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Deixemos de ser estúpidos: aumentar penas não resolve o problema da violência!

Abaixo um par de textos escritos pelo doutor em direito penal Luiz Flávio Gomes para a coluna Última Instância do portal UOL. Neles, Gomes defende a tese de que maiores penas não diminuem a criminalidade. Continuar lendo Deixemos de ser estúpidos: aumentar penas não resolve o problema da violência!

Escola “sem” partido

Caros leitores, eu estou vivo!

Um pouco mais de três meses de sumiço é reflexo de todas as minhas atividades em curso, que me forçaram a estourar a jornada comum de trabalho. Mas vou aproveitar o descanso de fim de ano e minhas férias como professor em janeiro para atualizar aqui um pouco.

E nada melhor do que registrar meus comentários sobre um recente surto da direita brasileira, a chamada escola “sem” partido. Continuar lendo Escola “sem” partido

Lutero, o esquerdopata

A última moda entre os conservadores de galinheiro, apelidados de reacionários ou de neo-cons, é assumir uma postura simultaneamente conservadora e religiosa do ponto de vista sócio-cultural e libertária do ponto de vista econômico.

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As relações inter-excludentes entre Conservadorismo e Liberalismo Econômico

“A natureza, quando formou o homem para a sociedade, dotou-o de um desejo original de agradar e de uma aversão original a ofender os irmãos. Ela lhe ensinou a sentir prazer quando o avaliam de maneira favorável e dor quando o avaliam de maneira desfavorável.”

“O êxito da maioria… quase sempre depende da simpatia e da opinião favorável dos semelhantes; e sem uma conduta toleravelmente regular, é raro obtê-las. O bom e velho provérbio, portanto, segundo o qual a honestidade é sempre a melhor política, se mantém, em tais situações, quase sempre perfeitamente verdadeiro.”

O Conservador mediano atual que acabou de ler essa citação deve estar pensando, com toda a razão, que o trecho acima é esquerdista em sua essência. Continuar lendo As relações inter-excludentes entre Conservadorismo e Liberalismo Econômico

E ainda o preconceituoso sou eu!

Há algum tempo, foi publicado aqui na WatchGOD o artigo Preconceituoso é você! por mim criticando várias coisas, dentre elas a postura de pessoas como o Conde de simplesmente devolver as acusações que recebe, sem mais nem menos ou no máximo com desculpas mirabolantes e racionalizações malucas. Usei como exemplo aquelas acusações sobre racismo e aproveitei para me debruçar sobre o tema também. Defendi que as cotas até que pressupõem o problema correto, mas que não são a melhor forma de resolvê-lo e até acho que não deveriam ter sido implementadas. Uma solução que não resolve nada só atrasa o processo que realmente resolverá. Vejam lá, tudo isso está escrito claramente.

E não é que desta vez eu obtive uma resposta no post Um blogueiro esquizofrênico que linkava o meu artigo original? Parabéns ao Conde, os leitores deles merecem ler as duas partes da história. E a cada dia que passa, ele diz menos palavrões na minha caixa de comentários e parece estar tentando postar tudo que quer dizer de uma vez, ao invés de floodar minha caixa de comentários. O Conde é esperto e aprende rápido!

Elogios feitos, vamos à parte ruim. Para começar, ele não entendeu absolutamente nada da minha introdução política, fazendo alguns comentários sobre conservadorismo e reacionarismo que me tiraram uns “do que esse cara tá falando?” Não que eu discorde do que ele escreveu, é que ele se baseou numa interpretação tão equivocada do meu texto, que é como se ele estivesse respondendo outra pessoa. Mas ok, vamos deixar isso de lado para não perdermos tempo demais. Quem quiser, pode acessar os dois textos e ver por si só.

Outra atitude digna de nota foi a seguinte resposta:

E não custa nada observar: quem gosta de retrucar “é você” é o próprio Suriani.

Chega a ser bisonho, mas ele responde até à minha crítica do “é você”, com um “é você”! Isto é incrível! Eu dei três (TRÊS!) exemplos dessa prática no campo estritamente religioso e dissertei sobre seu uso na questão do preconceito, me certificando de que não estava fazendo uma acusação infundada, mas uma muito bem fundamentada. E o que ele responde? Que eu é que faço isso! E o que ele dá como evidência, como exemplo? NADA. Nadica de nada. Isso é que dá tentar debater com gente ignorante, que tenta debater no gogó, na lábia, e na postura convicta para compensar a falta de conteúdo.

Outro ponto é ele me acusar de querer fazer caridade dando vagas para quem não merece. Mas quanta asneira! Eu fiz justamente uma crítica ao sistema de cotas. Disse que ele é insustentável e que só finge resolver o problema e até que ele carece de um objetivo formal. Em momento algum indiquei que a solução seria aumentar o programa ou fazer pequenos ajustes no critério de concessão de cotas, mas sim que se bolasse algo que pudesse efetivamente resolver o problema e que eu preferia não aprofundar em qual solução seria. Por favor, leiam o que escrevi e confrontem com citações como essas aqui em baixo e depois me respondam: será que o Conde sabe interpretar mesmo o que lê?

Suriani oferece um argumento, no mínimo, assustador: ele quer abolir o direito individual, para implantar uma espécie de coletivismo racial.

[…] Uma lei racista e fajuta não se tornará melhor se houver finalidade para isso. [Como se eu tivesse dito que a lei das cotas é válida e que só falta arrumar um propósito rs]

[…] O que seria uma política de cotas eficiente? Uma política mais racista? Uma política mais discriminatória? Uma política racista mais abrangente? Suriani parece meio desequilibrado da cabeça. Ele não consegue formular uma sentença decente. [Como se minha crítica ao sistema de cotas fosse o fato dela ser muito pequena e “leve” rs²]

Eu critiquei o sistema de cotas como sendo uma solução ruim e em momento algum afirmei, como ele se deleitou em dizer, que eu quero fazer caridade distribuindo vagas para negros que não merecem. Ele falhou miseravelmente ao não entender que eu disse que o sistema de cotas é a solução errada para o problema certo.

Mas faço esse post mesmo para responder o seguinte trecho da resposta dele:

Os negros não precisam pedir nada, apenas estudar tanto quanto ou melhor.

[…] Suriani, seu babaca, os negros precisam apenas assumir as responsabilidades e deveres legais comuns a quaisquer pessoas.

[…] Suriani deve se achar melhor do que um cristão, porque, no fundo, deve crer na inferioridade racial dos negros. Coitadinhos, eles sempre precisam de cotas, de tutela governamental, porque são incapazes, como os pródigos, os incapazes e os loucos de todo o gênero.

Opa opa opa, calma aí. Vamos nos ater aos fatos: a proporção de brancos universitários é maior que a proporção de negros universitários. Correto? As estatísticas mostram isso claramente, o próprio Conde sugere formas de se reverter isso (os negros devem estudar o mesmo tanto que os brancos ou até mais) e creio que isso seja indiscutível. Tão indiscutível quanto dizer que isso deve ter uma explicação. Agora, que explicação é essa? Pode até parecer que o que farei aqui é uma falsa dicotomia, mas na verdade essa é uma dicotomia legítima, e só existem dois tipos de explicações possíveis:

  1. Isso é culpa dos próprios negros.
  2. Isso não é culpa dos negros, mas de algo sobre o qual eles não possuem controle.

Creio que até aqui, eu e o Conde concordamos. Cada uma dessas opções esconde inúmeras outras hipóteses, mas todas as explicações possíveis se resumem a essa dicotomia: ou põe a culpa nos negros ou não põe. No máximo, pode ser que mais de uma explicação seja correta, de modo que uma (ou mais) seja do tipo 1 e uma (ou mais) do tipo 2. Ninguém seria louco de discordar de mim até aqui.

Mas onde eu e o Conde nos separamos? Ele acredita que o problema seja do tipo 1, enquanto que eu acredito que o problema seja do tipo 2. É por isso que ele sugere que os negros devem estudar mais e ser mais responsáveis e eu sugiro que as outras pessoas devem se esforçar para reparar isso. Oras, as soluções propostas por cada um gritam o que cada um enxerga como problema!

E o que pode levar alguém a preferir uma explicação do tipo 2? Eu particularmente acredito nela pois não acredito que os negros sejam inferiores, nem em inteligência e nem em disposição e nem em cultura (se é que se pode falar em diferenças culturais muito grandes aqui). Não acho que eles sejam irresponsáveis também. Portanto, não aceito a explicação de que eles precisam estudar mais ou se esforçar mais que o fazem hoje.

O Conde, por outro lado, acha que basta os negros ter mais esforço e mais responsabilidade para conseguirem suas vagas. Mas ué, eles não estão se esforçando tanto quanto os brancos? Ou se esforçam igual mas são burros e precisam de um esforço extra para conseguirem? O Conde chega ao cúmulo de dizer que os negros devem se esforçar até mais que os brancos para conseguir vagas na universidade. Por que Conde? O caminho do branco deve ser mais fácil que o do negro?

E outra, os negros não têm cumprido seus deveres legais? Ora, então os negros são em geral criminosos? Como assim, Conde? “Me explica essa!”

As implicações lógicas e as intenções (nem tão) ocultas do discurso do Conde traem uma pessoa que acredita que negros estão em menor número na universidade porque são pobres, estudam pouco, são burros, são irresponsáveis, não cumprem seus deveres legais e têm que seguir um caminho mais difícil até a universidade. Eu, ao contrário, coloquei a culpa na sociedade como um todo, disse que a solução deve envolver, portanto, toda ela, apesar da solução das cotas ser falha.

E ainda o preconceituoso sou eu!