haverá um fim para os horrores desse fim de semana? E agora?

(4) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 4: Os Sósias: Vamos dar aos apologistas o benefício da dúvida e agir como se essas histórias evangélicas da Páscoa fossem, como eles insistem, narrativas genuínas de encontros. Todo esse negócio de não reconhecimento, que nós jamais esperaríamos, inevitavelmente convida à suspeita de que os encontros de Páscoa eram realmente avistamentos de encontros com figuras só mais tarde identificadas como Jesus, e depois como um meio de escapar da tristeza e do desespero.

(5) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 4b: Mudanças de aparência: Agora me digam: o que é mais provável? Que pessoas tenham visto homens parecidos com Jesus e, dado o enorme burburinho de ressurreição, os tomaram pelo Cristo ressurreto e depois contornaram alegando que ele mudava de aparência ou será que Jesus ressuscitou e ficou trocando de forma física, sendo que já mostrei que tal mudança é teologicamente problemática? Como podem ver, não preciso supor nenhum milagre para explicar nada.

(6) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Conclusão: A Dissonância Cognitiva (ou: Não é preciso nenhum milagre aqui!): Eis o que acho dos discípulos de Jesus: eles tinham abandonado todos os trabalhos e atividades mundanas, até mesmo a família, a fim de juntar-se a Jesus e sentar-se à sua direita e à sua esquerda em sua glória que estava se aproximando. Agora ele é vergonhosamente morto, e só se pode imaginar as piadinhas que guardavam, por exemplo, para os dois discípulos assim que voltassem para a casa em Emaús. Talvez eles tenham programado de chegar em casa na calada da noite!

Além disso, forneço uma visão geral do debate com foco nas estratégias dos dois debatedores. Esses posts não somaram muito à questão da ressurreição, sendo mais interessante para aqueles que se interessam pela prática do debate em si. Destaque para a parte 5: “Por que Craig venceu o debate antes mesmo dele começar?”

(1) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 2: Uma visão geral do debate
(2) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 3: Estratégias dos debatedores
(3) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 4: Guarnecendo o Plano B
(4) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 5: Por que Craig venceu o debate antes mesmo dele começar?
(5) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 6: Craig, o Mr. C do Power Point

Por fim, uma discussão teológica da ressurreição de Jesus. Em um debate contra um rabino, Craig apanha feito criança ao não ser capaz de explicar diversos detalhes exigidos pelo judeu. Na verdade, a crença na ressurreição de Jesus, segundo os judeus, se parece com uma má interpretação histórica da vida desse homem comum. Além disso, adentrando na teologia de maneira mais profunda, vemos que a ressurreição de Jesus é um evento desprovido de significado real objetivo. Ambas objeções teológicas formaram a última série que fiz sobre o assunto:

(1) Teologia da Ressurreição de Jesus – Parte 1: A Trindade Cristã contradiz o Monoteísmo?: Ver Craig dizendo que o cristianismo está certo porque a Trindade é verdade não tem preço. Só faltou ele dizer que é porque é e pronto. E em saber que ele é ovacionado por certos grupos de cristãos… é, uma hora a máscara cai.

(2) Teologia da Ressurreição de Jesus – Parte 2: Afinal, qual a finalidade da morte de Jesus?: Aqui analiso as principais respostas para a pergunta: “Qual o propósito da morte de Jesus?”. Demonstro que mesmo dentro da teologia, isso não faz muito sentido. No máximo é algo que as pessoas usam para sentirem que existe alguém que se importa com elas.

A conclusão pode ser tirada por qualquer um que ler o material que disponibilizei aqui no blog. A crença na ressurreição de Jesus pode ser defendida racionalmente ou deve ficar apenas nos domínios da fé? Como mostrei, a crença na ressurreição é discutível não somente na história, mas também na teologia, sendo que isso a torna ainda mais distante de qualquer defesa racional. Além disso, adotar a segunda posição não é adotar um ponto de vista ateu, pois é algo compatível com o cristianismo. Talvez até mesmo o próprio Jesus preferisse a segunda opção caso ele tenha realmente ressuscitado.

Um ateu como eu não crê, evidentemente, na ressurreição de Jesus. Mas eu não tenho porque condenar aqueles que acreditam nisso porque se sentem de certa forma amparados: “Um homem deu sua vida por mim! Eu tenho algum valor e os deuses me amam e querem meu bem!” Eu já argumentei que isso não faz muito sentido, mas nem por isso tal pensamento é condenável. Condenável seria dizer algo como “Jesus ressuscitou, provando ser ele mesmo Deus, e eu como seu seguidor tenho a obrigação de fazer com que todas as pessoas acreditem nisso e sigam a sua palavra, custe o que custar.” Isso se chama ignorância, é perigoso para a sociedade e deve ser combatido. Todo mundo tem direito de evangelizar, mas ninguém tem o direito de impôr seu ponto de vista. É por isso que peço para que não acreditem em difamadores da fé como Craig, que querem tirar da religião aquilo que ela sabe fazer de melhor e transformá-la, mesmo que de maneira inocente, em um instrumento político e de alienação intelectual.

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Teologia da Ressurreição de Jesus – Parte 2: Afinal, qual a finalidade da morte de Jesus?

Por que Jesus morreu e ressuscitou?

Várias respostas já foram dadas a essa pergunta e hoje vou tentar explicar porque todas que conheço ou que posso imaginar falham de alguma forma. Faço isso partindo principalmente do ponto de vista teológico (não desejo analisar respostas como “Jesus morreu porque foi crucificado”… meu foco é no intuito do evento e não em suas causas, rs), então vou procurar saber se as respostas dadas pelos seguidores do cristianismo fazem sentido dentro das próprias doutrinas.

E estou ciente de que algumas pessoas preferem algumas respostas a outras, ou mesmo que rejeitem algumas delas. Eu sei disso, mas isso é irrelevante aqui, então não precisa dizer. O que eu farei será analisar as respostas mais comuns, o que não pressupõe que todos os cristãos concordem com todas as respostas, ok?

Resposta 1: Jesus morreu para expiar nossos pecados. O grande problema dessa resposta é: qual a relação causal entre “Jesus morrer” e “pecados da humanidade serem expiados”? A verdade é que não existe relação de causalidade nenhuma, ou seja, não tem como extrair logicamente uma expiação dos pecados da morte do filho de Deus assim como se extrai “meu lápis caiu no chão” de “eu larguei meu lápis”. Em outras palavras, o que estou argumentando aqui é que Jesus não precisa morrer para expiar nossos pecados assim como eu preciso largar um lápis para ele cair no chão; os pecados poderiam ser expiados de inúmeras formas diferentes sem recorrer a um sacrifício. Vejamos uma analogia: alguém poderia alegar que a causa da expiação dos pecados fosse um raio de luz cósmica saindo da boca Jesus enquanto ele levitava a 20 metros do solo enquanto uma chuva de meteoros verdes ocorria ao seu redor. Ou que um mero soluço dele serviria como expiação. No que a morte dele difere desses eventos como agente de expiação de pecados?

Mas talvez essa resposta ficasse melhor se colocada de outras maneiras, já que esta aqui está muito simples para resolver o caso.

Resposta 2: Jesus morreu porque perder a vida é a pior coisa que pode acontecer a alguém, sendo assim o ato perfeito para simbolizar a expiação dos pecados. Uma resposta um pouco mais sofisticada que precisa recorrer à teologia para ser analisada. Um dos grandes problemas aqui é que Jesus, sendo ele mesmo parte da Santíssima Trindade, possui vida eterna. A palavra morte, para ele, nada mais é do que a perda do corpo físico. Ora, perder o corpo físico não é nem de longe a pior coisa que poderia acontecer a ele. Sequer poder ser considerado algo ruim propriamente dito, se parecendo mais com um contratempo do que com um incidente altamente indesejável. Afinal, o que é a perda do corpo físico para um ser supostamente perfeito e pleno?

Além disso, Jesus ressuscitou depois! Ele recuperou seu corpo físico três dias depois! Isso anula qualquer mal sofrido em nome de uma expiação. Vejam bem: imaginem que sua mãe, vendo que um ladrão estava prestes a atirar em você, resolve pular na sua frente e ser atingida fatalmente em seu lugar. Um gesto comovente, com certeza. Mas isso considerando que a morte dela seja um evento irreversível. Imagine que sua mãe soubesse que ela simplesmente retornaria depois de três dias morta (enquanto que você não tivesse tal poder)? De grandioso ato de amor por um filho, a atitude dela passaria a não ser nada além de uma obrigação. Passar três dias morta para evitar a morte definitiva de um filho está a anos-luz de poder ser chamado de sacrifício. Passar três dias morto, se fosse possível, seria como passar três dias em coma: não é algo agradável, mas também longe de ser algo terrível. E se Jesus não sabia que reviveria após três dias, ele ainda sabia que era uma situação contornável por ser ele mesmo Deus Filho. Esse meu contra-argumento só pode ser evitado dizendo que Jesus não sabia que tinha poderes divinos, mas os milagres realizados por ele e o terceiro capítulo do evangelho de João (João 3) evaporam essa possibilidade.

Uma outra objeção é que qualquer um poderia ter morrido ali no lugar dele. Por que tem que ser o Jesus, o Filho de Deus em pessoa? Se tudo que precisava é que alguém morresse, poderia ser outra pessoa. Se eu morresse numa cruz, isso poderia funcionar como expiação para os pecados da humanidade?

Isso sem contar que se meus pecados estão expiados, então eu não posso ser punido mais por eles. Ora, pecado expiado é pecado expiado, não posso ser punido por uma transgressão expiada! Assim, duvido que um cristão conservador aceitaria uma resposta como essa.

Em suma, não tem como dizer que a pior coisa que poderia acontecer a um ser infinito e ciente disso é perder seu corpo físico temporariamente e pelo tempo que ele desejar, sendo que qualquer pessoa poderia ter sido sacrificada em seu lugar e de modo que ninguém mais pudesse ser punido por pecado algum que cometesse. Pensando bem, não tem como dizer que isso é um sacrifício terrível capaz de expiar nossos pecados.

Resposta 3: Jesus morreu e ressuscitou para dar a salvação a todo aquele que nisso acreditasse. Em primeiro lugar, isso também carece de relação causal. Considerarei então, para não ficar fácil de mais, que isso simbolizava o início do novo paradigma de salvação e não que isso era a causa propriamente dita de seu início (o que não chega a melhorar consideravelmente a resposta, já que virtualmente qualquer ação realizada por ele poderia simbolizar isso.) Vamos então para as objeções teológicas. A primeira delas é a já conhecida constatação de que só faz sentido Deus mudar o paradigma de salvação se ele achava que o original era ruim, mas dizer isso é o equivalente a dizer que Deus errou. Mas oras, Deus é um ser perfeito, ele jamais poderia errar! Alguém poderia dizer que Deus não estava mudando o paradigma, mas criando um. Mas isto não resolve absolutamente nada. Então quer dizer que grandes homens como o Rei Salomão, o Rei Davi, Moisés e Abraão não foram para o céu? Para onde eles foram então, se antes não havia critério para salvação? Dizer que foram salvos mostra que Deus errou e dizer que não foram salvos não explica para onde foram. Não tem escapatória para essa resposta fraca.

A segunda objeção é que isto torna praticamente inútil a moralidade. Ora, se acreditar em Jesus é o critério, que diferença faz seguir as leis (divinas ou humanas, tanto faz)? No fim, isso acaba não dando motivos para as pessoas serem boas, uma acusação que frequentemente é feita contra o ateísmo. Pode-se remendar dizendo que seguir os mandamentos de Deus e se arrepender das transgressões antes de morrer (tendo sorte de não morrer enquanto dirige o carro até a Igreja para se confessar) também conte como critério. Bem, neste caso a morte de Jesus serviria não para facilitar a salvação, mas para dificultar ainda mais. Não basta ser bom, como bastava antes (parto do princípio de que já havia um critério anterior), também tem que acreditar na morte e na ressurreição. Teologicamente, não faz sentido um Deus que fica dificultando a salvação com o passar do tempo!

A terceira objeção é que isso exclui pessoas que por motivos culturais acreditam em outras religiões. Um muçulmano egípcio, por exemplo, o que no mundo poderia ser forte o suficiente para fazê-lo acreditar que Jesus morreu e ressuscitou por ele? Simplesmente nada! E ele não tem culpa disso, ele foi criado pelos pais e moldado pela sociedade para ser assim. Este homem está fadado a ir para o inferno e sofrer punições eternas só porque deu azar de nascer na família errada? Se Jesus passou pelo que passou para que quem cresse nisso se salvasse, então ele não pensou nas pessoas que não teriam culpa de não acreditar nisso, mesmo aquelas que rejeitassem conscientemente. Será que era isso mesmo que um ser perfeito e todo benevolente deseja?

A quarta objeção é de novo que a morte de qualquer pessoa poderia, teoricamente, ter feito o mesmo efeito. Por que tem que ser a morte de Jesus?

Em suma, Jesus teria morrido e ressuscitado para que aquele que nisso acreditasse fosse salvo porque a lei anterior não era boa, mas ao fazer isso ele excluiu aqueles que por motivos culturais jamais o aceitarem e ou só dificultou a salvação ou prescindiu a realização de atos morais, sendo que ao invés de morrer, bastaria ele estalar os dedos como símbolo da nova lei, e sendo que não precisaria nem ser ele a pessoa que fez isso. Uau, faz todo sentido!

Resposta 4: Jesus queria mostrar à humanidade que não se poderia levar a lei mosaica tão a sério. Esta é uma versão bem mais robusta da resposta anterior. Naquela época, as pessoas infringiam a lei que proibia matar o próximo para punir aqueles que infringiam a lei que proibia roubar os outros. Jesus veio para nos mandar amar e dar a outra face ao invés de ficarmos no olho por olho. Mas… no que exatamente ser morto e ressuscitar ajuda ele nessa tarefa? Ele não morreu por causa do ódio provocado pela atitude que queria combater, mas morreu por razões antes de mais nada políticas. Se fosse o primeiro caso, a sua morte poderia soar como uma lição: “Vocês ficam matando os pecadores e acabaram matando o próprio filho de Deus. Estão vendo como essa atitude acaba punindo quem não merece? Então deixem que EU julgo as pessoas, isso não é tarefa para vocês.” Mas as circunstâncias da morte de Jesus não deixam que ela seja interpretada dessa forma. Suas palavras e atitudes em vida podem ser interpretadas assim, mas sua morte definitivamente não.

Resposta 5: Foi um ato de amor pela humanidade. Essa resposta chega a soar como uma piada. No que permitir que seja morto em uma cruz se parece com um ato de amor? Eu não gostaria que uma garota que se diz apaixonada por mim permitisse que fosse crucificada para provar seu amor por mim (e acredito que toda pessoa normal concorde comigo), já que essa atitude seria mais macabra do que qualquer outra coisa.

Resposta 6: Jesus morreu para que paremos de pecar. Outra piada. Se fosse este o caso, a morte dele teria sido completamente em vão, já que continuamos pecando normalmente. Mesmo que se possa dizer que ela teve algum efeito, o que é melhor do que nenhum (e me pergunto como que a morte de alguém que ressuscitou três dias depois pode levar alguém a não pecar – no máximo a racionalizar melhor seus pecados), eu poderia argumentar que existem formas muito melhores de se fazer isso. O esclarecimento, a razão a serviço da moralidade e a educação em massa teriam sido bem mais úteis. Mas Jesus era um homem pobre e comum de seu tempo e não sabia o que era educação e nem moral e ética, então não teria como ele nos ensinar a agirmos moralmente dessa forma. E se ele era um ser sobrenatural onisciente, por que ele morreu e ressuscitou ao invés de ensinar isso?

Resposta 7: Para trazer vida a todos nós. Como podem ver, deixei as piores respostas por último. Tipo… como assim? Será que as pessoas que viveram antes de Jesus não estavam realmente vivas? E se vida está no sentido figurativo, representando a alegria e a plenitude da vida, eu me pergunto: que tipo de psicopatas os teólogos são para achar que as pessoas vão ter uma vida plena ao saber que alguém morreu por elas? Muitas pessoas mais simples podem até se sentir bem ao pensar que alguém já se importou com elas, respeito isso, mas não seria melhor se os próprios teólogos realmente se importassem com essas pessoas, se dedicassem a fazer a vida de todo mundo ser mais significativa, ao invés de ficar inventando uma história maluca de um cara que não precisava morrer mas que mesmo assim ficou morto três dias por causa de alguém que ele jamais conheceu? Se à primeira vista parece algo reconfortante, no fundo isso não passa de uma pieguice (incrível como pieguices conseguem convencer pela emoção.)

Resposta 8: Jesus morreu para pagar por nossos pecados. Para começar, punir uma pessoa pelos erros de outras é uma injustiça. Mesmo que a pessoa concorde com isso, é injusto na medida em que ação é completamente sem sentido do ponto de vista moral. Um pecado (ou crime) só pode ser pago por seu verdadeiro responsável. Essa resposta vai contra a ideia de que cada pessoa é responsável por seus atos.

Além disso, essa resposta sofre de todos aqueles problemas que já mencionei: 1) qual a relação entre a morte de uma única pessoa e o pagamento pelos milhares de crimes de bilhões de pessoas? 2) por que a morte tem que ser de Jesus? 3) o fato dele saber que perder o corpo físico era um evento contornável para ele não torna o seu ato nulo de significado?

Pensemos bem: se eu merecesse uma chibatada por cada pecado que “cometi” nessa vida, duvido que Jesus toparia levá-las em meu lugar. Não porque doeria demais, mas porque ele saberia que eu não aprenderia nada com isso. E ele também não iria querer levar as chibatadas de toda a humanidade, pois isso levaria à destruição de seu corpo físico. Então, ao invés de fazer isso tudo, ele é pregado numa cruz por algumas horas, morre e volta três dias depois e todos os pecados estão expiados?

Sem contar que um argumento como esse também faria qualquer cristão conservador ter arrepios, pois se Jesus morreu para pagar por nossos pecados, não precisamos mais ser punidos por eles. Se pensarmos que roubar e matar são tão pecado quanto crime, como justificar a prisão para quem comete tais delitos numa óptica cristã de Jesus morrendo para pagar pelos pecados? E se devo pagar pelos meus pecados, então a morte de Jesus foi em vão.

Enfim, os argumentos contra cada resposta estão muito bem apresentados (temo que alguns idiotas dirão que não viram nenhum argumento aqui, mas paciência…) Cabe a cada um um refletir sobre o que está aqui ou apresentar argumentos melhores. Mas duvido muito que alguém possa defender que a morte e a ressurreição de Jesus possui propósitos claros e racionalmente defensáveis. É uma questão de fé que prescinde a razão sem a ferir, nada mais e nada menos. Não existem explicações racionais e as pessoas devem entender isso. Sinceramente, até a explicação do Cyanide and Happiness de que Jesus morreu para que pudesse fazer uma piada faz mais sentido do que qualquer explicação dada aqui.

Jesus e os Mitologistas

Bart Ehrman lançou em 2012 o livro “Did Jesus Exist?” (Jesus Existiu?), no qual defende que Jesus existiu, mas que não passou de homem normal ao qual foram atribuídos poderes divinos e que teve sua ideias superestimadas ao longo dos dois últimos milênios. Um dos pontos que mais chamam atenção neste livro, e em declarações recentes, é que Ehrman ataca vigorosamente as pessoas que se declaram mitologistas (a melhor tradução que encontrei para mythicists), pessoas que alegam que Jesus nunca foi nada além de um mito e que não existiu sequer como humano comum.

Essa ideia pode ser um pouco chocante para muitos ateus, pois a princípio parece validar de certa forma o cristianismo. Mas se paramos para pensar bem, veremos que a existência real de Jesus como um humano comum e sem nenhuma conexão com o Deus Criador é um fato totalmente irrelevante quando formos avaliar a credibilidade do cristianismo. Tal religião não é simplesmente a crença nas palavras de Jesus, mas também a crença de que ele é o Messias Salvador que os profetas do Antigo Testamento anunciavam.

Segundo Ehrman, muitos ateus, em sua ânsia de tentar desconstruir e difamar o cristianismo a qualquer custo, acabam achando que o caminho mais fácil é argumentar que Jesus nunca sequer existiu. Isso com certeza facilitaria muito a vida deles, se fosse verdade. Mas Ehrman é enfático ao dizer que não é.

O sexto capítulo desse livro é chamado “The Mythicist Case: Weak and Irrelevant Claims” (O caso Mitologista: Alegações Fracas e Irrelevantes) e nele Ehrman apresenta e refuta os principais argumentos apresentados pelos mitologistas. Apesar do padrão aqui do blog é trazer traduções dos textos, dessa vez me restringirei a trazer um resumo em português. Faço isso antes de mais nada porque é um capítulo razoavelmente grande (14.500 palavras) e eu definitivamente não tenho tanto tempo sobrando. Eu teria que sacrificar projetos que julgo mais importantes. Além disso, muitos ateus (quase todos?) se julgam mais abertos aos fatos do que os cristãos. Bem, se é assim acredito que não preciso ter os mesmos cuidados que dispenso nos textos dirigidos aos cristãos nos textos que dirijo aos ateus, correto? Presumo que posso me dar ao luxo de ser mais sucinto e menos enfático.

Não que eu esteja dizendo que todo mundo deve ler e aceitar tudo que é dito sobre Jesus (ou sobre qualquer um), longe disso. Só espero que esse resumo não seja subestimado por ser pequeno e indigesto. De toda forma, estou disponibilizando neste link um pdf com o texto original do capítulo para quem quiser se aprofundar no tema. Ainda essa semana publico uma continuação desse texto, no qual Ehrman defende que o mitologismo, além de ser historicamente insustentável, é incompatível e até mesmo nocivo ao humanismo, e que qualquer mitologista que possua uma agenda humanista secular já começou completamente errado.

Mas por hora, foquemos apenas na argumentação histórica.

Sobre argumentos irrelevantes

A primeira coisa que devemos ter em mente é que certos argumentos são totalmente irrelevantes na defesa das ideias que desejam sustentar. Por exemplo, muitos cristãos alegam que podemos confiar no Novo Testamento porque ele é mais bem atestado do que o Antigo Testamento, o que de fato é verdade. Por melhor atestado, refiro me à legitimidade da autoria e da fidelidade das cópias. Mas se esse argumento fizesse o mínimo de sentido, teríamos que admitir que livros como Das Kapital de Karl Marx e Mein Kampf de Adolf Hitler são livros com conteúdo extremamente confiável e digno de ser levado a sério, já que são incomparavelmente melhor atestados do que qualquer livro da Bíblia. Temos certeza que ambos foram escritos pelas pessoas que estão em suas respectivas capas e que não foram adulterados. Mas é evidente que isso seria uma completa fraude intelectual, bem como o argumento cristão apresentado.

Contudo, Ehrman avisa que os argumentos dos mitologistas não são melhores do que esse apresentado.

Alegação 1: Os Evangelhos são Muito Problemáticos como Fontes Históricas

Assim como é verdade que o Novo Testamento é melhor atestado do que o Antigo, mas que isso não conta muito pontos para a sua credibilidade em si, também é verdade que os evangelhos são escritos bastante problemáticos, mas que isso não chega a ser um problema muito grande ao se discutir a existência de Jesus. Autorias contestadas, trechos ausentes, “falhas” na tradução, contradições, narrativas de eventos históricos que jamais ocorreram… tudo isso está lá, mas é irrelevante. Vejamos os principais deles.

a) Nós não possuímos os textos originais dos evangelhos. Apesar dos evangelhos serem uns dos escritos melhor atestados do mundo antigo, eles possuem diversas falhas. Nós não temos os escritos originais dos evangelhos, assim como os de nenhum dos livros do Novo Testamento. Em geral, as cópias disponíveis hoje foram feitas 1.00o anos depois das cópias originais e todas elas possuem erros claros.

Contudo, o que isso nos diz sobre a real existência de Jesus? Se alguns fatos foram acrescentados posteriormente durante os processos de cópias, Jesus não deixaria de existir. Vejamos o caso de Obama. Suponhamos que sua certidão de nascimento realmente tenha sido adulterada, como seus opositores alegam. Isso significa que Obama não nasceu? A adulteração de um registro não altera a factualidade daquilo que não foi adulterado.

Os trechos perdidos e as passagens com erros claros que poderiam ser sanadas caso dispuséssemos do original também não representam um argumento relevante pelos mesmos motivos. (Ver mais em Ehrman, Misquoting Jesus: The Story Behind Who Changed the Bible and Why, San Francisco: Harper San Francisco, 2005).

b) Nós não conhecemos os autores dos evangelhos. De fato não conhecemos. Dos 27 livros do Antigo Testamento, apenas 8 foram escritos pelas pessoas às quais atribuimos a autoria. Os próprios evangelhos não foram escritos pelos discípulos Mateus e João e pelos amigos dos discípulos Marcos e Lucas, mas por pessoas que viveram bem depois. (Ver Bart Ehrman, Forged: Writing in the Name of God: Why the Bible’s Authors Are Not Who We Think They Are [Forjado: Escrevendo em Nome de Deus: Porque os autores da Bíblia não são quem pensamos que seja], San Francisco: HarperOne, 2010). Os seguidores de Jesus eram indivíduos da baixa-classe rural da Galileia, que falavam aramaico e que provavelmente eram analfabetos. Quem quer que tenha escrito os evangelhos eram intelectuais bem educados que falavam o grego e que provavelmente eram de fora da Palestina. Marcos, Mateus, Lucas e João jamais poderiam ter escrito os evangelhos.

Mais uma vez, isso é irrelevante na questão da existência ou não de Jesus. Quando os Diários de Hitler vieram a público em 1983,r ninguém imaginava que eles eram forjados, mas eles de fato foram escritos por um homem chamado Konrad Kujau. Mas isso não quer dizer que Hitler não existiu. Uma argumentação mais detalhada de como isso não interfere em nada é encontrada nos capítulos anteriores do livro. A verdade é que pode-se assumir como históricos os materiais em circulação antes dos evangelhos foram escritos e que serviram como fontes para as narrativas.

c) Os Evangelhos estão repletos de discrepâncias e contradições. Parece repetitivo, mas Ehrman concorda plenamente com isso também. O autor fornece uma lista de pequenas contradições e lembra de uma que é bastante importante: por que apenas João relata que Jesus se declarou como Deus? Será que os outros autores não acharam importante uma alegação como essa? Isso não faz sentido, pois tal alegação seria definitivamente um dos fatos mais importantes a se relatar sobre Jesus. Mais contradições podem ser vistas em Bart Ehrman, Jesus, Interrupted, chap. 2. Mas essas contradições são um obstáculos apenas para aqueles que desejam saber o que Jesus realmente falou e fez, sendo absolutamente irrelevante na discussão sobre sua existência.

d) Os evangelhos contém materiais não históricos. Narrativas como aquela em Lucas que dizem que João e Maria viajaram para realizar um censo ordenado por Augusto César são patentemente falsas. Tal censo jamais existiu. (Ver mais em Ehrman, Jesus, Interrupted, 29–39.) A histórias de Barrabás também parece ser falsa, e eu ainda acrescentaria a morte de todos primogênitos da região ordenada por Herodes como narrado em Mateus 2. Porém, mais uma vez é precipitado afirmar que se alguns detalhes da história de Jesus são falsos, então todos também são. É um salto lógico injustificável. Existem muitos mitos sobre a vida de George Washington, mas ninguém acha que tudo que é dito sobre ele também seja mito – até mesmo a sua existência.

e) Todos os Evangelhos estão repletos de lendas. A partir de agora, serei um pouco mais sucinto. Neste ponto, Ehrman trata diretamente de duas obras de Robert Price: The Christ-Myth Theory and Its Problems (Cranford, NJ: American Atheist Press, 2011) e The Incredible Shrinking Son of Man (Amherst, NY: Prometheus Books, 2003). Não desejo aqui fazer uma argumentação completa, mas simplesmente expor os principais pontos de Ehrman, uma tarefa que fica mais difícil em trechos mais “técnicos” como este.

Em primeiro lugar, é preciso saber o que é o Critério de Dissimilaridade. Em história, tal critério é usado para separar narrativas mais confiáveis das que provavelmente foram acrescentadas posteriormente por terceiros. Para isso, compara-se os propósitos aparentes das narrativas com a “agenda” do povo da época, ou seja, com seus desejos e expectativas. Ehrman alega que Price faz mal uso desse critério ao dizer que se algo não passa por ele então é falso. Certas passagens evangélicas são provavelmente invenções posteriores realizadas por terceiros para cumprir uma série de objetivos próprios, o que coloca a autenticidade da passagem em dúvida, mas que também não determina que são necessariamente falsas. O Critério da Dissimilaridade é um argumento probabilístico, mas Price o utilizou de forma falaciosamente dedutiva.

Além disso, não se pode esperar que hajam histórias sendo contadas sem nenhum viés e sem nenhum tipo de acréscimo de seu autor. Todas histórias que contamos sobre outras pessoas possuem um pouco de lenda. Algumas histórias são completamente legendárias, sem nenhum núcleo histórico, mas outras são meramente alterações de um núcleo histórico. Portanto, o mero fato de ser legendário não implica necessariamente em ser historicamente falso. E caso exista um núcleo histórico, ele pode ser alcançado, mesmo depois de ser alterado com lendas e com vieses pessoais.

Alegação 2: Nazaré não existiu

Essa alegação poderia ser derrubada com os mesmos argumentos usados quando Ehrman falou sobre as alegações anteriores, mas como esta alegação em específico é mais comum, ele achou melhor aprofundar um pouco mais. Ehrman apresenta a argumentação de Frank Zindler como exemplo (ver Frank Zindler, “Where Jesus Never Walked,” Through Atheist Eyes, vol. 1, Cranford, NJ: American Atheist Press, 2011, 27–55.) Segundo Zindler, Marcos nunca disse que Jesus veio de Nazaré. Ué, mas e a passagem Marcos 1:9? Zindler afirma que foi inserida posteriormente. Agora é fácil se livrar de passagens indesejáveis na Bíblia, basta dizer que foram inseridas por alguém depois! Isso é história sendo feita por conveniência. Além disso, seu argumento de que essa passagem é gramaticalmente diferente de passagens que citam locais (e que portanto foram feitas por outras pessoas) falha, já que Marcos usa tal construção em outros pontos.

Outro argumento de Zindler é que Nazaré provavelmente foi um erro de tradução. Em Isaías 11:1, é profetizado que o Messias seria do ramo de Davi. Bem, ramo é escrito NZR em hebreu. Zindler alega que os tradutores não sabiam o que era isso e acharam que significava Nazareth, e que era a cidade de onde Jesus veio. Para começar, isso é um salto e tanto. Segundo, eles poderiam ter pesquisado um pouco mais e esclarecido a questão facilmente, ao invés de dar um chute e ter achado que era uma cidade mesmo. Terceiro, está escrito que Jesus É um ramo, e não que ele VEIO de um ramo. Essa alegação de Zindler, além de não ter sido provada, é bastante forçada.

O autor George Wells possui alegações igualmente problemáticas. (Ver George A. Wells, Did Jesus Exist?, 2nd ed., Amherst, NY: Prometheus Books, 1986, p. 146.) Ele alega que Marcos fez confusão quando relatou que chamavam Jesus de Nazareno. Ser Nazareno significava ser pertencente a uma seita de judeus, não que era nascido em uma cidade chamada Nazaré (como Wells alega que Marcos achou). Mais uma vez, existe um grande salto lógico, sem contar que Marcos não iria, sem mais nem menos, pressupor que o termo Nazareno se refere a uma cidade que ele não conhece. Além disso, uma pessoa que conhecia as escrituras antigas saberia que a seita era a dos Nazireus e não faria confusão com uma cidade chamada Nazaré.

Outro mitologista criticado por Ehrman é René Salm (ver René Salm, The Myth of Nazareth, Cranford, NJ: American Atheist Press, 2008). Salm usa descobertas arqueológicas para afirmar que Nazaré tinha existido antes dos tempos de Jesus, mas foi abandonada e só voltou a existir depois de Jesus, nunca existindo, assim, durante a época dele. Para suportar essa alegação, Salm usa achados arqueológicos na região onde teria sido Nazaré datados depois da época de Jesus. Ehrman argumenta que isso não quer dizer que na época de Jesus propriamente dita, a cidade estava abandonada. Salm também argumenta que tumbas em pedra não foram achadas na região, contudo essas tumbas são muito caras e só costumam ser achadas em regiões bastante prósperas economicamente. Ehrman também lembra que Salm não é especializado em arqueologia o bastante para argumentar com base em achados arqueológicos e depois apresenta uma série de outros erros no livro de Salm. O historiador por fim fala sobre um review feito por Ken Dark, um arqueologista especializado na Galileia e diretor do Projeto Arquológico de Nazaré, que acredita que Salm cometeu diversos tipos de erros em sua tese e que não está qualificado para falar sobre o assunto. (Ken Dark, “Review of Salm, Myth of Nazareth,” publicado em Bulletin of the Anglo-Israel Archaeological Society 26, 2008.)

Para terminar, Ehrman salienta que um ano depois que o livro de Salm foi publicado, foi encontrada uma casa na região que data os tempos de Jesus. A melhor maneira de explicar os relatos evangélicos e as descobertas arqueológicas, de fato, é tomando como real a existência da cidade de Nazaré no lugar exato onde os evangelistas dizem que ficava. E mesmo que não existisse tal cidade, isso seria de pouca utilidade contra a existência de Jesus como um homem comum.

Alegação 3: Os Evangelhos São Paráfrases Interpretativas do Antigo Testamento

Esta não é uma alegação muito famosa, talvez por ser difícil de entender. Sendo assim, não vou me aprofundar muito aqui.

a) Robert Price e o Haggadic Midrash. Robert Price alegou recentemente que: “a narrativa evangélica como um todo é o produto de haggadic Midrash sobre o Antigo Testamento.” (ver Robert Price, Christ-Myth Theory, 34) Na tradição judaica, a reinterpretação de um texto através da paráfrase, expansão e reaplicação é chamada de Midrash, e se o texto é uma narrativa, essa Midrash é do tipo haggadic (textos jurídicos geram Midrash do tipo halakhic).

Para não contrariar a tradição, a primeira coisa que Ehrman argumenta é que apesar dos erros desse ponto de vista, o maior defeito dele é pressupor que a existência de uma parte falsa implica na inexistência de um núcleo histórico.

Por exemplo, é sabido que Mateus tenta forçar a barra para que a história de Jesus seja a mais parecida possível com a de Moisés, promovendo numerosos paralelos com o livro de Êxodo. Os motivos para isso são, antes de mais nada, teológicos: Mateus queria que Jesus fosse o Novo Moisés. Mas isso não implica que Jesus seja realmente uma total invenção. Seria fácil, por exemplo, forçar a barra para contar a história de Richard Nixon em termos de uma tragédia de Shakespeare, simplesmente ressaltando as semelhanças e deformando ou escondendo as diferenças. Se alguém fizesse isso, o Watergate e o próprio Nixon não deixariam de existir como num passe de mágica.

É fato que existem similaridades como essa em todo evangelho, pelos mesmos motivos. Mas daí até dizer que todo o evangelho não passa de midrash é um grande exagero. Isso não explica diversas passagens que não encontram paralelos (e em algumas dessas passagens, Ehrman mostra como Price forçou a barra para criá-los.) Price fez bem em ver que certas passagens são midrash, mas erra em achar que virtualmente qualquer passagem que tenha a mais ligeira ligação com o Antigo Testamento seja midrash.

b) Thomas Thompson e o Mito do Messias. Esse autor tem um argumento similar ao de Price: ele alega que se as principais figuras do Antigo Testamento como Moisés, Davi e Abraão são legendárias, então Jesus também é (ver Thomas L. Thompson, The Messiah Myth: The Near Eastern Roots of Jesus and David, New York: Basic Books, 2005.) O argumento principal de Thompson não é tão ingênuo quanto parece. Ele mostra como as narrativas evangélicas são escrituras intrinsecamente literárias, e que por isso lê-las como documentos históricos vai contra a própria vontade de seus autores. Sim, os evangelhos são textos literários, o que é irrelevante, pois não significa (pela milésima vez) que não possuem nada de histórico. Ehrman cita um exemplo que vou adaptar aqui à realidade brasileira: vejam o excelente livro 1808: Como uma Rainha Louca, um Príncipe Medroso e uma Corte Corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil, de Laurentino Gomes. Trata-se, antes de mais nada, de um livro literário, o que não quer dizer que não seja histórico. Evidentemente, Ehrman explica isso muito melhor, mas como esse argumento é complexo e pouco famoso, deixo para os mais curiosos procurarem saber mais.

Alegação 4: Jesus é Baseado em Deuses Pagãos

Essa alegação é praticamente a mesma da anterior, com a diferença de que aqui Jesus é baseado não nas tradições do AT, mas em outras tradições “concorrentes“. Por esse motivo, tais alegações sofrem com os mesmos problemas já apresentados na alegação 3. A diferença é que este argumento é bem mais famoso.

a) A Alegação e sua Exposição. Existem diversas semelhanças entre os evangelhos e histórias de outros deuses pagãos, mas os mitologistas enfatizam demais nessas semelhanças, sendo que alguns as exageram e outros ignoram as diferenças.

O primeiro exemplo é Kersey Graves, que em 1875 alegou que existiam 45 deuses cujas histórias foram usadas como base para a construção de Jesus. (ver Kersey Graves, The World’s Sixteen Crucified Saviors: Christianity Before Christ, 1875; repr., New York: Cosimo Classics, 2007) O problema é que alguns dos deuses dessa lista são ilustres como Buddha que, convenhamos, não tem nada a ver com Jesus. Além disso, a maioria de seus argumentos apelam para exageros claros. Se existem algumas semelhanças, ele diz que existem várias. Se algum evento importante na história de Jesus possui um paralelo, então quase todo evento importante encontra paralelo. E pior de tudo, Graves não dá sequer uma fonte para checar as alegações dele, de modo que é impossível checar se é verdade que certas divindades realmente compartilhavam eventos biográficos com o nazareno.

Ehrman se mostra impressionado com o fato de que 140 anos depois de Graves publicar tal livro, ainda exista quem seja influenciado por ele. Um exemplo é Frank Zindler, quem em artigo de 2011 falou sobre o fato do cristianismo ter origem em um culto pagão misterioso baseado no Mitraísmo, mas sem oferecer sequer uma evidência (ver Frank Zindler, “How Jesus Got a Life,” em Through Atheist Eyes: Scenes from a World That Won’t Reason, Cranford, NJ: American Atheist Press, 2011, 1:57–80.) Ehrman argumenta que ainda hoje, não se sabe praticamente nada sobre o Mitraísmo, sobre quais eram suas crenças, e que por isso é difícil dizer quais eram suas práticas e seus feitos – especialmente dizer que eles inventaram Jesus.

b) Outros Problemas com os Paralelos. Vejamos os paralelos entre a Virgem Maria e as histórias pagãs de deuses que tiveram filhos com humanas. Nas histórias pagãs, quase sempre a concepção envolve sexo entre a divindade e a humana, gerando um filho metade deus metade humano. A história de Jesus não envolve sexo e Jesus é o próprio Deus em sua forma de Filho. Não é exatamente a mesma coisa.

Outros paralelos são ainda mais problemáticos. Por exemplo, um deus morrendo para expiar os pecados do mundo é algo completamente novo introduzido pelo cristianismo e que não “aconteceu” em nenhuma mitologia pagã. Qualquer alegação neste sentido é pura invenção de mitologistas. Não que Jesus de fato tenha morrido e assim expiado os pecados do mundo, mas essa história também não foi tirada de outra mitologia. Na verdade, quando os judeus foram contar as histórias sobre Jesus, eles o fizeram tomando como base as histórias e profecias do Antigo Testamento e não de outras mitologias. E se não é relevante que as histórias foram moldadas segundo o AT, o fato de serem moldadas segundo outras mitologias seria igualmente irrelevante.

Conclusão

O capítulo seis do livro “Jesus Existiu?” de Bart Ehrman (ainda sem tradução para o português) trata das principais, e piores, alegações dos mitologistas em defesa de tese de que Jesus eram completamente mitológico. Algumas das respostas de Ehrman chegam a ser massantes de tão repetitivas, já que a grande maioria das alegações mitologistas são irrelevantes: Jesus pode muito bem ter existido e os detalhes duvidosos serem acréscimos à sua história. Muitos podem pensar que falta um caso positivo pela existência de Jesus, mas isso não é feito nesse capítulo, mas nos capítulos anteriores.

De qualquer forma, espero ter deixado claro que a alegação de que Jesus não existiu sequer como ser humano comum é bastante duvidosa. No próximo post, irei mostrar o quanto é irrelevante se ele existiu mesmo ou não (o importante é que ele não realizou milagres, não era filho de nenhum deus, não ressuscitou etc) e o quanto é contraprodutivo pensar assim.

Bart Ehrman e a Época

A seguir dois textos publicados pela Revista Época de autoria de Bart Ehrman. O primeiro é uma entrevista dada em 2009 para divulgação de seu livro Jesus, Interrupted, na qual ele fala brevemente sobre o livro, sua trajetória e sobre seus objetivos pessoais como autor de livros. Em seguida, um texto sob encomenda para a Revista falando sobre aspectos gerais do Jesus histórico.

Vale lembrar que Bart Ehrman é um agnóstico, apesar de rejeitar a crença no cristianismo. Ele já escreveu diversos livros e já debateu com Willian Lane Craig sobre a Historicidade da Ressurreição de Jesus.

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Título Original: “A Bíblia não tem inspiração divina”
Autor: José Antonio Lima
Publicado Originalmente em: Revista Época (10/05/2009)
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“A Bíblia não tem inspiração divina”

Em entrevista a ÉPOCA, Bart Ehrman, professor de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte, fala sobre seu novo livro, no qual debate as contradições dos evangelhos.

Ehrman afirma que apenas oito dos 27 livros no Novo Testamento foram escritos pelos autores aos quais são atribuídos.
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O americano Bart Ehrman cresceu em uma família religiosa e, quando adolescente, havia se tornado um evangélico fervoroso. O interesse pela Bíblia e por sua história o acompanhou a vida toda e hoje, após 35 anos de estudo, diz ter abandonado o Cristianismo por não acreditar que Deus poderia estar no “comando de um mundo cheio de dor e sofrimento”. Professor de estudos religiosos na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, Ehrman já escreveu 21 livros sobre religião, incluindo Verdade e Ficção em O Código Da Vinci, sobre o best-seller de Dan Brown, e O que Jesus Disse? O que Jesus Não Disse? – Quem mudou a Bíblia e por quê, que figurou entre os mais vendidos na lista do jornal The New York Times. Agora, em Jesus, Interrupted (ainda sem tradução), que será lançado no Brasil no segundo semestre pela Ediouro, Ehrman tenta revelar as contradições da Bíblia, que provam, segundo ele, que o livro não foi enviado à humanidade por Deus.

ÉPOCA – De um tempo para cá temos visto um crescimento do número de títulos com críticas às religiões. O que está motivando os leitores?
Bart Ehrman – Há uma reação contra a direita conservadora do mundo religioso. Aqui nos Estados Unidos há vários líderes desse tipo que tiveram muita atenção da mídia por muito tempo, e as pessoas que estão do lado esquerdo deste espectro começaram a se incomodar. Muitos desses livros escritos por essas pessoas chamadas de “neo-ateístas” são uma representação deste movimento.

ÉPOCA – Alguns dos principais representantes do “neo-ateísmo” são Sam Harris e Richard Dawkins. Em um artigo recente da revista Time, o senhor reconheceu que compartilha leitores com eles. Mas o senhor se considera parte deste movimento?
Ehrman – Não me considero um ateu e não acho que estou fazendo a mesma coisa que esses autores. Eles têm feito coisas boas, mas estão atacando a religião sem conhecer muito. Quando eu escrevo, faço isso como alguém que já esteve profundamente envolvido com a Cristandade, mas que agora a rejeitou. Por isso, a minha perspectiva é completamente diferente.

ÉPOCA – O que fez o senhor passar de um fiel cristão a um “agnóstico feliz”?
Ehrman – Fui criado na Igreja Protestante e fui um cristão muito ativo por vários anos. Mas eu deixei a cristandade não por conta dos meus estudos históricos sobre a Bíblia, mas por não conseguir mais acreditar que poderia haver um deus no comando deste mundo cheio de dor e sofrimento.

ÉPOCA – Qual é o motivo de o livro se chamar Jesus, Interrupted [em tradução livre: Jesus, interrompido]? Quando e como ele foi interrompido?
Ehrman – O título significa que há inúmeras vozes diferentes falando no Novo Testamento. São autores diferentes, que possuem pontos de vista diferentes e que, muitas vezes, são conflitantes. Com tantas vozes assim falando no mesmo livro, muitas vezes é impossível escutar a voz do Jesus histórico, porque ele foi interrompido por outras pessoas.

ÉPOCA – E é possível definir qual é a maior contradição da Bíblia?
Ehrman – São muitas discrepâncias, mas é possível destacar duas. O apóstolo Paulo, por exemplo, acha que a pessoa chega a Deus apenas pela fé, e não pelo que faz. No capítulo 24 de Mateus, no entanto, nós lemos que boas ações levam ao reino dos céus. Essas duas visões são excludentes em um assunto determinante, que é a salvação. Também há visões diferentes sobre quem era Jesus. No evangelho de João, Jesus é Deus, mas nos textos atribuídos a Marcos, Mateus e Lucas não há nada sobre isso. No evangelho de Mateus fica claro que ele acredita que Jesus é um ser humano, e que é o Messias. A Igreja acabou juntando essas duas visões, de que ele é humano e divino, e criou um conceito que não está escrito nem em João e nem em Mateus.

ÉPOCA – O senhor acha que essas discrepâncias fazem da Bíblia uma história falsa?
Ehrman – Eu diria que os diferentes autores da Bíblia tem versões diferentes da história e por isso é errado tentar fazer com que eles digam a mesma coisa. Há muitos erros na Bíblia e, mais importante que isso, há diferentes pontos de vista teológicos e isso precisa ser reconhecido.

ÉPOCA – Desde quando a Bíblia começou a ser questionada? De que maneira isso enfraquece a Cristandade?
Ehrman – As pessoas só começaram a notar essas diferenças na época do Iluminismo, no século XVIII. Antes disso, os estudioso da Bíblia eram teologicamente comprometidos com ela e não imaginavam que poderia haver erros. Essas descobertas são problemáticas especialmente para quem acredita que a Bíblia foi entregue a nós diretamente por Deus. Se isso ocorreu, por que não temos a Bíblia original? Por que temos apenas manuscritos escritos mais tarde e que não são iguais? Essas diferenças mostram que não existe um livro com inspiração divina que foi entregue a nós.

ÉPOCA – E como isso afeta especificamente a Igreja Católica?
Ehrman – Existem estudiosos na Igreja Católica que concordam com quase tudo o que está escrito em Jesus, Interrupted. Mas na tradição católica a fé nunca foi sobre a Bíblia, mas sobre os ensinamentos da Igreja e sobre acreditar que Jesus é o filho de Deus. E isso não muda se a pessoa perceber ou não os erros da Bíblia. É bem diferente do fundamentalismo cristão que é tão poderoso onde eu vivo, no sul dos Estados Unidos. Aqui as pessoas acham que você só poder ser cristão se acreditar totalmente na Bíblia.

ÉPOCA – Alguns críticos do seu trabalho, especialmente o líder evangélico James White, dizem que você quer destruir a fé cristã. O que você acha disso?
Ehrman Estou tentando destruir o tipo de fé cristã de James White! (risos). Mas na verdade nada que eu faça pode destruir o Cristianismo. O problema é que há um certo tipo de fé cristã que diz que a Bíblia não tem erros e é infalível, e eu não concordo com isso. Eu não sou o único que pensa assim. As opiniões que estão descritas no meu livro são as mesmas da maioria dos estudiosos da Bíblia há muitas e muitas décadas, mas eles não costumam falar disso em público. Meu livro apenas pega o que os estudiosos dizem há muito tempo e torna disponível para os leitores normais.

ÉPOCA – Você recebeu muitas críticas de leitores por conta do livro?
Ehrman – Recebi e-mails de pessoas bravas e sei que na internet há muita gente contrariada. Dizem que quero destruir sua fé, que sou o anti-Cristo. Mas a maior parte dos que escreve ficou grata pelo livro e feliz por eu ter dito essas coisas, já que suspeitavam desses erros, mas não tinham base teológica para questionar a Bíblia.

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Título Original: “O que sabemos sobre Jesus”
Autor: Bart Ehrman
Publicado Originalmente em: Revista Época (01/01/2013)
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Ele teve uma mulher? Descendia dos patriarcas judeus? A vida de Cristo como a conhecemos vem de relatos que, em boa parte, não estão nos Evangelhos – quando eles estão, os textos se contradizem

Neste período que celebra o nascimento de Jesus Cristo, poucos assuntos poderiam ser mais momentosos que um recém-descoberto fragmento de um papiro, batizado de “O Evangelho da Mulher de Jesus” pela professora Karen King, da Universidade Harvard, que anunciou a novidade. Esse pequeno achado voltou a levantar questões sobre o que sabemos a respeito da história de Jesus de Nazaré, e se há outros Evangelhos fora do Novo Testamento que possam contribuir com alguma informação valiosa.

O fragmento, do tamanho de um cartão de crédito, está escrito em copta, a língua do Antigo Egito. Tem apenas oito linhas cortadas de texto. Em uma delas, Jesus fala sobre “minha mulher”. Os teóricos da conspiração imediatamente enxergaram uma revelação dos céus e alegaram que a notícia comprova a visão do estado matrimonial de Jesus detalhada por esta altíssima autoridade, Dan Brown, no livro O código Da Vinci. Cristãos conservadores dizem que um papiro tão insignificante não prova nada. A pesquisadora Karen King e seus colegas tomaram o caminho do meio. Dada a estimativa de que o fragmento data do século IV, mais de 300 anos depois de Jesus e seus parentes terem existido, eles afirmam que isso mostra em que acreditavam os cristãos sobre Jesus naquela época, mas nada se pode concluir sobre o que aconteceu realmente durante sua vida.

Muitos especialistas em cristianismo antigo consideraram o fragmento uma farsa, algo forjado recentemente por um amador que, ao contrário de Karen King, não era bem versado nos detalhes da gramática copta. O veredicto ainda não está dado. Aguardam-se os resultados da análise da tinta, para descobrir se era antiga ou moderna. Mesmo se o texto for falso, como é provável, isso nos alerta para o fato de que há Evangelhos com informações divergentes das versões amplamente aceitas hoje.

Precisamos lembrar que muito do “conhecimento comum” sobre a criança de Belém não pode ser achado em nenhuma escritura. Alguns exemplos óbvios: em nenhum momento, a Bíblia diz em que ano Jesus veio ao mundo, ou se ele nasceu em 25 de dezembro. Tampouco coloca um boi e um burro em torno de sua manjedoura nem diz que eram três os Reis Magos que foram visitá-lo.

Por muitos séculos, os cristãos extraíram informações sobre o nascimento de Jesus não do Novo Testamento, mas sim de escritos populares. Um dos mais conhecidos é o Proto-Evangelho de Tiago, provavelmente do fim do século II, 100 anos após os Evangelhos canônicos. É bastante improvável que haja alguma informação histórica confiável nesse texto. No entanto, os cristãos ao longo da Idade Média raramente estavam interessados em precisão histórica. Eles amavam histórias, especialmente as que pouco tinham a ver com a aparição do Filho de Deus no mundo.

Em muitos aspectos, o Proto-Evangelho de Tiago é guiado pela preocupação em saber detalhes da mãe de Jesus, a Virgem Maria. Por que ela foi a escolhida para dar à luz o Filho de Deus? Esse texto é o primeiro relato sobre o milagroso nascimento de Maria. Sua mãe, Ana, seria estéril, mas Deus lhe deu a graça da concepção. Quando Maria nasceu, Ana a dedicou a Deus e fez do quarto da filha um santuário no qual ela viveu à parte das influências mundanas pelos primeiros três anos de vida. Maria foi então levada pelos pais para o Templo de Deus em Jerusalém. Criada pelos guardiães do templo, era alimentada diariamente por um anjo vindo dos céus. Quando ela se aproximou da puberdade, os guardiães escolheram um homem para lhe servir de companheiro. Era um viúvo mais velho chamado José, que inicialmente se recusou a ter essa responsabilidade. Os guardiães lhe disseram que Deus não aceitaria um “não” como resposta. Desde então, milhões de cristãos retratam José como um homem idoso e Maria uma jovem (pense em todas as ilustrações do casal viajando para Belém ou no momento da Natividade), além de crer que os “irmãos” de Jesus (incluindo Tiago, o suposto autor dos escritos) são filhos de José de um casamento anterior. Isso não está na Bíblia.

A história continua adentrando pelo território familiar: um anjo anuncia a Maria que ela conceberá pelo Espírito Santo. José se exaspera com a gravidez da mulher por achar que fora traído, mas depois descobre o que aconteceu. Na viagem para Belém, Jesus nasce. Há numerosos detalhes apócrifos, entre eles uma fascinante descrição em primeira pessoa, de José, sobre como o tempo parou quando Jesus veio ao mundo. Ele vê pássaros imóveis no ar e um grupo de homens comendo com as mãos paralisadas a meio caminho da boca.

Ainda mais notável é o que acontece depois da aparição de Jesus. Na hora do parto, José sai para procurar uma parteira que ajude Maria. Quando os dois voltam, é tarde demais: a gruta (e não um estábulo) está tomada por uma luz ofuscante; a criança já nasceu e anda (com menos de uma hora de vida!) em direção ao colo da mãe. A parteira vai atrás de uma colega, Salomé, e anuncia que uma virgem deu à luz. Salomé é incrédula e diz que só acreditará se ela mesma examinar Maria. Ela o faz e, para seu espanto, constata que Maria está fisicamente intacta. A mão que Salomé usou para tocar Maria começa a pegar fogo, como uma punição por sua descrença. Por instrução divina, ela acolhe a criança, e sua mão volta ao normal. Esse é o primeiro milagre registrado de Jesus.

Os evangelhos não são uma fonte aceitável para quem deseja reconstruir com seriedade os eventos históricos. Para alguns cristãos, isso é um problema; para outros, uma libertação.

Os leitores que não estão familiarizados com essas histórias tendem a achá-las obviamente inverossímeis. Raramente temos a mesma impressão de histórias conhecidas de nossa infância que são igualmente espetaculares e soam bizarras para pessoas que as ouvem pela primeira vez. Os relatos sobre Jesus são totalmente fantasiosos? Depende de quem responde. Em novembro, o papa Bento XVI publicou seu terceiro livro sobre a vida de Jesus, concentrado nos relatos do Novo Testamento. Apesar de Joseph Ratzinger ter construído uma respitável trajetória como teólogo antes de se tornar papa, não se trata de um livro catedrático escrito por um pesquisador. É uma obra perfeita para qualquer cristão que defenda os Evangelhos não só por seu valor teológico, mas como relato histórico. Mas não agrada a quem quer saber o que aconteceu de fato na vida de Jesus.

Um grande número de estudiosos – católicos, protestantes, judeus, agnósticos – reconhece que há problemas nos tradicionais relatos de Mateus e Lucas, os dois evangelistas que abordam a infância de Jesus. Por mais que eles sejam valiosas reflexões sobre o significado e a importância do Filho de Deus, não são o tipo de fonte histórica aceitável para quem deseja reconstruir com seriedade os eventos históricos. Para alguns cristãos, isso é um problema. Para outros, é uma libertação, porque os desobriga de basear sua fé em relatos imprecisos.

NOVO MISTÉRIO Reprodução do papiro recém-descoberto em que o trecho “minha mulher” é atribuído a Jesus. Testes da tinta usada dirão se o fragmento escrito em copta é autêntico (Foto: Harvard University, Karen L. King/AP)NOVO MISTÉRIO Reprodução do papiro recém-descoberto em que o trecho “minha mulher” é atribuído a Jesus. Testes da tinta usada dirão se o fragmento escrito em copta é autêntico (Foto: Harvard University, Karen L. King/AP)

Os dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus e os dois iniciais de Lucas são bastante distintos um do outro, a ponto de parecer inconciliáveis. De cara, divergem sobre a genealogia de José: cada um cita pai, avô e bisavô diferentes. Lucas e Mateus querem vincular José à linha ancestral dos patriarcas judeus, mas nenhum deles tem dados confiáveis para comprovar isso. Por isso, criaram genealogias com esse intuito, que acabaram se tornando conflitantes. As discrepâncias se estendem ao longo dos outros capítulos.

Esses dois Evangelhos também exibem contradições com fatos conhecidos da história. Apenas Lucas narra a viagem de Nazaré a Belém feita por José e Maria para se registrar num censo no qual “o mundo inteiro” deveria ser contado, sob o governo do imperador César Augusto. O mundo inteiro? Lucas só pode ter tido a intenção de dizer “todo o Império Romano”. Mesmo isso não pode estar certo. Há boa documentação sobre o tempo de César, e não houve nenhum censo durante todo o seu reinado, que dirá um em que as pessoas precisavam se registrar na terra de seus antepassados. Pelo relato de Lucas, José e Maria precisavam se registrar em Belém, porque José descendia do rei Davi. No entanto, Davi viveu milhares de anos antes. Toda a população sob o governo romano estava retornando a sua terra ancestral? Imagine as migrações em massa para esse censo. Nenhum historiador daquela época não pensaria que aquilo pudesse ser digno de registro? O Evangelho não é uma história baseada em fatos. É uma narrativa construída para explicar como Jesus poderia ter nascido em Belém – onde o Messias estava por vir –, se todos sabiam que a família dele era de Nazaré.

Há outras tantas informações implausíveis nos relatos. Em Mateus, os Reis Magos seguem a estrela na direção de Belém, até que ela para sobre a casa onde está Jesus (por que, aliás, a família de Jesus vivia numa casa, se eles estavam recém-chegados para se registrar no censo?). Como uma estrela, ou qualquer corpo celeste, pode guiar alguém até um local específico? E como pode parar sobre uma determinada casa?

Muitos cristãos se ofendem com os questionamentos dos Evangelhos, mas essa reação não tem razão de ser. Os relatos sobre a vida de Jesus no Novo Testamento nunca foram chamados de “histórias”, mas sim de “evangelhos”, o que quer dizer “proclamações de boas-novas”. Esses livros têm o objetivo de declarar verdades religiosas, não fatos históricos. Isso pode não ser uma boa notícia para os crentes que pensam que a verdade tem de estar necessariamente vinculada à história. Mas, aos que têm uma visão mais ampla, um gosto mais apurado pela literatura e uma noção do significado de teologia, a história do Menino Jesus e sua aparição no mundo se fundamentam não no que realmente aconteceu. Sustentam-se, sim, naquilo que desfrutam todos os que acreditam que histórias como essa levam a uma verdade maior.


Bart Ehrman é professor de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte e autor de O problema com Deus.

Métodos Teológicos e Apologistas Aplicados a Super-Heróis

Quando vi a imagem acima, me vieram à cabeça as longas discussões nas quais teólogos e apologistas cristãos mergulham sua mente, aplicando métodos rigorosíssimas a… absolutamente p*%%@ nenhuma. Qual a natureza dos anjos? Os cabelos deles são sempre louros? A Bíblia nos diz que Maria morreu virgem ou não? Homens podem se tornar santos e continuar intercedendo por nós? Jesus era filho de Deus ou só mais profeta? Afinal, o Inferno existe ou não? Quando Maria Madalena descobriu a tumba vazia, estava sozinha ou acompanhada? O que realmente quer dizer a história da maçã no livro de Genêsis? Temos alma? – os adventistas dizem que não. O Papa é falível? As respostas a várias perguntas como estas acima não diferem em nada à resposta dada à pergunta acima: quem é mais forte, o Super Homem ou o Goku?

Mais engraçado ainda é ver como pessoas notavelmente inteligentes ao longo da história passaram preciosa parte da vida e empreenderam grande parte de suas capacidades à tentativa de justificar ideias de um bando de pastores de cabra da antiguidade e histórias sobre um judeu mágico que transformava água em vinho e que controlava o momento exato em que furos de prego apareciam em sua mãos para poder salvar o mundo dele mesmo (surpreendentemente, sem obter êxito algum).

Mas para não ficar só no campo da palhaçada, vamos nos lembrar que essas discussões por vezes se desdobram em inconvenientes. Acostumam-se a empregar esse método a coisas ridículas e acabam o aplicando também a coisas sérias. A escravidão (de forma geral) é condenada, é endossada ou é apoiada pela Bíblia? Podemos usar camisinha em relações sexuais? O que a Bíblia acha dos homossexuais? Seria engraçado, se não fosse um hábito que faz pessoas inteligentes se tornaram inúteis e que faz questões importantes receberem o mesmo tratamento que trivialidades irrelevantes.

Saber distinguir questões importantes de questões irrelevantes é o primeiro passo para que uma sociedade comece a caminhar na direção do desenvolvimento humano e a desenvolver conhecimentos que tragam o bem estar geral e não que saciem a curiosidade tola e sem sentido. É importante, acima de tudo, que as nossas mentes mais brilhantes não percam seu tempo aplicando rigorosos padrões de investigação a questões boçais como a existência ou não da Santíssima Trindade.

Mas não dá para esperar muito, já que o próprio líder deles preferiu usar sua suposta capacidade ilimitada para andar sobre a água e para atravessar portas trancadas pelo lado de dentro ao invés de ensinar noções básicas de higiene e saneamento básico, de metodologia científica e a importância da busca pela verdade, de cultivo de plantas e criação de animais de corte, de moralidade e filosofia, de economia, de política e etc. Então, porque esperar que seus seguidores hajam de forma diferente?