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Pseudociência quântica

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Título Original: Tendências/Debates: Abuso quântico e pseudociência
Autor: MARCELO KNOBEL
Publicado Originalmente em: Revista Época – 02/12/2012 – 03h30min
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Em entrevista recente à Folha, o recém-aposentado ministro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto, afirmou que sua visão espiritualista de mundo seria confirmada pela física quântica, citando diversos autores, entre os quais Einstein (“A vida começa aos 70”, em 18 de novembro).

Cito dois trechos:

1) “Depois, de uns 12 anos para cá, comecei a me interessar por física quântica, e ela me pareceu uma confirmação de tudo o que os espiritualistas afirmam. A física quântica, sobretudo os escritos de Dannah Zohar [especializada em aconselhamento espiritual e profissional].”

2) “Einstein, físico quântico que era, cunhou uma expressão célebre: ‘efeito do observador’. Ele percebeu que o observador desencadeava reações no objeto observado. (…) Claro que quando você joga teoria quântica para a teoria jurídica, se expõe a uma crítica mordaz. O sujeito diz: “Mas isso não é ciência jurídica’.”

Na verdade, a fascinante física quântica aplica-se somente a sistemas físicos na escala atômica, jamais a questões profissionais ou jurídicas. As analogias podem ser exercícios criativos ou poéticos até interessantes, mas não passam disso.

Ao buscar a palavra “quantum” em qualquer livraria virtual, é assombroso notar que a maioria das obras listadas refere-se a supostas explicações quânticas dos mais diversos aspectos da vida “da memória à cura de enfermidades, passando pelo sucesso no amor e na carreira.”

Como físico, acredito em coisas incríveis, como entes que são ondas e partículas simultaneamente, universos multidimensionais, tempos e comprimentos que dependem da velocidade do objeto, estruturas nanoscópicas que podem atravessar verdadeiras paredes e muitos outros fenômenos que certamente não são nada intuitivos e continuam sendo impressionantes, mesmo após anos e anos de estudo.

Mas em ciência o importante é que as teorias sejam comprovadas seguindo critérios rígidos, metodologias adequadas e publicadas em periódicos de circulação internacional, para que outros pesquisadores possam tentar repetir os experimentos e modelos, verificando possíveis falhas e buscando explicações alternativas, com certo ceticismo. Não é o caso das ideias citadas pelo ministro.

Ocorre que, diariamente, somos inundados por inúmeras promessas de curas milagrosas, métodos de leitura ultrarrápidos, dietas infalíveis, riqueza sem esforço. A grande maioria desses milagres cotidianos são vestidos com alguma roupagem científica: linguagem um pouco mais rebuscada, aparente comprovação experimental, depoimentos de pesquisadores “renomados”, alardeado acolhimento em grandes universidades. São casos típicos do que se costuma definir como pseudociência.

A maioria das pessoas vive perfeitamente bem sem saber diferenciar ciência de pseudociência. Mais cedo ou mais tarde, porém, em alguns momentos da vida esse conhecimento pode ser muito importante. Seja para decidir um tratamento médico, seja para analisar criticamente algum boato, seja para se posicionar frente a alguma decisão importante que certamente influenciará a vida de seus filhos e netos.

A sociedade como um todo deve assimilar a cultura científica. É importante a participação de instituições, grupos de interesse e processos coletivos estruturados em torno de sistemas de comunicação e difusão social da ciência, participação dos cidadãos e mecanismos de avaliação social da ciência.

Em uma sociedade onde a ciência e a tecnologia são agentes de mudanças econômicas e sociais, o analfabetismo científico, seja de quem for, pode ser um fator crucial para determinar decisões que afetarão nosso bem-estar social.

É impossível tomar uma decisão consciente se não se tem um mínimo de entendimento sobre ciência e tecnologia, como funcionam e como podem afetar nossas vidas.

MARCELO KNOBEL, 44, físico, é professor do Instituto de Física Gleb Wataghin e pró-reitor de graduação da Unicamp.

Pseudoceticismo: Pode isso, Arnaldo? (2) O contrário de cético é o que?

Na parte 1 dessa série, eu argumentei que não existe ceticismo quando se parte do pressuposto que o objeto a ser investigado é falso. Evidentemente, é possível defender uma ideia enquanto se declara cético, mas isso depende da forma como a história decorreu. No caso do ceticismo, a crença sempre vem depois da investigação ou do questionamento, nunca antes. Quem questionou, não precisa questionar de novo, apenas mostrar o resultado do questionamento, certo? Então se você está questionando agora é porque não fez isso antes ou falhou em chegar a alguma conclusão relevante. E se enquanto você questiona você parte do pressuposto que sua ideia seja a verdadeira, então a crença precedeu o questionamento, porque você está questionado só agora. Logo, você não está sendo cético. Pode isso, Arnaldo? Não pode, a regra é clara.

Isso quer dizer que uma pessoa absolutamente convicta de suas ideias não pode apontar falhas no pensamento daqueles que discordam? Nada a ver… lógico que pode, só não pode dizer que isso é um exercício de ceticismo ou de investigação. No máximo, dizer que é resultado de uma análise cética ou de uma investigação. Lógico, temos que ficar de olho sim, e se isso for falso, uma hora a casa cai.

Vou colocar aqui um texto que publiquei a um certo tempo e devidamente revisado e que aprofunda um pouco essa questão.

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O contrário de crédulo é cético?

Muitos podem até achar que sim, e não condeno quem comete essa engano parcial. Na verdade, se uma pessoa disser que cético é o contrário de crédulo, eu não teria nenhuma objeção a fazer – e é exatamente por isso que não condeno quem acha que a recíproca seja verdadeira.

Parece estranho negar a recíproca, mas não é. Por exemplo, o contrário de católico é ateu mas o contrário de ateu não é católico. Protestante, cristão ou muçulmano, ou mesmo o termo genérico teísta, todas essas palavras podem ser usadas como “contrário” de ateu. Da mesma forma, o contrário de simples pode ser complicado ou complexo ou mesmo difícil. Alguns termos admitem mais de um oposto por que a sua negação abre espaço para diversos paradigmas e raciocínios diferentes que se equivalem como contraponto. Não que cristianismo e islamismo sejam a mesma coisa, mas são contrapesos idênticos à ideia de ateísmo.

Agora que sabemos que a palavra crédulo pode ter mais do que um contrário, podemos analisar se ela realmente o tem. Já sabemos que ceticismo é um dos contrários de credulidade (não escrevam crédulidade, por favor!!), mas será o único?

1. Criticismo: o que é isso?

Meu argumento principal é que criticismo também é o contrário de ceticismo. Uma pessoa crítica é aquela que analisa uma alegação, ou uma hipótese sabendo que ela está errada e com o intuito único de demonstrar isso. Enquanto um crédulo acredita em P ingenuamente (ou em não-P), o crítico acha que P está errado e se esforça para demonstrar isso. Já o cético irá contrabalancear os prós e contras e decidir depois se acredita em P ou não.

O foco do crítico é encontrar os defeitos partindo do pressuposto que os defeitos estão lá e devem ser encontrados e expostos. O crítico não está disposto, inicialmente, a considerar a possibilidade de P estar correto. Ele pode até acabar considerando isso após perceber (ou ser convencido) que P tem seus méritos, mas inicialmente ele tratará P como errado.

Como o crítico não acredita que P está correto e busca motivos racionais para sustentar isso, então ele não pode ser chamado de crédulo. Essa é uma situação análoga ao cético, que procura tirar conclusões depois – e não antes – de analisar os fatos. Ambos podem ser considerados o contrário de crédulo.

Aliás, qualquer pessoa que busque motivos para sustentar uma ideia, sejam tais motivos consistentes ou não, não pode ser chamada de crédula. A única exceção que abro é quando a pessoa está claramente aceitando razões falhas de maneira negligente e/ou ingênua para sustentar suas ideias. É que nem o cara que insiste em dizer que tem um irmão gêmeo usando como prova o espelho depois (e somente depois) de receber inúmeras explicações sobre o que é um espelho. Neste caso, é muito óbvio que ele está errado e fica difícil sustentar que esta pessoa não é crédula. Mas o importante aqui é ter em mente que apenas discordar das razões de uma pessoa não a torna crédula. Tomemos cuidado para não apontar como crédulos aqueles que pensam diferente de nós só porque não concordamos com suas ideias.

Uma observação importante: o que estou chamando de crítico aqui não tem nada a ver com o Criticismo Filosófico de Kant. Sim, existem lá suas semelhanças, mas o conceito de crítico que apresento aqui é:

“Pessoa que busca razões para justificar sua crença prévia de que uma dada alegação é falsa.”

Já o cético é:

“Pessoa que busca razões para determinar se uma dada uma alegação é verdadeira ou falsa.”

Podemos estabelecer um raciocínio análogo para determinar o que é uma posição cética e uma posição crítica.

2. Quais as diferenças?

A maior diferença entre o crítico e o cético é que o primeiro acredita que uma dada alegação P é falsa e parte para derrubá-la enquanto que o segundo suspende seu julgamento e avalia se P merece mais credibilidade do que sua visão anterior ou não. É bem verdade que crenças pessoais e ideologias podem funcionar como um ruido na cabeça do cético, mas o importante é que ele consiga manter isso sob controle.

Por exemplo, se é divulgado na Nature que chimpanzés são ainda mais semelhantes ao homem do que pensávamos, o crítico irá dizer algo como:

“Mentira! A evolução não existe e o ser humano é completamente diferente dos macacos. Somente seres humanos têm sentimentos e são capazes de tomar decisões livres e conscientes. Além disso, seres humanos possuem alma e foram feitos à imagem de Deus. Os cientistas estão inventando dados para convencer as pessoas de que Deus não existe.”

Viram? Ele não é um crédulo pois não acredita em tudo que ouve (e também não se resume a negar o que ouviu sem sequer se dar ao trabalho de pensar no porquê, não sendo também um mero crédulo de que a alegação é falsa). Ele acha que é falsa e tenta dar razões (mesmo que muitos possam não concordar com elas) para isso. Já um cético diria algo como:

“Os argumentos e evidências que mostram que o chimpanzé é muito parecido com o homem são excelentes e bastante confiáveis, segundo a minha análise anterior. Será que essas novas evidências mostram que devo acreditar que tal semelhança é ainda maior? Vamos analisar…”

Notaram como as posições são bem diferentes? Notaram como nenhum dos dois são crédulos, pelo menos não a princípio? Atenção, eu não disse que um cético diria isso, ou que se posicionaria dessa forma! Eu disse que esse posicionamento é condizente com o que chamamos de ceticismo.

3. Pseudoceticismo

Esse termo foi em popularizado pelo sociólogo americano Marcello Truzzi, especialista na área de ceticismo e filosofia da ciência. Em “On Pseudo-Skepticism” Zetetic Scholar (1987) No. 12/13, 3-4., ele argumenta que:

Since “skepticism” properly refers to doubt rather than denial–nonbelief rather than belief–critics who take the negative rather than an agnostic position but still call themselves “skeptics” are actually pseudo-skeptics and have, I believed, gained a false advantage by usurping that label.

Uma vez que o ceticismo adequadamente se refere à dúvida ao invés da negação – descrédito ao invés de crença – críticos que assumem uma posição negativa ao invés de uma posição agnóstica ou neutra, mas ainda assim se autointitulam “céticos” são, na verdade, “pseudocéticos” e ganharam, acredito eu, uma falsa vantagem por assumirem esse rótulo.

Imaginem um marxista convicto, daqueles ferrenhos. Ele vai pegar um discurso de um republicano norte-americano e vai encontrar centenas de erros ali (e a grande maioria deles serão bem forçados). Ele vai fazer milhares de acusações de desonestidade, mentiras, dissimulações, distorções e de sede por poder e irá buscar mapear o comportamento dele baseado nos erros que encontrou em outros discursos.

Se ele for presunçoso o suficiente, dirá ter encontrado um padrão nos textos da direita que representam a forma, o método usado por eles para mentir e enganar as pessoas e conseguir poder político de forma ilícita. Ele irá construir um framework de sua ação e batizará cada palavra e atitude do republicano como rotina de distorção ou de manipulação. Irá dizer que todos que não concordam que os republicanos estão errados são ou republicanos moderados (ignorando paradoxo do copo meio-cheio/meio-vazio) ou estão dissimulando seu posicionamento para adquirir vantagens retóricas.

Agora imaginem que esse marxista lunático se autodeclare um marxista cético? Tendo em vista tudo que falei aqui, essa declaração seria risível e digna de pena. É evidente que ele é um marxista crítico e não um cético, pois ele age exatamente como o crítico que defini e não como o cético. Ele também é um pseudocético, porém não por ser simplesmente um crítico, mas sim por ser um crítico que se intitula cético.

Aliás, todas as seguintes características são facilmente encontradas nos pseudocéticos (apesar de alguns não possuírem algumas delas, todos eles apresentam uma quantidade razoável delas de forma bastante explícita):

1. A tendência de negar, ao invés de duvidar.
2. A realização de julgamentos sem uma investigação completa e conclusiva.
3. Tendência ao descrédito, ao invés da investigação.
4. Uso do ridículo ou de ataques pessoais.
5. A apresentação de evidências insuficientes.
6. A tentativa de desqualificar proponentes de novas ideias taxando-os pejorativamente de ‘pseudocientistas’, ‘promotores’ ou ‘praticantes de ciência patológica’.
7. Partir do pressuposto de que suas críticas não tem o ônus da prova, e que suas argumentações não precisam estar suportadas por evidências.
8. A apresentação de contra-provas não fundamentadas ou baseadas apenas em plausibilidade, ao invés de se basearem em evidências empíricas.
9. A sugestão de que evidências inconvincentes são suficientes para se assumir que uma teoria é falsa.
10. A tendência de desqualificar ‘toda e qualquer’ evidência.

Destaquei o ponto que considero mais importante e mais ‘desqualificante’ no comportamento dos pseudocéticos. É óbvio também que uma pessoa que apresente essas características mas que não se declara cética, não pode ser chamada de pseudocética. Na verdade, algumas dessas características nos permitem também identificar os críticos, lembrando que o crítico só é pseudocético caso declare-se cético, caso contrário é apenas crítico.

Diga-se de passagem, eu me considero um ateu crítico. Qualquer alegação teísta é vista com desconfiança por mim e meu primeiro impulso é encontrar seus erros. Não é atoa que ateus céticos também são conhecidos como ateus agnósticos. A wikipedia diz inclusive que:

“O ateísmo cético (ou ateísmo fraco) é uma variedade de ateísmo na qual se afirma que a existência de um ou mais deuses é duvidosa, improvável ou insuficientemente demonstrada.”

Ou seja, eu definitivamente não sou um ateu cético e se me declarasse como tal e mantivesse minha linha de raciocínio atual, eu poderia ser facilmente chamado de pseudocético. Já sobre meu posicionamento político, me declaro um “agnóstico cético”. Não tenho compromisso com nenhuma ideologia, apenas defendo aquelas que se mostraram mais razoáveis para mim especificamente nos pontos aos quais se referem. Eu me dou a liberdade de concordar que o combate à pobreza é responsabilidade do governo e discordar da forma como os governos atuais fazem isso. Também me dou a liberdade de posicionar a favor do casamento igualitário e da diminuição da maioridade penal (acho que 15 anos está bom). Eu só acho que seria estranho uma pessoa de 16 anos ser considerada responsável suficiente para ser punida por seus crimes, mas não para escolher a pessoa com quem quer fazer sexo. A diminuição da maioridade penal, no meu ponto de vista, deveria responder a esse paradoxo.

Eu não sou cético perante a tudo, mas pelo menos quando digo que estou sendo cético, eu realmente estou sendo. Quem duvida, é só testar. Não preciso desse tipo de autopromoção. O ceticismo não é o modo de pensamento perfeito e ninguém é pior porque usa um paradigma crítico quando discute questões não-científicas. Quanto a questões religiosas, não tenho medo nenhum de me declarar crítico, porque realmente o sou: parto do pressuposto que elas são falsas e a princípio não me disponho a reconsiderar isso e sequer sei o que precisaria acontecer para que eu acreditasse.

Tomem cuidado com os críticos só quando eles se declaram céticos: eles dizem que estão investigando, mas não estão. Não acreditem que estão investigando. Tentem imaginar o marxista do meu exemplo aqui fazendo uma investigação que conclua que o marxismo está errado. Isso nunca vai acontecer, porque no fundo ele não está investigando, mas só buscando motivos para manter seu ponto de vista inicial préconcebido. Pode parecer que seu trabalho investigativo é excelente e ele pode até dizer que sua investigação surpreendentemente descobriu que o marxismo realmente estava correto. Mas se botarmos a cabecinha pra funcionar um pouquinho que seja, o castelo de cartas desmorona.

Fiquem de olho com os críticos que se declaram céticos:
eles são os piores!

Pseudociência (1) Que isso?

Este post pretende fazer um link entre minha primeira fase aqui no blog e a minha terceira fase. Estou prestes a esgotar o assunto sobre ceticismo e pseudoceticismo e a entrar de vez em filosofia do conhecimento e da ciência. Como estou falando atualmente sobre pseudoceticismo, vou falar hoje sobre pseudociência, que envolve critério de demarcação – um dos principais pontos da filosofia de Popper.

A wikipedia brasileira é curta e grossa na definição: “Uma pseudociência é qualquer tipo de informação que se diz ser baseada em factos científicos, ou mesmo como tendo um alto padrão de conhecimento, mas que não resulta da aplicação de métodos científicos.” O site Skeptic’s Dictionary (Dicionário Cético) é mais sucinto ainda: “A pseudoscience is a set of ideas put forth as scientific when they are not scientific” ou “Uma pseudociência é um conjunto de ideias que se propõem como, mas que não são.”

O que seria então uma pseudociência? Em um sentido mais restrito, é apresentar uma ideia que se propõe como científica, mas que não foi alcançada via método científico. O sucesso indiscutível da ciência moderna criou um campo inesgotável de oportunidades para charlatões, mentirosos e aproveitadores ganharem dinheiro e fama em cima da ingenuidade alheia.

Os espíritas podem ficar revoltados, mas espiritismo É SIM pseudociência. Muitos dizem que não é sequer uma religião, como o blog Irreligiosos, mas não concordo. O espiritismo é uma religião que possui um traço pseudocientista à medida que se propõe originalmente como uma ciência. Vejam nas referências um texto do Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp onde eles dizem que espiritismo é, segundo o próprio Alan Kardec, uma ciência. Legal é que no final eles ainda criticam a pseudociência dos seus concorrentes… HA! Pegadinha do Malandro!

O espiritismo se propõe a alcançar verdades sobre o mundo de forma científica e, para não dar muito na cara que não é bem assim, FINGEM que estão fazendo isso. Alguém aí já viu papers espíritas com experimentos em condições controladas que foram reproduzidos por pessoas independentes? Alguém já viu experimentos “espíritas” que podem ser confirmados por pessoas de qualquer religião, de modo que qualquer um chegue às mesmas conclusões que eles? Alguém já viu equações ou leis do espiritismo? Alguém sabe quais as principais teorias do espiritismo e quais são as evidências que as suportam? Mas com certeza já viram textos espíritas falando de ectoplasmas, teoria da relatividade, big bang, astronomia, termos técnicos da biologia evolutiva etc

A verdade é que eles dizem qualquer bobagem com um linguajar científico e vendem como se fosse ciência. Qualquer um pode pegar um texto, recheá-lo de termos técnicos, citações e referências e depois dizer que fez ciência. A homeopatia é especialista nisso: abusa desse expediente até falar chega, mas apresentar resultados que é bom, nada. O Bule Voador tinha uma série até legal sobre o assunto, mas parece que eles estão com problemas com seu banco de dados. Mas exemplos é o que não faltam, como as Terapias Quânticas ou o Feng Shui. As primeiras são geralmente massagens usando pedras que “interagem com seu corpo através de forças quânticas propiciando resultados que os métodos da perversa ciência convencional jamais sonhariam em alcançar”. Os segundos são design de interior com um toque zen pseudocientífico.

Mas não são só ideias que se propõem confessadamente como científicas, mas que na verdade não são, que são pseudociência. Ideias que tentam se basear em ciência mas que só fazem meia dúzia de referência a textos escolhidos a dedo e interpretados de forma duvidosa também o são, em um sentido mais amplo. Um exemplo são os Pick Up Artists, vulgos PUAs, que vendem auto-ajuda em relacionamentos usando alguns textos de psicologia evolutiva como base para sua metodologia. Na verdade, não usam porr4 nenhuma. Eles dizem algo como: “Olá a todos, nosso produto foi desenvolvido tendo como base a psicologia evolutiva e por isso te trará excelentes resultados! Não deixe de nos pagar bastante dinheiro por esse produto de auto-ajuda que de científico só tem o rótulo!”

A verdade é que se você inventa uma teoria qualquer e coloca nas suas justificativas textos científicos corretos mas que não têm absolutamente nada a ver com o que você está falando, então você também está agindo como um pseudocientista, pois tenta aumentar a legitimidade do que diz na carona dos conhecimentos estabelecidos de forma séria. Um exemplo são pessoas que defendem pontos de vista político usando psicologia ou biologia. A psicologia pode estudar porque pessoas preferem determinadas ideologias a outras ou porque tendem a agir de determinadas formas durante as eleições, mas jamais pode dizer qual ideologia política é correta pois isso foge do seu escopo. Diferenças epistemológicas, saca? Psicologia não pode ser usada para validar/refutar ideias fora de seu escopo. Se quiser debater política, use teorias da Filosofia Política ou da Administração Pública, não da psicologia* ou da biologia**.

Em suma, pseudociência significa usar a palavra ciência ou os conhecimentos da ciência de forma inadequada para aumentar artificialmente a confiabilidade de uma ideia. Ocorre tanto quando o idealizador declara estar fazendo ciência quanto quando ele não declara. E ocorre tanto quando a ideia defendida se diz científica quanto quando ela não se diz. Senão, basta o cara agir de forma pseudocientífica e depois dizer: “mas eu não estava propondo uma teoria científica…” Esse é claramente um estratagema, pois o que está em discussão é o aumento artificial da credibilidade ao citar teorias científicas que não corroboram diretamente suas ideias. O importante é verificar se a pessoa tentou pegar carona na ciência de forma indevida.

Os métodos e critérios para diferenciar ciência de pseudociência são uma área da Filosofia da Ciência chamada “Critérios de Demarcação”. O segundo post dessa série será uma introdução sobre esse tema.

Referências:

Wiki: Pseudociência
Skeptic’s Dictionary: Pseudociência
Blog IRRELIGIOSOS – Espiritismo: Ciência, Pseudociência, Filosofia ou Doutrina Religiosa?
Grupo de Estudos Espíritas da UNICAMP: Ciência Espírita
PUAs

* Dizer que uma crença é inválida pela forma com que foi adquirida é implorar para cometer uma Falácia Genética. Essa falácia existe sim, mas devemos ter sempre muito cuidado com ela: por ser um assunto complicado, nos embananamos nela com frequência. Neste assunto em específico, devemos sempre nos perguntar: “as pessoas que possuem o pensamento político X estão erradas só porque X é fruto de um processo psicológico Y que acabei de citar, ou porque é fruto de um processo psicológico Y que representa uma fraqueza humana (como medo) ou porque ela não resolve adequadamente o problema que se propõe a resolver?” Eu sou favorável a só enxergar questões políticos sob a terceira óptica. Soluções devem solucionar… e ponto. Pouco importa se são sustentadas por processos psicológicos decorrentes de falhas humanas.
** Hitler usava a biologia (ou uma visão distorcida da mesma) para defender ideais políticos! Quem quiser fazer isso, preste bastante atenção… é caminhar sobre gelo fino.

Você quer só ganhar o debate? – Parte 2: Prove o que sei que está errado

Aproveitando o artigo Pseudoceticismo: pode isso, Arnaldo?, vou comentar algumas considerações que tenho. Lá eu disse que só se investiga o que não se sabe, certo? Pois então. Suponha que você tem certeza que o universo seja finito no tempo, certeza absoluta mesmo. Isso não é sequer uma conclusão derivada de fatos, você acha que isso é um fato mesmo. Existe alguma coisa que alguém possa dizer que te provará que isso está errado? Neste caso, é claro que não!

Se você sabe que a Rita matou o João porque você viu isso e um policial chega pra você e diz: “Olha, abrimos um inquérito para investigar o assassinato do João e tudo aponta que o Márcio foi o assassino.” Como você vai reagir? Dizendo “prove, proove, prooooove!!!!!!!11!!”? Óbvio que não. Você sabe que ele não pode oferecer provas verdadeiras porque você sabe que aquilo não aconteceu. Você sabe que as provas que ele apresentar serão falsas. Então se você é uma pessoa normal, você dirá como você sabe que foi a Rita que matou João.

Se você sabe de algo, você não pede provas a quem alega o contrário, você explica PORQUE é o contrário.

Ou será que estou falando muita besteira? Creio que não. Se você tem certeza de algo, então não faz sentido requerer provas àquele que alega o contrário. O sensato é: como você sabe (ou acha que sabe) que o outro está errado, mostre isso a ele. A não ser que você seja um torturador sádico querendo ver o outro se debater para provar o que não pode ser provado, então você só pode ser incapaz de provar o que você (acha) que sabe.

Requerer provas é uma atitude de quem considera que há alguma que possa ser dita e que seja capaz de mudar sua convicção. Caso contrário, é uma requisição tola. E supérflua, porque força o outro a perder tempo fornecendo provas que não vão surtir o efeito almejado.

Por exemplo, se você não viu a Rita cometendo o crime, mas tem certeza disso por algum motivo que nem você saiba, ou por pura teimosia, então ficar pedindo provas pro policial que acha que foi o Márcio parece a melhor saída mesmo.

O criacionista que fica gritando “prooove que a evolução aconteceu, ateu, proooove!!1!!” provavelmente não pode defender seu ponto de vista. Se pudesse, o faria ao invés de pedir algo que ele (acha) que não pode ser feito.

Mas como pedir provas e depois comemorar o fato delas não virem ganha muitos debates, principalmente aqueles feitos para plateias mais bobas, a prática acaba sendo popular. Fazer o que, quanto mais debates o crente ganha de maneira desonesta, mais feliz Deus fica, né?

Pseudoceticismo: o cérebro que cai (1)

Já dizia Carl Sagan:

Devemos manter a mente aberta,
mas não tão aberta a ponto do cérebro cair.

É o que acontece a uma certa categoria de pseudocéticos: em seu devaneio de que são justificados em suas crenças, afirmam serem eles os verdadeiros céticos e não aqueles que aplicam a dúvida de forma metódica. Segundo essas pessoas, duvidar demais é um problema e o verdadeiro cético é aquele que tem a mente aberta para certas verdades. Só que eles abrem a mente demais e o cérebro deles acaba caindo pra fora da cabeça.

Vamos ver um trecho de um artigo de Thomas Talbott chamado The Outsider Test for Faith: How Serious a Challenge Is It? que diz um pouco sobre o que ele acha que é ceticismo.

Um segundo tipo de ceticismo deriva da tradição do ceticismo filosófico. Milhões de pessoas ao redor do mundo acreditam em reencarnação, uma ideia que nunca fez parte da minha herança religiosa. Então eu rejeito essa ideia completamente? Não. Eu aceito qualquer argumento tolo, quando os vejo, de que a reencarnação é logicamente inconsistente com os ensinamentos bíblicos? Não. Será que eu adotei essa ideia então? Não. Apesar de eu acreditar que nossas vidas terrenas não são nada além do prefácio de uma história mais longa, eu estou aberto a uma série de pontos de vista diferentes sobre como o futuro pode ser depois de nossa vida terrena chegar ao fim. Assim, com relação à crença na reencarnação, eu sou um verdadeiro cético no seguinte sentido: embora eu não adote tal ideia religiosa, eu também não a rejeito completamente. Eu não tenho nenhuma crença estabelecida em nenhum dos dois sentidos sobre o assunto. Chame isso, então, de ceticismo de crença em suspenso, porque ele é incompatível com certeza dogmática e às vezes surge quando se tem a humildade de reconhecer os limites do próprio conhecimento. Para colocar de outra forma: em relação à proclamação cristã de que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, um cético neste sentido não será menos aberto para a possibilidade de que tal proclamação é verdade do que ele ou ela também será à possibilidade de que é completamente falsa.

Interessante, não? Em Pseudoceticismo: Pode isso, Arnaldo? e em inúmeras outras ocasiões, defendi que não precisa ser cético para duvidar de nada. Se alguém aplica a dúvida a algum assunto do qual discorda, simplesmente porque discorda, e investiga sem o compromisso de estabelecer algum resultado que possa te fazer mudar de ideia, então essa pessoa não age conforme o ceticismo. E se tal pessoa se alega cética, então ela é pseudocética. Também tem sido defendido aqui no blog que certos cristãos vivem na ilusão de que são os únicos certos, os únicos racionais e os únicos detentores da verdade metafísica. Então do que diabos eu to reclamando nesse discurso do cara?

Aha! é agora que a porca torce o rabo. Vejam que ele diz que o verdadeiro cético deve estar igualmente disposto a crer em A e em não-A. Mas não existe nada mais falso do que isso. Um biólogo que examina uma espécie até então desconhecida, não precisa estar disposto a considerar a veracidade da evolução das espécies da mesma forma com que considera a sua falsidade. Quando um cosmologista investiga o universo, ele não precisa considerar que a chance do big-bang ser falso é a mesma dele ser verdadeiro. Pré-concepções são válidas dentro do ceticismo, especialmente quando já sobreviveram a um longo período de questionamento. Segundo Talbott, um físico só poderia ser verdadeiramente cético se acreditasse que a chance da II Lei de Newton ser falsa é a mesma de estar correta! Só que isso é muita viagem, né? Não dá pra levar a sério…

Mas porque ele comete tal engano? Simplesmente para se esquivar de alegações ou argumentos de que ele não examinou as evidências para o cristianismo com ceticismo. Daí, ele reinventou ceticismo como sendo algo que só acontece quando a pessoa acredita em algo apesar de reconhecer que pontos de vista opostos são igualmente válidos. Ele distorceu o conceito para se chamar de cético; ele trapaceou para conseguir o rótulo de cético. E que toma para si esse rótulo de forma ilícita é justamente o pseudocético.

Não confundam ceticismo com alguma forma de agnosticismo. O ceticismo não requer um grau de suspensão do juízo tão elevado ou coisa parecida. É lógico que requer um grau mínimo, mas é só algo que fica no campo das possibilidades. Um biólogo precisa saber que alguém pode provar algum dia que a evolução seja falsa. Isso não quer dizer que ele deva manter um terço no bolso dele para clamar por perdão assim que ocorra a eminente descoberta científica de que o criacionismo seja verdadeiro. Na verdade, as evidências apontam hoje com muita força para a teoria da evolução e ninguém deixa de ser cético porque despreza as chances dela ser falsa. A evolução é tão certa quanto a segunda lei de Newton, queiram ou não. Não que sejam verdades absolutas, mas a chance de descobrirmos que estão completamente equivocadas é muito pequena, quase nula. Pequenas correções continuarão a ser feitas, mas acho difícil que algum campo da ciência hoje se mostre completamente equivocado.

Que quem se abre a todas as possibilidades de maneira igual não está agindo de forma dogmática, pode até ser. Mas de forma cética, definitivamente não está agindo também. Talvez de forma ingênua ou, como neste caso, de forma malandra. Para não admitir que é menos cético com suas crenças, ao invés de mostrar que foi tão rigoroso ao analisar as evidências do cristianismo quanto foi com aquelas fornecidas pelas outras religiões, ele alega que foi tão ingênuo com as outras quanto foi com as próprias… HA! É como se defender da acusação de estar inventando que foi abduzido por ETs dizendo que também já participou de um chá das cinco com as fadas e que visitou Asgard na companhia de Thor.