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Você apoiaria o Mensalão se ele ajudasse a abolir a escravidão?

O que pode parecer um simples pergunta baseada em suposições históricas na verdade é um fato histórico narrado no filme “Lincoln”, de Steven Spielberg, que esteve em cartaz no Brasil: a aprovação da lei que proibia a escravidão nos EUA de fato demandou a compra de parlamentares com cargos. Não que eu particularmente deseje fazer a peripécia de Lula e de seu partido parecer menos condenável – já digo isso antes que essa ideia ridícula possa nascer nas cabeças menos voluntariosas (ou nas mais maquiavélicas). Na verdade, desejo lembrar que em questão de moralidade, nunca há mal que é sempre mal e nunca há bem que é sempre bem. Não existe uma linha que separa o bem do mal, tal como uma folha de papel metade branca e metade preta com uma linha de interface perfeitamente distinta, mas sim uma infinidade de tons de cinza entre as duas extremidades (opa, não me refiro aos livros sobre sexo). E assim como nas ilusões de ótica, o cinza pode parecer quase branco quando ao redor de uma figura preta, e parecer quase preto quando ao redor do branco, numa “ilusão moral” um mesmo ato pode parecer perfeitamente bom em alguns contextos e ruim em outros.

Nossas mentes simplicistas procuram classificar tudo como bom ou mau de maneira dicotômica e por vezes até dogmática – se X é errado, então X não pode ser considerado certo jamais e nem podemos discutir o assunto. Isso sem sombra de dúvidas facilita o debate e dispensa o ato de pensar e refletir, mas definitivamente não é a maneira mais adequada de pensar, pois a realidade não é dicotômica. Sim, sempre haverão aqueles que levarão até o limite e tentarão fazer seus crimes parecerem lindos contos de fada ou até quem sabe o duro desfecho de uma série de fatos que só podia ser concluída de uma única e inevitável maneira. Mas isso não faz que seja menos certo pensar de outra forma, pois estaríamos praticamente alegando que seríamos incapazes de julgar cada caso com sabedoria e de saber distinguir até onde vai a retórica viciada de alguém que quer escapar da punição por seus crimes.

O filme Lincoln, entretanto, não propõe esse debate, já que o Mensalão não é um evento muito conhecido nos EUA (que estão se lixando para nossos problemas políticos). Mas quando um brasileiro assiste ao filme, ele pode perfeitamente aplicá-lo ao nosso contexto e se perguntar se em certos casos o Mensalão seria moralmente aprovável. Afinal de contas, o Mensalão Republicano envolvia a compra de parlamentares com cargos, o que significa literalmente uso de dinheiro público para interesses do partido. Não há diferenças muito significativas, pelo menos não no aspecto técnico, entre a realidade americana e a brasileira. Isso foi literalmente o tal do “emparelhamento do Estado” que tanto se fala por aqui. Mais do que isso, poderíamos nos perguntar se o certo seria punir eles mesmo sua postura não sendo moralmente condenável já que o exemplo poderia ser seguido para praticar o mal.

E quem quiser ver um filme que propõe um debate do tipo, apesar de não muito convincente, é o filme Watchmen (que inspirou meus textos da série WatchGOD). Na tentativa de evitar uma eminente guerra nuclear decorrente de um caminho alternativo no qual se desenrolou a Guerra Fria, o “vilão” do filme destrói algumas das maiores cidades do mundo, dizimando todos seus habitantes, e coloca a culpa sobre um super-herói conhecido em todo o planeta, o Dr. Manhattan. No contexto de Guerra Fria, isso significou uma dissolução instantânea das tensões e uma união dos países em conflito pelo bem comum de eliminar o Dr. Manhattan. Quando questionado porque fizera isso, Veidt responde: “matei milhões para salvar bilhões.” Acho que ninguém comprometido com a razão seria capaz de condená-lo antes de ponderar a questão cuidadosamente.

Enfim, abaixo um pequeno review do filme, para quem se interessou mais sobre esse capítulo da história americana.

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Título: Filme Lincoln faz lembrar compra de votos do mensalão
Autor: João Ozorio de Melo
Publicado Originalmente em: Revista Consultor Jurídico (13/01/2013)
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Lincoln, o filme produzido e dirigido por Steven Spielberg, terá um sabor especial para os brasileiros. As salas de cinemas do Brasil serão tomadas por uma impressão de déjà vu: a principal trama da história é um esquema de “compra” de votos de parlamentares para aprovar a 13ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, a da abolição da escravatura. O filme, para os críticos de cinema americanos e ingleses, descreve as habilidades políticas de um grande presidente americano. Para uma audiência brasileira, será impossível deixar de sentir um cheiro de “mensalão”.

O filme se baseou, em parte, na biografia de Lincoln, escrita por Doris Kearns, Time de Rivais: o Gênio Político de Abraham Lincoln (The Political Genius of Abraham Lincoln). Toda a trama se desenrola nos meses finais do primeiro mandato do 16º presidente dos EUA, Abraham Lincoln, então já reeleito para um segundo mandato. A Guerra Civil americana, que se iniciou com o primeiro mandato de Lincoln, se aproxima do fim, com uma evidente vitória da União, abolicionista, sobre os 11 estados antiabolicionistas e, consequentemente, separatistas. A União já sabe que os confederados, praticamente derrotados, estão prontos para se render e assinar o tratado de paz. Essa visão é comemorada pelos políticos da União, que querem o fim imediato da guerra sangrenta e partir para o segundo projeto do governo, o de reintegrar o país.

Porém, a visão de Lincoln é mais ampla do que a de seus aliados. Ele percebe que o fim da guerra também significa o fim de seu projeto político principal, o de abolir a escravatura no país. Ele entende que sua Proclamação da Emancipação dos escravos, assinada em 1863, só é respeitada pelos estados confederados por força da guerra — ou do poder que lhe confere a guerra. Assinado o tratado de paz, os estados contrários ao abolicionismo podem voltar a explorar a escravatura, porque ele não dispõe de nenhum mecanismo jurídico (nem belicoso) para obrigá-los a aceitar a emancipação dos escravos. O único recurso é aprovar a emenda constitucional, antes da declaração do fim da Guerra Civil.

Mas as dificuldades para conseguir a aprovação da emenda são enormes — impossíveis de serem vencidas na opinião de assessores e políticos mais próximos de Lincoln.

São necessários os votos de dois terços dos parlamentares para aprovar o projeto. E, apesar do Partido Republicano de Lincoln, maioria no Congresso, estar praticamente fechado com ele, faltam 20 votos. Enfim, para aprovar a emenda até o final de janeiro de 1865, antes do final da legislatura, é necessário conseguir esses votos dentro da oposição, o Partido Democrata, que é contrário ao abolicionismo.

Para assegurar todos os votos republicanos e conseguir negociar com democratas, Lincoln conta com um poderoso aliado, o fundador do Partido Republicano, Francis Preston Blair. Porém Blair, só tem uma vontade na vida: iniciar negociações de paz com os confederados e por fim à guerra civil. Em troca do indispensável suporte declarado de Blair à emenda da abolição da escravatura, Lincoln o autoriza a iniciar as negociações de paz.

Mas isso traz duas complicações para o projeto de Lincoln: o tempo passa a urgir; e para os republicanos radicais é um contrassenso terminar a guerra sem abolir a escravatura, porque, afinal, um dos principais motivos da guerra foi a abolição da escravatura. Um anúncio do fim da guerra irá anular os esforços para aprovar a emenda.

A saída é aprovar a emenda, de qualquer maneira, antes que uma iminente assinatura de tratado de paz se torne pública. E isso terá de ser feito com a ajuda de democratas que concordem em votar contra a orientação de seu partido. E um plano é arquitetado: negociar a adesão dos lame ducks, parlamentares (no caso, democratas) que estavam em fim de mandato, porque não foram reeleitos. Afinal, eles não precisam se explicar com seus eleitores, porque, de qualquer forma, já foram excluídos da carreira política, por falta de votos nas eleições parlamentares do ano anterior.

Ainda há resistência de políticos mais próximos a Lincoln, que preferiam voltar a submeter a emenda à próxima Legislatura, mas o presidente dá um murro na mesa e anuncia que a emenda vai à votação. Agora é correr contra o relógio.

O secretário de Estado William Seward, o homem que mais compartilha o dia a dia com o presidente, assume o comando da operação. Lincoln e Seward consideram inapropriado oferecer dinheiro, em moeda corrente, aos parlamentares. Decidem oferecer cargos no governo que vai se instalar com a posse de Lincoln para o segundo mandato (o que significaria renda mensal). O secretário contrata três agentes experimentados em lidar com parlamentares, que passam a fazer todos os tipos de manobras para contatar e negociar favores com os parlamentares, em troca de seus votos. Lincoln também contata parlamentares, mas com estratégias racionais, como a de explicar a importância do abolicionismo para os EUA, e emocionais.

O trabalho dos agentes, sob a supervisão do secretário de estado, é uma das partes mais interessantes — e divertidas — do filme, pela criatividade deles e pelas formas que observam e abordam cada parlamentar na mira do suborno. Eles acompanham os debates no Congresso de olho na reação dos parlamentares-alvo, a cada discurso, a cada aplauso ou protesto. Aos poucos, Lincoln, seu secretário de Estado e os agentes vão fazendo a contagem regressiva. “Só faltam 13 votos”…

Finalmente chega o dia da votação, os votos estão razoavelmente contados, mas ninguém sabe exatamente o que esperar de uns poucos indecisos. Não dá para afirmar se a emenda vai passar ou não.

A minutos do início da votação, outro problema. Chega a notícia de que representantes dos confederados estão em Washington para assinar o tratado de paz. Há um rebuliço no Congresso e a maioria decide suspender a votação. Três colaboradores correm até a Casa Branca levando um bilhete com a notícia a Lincoln. O presidente escreve rapidamente uma carta ao Congresso, dizendo: “Eu não sei da presença de confederados em Washington”. Isso é verdade. Ele sabia que os Confederados estavam chegando para o tratado de paz, mas lhes enviou uma ordem, por teletipo, para que ficassem fora da cidade, até que a emenda fosse votada.

Há gritaria, protestos. Mas a votação se inicia, finalmente, com grande ansiedade dentro do Congresso, no gabinete de Lincoln, nos quarteis militares, que acompanham a votação, e nas ruas. Com todo o suspense que Spielberg tem direito, apesar de a história ser conhecida, Lincoln ganha a votação com dois votos a mais do que o necessário — um dos quais de um deputado que declarou pessoalmente a Lincoln que jamais votaria a favor do abolicionismo.

O filme termina com o discurso de posse de Lincoln para o seu segundo mandato.

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João Ozorio de Melo é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

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Sobre o Humanismo e sua relação com o Mitologismo

No último post, eu apresentei um resumo do capítulo 6 do livro Jesus Existiu? de Bart Ehrman apresentando o conceito de Mitologismo e rebatendo as principais críticas a ele como um argumento. Mas ele não é passível de crítica como ideia, mas também como comportamento, uma vez que é contraproducente para o debate. Ehrman lembra que muitos humanistas caem na armadilha do Mitologismo e acabam agindo contra seus próprios interesses ao incluir um argumento tão duvidoso em sua agenda.

Para complementar o que já havia sido dito e explorar essa relação com o humanismo, trago a vocês dois textos de Bart Ehrman traduzidos por mim mesmo. O primeiro é um artigo do historiador para o Huffington Post divulgando o seu livro Jesus Existiu? e o segundo é a conclusão do referido livro.

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Título Original: Did Jesus Exist? (Artigo)
Autor: Bart Ehrman
Publicado Originalmente em: Huffington Post (20/03/2012)
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani (Bruno Almeida)
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Em uma sociedade na qual as pessoas ainda afirmam que o Holocausto não aconteceu, e na qual há reclamações contundentes de que o presidente americano é, na verdade, um muçulmano nascido em solo estrangeiro, não é nenhuma surpresa descobrir que a maior figura da história da civilização ocidental, o homem sobre o qual a mais poderosa e influente instituição social, política, econômica, cultural e religiosa do mundo – a igreja cristã – foi construída, o homem adorado, literalmente, por bilhões de pessoas hoje em dia – é alguma surpresa ouvir que Jesus nunca existiu realmente?

Essa é a afirmação feita por um grupo pequeno mas crescente de escritores (publicados), blogueiros e viciados em Internet que se chamam mitologistas. Este grupo extraordinariamente vociferante de negadores sustenta que Jesus é um mito inventado para propósitos nefastos (ou altruístas) pelos primeiros cristãos que modelaram seu salvador nos moldes dos deuses pagãos que, alega-se, também nasceram de uma virgem em 25 de dezembro, também fizeram milagres, também morreram como expiação pelo pecado e foram, então, ressuscitados dos mortos.

Poucos destes mitologistas são realmente estudiosos formados em história antiga, religião, estudos bíblicos ou qualquer campo cognato, sem falar nas línguas antigas geralmente importantes para aqueles que querem dizer alguma coisa com algum grau de autoridade sobre um professor judeu que (supostamente) viveu na Palestina do primeiro século. Existem algumas exceções: das centenas – milhares? – dos mitologistas, dois (que eu saiba) realmente têm Ph.D. em áreas relevantes do estudo. Mas mesmo tendo isso em conta, não há um único mitologista que ensina o Novo Testamento ou o cristianismo antigo ou mesmo Clássicos em qualquer instituição acreditada de ensino superior no mundo ocidental. E não é de admirar. Estes pontos de vista são tão extremos e tão pouco convincentes a 99,99 por cento dos verdadeiros especialistas que alguém que os defenda possui a mesma probabilidade de conseguir um emprego em um departamento de ensino de religião bem estabelecido que um criacionista dos seis dias tem de aterrizar em um departamento de biologia de boa fé.

Por que então o movimento mitologista está crescendo, com defensores tão confiantes de seus pontos de vista e de sua denúncia da ideia de radical que Jesus não existiu realmente? Isso acontece, em grande parte, porque esses negadores de Jesus são ao mesmo tempo denunciantes da religião – uma raça de humanos agora muito em voga. E que melhor maneira de difamar os pontos de vista religiosos da grande maioria das pessoas religiosas no mundo ocidental que se mantém, apesar de tudo, predominantemente cristãs, que a alegação de que o fundador histórico de sua religião era na verdade o produto da imaginação de seus seguidores?

A visão, no entanto, tropeça nas suas próprias premissas. A realidade – triste ou salutar – é que Jesus era real. E esse é o tema de meu novo livro, “Jesus existiu?”

É verdade que Jesus não é mencionado em nenhuma fonte romana de sua época. No entanto, isso dificilmente deveria contar contra sua existência, uma vez que estas mesmas fontes não mencionam quase ninguém de seu tempo e lugar. Nem mesmo o famoso historiador judeu, Josefo, ou ainda a figura mais notável, mais importante e poderosa de sua época, Pôncio Pilatos.

Também é verdade que as nossas melhores fontes sobre Jesus, os Evangelhos iniciais, estão cheias de problemas. Eles foram escritos décadas após a vida de Jesus por autores tendenciosas que estão em desacordo uns com os outros em detalhes implícitos e explícitos. Mas os historiadores nunca podem descartar fontes simplesmente porque elas são tendenciosas. Você não pode confiar nos relatos de Rush Limbaugh sobre Sandra Fluke, mas eles certamente fornecem evidências de que ela existe.

A pergunta não é se as fontes são tendenciosas, mas se fontes tendenciosas podem ser usadas para produzir informação histórica confiável, uma vez que seu enviesamento é separado do núcleo histórico. E os historiadores têm buscado formas de fazer isso.

Com relação a Jesus, temos numerosos relatos independentes de sua vida nas fontes por trás dos Evangelhos (e nos escritos de Paulo) – fontes escritas na língua nativa de Jesus, o aramaico, e que podem ser datados dentro de apenas um ano ou dois de sua vida (antes da religião começar a converter pagãos em massa). Fontes históricas como essas são bastante surpreendentes para uma antiga figura de qualquer tipo. Além disso, temos escritos relativamente extensos de um autor do primeiro século, Paulo, que adquiriu a sua informação sobre a vida de Jesus e que realmente conhecia, em primeira mão, o discípulo mais próximo de Jesus, Pedro, e seu irmão James. Se Jesus não existiu, é de se esperar que seu irmão soubesse.

Além disso, a afirmação de que Jesus foi simplesmente construído vacila em qualquer terreno. Os paralelos alegados entre Jesus e os deuses-salvadores “pagãos” na maioria dos casos residem no imaginário moderno: Nós não temos relatos de outros deuses que nasceram de mães virgens e que morreram como expiação pelo pecado e, em seguida, foram ressuscitados dos mortos (apesar dos sensacionalistas afirmarem isso ad nauseum em suas versões propagandeadas).

Além disso, aspectos da história de Jesus simplesmente não teriam sido inventados por quem deseja fazer um novo Salvador. Os primeiros seguidores de Jesus declararam que ele era um Messias crucificado. Mas antes do cristianismo, não havia nenhum judeu sequer, de qualquer espécie, que pensava que haveria um futuro messias crucificado. O Messias era para ser uma figura de grandeza e poder que derrubaria o inimigo. Qualquer um que queria fazer-se um messias faria assim. Por que os cristãos não fizeram? Porque acreditavam especificamente que Jesus era o Messias. E eles sabiam muito bem que ele foi crucificado. Os cristãos não inventaram Jesus. Eles inventaram a idéia de que o Messias tinha de ser crucificado.

Pode-se também fazer a escolha de ressoar com as preocupações dos nossos desprezadores culturais modernos e pós-modernos da religião estabelecida (ou não). Mas certamente a melhor maneira de promover qualquer agenda como essa não é negar o que praticamente todo historiador sadio sobre o planeta – cristãos, judeus, muçulmanos, agnósticos, pagãos, ateus – concluiu com base em uma série de evidência histórica convincente.

Quer queiramos ou não, Jesus certamente existiu.

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Título Original: Conclusion (Capítulo de Conclusão)
Autor: Bart Ehrman
Publicado Originalmente em: Did Jesus Exist? (2012)
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani (Bruno Almeida)
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Jesus e os Mitologistas

Em abril passado, fui homenageado no encontro nacional da Associação Humanista Americana, onde recebi o Prêmio de Liberdade Religiosa. Eu estava apenas vagamente consciente da associação antes de participar deste encontro em Cambridge, Massachusetts. Quatrocentos ou quinhentos humanistas se reúnem a cada ano para discutir questões de interesse mútuo, participando de sessões e workshops sobre questões relacionadas com a necessidade de promover os objetivos e ideais humanistas em toda a sociedade. O grupo utiliza o termo humanista com um sentido positivo. Eles celebram o que há de bom em ser humano. Contudo, uma implicação negativa corre abaixo da superfície da auto-descrição mas está sobre a superfície das reuniões da assembleia e de quase todas as conversas acontecendo lá. Esta é uma celebração do ser humano sem Deus. Humanismo é entendido como uma negação ao teísmo. Esta é uma reunião de descrentes que acreditam no poder da humanidade para tornar a sociedade e a vida individual felizes, realizantes, com êxito, e significativas. E o grupo é composto quase exclusivamente de agnósticos e ateus.

Mesmo que anteriormente eu tivesse estado no escuro sobre o grupo e seus objetivos, eu concordo completamente com seus ideais. Eu mesmo sou um agnóstico, e eu certamente acredito que é desejável e possível ter uma vida feliz, plena e significativa sem a fé cristã ou qualquer outro tipo de fé. Acho que eu sou um testemunho vivo para essa possibilidade. Minha vida é absolutamente fantástica, e eu não poderia desejar nada melhor, que não seja mais do mesmo.

Mas o que mais me impressionou sobre o encontro foi precisamente o quão religioso ele era. Todo ano eu participo das reuniões da Sociedade de Literatura Bíblica, conferências sobre primeiros estudos cristãos, e afins. Eu nunca, na minha lembrança, fui a uma reunião que estava tão cheia de conversa sobre religião pessoal como a Associação Humanista Americana, um grupo dedicado à vida sem religião.

Suponho que havia muita conversa sobre a crença religiosa porque é quase impossível na nossa sociedade falar sobre significado e realização sem referência à religião, e humanistas sentem a necessidade de colocarem a si mesmos contra o discurso dominante. E assim em suas reuniões anuais encontram-se workshops e sessões que tratam de questões como a forma de falar com a família quando se abandona a fé, como lidar com a religião nas escolas (oração da escola, o criacionismo, e assim por diante), como exercer a prática da meditação fora das estruturas religiosas (por exemplo, budista), e assim por diante. Tudo isso situa o humanismo em relação a outra coisa, como é evidente, bem como quando humanistas descrevem suas crenças pessoais em termos negativos: “agnosticismo” (aquele que não sabe se há um Deus) ou “ateísmo” (aquele que não acredita em Deus). Mesmo a auto-descrição da associação em seu site envolve um contraste com os outros na sociedade: “O Humanismo é uma filosofia progressiva da vida que, sem o teísmo e outras crenças sobrenaturais, afirma nossa capacidade e responsabilidade de conduzir vidas éticas de realização pessoal que aspiram ao bem maior da humanidade.”

Da mesma forma que fiquei surpreso na reunião de humanistas em ouvir tanto sobre a religião, eu não fiquei surpreso ao saber que um bom número das pessoas de lá — pelo menos aquelas com quem eu conversei — são ou mitologistas ou estão se inclinando para o mitologismo. Seus autores favoritos são figuras como Robert Price, Earl Doherty, e alguns dos outros que mencionei nestas páginas. E muitos deles ficaram completamente surpreendidos quando souberam que eu tenho uma visão diferente, que eu acho que certamente havia um Jesus de Nazaré, que existiu na história, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e de quem se pode dizer que muitas coisas como uma figura histórica.

O Problema com o Jesus Histórico

No meu ponto de vista os mitologistas estão, ironicamente, fazendo um desserviço aos humanistas para quem estão escrevendo. Ao demarcar uma posição que não é aceita por quase ninguém, eles se abrem ao escárnio e a acusações de desonestidade intelectual. Mas para realizar seus objetivos (sobre os quais eu vou dizer mais em breve), isto é completamente desnecessário. Claro que para mitologistas, não posso deixar de dizer, a crença em Jesus é um problema. Mas o problema real com Jesus não é que ele é um mito inventado pelos primeiros cristãos, isto é, que ele nunca apareceu como uma figura real no palco da história. O problema com Jesus é justamente o oposto. Como Albert Schweitzer percebeu há muito tempo, o problema com o Jesus histórico é que ele era muito histórico.

A maioria dos televangelistas, populares ícones pregadores cristãos, e chefes dessas empresas que chamamos de megaigrejas compartilham uma visão moderna irrefletida de Jesus — que ele se traduz de forma fácil e quase que automática em uma linguagem moderna. O fato é, porém, que Jesus não era uma pessoa do século XXI, que falava a linguagem do cristão contemporâneo da América (ou da Inglaterra ou da Alemanha ou de qualquer outro lugar). Jesus era necessária e inevitavelmente um judeu que vivia na Palestina do primeiro século. Ele não era como nós, e se fizermos dele como nós, transformamos o Jesus histórico em uma criatura que nós inventamos para nós mesmos e para nossos próprios fins.

Jesus não se reconheceria na pregação da maioria de seus seguidores hoje. Ele não sabia nada sobre o nosso mundo. Ele não era um capitalista. Ele não acreditava na livre empresa. Ele não apoiava a aquisição de riqueza ou das coisas boas da vida. Ele não acreditava na educação massiva. Ele nunca tinha ouvido falar de democracia. Ele não tinha nada a ver com ir à igreja no domingo. Ele não sabia nada da segurança social, vale-alimentação, bem-estar, excepcionalismo americano, os números do desemprego, ou da imigração. Ele não tinha posição sobre a reforma tributária, sobre planos de saúde (além de querer curar a lepra), ou sobre o estado do bem-estar. Até onde sabemos, ele não expressou nenhuma opinião sobre as questões éticas que nos afligem hoje: aborto e direitos reprodutivos, o casamento gay, eutanásia, ou o bombardeio do Iraque. Seu mundo não era o nosso, suas preocupações não eram as nossos e, acima de tudo, suas crenças não eram as nossas.

Jesus era um judeu do primeiro século, e quando tentamos fazer dele um americano do século XXI, distorcemos tudo o que ele foi e tudo o que ele representava. O próprio Jesus era um sobrenaturalista completo. Ele acreditava no Diabo e em demônios e que as forças do mal operam neste mundo. Ele sabia pouco — possivelmente, quase nada — sobre o funcionamento do Império Romano. Mas o pouco que sabia, ele considerou mal. Ele pode ter considerado todos os governos injustos a menos que fosse uma (futura) teocracia a ser comandada pelo próprio Deus através de seu messias. Ele certamente não era defensor de nossos pontos de vista políticos, quaisquer que eles estejam.

Essas forças do mal estavam exercendo seu controle sobre o mundo com veemência crescente. Mas Jesus pensou que Deus iria intervir em breve e destruir todos eles para trazer seu reino de bem na terra. Isso não viria do esforço humano – expansão da democracia, construção da defesa nacional, melhoria do sistema educacional, vencer a guerra contra as drogas, e assim por diante. O esforço humano não contava para nada. Isso viria de Deus, quando ele enviasse um juiz cósmico para destruir a atual ordem e estabelecer o reino de Deus aqui na terra. Isso não era uma metáfora para Jesus. Ele acreditava que ia acontecer. E acontecer em breve. Dentro de alguns anos.

Jesus estava enganado sobre isso. Ele estava confundido sobre um monte de coisas. As pessoas não querem ouvir isso, mas é verdade. Jesus era um homem de seu tempo. E assim como todos os homens e mulheres de seu tempo estavam errado sobre muitas coisas, assim também era Jesus. E assim também somos nós.

O problema então com Jesus é que ele não pode ser removido do seu tempo e transplantado para o nosso próprio, sem simplesmente recriá-lo. Quando nós criamos ele de novo, nós já não temos mais o Jesus da história mas o Jesus da nossa própria imaginação, uma invenção monstruosa criada para servir aos nossos próprios fins. Mas Jesus não é transportado e transformado tão facilmente. Ele é fortemente resistente. Ele permanece sempre em seu próprio tempo. À medida que modismos sobre Jesus vêm e vão, que novos Jesuses são inventados e depois esquecidos, que Jesuses mais novos vêm para tomar o lugar do velho, o verdadeiro e histórico Jesus continua a existir, lá no passado, o profeta apocalíptico que esperava que uma ruptura cataclísmica iria ocorrer dentro de sua geração e que Deus iria destruir as forças do mal, instituir seu reino, e instalar o próprio Jesus no trono. Este é o Jesus histórico. E ele é, obviamente, muito histórico para o gosto moderno. É por isso que muitos cristãos de hoje tentam reformá-lo.

A Agenda Mitologista

No meu ponto de vista, humanistas, agnósticos, ateus, mitologistas, e qualquer outra pessoa que não defende a crença em Jesus faria melhor se destacasse que o Jesus da história não é o Jesus do Cristianismo moderno ao invés de insistir — de forma errada e contraprodutiva — que Jesus nunca existiu. Jesus existiu. Ele simplesmente não era a pessoa que os crentes mais modernos hoje pensam que ele era.

Por que então mitologistas afirmam que ele não existiu? Eu não estou pedindo que os mitologistas ofereçam provas para a não-existência de Jesus. Eu já considerei a evidência e mostrei por que é problemática. Eu estou pedindo pela questão mais profunda: O que está impulsionando a agenda dos mitologistas? Por que trabalham tão duro para mostrar que Jesus nunca viveu realmente? Eu não tenho uma resposta definitiva para essa pergunta, mas eu tenho um palpite.

Não é por acaso que quase todos os mitologistas (na verdade, todos eles, a meu conhecimento) são ou ateus ou agnósticos. Os que eu conheço alguma coisa a respeito são ateus bastante virulentos, mesmo militantes. Na superfície, pode fazer sentido: quem mais poderia querer mostrar que Jesus nunca existiu? Mas quando você pensa sobre isso por um momento, isso não é inteiramente lógico. Saber se Jesus existiu é completamente irrelevante para a questão de saber se Deus existe ou não. (NdoT: A existência do Jesus Divino é bastante relevante para a discussão da existência de Deus, uma vez que o cristianismo criou uma forte relação de co-dependência entre seus conceitos. Mas a existência (ou não) de um Jesus histórico não diz muita coisa sobre o assunto. Acredito que seja isso que Ehrman quis dizer.) Então, por que os virulentos ateus (ou agnósticos) desejam tanto mostrar que Jesus não existiu?

É importante perceber o fato óbvio de que todos os mitologistas vivem em um mundo cristão no qual o cristianismo é a religião escolhida pela grande maioria da população. É claro que temos um grande número de judeus e muçulmanos entre nós, além de budistas, hindus, e pessoas de outras tradições de fé espalhadas em nossa cultura. Mas em geral, as pessoas avidamente religiosas que encontramos são cristãs. E mitologistas são avidamente anti-religiosos. Para desmistificar a religião, então, é preciso minar especificamente a forma cristã de religião. E qual o caminho mais fácil disponível para minar o cristianismo do que afirmar que a figura no centro do culto e devoção cristãos nunca existiu, mas que foi inventada, composta, criada? Se o cristianismo é baseado em Jesus, e Jesus nunca existiu, onde isso deixa a religião de bilhões de população do mundo? Isso deixa em total desordem, pelo menos no pensamento dos mitologistas. (Pode-se facilmente argumentar que o cristianismo iria sobreviver muito bem sem a figura histórica de Jesus, mas que seria uma história diferente e um livro diferente.)

O que isto significa é que, ironicamente, assim como os humanistas seculares gastam tanto tempo em suas reuniões anuais falando sobre religião, assim também os mitologistas que são tão empenhados em mostrar que o Jesus histórico nunca existiu não estão sendo levados por um interesse histórico. A agenda deles é religiosa, e eles são cúmplices de uma ideologia religiosa. Eles não estão fazendo história; eles estão fazendo teologia.

Para ter certeza, eles estão fazendo a sua teologia a fim de se opor à religião tradicional. Mas a oposição é impulsionada não por preocupações históricas, mas por preocupações religiosas.

Mas por que mitologistas seriam tão violentamente contra a religião tradicional? Minha sensação é que é porque eles acreditam que o cristianismo histórico—a forma de religião mais conhecida nos ambientes mitologistas—tem feito e continua a fazer mais mal do que bem ao mundo. Eles olham para os nossos sistemas de ensino e veem cristãos fervorosos trabalhando duro para promover a ignorância sobre o conhecimento, por exemplo, na insistência de que a evolução é apenas uma teoria e que o criacionismo deveria ser ensinado nas escolas. Eles olham para a nossa sociedade e veem o incrível dano que a religião fez a vidas humanas: desde o patrocínio da escravidão até a recusa de concessão de direitos reprodutivos às mulheres e a negação da possibilidade do amor e do casamento gay. Eles olham para a cena política e veem o poder político terrível que a direita religiosa produz: desde impor certos conjuntos de crenças religiosas em nossa sociedade ou em nossas escolas até eleger apenas as figuras políticas que apoiam certas agendas religiosas, não importa o quanto eles possam ser odiosas para outros seres humanos (pobres, ou não-americanos) e o quanto elas possam ser ignorantes sobre o mundo em geral.

Eu tenho que admitir que tenho uma boa dose de simpatia com estas preocupações. Mas eu também sou um historiador que pensa que é importante não promover versões revisionistas do passado por razões ideológicas arraigadas em agendas não-históricas. A escrita da história deve ser feita seguindo rigorosos protocolos históricos. Não é simplesmente um meio de promover um conjunto de gostos e desgostos pessoais.

Também devo dizer que mesmo que eu de fato compartilhe alguns dos vieses de muitos dos mitologistas quando se trata do dano que tem sido feito ao longo dos anos em nome de Cristo (e não apenas em cruzadas e inquisições, mas em nossa própria sociedade, aqui e agora), vejo também que uma quantidade enorme de bem tem sido feito em seu nome, e continua a ser feito, por cristãos bem-intencionados e trabalhadores, homens e mulheres que fazem bem incalculável no mundo, tanto em escalas em massa quanto individuais.

Mas nenhum lado—o bem feito em nome de Cristo ou o mal—será de alguma relevância para mim como historiador quando eu tentar reconstruir o que realmente aconteceu no passado. Eu me recuso a sacrificar o passado a fim de promover uma causa digna de minhas próprias agendas sociais e políticas. E ninguém mais deveria também. Jesus existiu, quer queiramos ou não.

O Caso de Aaron Swartz

Aaron Swartz, um jovem gênio da informática de 26 anos, suicidou-se em seu apartamento em Nova Iorque recentemente. O motivo? Estava sendo processado por violar direitos autorais ao invadir um servidor de artigos acadêmicos e distribui-los livremente. Swartz era um entusiasta da internet 100% livre e morre como candidato a mártir da causa. Abaixo, um artigo da Eliane Brum sobre o assunto para a Revista Época que fez certo sucesso. Quem se interessar pode clicar nos links no corpo do texto (todos dela mesma ou da editora) e saber mais do assunto.

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Título Original: Perdão, Aaron Swartz
Autor: Eliane Brum
Publicado Originalmente em: Revista Época (21/01/2013)
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A morte de um gênio da internet, aos 26 anos, é um marco trágico do nosso tempo. É hora de pensar sobre nossas ações – ou omissões.

Eu sinto fortemente que não é suficiente simplesmente viver no mundo como ele é e fazer o que os adultos disseram que você deve fazer, ou o que a sociedade diz que você deve fazer. Eu acredito que você deve sempre estar se questionando. Eu levo muito a sério essa atitude científica de que tudo o que você aprende é provisório, tudo é aberto ao questionamento e à refutação. O mesmo se aplica à sociedade. Eu cresci e através de um lento processo percebi que o discurso de que nada pode ser mudado e que as coisas são naturalmente como são é falso. Elas não são naturais. As coisas podem ser mudadas. E mais importante: há coisas que são erradas e devem ser mudadas. Depois que percebi isso, não havia como voltar atrás. Eu não poderia me enganar e dizer: “Ok, agora vou trabalhar para uma empresa”. Depois que percebi que havia problemas fundamentais que eu poderia enfrentar, eu não podia mais esquecer disso.

Aaron Swartz tinha 22 anos quando explicou por que fazia o que fazia, era quem era. Aos 26, ele está morto. Foi encontrado enforcado em seu apartamento de Nova York na sexta-feira, 11 de janeiro. Provável suicídio. Talvez a maioria não o conheça, mas Aaron está presente na nossa vida cotidiana há bastante tempo. Desde os 14anos, ele trabalha criando ferramentas, programas e organizações na internet. E, de algum modo, em algum momento, quem usa a rede foi beneficiado por algo que ele fez. Isso significa que, aos 26 anos, Aaron já tinha trabalhado praticamente metade da sua vida. E, nesta metade ele participou da criação do RSS (que nos permite receber atualizações do conteúdo de sites e blogs de que gostamos), do Reddit (plataforma aberta em que se pode votar em histórias e discussões importantes), e do Creative Commons (licença que libera conteúdos sem a cobrança de alguns direitos por parte dos autores). Mas não só. A grande luta de Aaron, como fica explícito no depoimento que abre esta coluna, era uma luta política: ele queria mudar o mundo e acreditava que era possível.

E queria mudar o mundo como alguém da sua geração vislumbra mudar o mundo: dando acesso livre ao conhecimento acumulado da humanidade pela internet. E também usando a rede para fiscalizar o poder e conquistar avanços nas políticas públicas. Movido por esse desejo, Aaron ajudou a criar o Watchdog, website que permite a criação de petições públicas; a Open Library, espécie de biblioteca universal, com o objetivo de ter uma página na web para cada livro já publicado no mundo; e o Demand Progress, plataforma para obter conquistas em políticas públicas para pessoas comuns, através de campanhas online, contato com congressistas e advocacia em causas coletivas. Em 2008, lançou um manifesto no qual dizia: “A informação é poder. Mas tal como acontece com todo o poder, há aqueles que querem guardá-lo para si”.

Indignado com a passividade dos acadêmicos diante do controle da informação por grandes corporações, ele conclamava a todos para lutar juntos contra o que chamava de “privatização do conhecimento”. Baixou milhões de arquivos do judiciário americano, cujo acesso era cobrado, apesar de os documentos serem públicos. Chegou a ser investigado pelo FBI, mas sem consequências jurídicas. Em 2011, porém, Aaron foi alcançado.

>> O risco de criar um mártir da pirataria

Em alguns dias, ele baixou 4,8 milhões de artigos acadêmicos de um banco de dados chamado JSTOR, cujo acesso é pago pelas universidades e instituições. Aaron usou a rede do conceituado MIT (Massachusets Institute of Technology) para acessar o banco de dados, fazendo download de muitos documentos ao mesmo tempo, o que era – é importante ressaltar – permitido pelo sistema. Não se sabe o que ele faria com os documentos, possivelmente dar-lhes livre acesso. Mas, se era esta a intenção, Aaron não chegou a concretizá-la. Ao ser flagrado, ele assegurou que não pretendia lucrar com o ato e devolveu os arquivos copiados para o JSTOR, que extinguiu a ação judicial no plano civil.

Havia, porém, um processo penal: Aaron foi enquadrado nos crimes de fraude eletrônica e obtenção ilegal de informações, entre outros delitos. “Roubo é roubo, não interessa se você usa um computador ou um pé-de-cabra, e se você rouba documentos, dados ou dólares”, afirmou a procuradora dos Estados Unidos em Massachusetts, Carmen Ortiz (United StatesAttorney). Aaron seria julgado em abril. E, se fosse acatado o pedido da acusação, esta seria a sua punição: 35 anos de prisão e uma multa de 1 milhão de dólares.

Aaron Swartz morreu antes, aos 26 anos. E, como disse Kevin Poulsen, na Wired: “O mundo é roubado em meio século de todas as coisas que nós nem podemos imaginar que Aaron realizaria com o resto da sua vida”. Na The Economist, ele assim foi descrito: “Chamar Aaron Swartz de talentoso seria pouco. No que se refere à internet, ele era o talento”. Susan Crawford, que foi conselheira de tecnologia do governo de Barack Obama, afirmou, como conta John Schwartz, no The New York Times: “Aaron construiu coisas novas e surpreendentes, que mudaram o fluxo da informação ao redor do mundo”. E, acrescentou: “Ele era um prodígio complicado”.

Li em vários artigos que Aaron seria depressivo. Em alguns textos, a suposta depressão foi citada como causa de sua decisão, como se a doença pudesse estar isolada – e não associada aos possíveis abusos cometidos contra ele no curso do processo judicial. É evidente que qualquer pessoa, e especialmente se ela for saudável, sofreria com a perspectiva de passar as próximas três décadas na cadeia – mais ainda se isso significasse um tempo superior à toda a sua vida até então. Esta é uma possibilidade capaz de abater até o mais autoconfiante e otimista entre nós, o que não equivale a dizer que todos lidariam com esse pesadelo da mesma forma. Se é perigoso encontrar um culpado para uma escolha tão complexa quanto o suicídio, também é perigoso quando a depressão é vista como algo apartado da vida vivida – e a patologia é colocada a serviço da simplificação. Se as doenças falam do indivíduo, falam também do seu mundo e de seu momento histórico. (leia mais sobre a trajetória de Aaron aqui e aqui.)

Se Aaron Swartz encerrou a própria vida, esta foi a sua decisão. Tornar-se adulto é também bancar as suas escolhas – e, neste sentido, estar só. Digo isso para que a nossa dor não esvazie de protagonismo o último ato de Aaron, o que equivaleria a desrespeitá-lo. Aaron é responsável por sua escolha, por mais que ela possa ser lamentada. E só ele poderia afirmar por que a fez.

Isso não significa, porém, que vários atores do caso judicial que envenenou a vida de Aaron nos últimos dois anos, com aparentes excessos, não precisem também assumir responsabilidades e responder por suas respectivas escolhas.Um dos mentores de Aaron, Larry Lessig (escritor, professor de Direito da Universidade de Harvard, cofundador do Creative Commons) afirmou que ele tinha errado, mas considerou a acusação e a possível punição uma resposta desproporcional ao ato. Logo após a morte de Aaron, escreveu: “(Ele) partiu hoje, levado ao limite pelo que uma sociedade decente só poderia chamar de bullying”.

Colunistas como Glenn Greenwald, do Guardian, acreditam que o processo penal era uma resposta do governo dos Estados Unidos contra o seu ativismo libertário: “Swartz foi destruído por um sistema de ‘justiça’ que dá proteção integral aos criminosos mais ilustres – desde que sejam membros dos grupos mais poderosos do país, ou úteis para estes –, mas que pune sem piedade e com dureza incomparável quem não tem poder e, acima de tudo, aqueles que desafiam o poder”. Em declaração pública, a família afirmou: “A morte de Aaron não é apenas uma tragédia pessoal. É produto de um sistema de justiça criminal repleto de intimidações”. A família também responsabilizou o MIT pelo desfecho.

Em comunicado, o presidente do MIT, L. Rafael Reif, anunciou a abertura de um inquérito interno para apurar a responsabilidade da instituição nos acontecimentos que levaram à morte de Aaron. Reif escreveu: “Eu e todos do MIT estamos extremamente tristes pela morte deste jovem promissor que tocou a vida de tantos. Me dói pensar que o MIT tenha tido algum papel na série de eventos que terminaram em tragédia. (…) Agora é o momento de todos os envolvidos refletirem sobre suas ações, e isso inclui todos nós do MIT”.

É tarde para o MIT, é tarde para nós. Mas, ainda assim, necessário. É importante pensar sobre o significado da tragédia de Aaron Swartz. E, para começar, só o fato de ela poder significar algo para todos, sendo ele um jovem americano encontrado morto num apartamento em Nova York, é bastante revelador desse mundo novo que Aaron ajudava a construir. Esse mundo que nos une em rede, simultaneamente, que faz o longe ficar perto. Nesse contexto, a tragédia de Aaron Schwartz não é apenas um episódio, mas o marco de um momento histórico específico. Nele, diferentes forças econômicas, políticas e culturais se batem para impor ou derrubar barreiras no acesso ao conhecimentona internet. E este é, junto com a questão socioambiental, o maior debate atual. E é ele que está moldando nosso futuro.

Como disse Tatiana de Mello Dias, em seu blog no Estadão, “poucas pessoas traduziram tão bem a época em que nós estamos vivemos quanto Aaron Swartz”. Isso faz com que possamos pensar que sua morte é também, simbolicamente, um fracasso da geração a qual pertenço. Essa geração que testemunhou o nascimento da internet, que está decidindo – na maioria dos casos por omissão – como o conhecimento vai circular dentro dela e que, por ter crescido num mundo sem ela, nem chega a compreender totalmente o que está em jogo. E por isso deixa a geração de Aaron tão só.

Obviamente sou capaz de perceber os poderosos interesses envolvidos nas decisões relacionadas à internet, boa parte deles conduzidos também por gente da geração a qual pertenço. Mas me refiro aqui à passividade de muitos, no exercício da cidadania, diante de um dos debates cruciais do nosso tempo. E aqui vale uma observação: quando se diz que a juventude atual é alienada, que não trava lutas políticas como seus pais e avós, não é também deixar de enxergar o que se passa na internet, a “rua/praça” de uma série de movimentos políticos levados adiante pelos mais jovens? Já não é um tanto estúpido pensar em mundo real/mundo virtual como oposições? Criticar o “ativismo de sofá” dos mais jovens, menosprezando as ações na rede, não seria má fé ou ignorância? Talvez, como pais e adultos desse tempo, parte de nós tenha apenas medo e vergonha daquilo que não compreende. E, em vez de tentar compreender, num comportamento humano tão triste quanto clássico, desqualifica e rechaça. Afinal, literalmente, a internet tirou o chão que acreditávamos existir debaixo dos nossos trêmulos pés. Ou, pelo menos, nos mostrou que não havia nenhum.

Aaron não era apenas um gênio da internet, ainda que essa palavra “gênio” já tenha sido tão abusada. Talvez o maior ato político de Aaron tenha sido o que fez com seu talento. Ele usou-o para lutar pelo acesso livre ao conhecimento, via internet. Isso, em si, já o tornaria perigoso para muitos. Mas há algo que pode ter soado ainda mais imperdoável: Aaron não queria ganhar dinheiro com o seu talento. Ele não era aquilo que as crianças são ensinadas a admirar: um jovem gênio milionário da internet, como Mark Zuckerberg, o criador do Facebook. Aaron Swartz era um jovem gênio que não queria ser milionário. E, convenhamos, nada pode ser mais subversivo do que isso.

Ao ler sobre a morte de Aaron Swartz, lembrei de dois versos. Ao fim ou diante dele, apesar de todos os argumentos, é só a poesia que dá conta da tragédia. Um é do eternamente jovem Rimbaud (1854-1891): “Por delicadeza, perdi minha vida”. E o outro foi escrito por um Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) já velho: “Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer”.

Quando lemos o que Aaron Swartz escreveu, ouvimos o que disse, ele que acreditava tanto em mudar o mundo, é difícil não pensar: por que ele desistiu de nós, ele que acreditava tanto? Que mundo é esse que criamos, onde alguém como Aaron Swartz acredita não caber?

Então, é isso. Ele nos deixou sozinhos no mundo que legamos à sua geração. Entre os tantos feitos admiráveis deixados por Aaron em sua curta trajetória, ao morrer ele deixou também um outro legado: a denúncia do nosso fracasso.

Perdão, Aaron Swartz.

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Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br

A Imprensa e o PT

Transcrevo aqui dois artigos de Eugênio Bucci para a Revista Época sobre o mesmo assunto: as relações entre o PT de Lula e a Imprensa.

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Título Original: A lógica desastrosa de Lula sobre a imprensa
Autor: Eugênio Bucci
Publicado Originalmente em: Revista Época (23/12/2012)
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O julgamento do ex-presidente está baseado em quatro mentiras que só desinformam

Há coisa de dez dias, em Paris, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamou dos jornais. De novo. “Quando político é denunciado, a cara dele sai noite e dia nos jornais”, disse ele. Na sequência, lançou uma acusação baixa contra a imprensa: “Vocês já viram banqueiro nos jornais? São eles que pagam as publicidades da mídia”. Segundo Lula, os anunciantes estão a salvo das reportagens investigativas, pois os repórteres e os editores não têm a dignidade de apurar os fatos e de publicá-los com um grau mínimo de independência crítica.

Claro: os jornalistas de brio, honrados, foram ultrajados por ele. O interessante é que quase ninguém se deu ao trabalho de responder à ofensa. Por que será?

Existe uma explicação. Essa história de político falando mal dos jornais e das revistas já se banalizou. Virou uma epidemia. Lula não é o único, embora seja dos mais reincidentes. Há cerca de dois meses, no final da campanha municipal, em São Paulo, o então candidato a prefeito José Serra (PSDB) deu de acusar os repórteres que formulavam perguntas incômodas (na opinião dele) de ser agentes de “pautas petistas”. Ao desqualificar os profissionais que cumpriam seu dever de perguntar, procurava se esquivar das indagações e, em parte, foi bem-sucedido na manobra. Lula, outra vez, lança mão do mesmo truque. Quando lhe cobram explicações sobre os escândalos de seu partido, investe contra a reportagem. Como ele fala isso a toda hora, seus vitupérios já não chamam a atenção. Deixaram de ser notícia. Daí que os próprios jornalistas não se dão ao trabalho de responder.

Desta vez, porém, uma resposta não pode faltar. O julgamento de Lula está baseado em quatro grandes mentiras, que desinformam a sociedade e podem induzir a enganos desastrosos. Por isso, tratemos de pôr as coisas a limpo.

Primeira mentira. Não é verdade que a imprensa não publica reportagens que incomodam banqueiros. Você, leitor, há de se lembrar. Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos; Luís Octávio Indio da Costa, do Banco Cruzeiro do Sul; Salvatore Cacciola, do Banco Marca; Silvio Santos, do Banco Panamericano; Katia Rabello, do Banco Rural; Ricardo Guimarães, do Banco BMG; entre outros, muitos outros, também se lembram muito bem.

Segunda mentira. Não é verdade que os bancos privados são os maiores anunciantes do Brasil. Segundo um levantamento do anuário Mídia Dados, o Bradesco investiu, em 2011, R$ 905 milhões em publicidade. É muito dinheiro. Mas atenção: a Caixa, que pertence ao governo federal, investiu mais que o Bradesco: R$ 1,092 bilhão. E os dois maiores anunciantes privados do país em 2011 não têm nada a ver com bancos: Casas Bahia (R$ 3,3 bilhões) e Unilever (R$ 2,6 bilhões).

Terceira mentira. Não é verdade que qualquer acusação contra político vira manchete assim sem mais nem menos. A imprensa erra, claro que erra, deve ser criticada com rigor – mas a imprensa não é uma instituição corrupta, vendida. Nos escândalos recentes (mensalão etc.), acertou muito e ajudou a flagrar os bandidos de colarinho branco.

Quarta mentira. Não é verdade que os anunciantes saem sempre bem na foto. Se assim fosse, nenhuma revista, nenhum jornal, ninguém falaria mal dos governos (federal e estaduais), que anunciam bem mais que os banqueiros privados. Já vimos que a Caixa é um anunciante mastodôntico, assim como o Banco do Brasil (R$ 587 milhões em 2011), e, não obstante, alguns de seus dirigentes andaram frequentando o noticiário. Somente o Ministério da Educação, segundo estimativas do mesmo Mídia Dados, veiculou anúncios no valor de R$ 298 milhões em 2011 – e nem por isso está a salvo de críticas.

Essas quatro grandes mentiras põem em marcha uma lógica desastrosa. Nos dois governos de Lula, os gastos de dinheiro público em publicidade se mantiveram em crescimento. Hoje, o governo federal, com suas estatais, é um dos maiores anunciantes do mercado. Agora que sabemos que, na opinião de Lula, os jornalistas são comprados pelos anunciantes, é o caso de perguntar: com que propósito o governo gasta fortunas em comunicação? Será que pretende comprar jornalistas? Será que os anúncios governamentais são uma tentativa de suborno?

Cuidado. Não caia em embromação. A imprensa pode perfeitamente brigar com os anunciantes, sejam eles estatais, governamentais ou privados. Ela pode até perdê-los. O que ela não pode perder é a confiança do leitor, a sua confiança, que vale mais que banco, mais que ouro. A boa imprensa, aquela que realmente conta, é refém apenas da verdade. Não cede ao dinheiro do anunciante nem aos gritos dos políticos.

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Título Original:Esses “jornais de oposição”…
Autor: Eugênio Bucci
Publicado Originalmente em: Revista Época (13/01/2013)
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A ditadura se retirou, mas a teoria da “campanha articulada” contra o governo continua na ativa

A Folha de S.Paulo é “a vanguarda entre os veículos da imprensa empenhados em isolar o governo da opinião pública”. Num país em que a oposição não tem peito nem engenho para fazer oposição, as redações jornalísticas se encarregam de jogar as autoridades no descrédito. É assim, ao menos, que pensam os entusiastas do governo federal. Para eles, os jornais cumprem o papel que deveria ser dos partidos de oposição. Inconformados, os representantes do Palácio do Planalto contra-atacam, como fez o líder do partido do governo na Câmara dos Deputados, diante de mais uma reportagem crítica lida em plenário por algum adversário mal-agradecido. “Sinceramente, não encontramos aqui um pensamento inédito”, disse o parlamentar governista. Segundo ele, a imprensa apenas requenta fatos velhos para agredir quem trabalha sem descanso para melhorar a vida dos brasileiros. Os governantes, segundo essa visão, não passam de vítimas da maledicência, padecem sob o bombardeio de uma campanha articulada para desacreditá-los. O líder do partido do governo, no mesmo pronunciamento em que reclamou das notícias requentadas, foi severo e categórico em seu diagnóstico: os órgãos de imprensa “são o grande veículo dessa campanha articulada”.

Antes de qualquer interpretação apressada, vamos esclarecer. As declarações transcritas no parágrafo acima não reproduzem falas de integrantes do governo Dilma Rousseff. São anteriores. Também não trazem recortes dos inflamados discursos de entusiastas do primeiro ou do segundo governos de Luiz Inácio Lula da Silva. Nem de beneficiários das duas gestões de Fernando Henrique Cardoso, ou do breve mandato de Itamar Franco, ou de Collor, ou mesmo de José Sarney. Elas vêm de um período ainda mais antigo, vêm dos tempos da ditadura militar.

Quem disse que a Folha é “a vanguarda entre os veículos da imprensa empenhados em isolar o governo da opinião pública” foi João Baptista Figueiredo, o mesmo que chegou a ocupar a Presidência da República entre 1979 e 1985. Ele disse ou, mais exatamente, ele escreveu isso um pouco antes de ser empossado ditador, num relatório que entregou, em 1977, ao então ministro da Justiça, Armando Falcão. Naquela temporada, Figueiredo era o chefe do temido SNI, o Serviço Nacional de Informações, e enxergava no diário paulistano um criadouro de oposicionistas ou, nas palavras dele, “o esquema de infiltração mais bem montado da chamada grande imprensa”. Se as coisas não iam bem, a culpa deveria ser das redações. O episódio pode ser lido com mais detalhes no livro Folha (páginas 67 e 68), escrito pela jornalista Ana Estela de Sousa Pinto, que chegou em dezembro às livrarias com o selo da Publifolha.

Quanto ao governista que reclamou das “campanhas articuladas” contra o governo, de nome Cantídio Sampaio, ele foi líder da Arena, a Aliança Renovadora Nacional, o partido que apoiava a ditadura militar. O arenista enunciou seu juízo sobre a imprensa também em 1977, ao protestar, na Câmara dos Deputados, contra a extensa cobertura que os jornais tinham dedicado ao lançamento da Carta aos Brasileiros, do professor e jurista Goffredo Telles Júnior, no dia 8 de agosto, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Em sua Carta, hoje célebre, Goffredo conclamou os compatriotas a exigir com ele o fim do regime de exceção, numa guinada decisiva para a conquista da democracia no Brasil. O deputado governista, acuado, sem outros argumentos, pôs a culpa no noticiário, como relata Cássio Schubsky em Estado de direito já! – Os trinta anos da Carta aos Brasileiros (a partir da página 219), lançado em 2007 pela editora Lettera.doc.

Tudo isso é passado, claro. A ditadura acabou e, com ela, caiu em desuso a doutrina de segurança nacional que consistia em pôr toda a responsabilidade pelos males nacionais nos “inimigos infiltrados” dentro dos meios de comunicação. Espantosamente, porém, tudo isso ainda é presente. A velha doutrina se retirou, é fato, mas as teorias de que ela se serviu, como a da “notícia requentada”, ou a da “campanha articulada” para “isolar o governo da opinião pública”, continuam na ativa. Toda semana, a gente dá de cara com tentativas de demonizar jornalistas para inocentar governantes, num furibundo fanatismo anti-imprensa. Presentemente, essas tentativas gostam de se declarar “de esquerda”, mas são apenas obscurantistas, como eram nos tempos da ditadura. São apenas autoritárias, intolerantes e mal-intencionadas. Nesse ponto, só o que mudou no Brasil foi a cor da gravata.

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EUGÊNIO BUCCI é jornalista e professor da ECA-USP.