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Craig e o Massacre de Newtown – Parte 2: O que está em jogo

Este post é um pequeno complemento ao que foi publicado há alguns dias intitulado Craig e o Massacre de Newtown. Julguei erroneamente que a maioria dos cristãos fosse entender o que realmente estava em jogo naquela publicação, que fossem entender que esta não era uma crítica do ateísmo à religião como um todo, mas uma crítica àquela visão apresentada por Craig.

Desconfiei que houve um erro de interpretação quando, em mídias sociais, alguns cristãos tentaram defender Craig. Desconfiei porque acredito que a grande maioria dos cristãos não concorda com aquilo que o apologista realmente quis dizer na ocasião. Acredito que algumas pessoas que discordam dele o defenderam porque não entenderam, e num ato de automatismo, o defenderam achando que estavam defendendo sua própria fé. Então vamos explicar o que Craig realmente estava dizendo e colocar a limpo o que realmente estava em jogo.

A primeira coisa a se saber é que Craig parte do pressuposto de que a teoria moral válida é a Teoria do Comando Divino (doravante TdoCD), que basicamente diz que tudo que Deus ordenar é certo, mesmo que possa parecer absurdo. Essa teoria, entretanto, não é unânime sequer dentro da teologia. A maioria dos cristãos tem preferido a Teoria da Lei Natural (doravante TdaLN), que diz que Deus embutiu uma moralidade correta no mundo, ou na natureza, e que pode ser deduzida pela razão.

Teologicamente falando, cabe a mim provar que qualquer uma delas é falsa? Não! Para mim, que não acredito em Deus, ambas são falsas, logo não preciso fazer demonstrações teológicas.

Contudo, dentro de um ponto de vista um pouco mais amplo, fora da teologia, aí sim faz sentido – para mim – tentar desacreditar a TdoCD. Mas o que eu posso fazer? Se eu fosse capaz de mais do que provar – provar E convencer – qualquer pessoa de que Deus não existe, eu estaria feito e tudo se resolveria. Mas não posso.

Então me resta tentar demonstrar o absurdo que é acreditar na TdoCD. Veja, ela leva uma pessoa como Craig acreditar que tudo bem: Deus pode permitir um massacre de inocentes desde que isso ajude ele a ter um relacionamento melhor com sua criação. Parece razoável?

Daí alguém pode dizer: “mas o mundo é um lugar muito mal, precisamos dessa relação com Deus para nos sentirmos melhor” ou algo parecido, mas daí vem a pergunta: é preferível viver em mundo onde Deus evita o mal e nós temos menos motivos pelos quais temer e sofrer ou num mundo onde Deus não evita o mal e nós temos que procurá-lo para renovar nossa esperança?

Aliás, segundo Craig, Deus não só permite o mal, como o usa como forma de nos lembrar que devemos nos relacionar com ele! Será que nos relacionar com ele é mais importante do que uma vida menos miserável? Será que é moralmente aceitável um ser que usa crimes para nos deixar em pânico e nos forçar a buscar auxílio dele? Será que é moralmente aceitável ser coagido a se relacionar com alguém, mesmo que esse alguém seja nosso criador?

Se eu pudesse estabelecer como metáfora a história de um policial que ao invés de impedir crimes, apenas consola as vítimas, poderíamos pelo menos nos degladiar sobre um assunto muito mais delicado: esse livre-arbítrio “hard core” realmente faz sentido? Mas essa não é a metáfora mais correta. A metáfora mais adequada seria a de um policial que deliberadamente permite os crimes que poderia evitar para depois consolar as vítimas. Um policial que fizesse isso, seria um canalha com sérios problemas sociais e afetivos. Por que um Deus que faz isso não é?

Só a TdoCD pode justificar Deus se comportando dessa maneira. Por isso, ela é errada e por isso acho desprezíveis as conclusões que se tira delas e, de certa forma, as pessoas que recorrem a ela.

Se por outro lado Craig seguisse a TdaLN, ele diria que Deus permitiu os ataques porque não se permite agir sobre o mundo, mas espera que as pessoas, ao verem isso, reflitam e busquem melhorar e que ele pode ajudar quem não estiver suportando os males do mundo. Seria a metáfora do policial omisso mas que tem ombro amigo, e eu não ficaria tão indignado como fiquei.

Veja que minha crítica foi feita pelo lado de fora, sem entrar na questão teológica de qual das duas teorias é correta. Aliás, minha crítica pode ser feita perfeitamente por qualquer cristão que siga a TdaLN e que condene o uso da TdoCD.

O que está em jogo aqui é o quão absurda era essa ideia de Craig de que Deus promove o mal no mundo como uma mensagem de que devemos nos relacionar com ele para termos mais esperança. Se ao menos o “maldito” ficasse quieto no canto dele, o mundo seria melhor e, pobrezinho, não daríamos a mínima para ele. O que está em jogo aqui é uma crítica à TdoCD e não uma crítica a toda moralidade cristã. Não que eu não queira criticar toda ela, mas esse caso só me dá material para criticar a TdoCD especificamente. Eu desejava mostrar o quanto é absurda a ideia de Craig de Deus usando o massacre como mensagem de Natal e que de quebra colocar a base dele em cheque.

Alguns cristãos, imersos em sua (completamente negada) falta de conhecimento sobre religião, trocaram os pés pelas mãos e acharam que ao me criticar estavam defendendo a crença em Deus sendo que, na verdade, defender Craig nesse caso é defender um Deus que usa os crimes dos outros para promover a si mesmo, numa atitude que seria claramente mesquinha e desprezível se feita por qualquer outra pessoa.

Se não foi isso que aconteceu, então quem me criticou prefere a TdoCD à TdaLN e concorda que está tudo bem em acreditar num Deus que age dessa forma, mas meu palpite é que eles não sabiam sequer o que estava em jogo nessa conversa toda.

E aí? Vão continuar defendendo Craig e a visão de Deus que ELE tem?

Craig e o Massacre de Newtown

Para quem não entende inglês, uma pequena tradução da transcrição. Eu fiz bem rápido, de ouvido mesmo, então não ficou muito fiel à forma como ele falou, apesar de ter ficado bem fiel a tudo que ele quis dizer. Até 1:15 min, Craig lamenta pelas vítimas e se diz solidário à dor dos pais das crianças assassinadas na pequena cidade norte-americana. Mas a partir de então, ele esquece tais lamentos (ou pára de fingi-los… vai saber!) para dizer algo que só não é mais surpreendente porque ele já fez coisas parecidas antes.

Mas depois, enquanto eu lia sobre o assunto, me ocorreu com bastante força que o Natal original também foi marcado por uma série de assassinatos de… crianças! Estou me referindo, obviamente, ao que foi feito pelo Rei Herodes fez. Vamos ler a narrativa de Mateus, capítulo 2 [1-18]:

1. Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.

2. Perguntaram eles: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo.

3. A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele.

4. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo.

5. Disseram-lhe: Em Belém, na Judéia, porque assim foi escrito pelo profeta:

6. E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo(Miq 5,2).

7. Herodes, então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a época exata em que o astro lhes tinha aparecido.

8. E, enviando-os a Belém, disse: Ide e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo.

9. Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que e estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.

10. A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria.

11. Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.

12. Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.

13. Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar.

14. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito.

15. Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: Eu chamei do Egito meu filho (Os 11,1).

16. Vendo, então, Herodes que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos magos.

17. Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias:

18. Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem (Jer 31,15)!

Então me ocorreu que longe de ser incongruente com o Natal, essa terrível tragédia de certa forma reverbera o Natal original, que envolveu a morte de crianças por Herodes.

É um lembrete de para quê serve o Natal, o que ele representa. Esse é o modo que Deus usa para entrar no mundo, que está decadente, cheio de maldades impronunciáveis e de sofrimentos terríveis. E é a mensagem de Natal de que Deus não nos abandonou neste mundo, mas que ele próprio entrou na história humana através da pessoa de Jesus para acumular sob si mesmo toda essa maldade e esse sofrimento, para assim nos redimir do mal, nosso próprio mal, e nos trazer a um relacionamento correto com ele, e nos dar cura e vida eterna.

Então espero que essa tragédia seja um lembrete do que realmente significa o Natal, de seu significado mais profundo. Não apenas alegria, troca de presentes e festividades do feriado, mas sim esperança que nos é dada e que sem a qual estaríamos perdidos neste mundo mal e indescritivelmente perverso. Então, em meio a esse sofrimento, a mensagem de Natal que eu penso que temos é que existe esperança e que Deus nos provido com ela.

Como diria o pessoal do blog Why Evolution is True, é quase como se Deus tivesse perpetrado esse massacre para nos lembrar de que existe esperança nesse mundo e que ele está disposto a sofrer em nosso lugar!

E já que ele deseja sofrer no nosso lugar, nada mais lógico do que maquinar um homicídio de 25 crianças inocentes, porque assim ele não precisa ficar à toa sem receber nenhum sofrimento por nós.

Não surpreende que ele pense assim. Craig é um dos poucos apologistas que seguem a Teoria do Comando Divino, na qual qualquer coisa que Deus ordene é boa por si só, independente do quão horrível isso possa parecer se executado por outra pessoa. Leiam esse artigo aqui do blog explicando a Teoria do Comando Divino em maiores detalhes.

Craig chegou ao absurdo de dizer que no massacre de Canaã, as verdadeiras vítimas eram os soldados israelenses que, ó tadinhos, tiveram que matar crianças e mulheres inocentes porque Deus mandou! Será que já existiam psicólogos cristãos naquela época para ajudar esses soldados a superarem esse terrível trauma? Se duvidam que ele disse isso, vejam esse artigo do Rebeldia Metafísica.

Willian Lane Craig é mesmo um excelente orador, tanto é que consegue tirar lindas mensagens de Natal até de tragédias como essa!

Continuação: Craig e o Massacre de Newtown – Parte 2: O que está em jogo

Fruta do Conde: a frutinha que mais dá em Belém do Pará!

A Fruta do Conde, que dá nome a uma sorveteria famosa daqui de Uberlândia, é uma fruta que, apesar de ser bem brasileira, é desconhecida pelos brasileiros em geral. Ela lembra a graviola, mas sua casca é bem mais escamosa. Tem um sabor bem forte e fica muito boa com leite. Seu nome científico é Annona squamosa e ela é típica de regiões quentes, tropicais, e não suporta temperaturas baixas.

Uma outra fruta que dá muito na região tropical do Brasil e que também é um conde, é o Conde Loppeux de la Villanueva. E como essa fruta dá, misericórdia… acho que todo mundo em Belém do Pará já comeu.

O referido Conde não gostou muito da série que fiz sobre ele recentemente e veio aqui no meu blog me xingar e floodar minha caixa de comentários. Ele aproveitou que os comentários aqui são liberados e chegou a publicar seis deles seguidos! Quando passei a moderar os comentários dele, ele ainda tentou capitalizar em cima, chamando de censura. E ainda demonstrou não ter ideia do que seja flood. Paciência…

Este post aqui é para responder ao desafio que ele pediu para eu fazer a ele. Vocês podem ver como foi a conversa na parte 3 da série. Basicamente, ele pediu que eu o desafiasse a um debate. Eu disse ok, propus um tema, esbocei as regras e disse que seria via textos. Daí ele mudou o tema para um completamente genérico e sem sentido e disse que queria que fosse ao vivo e gravado. Supus que ele queria que fosse pessoalmente e pedi a ele que pagasse minha passagem aérea. Mas daí ele veio dizendo que queria fosse pelo skype e que eu estava sendo engraçadinho e que estava complicando as coisas para fugir. E achou ruim porque falei que não entendi que seria pelo skype porque ele não tinha mencionado isso. Ah, vá… agora tenho que adivinhar tudo?

O mais divertido de tudo é que ele se nega ao debate fingindo que não entendeu a proposta, quando o trecho que ele cita está claro em afirmar que o debate será gravado via skype ou langout. O rapazinho é um cagão mesmo! Está fugindo!

Conde

É mole isso? Isso sem contar com a sessão de flood épica, seis comentários em menos de 15 minutos:

6 de outubro de 2012 às 08:59
6 de outubro de 2012 às 09:00
6 de outubro de 2012 às 09:01
6 de outubro de 2012 às 09:06
6 de outubro de 2012 às 09:08
6 de outubro de 2012 às 09:12

A impressão que tenho é que ele queria que eu desistisse para poder capitalizar em cima. É mais bonito colocar no currículo dele: “fui desafiado pelo Bruno Almeida, que posteriormente desistiu do debate por perceber o que não tinha percebido na hora que fez o desafio: que ia perder o debate!”

Ah, mas me poupe, Conde!

Na parte 4, ele faz outra sessão de flood: três comentários em dois minutos mais um comentário alguns minutos depois em outro post. Isso parece desespero porque É desespero, não há outra forma de avaliar esse comportamento infantil. E ainda veio dizer que modero os comentários dele porque tenho medo dele! Ah, mas quanta pretensão a deste garoto! Se eu pelo estivesse escondendo os “argumentos” dele, mas não estou deixando de aprovar nenhum comentário, só deixo na geladeira por uns dias para punir o flood.

E outra, de onde ele tirou que faço isso por covardia? Que nuance do meu comportamento revela medo? Quando eu chamo ele de desesperado, digo que conclui isso tendo em vista o excesso de comentários em intervalos curtíssimos de tempo, típico de alguém em um ataque de fúria. Agora, como meu comportamento seria diferente caso eu não estivesse moderando os comentários dele por covardia ou caso a covardia fosse um fator menor? Como meu comportamento seria diferente neste caso para que o Conde pudesse concluir isso?

Vou ser curto e grosso: o Conde me instigou a fazer o desafio, certo? Então, eu o propus. Ele pediu para mudar o tema e isso eu não aceito. O tema que propus é específico e não dá brecha para ele (e nem eu) ficar fugindo do tema toda vez que for apertado. Falar de Idade Média em geral é ruim, porque se mostro um problema num argumento dele sobre sexualidade, ele muda para economia. Se ele mostra um erro num trecho meu sobre tecnologia, posso mudar o assunto para política. E por aí vai… Não, isso não dá certo. O tema que propus já é excelente por si só: “A moralidade cristã da Idade Média é melhor do que a noção contemporânea de moralidade?” Se alguma das partes não sabe sobre o assunto, isso ficará evidente. Não precisa colocar um tema genérico para evitar esse tipo de situação.

Outra, não quero fazer por skype. Não me opus a princípio, mas mudei de ideia. Prefiro fazer por textos. E ele que não venha dizer que isso me ajuda a mentir, pois ajuda tanto a mim quanto a ele. Ele que vá chupar rola se acha que é mais honesto do que eu: não estou nem aí para auto-idealização dele. E mais, se achar que estou mentindo, mostre a mentira e pronto.

E um recado direto para o Conde: se está disposto, use seu blog e diga que está. Mostre a seu público que está sendo desafiado, não esconda isso deles postando aqui. Ignorarei comentários sobre o desafio se você não postar nada no seu blog. E pare de complicar as coisas. Debate por escrito requer menos tempo de uma só vez, permite mais flexibilidade de horário e menos esforço. Sei que você é desocupado, mas eu não sou, e tenho dois orientadores no meu pescoço e ensaios de laboratório para fazer. Já adianto que não aceito mudança no tema e nem na forma do debate. Qualquer outra proposta será analisada, menos essas duas. E chega de criar dificuldades e tentar forçar a barra para eu desistir. Ou vai, ou racha.

Se aceitar o desafio, proponho as regras, que em seguida passarão por revisão. Você irá publicá-las em alguma mídia social ou em seu blog dizendo que aceita as regras. É lindo ficar colocando no seu currículo uma desistência minha (que não aconteceu) e esconder do seu público a verdadeira história. Safadeza tem limite… assuma publicamente que está sendo desafiado, ou o desafio fica anulado.

Por fim, se discorda do debate que EU PROPUS, entendeu, que EU PROPUS, decline-o, oras! Decline-o e proponha outro a seu bel-prazer. O debate foi proposto por MIM, então ele vai ser sobre o tema que escolhi e pelo meio que eu achei mais conveniente para poder conciliar com minhas atividades. Mas covarde como acho que é, vai declinar este em segredo e só vai divulgar para seu público o que você vai propor. Então, por favor, queime minha língua… aceite o desafio ou o decline publicamente em seu blog. Não seja covarde como alega que sou, mostre que pelo menos um de nós é homem.

Ressonância Magnética do Cérebro da Fruta do Conde que roubei do médico dele.

A sexualidade vira-lata dos ateus militantes – Parte 3: A Metáfora FAIL

Anteriormente, mostrei que o Conde estava se preparando para defender a tese dupla de que ateus fingem que gostam mais de sexo e de que eles gostam mais de sexo porque… são ateus, oras, é esse o tipo de coisa que essa gente faz. Ele abandonou a ideia para falar da “magnífica” cortesania da Idade Média e depois ensaiou um retorno ao assunto quando citou Nelson Rodrigues. Contudo, no [P8] ele muda de assunto bruscamente de novo para apresentar o caso da garota de treze anos que já fazia sexo oral em homens. Esse caso tem uma dupla finalidade: a primeira é abrir espaço para um resmungo que virá à tona mais à frente e que, surpreendentemente, demorou muito a aparecer aqui: o de que existe cada vez mais sexo no mundo.

Mas ele também quis defender a ideia equivocada de que educação sexual é algum tipo de kama-sutra. Para ele, educação sexual é ensinar as pessoas a fazer sexo, enquanto que na verdade este ensino tem (deveria ter) como objetivo desenvolver nas pessoas a consciência de que a prática do sexo envolve auto-conhecimento, amadurecimento, responsabilidade e comedimento. O que a educação sexual pretende ensinar também não é exatamente o que ele gostaria que acontecesse, ao contrário do que alguns podem pensar. Ele queria que a educação sexual se restringisse a dizer que sexo é somente uma consequência de um amor puro e verdadeiro, nada mais.

Sim, em um mundo real nada é como no mundo ideal. Seria muito bom se educação sexual fosse aquilo que citei mas a prática mostra algo bem diferente… Pondé já falou sobre isso no seu artigo “Terrorismo sexual”: as limitações psicológicas dos professores impedem que as aulas tenham algum proveito mais efetivo. Mas definitivamente, é melhor do que deixar um monte de fracassado ensinar que sexo deve ser evitado a todo custo e que deve carregar consigo uma dor de consciência necessária.

Para mostrar que o Conde não possui respaldo nenhum naquilo que diz, vou citar uma pesquisa da USP sobre o que as pessoas acham que mais influenciam no desempenho sexual. Vocês irão notar que, para as mulheres, o mais importante é o sentimento de afeto. A atração física, por sinal, só não é menos importante do que tempo disponível e tranquilidade (parece que elas gostam de aventuras para apimentar rs). É um excelente indício de que existe sim uma componente afetiva no sexo muito importante, ao contrário do que Leonardo Bruno teatralmente prega.

O nono parágrafo foi um show de bizarrices. Ele começa reafirmando que existe cada vez mais sexo no mundo. O engraçado é que ele afirma poder quantificar o sexo no mundo. Lembram-se lá do início, quando ele disse que sexo não é mensurável? Pois bem, agora ELE é quem está medindo. Pesquisadores sérios não podem fazer isso, mas ELE (Leonardo) pode. Aqui, ele foi incoerente e hipócrita. É bem verdade que a liberdade sexual aumentou, mas isso quer dizer que as pessoas estão praticando sexo de maneira mais livre e espontânea.

Vejam o artigo Estudo compara a importância e a frequência do sexo nos casamentos de hoje e do passado. O autor diz que as maiores diferenças entre antigamente e hoje é que os fatores mais importantes na escolha de um cônjuge deixaram de ser financeiros e passaram a ser mais emocionais e sexuais. Também diz que a rotina moderna estressante e o excesso de lazeres virtuais (internet, jogos etc.) são fatores que diminuem a frequência sexual das pessoas, ao passo que a medicina moderna melhora a saúde e tende a aumentar a frequência.

Aliás, muito se tem discutido os efeitos que a vida moderna têm feito sobre a DIMINUIÇÃO da frequência sexual das pessoas, a saber: estresse, computadores, jogos, viagens, bebidas e drogas. Então, não é verdade que o sexo está se tornando cada vez mais frequente e o resmungão dele cai por terra. Ele bem que poderia usar seu tempo para pesquisar melhor as informações que passa ao invés de usá-lo para criar neologismos toscos como “orgiasticamente”.

No décimo parágrafo, ele consegue piorar o nono, apesar disso parecer uma tarefa impossível. Primeiro, ele vem defender que a pesquisa é obra de gente babaca. Aparentemente, ele não se contentou em dizer que a pesquisa estava errada porque não se mede prazer e resolveu atacar a honra de seus autores e publicadores também. Ele deveria ter vergonha de usar um expediente tão baixo e batido como esse. Além disso, quando se leva em consideração o trecho “… cada vez mais uma sociedade que trepa adoida.. doidamente, ou pelo menos diz trepar …” do P9, percebe-se que ele defende que tal pesquisa não pode ser levada a sério porque os ateus fingem que sentem mais prazer para afrontar os religiosos.

Além de usar essa ideia como forma de difamar os ateus, ele também usa como “argumento” contra a confiabilidade da pesquisa. E notem que ele gasta mais retórica atacando a pesquisa em si do que a ideia de que o cristianismo é uma boa fonte de moralidade… a impressão que dá é que ele está mais preocupado em defender que sente prazer tanto quanto um ateu do que defender o ponto de vista cristão sobre a moralidade. Isso sim é agir como vira-lata, no ponto de vista de Nelson Rodrigues.

A palhaçada fica geral quando ele finalmente resolve defender mesmo a moral cristã. No fatídico [P10], continuando em [P11], ele começa “pra valer” seu show de falácias e sandices para defender a moral cristã. Ele diz que sexo por prazer é coisa de vira-latas, de cachorros. Ele diz que sexo deve ser acompanhado por sentimento de culpa, que tal sentimento depois do sexo difere homens de animais e que pessoas sem sentimento de culpa são menos evoluídas do que as que possuem.

Nada disso chega a ser um argumento porque é meramente uma visão de mundo dele. Alguns vão dizer que é arcaica e outros vão dizer que é santa. Mas não é interessa o que é; o que interessa é a capacidade do autor de defender isso, algo que ele não tem. Mas mesmo assim, vou refutar essa ideia. Cadelas entram periodicamente no cio e é quase somente nesta época que elas permitem o coito. Os cães são capazes de detectar quando a cadela está no cio e se excitam com isso. A verdade é que cães fazem sexo preferencialmente quando a cadela está no cio, o que quer dizer que eles fazem sexo para fins preferencialmente reprodutivos. Metáfora FAIL.

Sai pra lá, que eu não tô no cio ainda, seu mané!

Então, fazer sexo que nem cachorros é fazer sexo para procriação. O grande argumento dele, que inclusive dá nome ao vídeo, é simplesmente uma analogia errada! Se ele quer criticar o sexo por prazer, um dos piores exemplos que ele poderia dar são os cães! Além disso, ele fala como se humanos não fossem animais. Então será que eles são plantas? Ou será que são vírus, bactérias ou fungos? Não, meus caros. São animais! Brincadeiras a parte, a mulher é um animal da raça humana do sexo feminino. A diferença é que elas não entram no cio, enquanto que suas ancestrais entravam (ainda entram). Isso aconteceu porque o sexo se tornou um instrumento de interação social na espécie humana, algo importante dentro das primeiras tribos, logo a ideia de que o comportamento sexual recreativo é coisa de animais e que é algo “involutivo” é completamente furada.

Aliás, se deixássemos de fazer as coisas que os animais fazem só para nos diferenciarmos deles, não deveríamos mais comer carne, nem plantas. Não usaríamos nossa visão, nem respiraríamos por nossos pulmões. Também não emitiríamos som algum. Seríamos meras máquinas de carne que usam apenas seu cérebro, a única coisa que têm de diferente do resto dos animais.

Agora, vou falar sobre o sentimento de culpa. Esse sentimento só deve vir acompanhado de atitudes que causem mal a outra pessoas. Por exemplo: se eu mato uma barata, eu não preciso me sentir culpado. Mas se eu mato o gatinho de estimação da minha mãe, eu devo sentir remorso no mínimo por ter causado um mal a uma pessoa que amava ele. Ao contrário, sexo por prazer não causa mal a nenhum terceiro. Na verdade, ele causa prazer (algo bom) àqueles que o praticam. É diferente do estupro, que causa prazer em um em detrimento do sofrimento de outro, sendo por esse motivo uma prática condenável.

O Conde então prossegue afirmando sandices mais escabrosas ainda. Ele afirma que a superpopulação mundial e a miséria são causados pela ausência do sentimento de culpa nas relações sexuais. É evidente que isso é um absurdo. Em primeiro lugar, a população tem menos filhos hoje do que a 100 anos atrás. Basta ver as médias de filho por mulher nas últimas décadas, que caiu de mais de 5 para menos de 2. E pior, a um século atrás, ter muitos filhos era uma coisa considerada boa pela Igreja Católica, sendo amplamente incentivada. Sim, meus caros, eram os padres, aqueles homenzinhos sábios e bondosos que diziam que o certo é ficar “parindo gente na rua que nem cagado”, parafraseando nosso querido Conde. Com os métodos contraceptivos e a educação sexual, coisas que esses ateus humanistas ficam espalhando por aí que nem pragas, o sexo sem fins reprodutivos não é mais causa de aumento da natalidade. Isso sem contar que ele também insinua que a miséria é causada pelo sexo por prazer.

Óbvio que o problema é esse, não tem nada a ver com os governos corruptos e o sistema de educação deficitário ou inexistente de muitos lugares.

Continua…

A sexualidade vira-lata dos ateus militantes – Parte 2: A “magnífica” cortesania da Idade Média

Símbolo do Recato durante a Idade Média

Começo aqui a análise do vídeo “A sexualidade vira-lata dos ateus militantes“, daquele rapaz que acha que o cristianismo é racionalmente, moralmente e tudo-o-mais-mente superior a qualquer forma de religiosidade e de pensamento, sobretudo o ateísmo. Sim, o Conde acha que o Cristianismo é perfeito e sem falhas e que o ateísmo, como negação dele, só tem falhas e que todo militante é alguém mal por natureza. Fazer o que, cada um que viva a ilusão que quiser, não é mesmo?

Falando nisso, coloquei a série sobre a Ilusão Cristã da Superioridade antes de prosseguir com essa série aqui porque acho que ela complementa perfeitamente a crítica que farei ao Conde. Pretendo mostrar como a moralidade que ele defende, em especial a moralidade sexual cristã, não é superior à ateísta. Aliás, vou mostrar que sequer é aquela que ele defende ser, em certos casos.

No texto original na WatchGOD, o texto está bem mais completo e tem um resumo dos seus argumentos em forma silogística. Aqui, dei uma resumida e adaptei à temática moralidade cristã x moralidade secular, com enfoque na sexualidade.

Ele começa o vídeo dizendo no primeiro parágrafo, [P1], que viu uma matéria sobre sexo e que a classificou como cultura inútil. Em primeiro lugar, por mais que ele esperneie, sexo não é um assunto inútil nem faz parte da cultura inútil. O próprio fato de ele gastar seu tempo e sua retórica explicando porque o sexo deve ser evitado já é uma prova da relevância do assunto: o sexo está tão presente na vida humana, que é impossível falar de comportamento (o que inclui comportamento religioso) sem falar sobre ele.

Em segundo lugar, ele mesmo apresenta mais tarde a ideia de que a cultura do sexo correta foi elaborada pelo cristianismo. Ou seja, é uma cultura inútil, mas a religião que ele deseja defender é a que ele alega ter desenvolvido com mais maestria tal cultura. Ele já começa com uma frase de efeito, que está evidentemente equivocada e que ele mesmo contradiz no decorrer do discurso.

A seguir, em [P2], ele cita uma pesquisa norte-americana que diz que os ateus vivem o sexo com mais prazer, para então fazer uma objeção a ela em [P3]. Essa objeção configura o primeiro argumento apresentado por ele: o de que a pesquisa apresentada está errada porque sexo e prazer não são mensuráveis. Entretanto, esta é uma enorme falácia: a de que aspectos humanos e subjetivos são imensuráveis. De forma geral, ele quis dizer que aspectos humanos e subjetivos são imensuráveis, incluindo o prazer.

Para mostrar o quanto essa ideia é falsa, vou dar um exemplo da área de marketing: eles fazem pesquisas de campo que visam perguntar às pessoas o quanto elas estão satisfeitas com determinado produto e depois confrontar os resultados com as características dessas pessoas. Pode-se assim descobrir quais faixas etárias, quais sexos, quais níveis sociais etc mais gostam do produto e redirecionar o marketing da empresa. Uma pesquisa sobre sexo funciona da mesma maneira. Este argumento cai com extrema facilidade, pois as pessoas são sim capazes de medir sua satisfação e de exprimi-la de maneira objetivamente mensurável.

Na verdade, esse argumento foi uma tentativa de desmoralizar a pesquisa. Ele não procurou, ou se procurou, agiu como se não tivesse procurado, saber como tal pesquisa foi elaborada, quais os critérios e quais suas conclusões. Ou seja, ele não se interessou em momento algum em fazer uma crítica coerente, mas sim em apresentar uma falácia de impacto e bonitinha, fácil de ser engolida.

Já no [P4] ele insinua que os ateus mentem sobre seu prazer sexual por pura pirraça. Ele insinua que os ateus fingem que estão mais satisfeitos com o sexo para poder usar isso como vantagem sobre os religiosos. Para começar, isso é só uma alegação solta no estilo “teoria da conspiração”, pressupondo que os ateus se reúnem secretamente para combinar respostas em pesquisas e dar a falsa ideia de que aproveitam melhor o sexo. Para piorar, em algumas partes ele age como se ateus tivessem mentido, mas em outras, age como se dissessem a verdade.

O que estou dizendo é que a tese dele é baseada nas duas ideias a seguir:

(1) Os ateus fingem que sentem mais prazer para afrontar os religiosos.
(2) Os ateus sentem mais prazer porque são, de certa forma, promíscuos.

Não precisa ser nenhum gênio para notar incoerência entre (1) e (2). Mas notem como que no [P5] e no [P6], ao invés de dar prosseguimento ao raciocínio, ele resolve mudar de assunto bruscamente, defendendo a ideia de que o cristianismo é a melhor fonte de moralidade e de decoro para o sexo. Em defesa disso, ele lembra do código de ética para o sexo criado pelo cristianismo na Idade Média nas duas alegações a seguir:

(1) Existia um código de ética na Idade Média voltado para o amor e o cavalheirismo e o sexo era visto de forma secundária na relação.
(2) Tal código foi criado por cristãos, não por pagãos, na Idade Média.

A primeira alegação é evidentemente falsa. Existia sim uma tradição de cavalheirismo, mas existia também o sexo por prazer. Tenho minhas dúvidas se as mulheres realmente se casavam virgens, mas com certeza praticamente nenhum homem assim o fazia. Casas de prostituição, adultério, orgias e homossexualismo, ou seja, todo o conjunto de práticas e comportamentos sexuais considerados hoje errados, já existiam na época. O sexo era tão corriqueiro naquela época quanto é hoje. A grande diferença é que tudo acontecia debaixo dos panos. Sim, haviam quem tomava banho com roupas, mas quem consegue ver recato nisso? Isso não é recato, é neurose.

Vejam a série de artigos “10 Curiosidades sobre sexo” na Idade Média, na Grécia Antiga e na Roma Antiga, além dos artigos Como era o sexo na Idade Média e A Mulher na Idade Média. Podemos ver nesses artigos práticas que existiam na Idade Média e que aconteciam antes (e algumas até hoje), tais como homossexualismo entre homens, lesbianismo e prostutuição tributada pelo clero.

Sim, caros leitores, a Igreja Católica roubava as prostitutas para permitir que elas trabalhassem (fico imaginando o Marlon Brando vestido de papa e dizendo para uma meretriz: “O seu negócio é tão bom, seria uma enorme lástima se você morresse amanhã ou depois…”).  Fico imaginando a cortesania que havia dentro dos muros do vaticano como parte do ritual de preparação para suas orgias, algumas delas homossexuais. O Conde vai cair da cadeira quando descobrir que já teve papa que morreu assassinado a pauladas pelo próprio marido por tê-lo traído! Isso ocorreu durante a “gloriosa” Idade Média, para piorar.

Mas a questão não se restringe à demagogia. A cortesia que o homem dispensava à mulher era apenas algo anterior ao casamento. Depois deste, o homem passava a ter posse sobre o corpo de sua mulher. Apenas não era aconselhável fazer tanto sexo com a esposa quanto se fazia com as prostitutas quando solteiro, nem era aconselhável fazer sexo anal ou oral.

Fora isso, a mulher era tratada com despreso por seus pais e maridos, não tendo direitos a participar efetivamente da sociedade. Elas eram bajuladas e mimadas como animais de estimação e eram sobrecarregadas de tarefas domésticas para não pensarem em “bobeiras”. Muito se diz que as mulheres são tratadas como objetos hoje. Mas durante a Idade Média, eram tratadas como animais. E isso não é exagero, basta conferir este post chamado saborosas monstras, onde se lê:

“Noutros casos a metáfora mulher/animal serve para dar livre curso à misoginia, socorrendo-se de uma série de metáforas moralistas. Num poema francês do século XIV, intitulado Os Vícios de uma Mulher, diz-se que a mulher é venenosa como uma serpente, impetuosa como um leão, parecida com um leopardo pela voracidade; falsa como uma raposa; combativa como um urso; semelhante a uma cadela por ter os sentidos apurados; como uma gata quando morde; uma ratazana para destruir ou um rato para se esgueirar.”

Dama da Idade Média sendo exaltada em um altar por um cavalheiro cortês.

Ou seja, o sexo cortês nunca existiu; o que existiu foi a paquera cortês que terminava logo após o casamento. O sexo não era tão evitado como se diz. Ele era feito na surdina e suas variações eram mais raras do que hoje, mas mesmo assim existentes. E esse movimento cultural não caracterizou a Idade Média como um todo, mas apenas seu último período, então nem dá para dizer com a boca cheia que os homenzinhos daquela época eram defensores da moral. Basta saber que tal cultura da cortesania começou apenas no século XII, muito depois do início da Idade Média (séc. V), porém mais próximo de seu fim (séc. XV). Assim, a primeira alegação do Conde vai pro lixo.

Sobre a segunda, podemos notar que a uma altura dessas, ele já se tornou um fato irrelevante. Ele está se referindo a uma conduta apenas pré-nupcial, seguida por uma prática sexual mandatoriamente submissa para as mulheres. É evidente que isso não é sinônimo de sexo com recato, então de que vale a alegação de que o cristianismo o criou? O engraçado é que ele usa um tom todo esnobe para tomar para o cristianismo a autoria de tal “código de cortesania”. Bem, eu pergunto a ele do mesmo jeito que ele perguntou aos ouvintes: quem inventou a roda? E o fogo, a agricultura, a culinária e a filosofia? Foram os cristãos? Não, meu caro! Foram os pagãos! Aqueles homenzinhos rudes e bárbaros que não tinham Deus em seus obscuros corações!  A diferença é que tudo isso que citei é bem mais importante para a humanidade do que as normas de paquera cortês e sexo submisso.

Essas duas alegações foram ditas para defender a ideia de que o sexo deve ser regido pelo código de ética da Idade Média feita pelos cristãos, ou de forma mais abrangente que a moralidade, inclusive a sexual, só pode vir do cristianismo. Além dos problemas que já citei, completo com o argumento de que ele não responde a questão: “qual é a vantagem da conduta apresentada sobre a conduta atual ou qualquer outra conduta que não seja bárbara?” Na verdade, até que ele tenta responder isso, só que bem mais para frente (afinal de contas, ele parece se esforçar para não criar coerência entre as ideias apresentadas).

Ainda em [P6], ele apresenta uma nova afirmação, que na verdade mais parece um resmungo. Ele diz que os homens medievais foram rotulados como elementos das trevas, apesar de terem criado o cavalheirismo. Em primeiro lugar, já vimos que o cavalheirismo não era nada de mais. Um pensamento racional e sensato sobre direitos e respeito já é o suficiente para que as pessoas paquerem e se conquistem de forma adequada. Havendo respeito, não é necessária uma cartilha com um passo-a-passo para conquistar uma mulher. Isso sim, aliás, é desrespeito: dar um presente para um mulher e a tratar de forma “sofisticada” e achar que ela tem que gostar. Cada mulher tem um jeito de ser conquistada, sem contar as mulheres que preferem conquistar a serem conquistadas. Esse código de cortesania é um desrespeito às mulheres e é essencialmente misógino. Ele é um deboche à diversidade de opiniões, personalidades e comportamentos.

Imaginem que houvesse um manual feminino para conquistar homens. Se ele incluísse dar uma camisa de futebol do meu time para mim, eu até acharia bom. Mas se incluísse dar um livro de romance eu iria achar ruim porque não gosto e, acima de tudo, não gostaria que as mulheres me dessem só porque a cartilha diz que devo gostar de receber. Não é assim que as coisas funcionam. Manuais e códigos são coisas de gente burra, incapazes de pensar por si só e autistas o suficiente para não conseguir interagir socialmente com níveis satisfatórios.

Além disso, rótulos são alcunhas que generalizam e distorcem um determinado grupo de pessoas ou objetos. A Idade Média é conhecida por ser uma época na qual mulheres que ajudavam outras durante o parto eram queimadas vivas. O governante era decidido por hereditariedade ou pela espada. Os governantes e o clero viviam no luxo ocioso em detrimento da miséria da população. O analfabetismo era lugar comum entre os mais pobres. A medicina se restringia a mais um ramo da superstição. A alcunha de Idade das Trevas não é nenhum rótulo, mas sim algo muito condizente com a realidade da época.

Uma vez estabelecido que a moralidade, inclusive a sexual, só pode vir do cristianismo, ele vem dizer no sétimo parágrafo que o ateísmo quer acabar com ela. Para tanto, ele usou uma citação de Nelson Rodrigues: “educação sexual é coisa de vira-lata”. É óbvio, dada a desonestidade de Leonardo, que Nelson nunca disse isso. Na verdade, ele disse: “A educação sexual só devia ser dada por um veterinário.” É bom notar que Nelson Rodrigues usa a palavra vira-lata para se referir ao complexo de inferioridade brasileiro e não para definir comportamentos sexuais. Mas tal mudança sutil acaba sendo irrelevante, pois o que ele queria mesmo era estabelecer sexo por prazer é coisa de animais. Aliás, o brilhante argumento dele é que sexo por prazer é coisa de animais porque Nelson Rodrigues disse. Afinal, o Nelsão falou então está falado, né?

Creio que a melhor forma de atacar um apelo à autoridade é mostrar que a personalidade citada não é uma referência tão boa quanto se quer fazer parecer. Vejam algumas pérolas do nosso querido Nelson Rodrigues que fariam nosso igualmente querido Leonardo Bruno tirar seu eterno sorrisinho cínico do rosto por alguns segundos:

“Nem todas mulheres gostam de apanhar, só as normais.” (uma grande demonstração de cortesania e de agrado delicado e sofisticado)

“A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.” (uma crônica que escancara os perigos de se levar uma vida sexualmente livre)

“O dinheiro compra até o amor verdadeiro.” (cortesia pra quê? Se você for rico já basta!)

“A mulher ideal deve ser dama na mesa e puta na cama.” (aqui, Nelson defende a ideia da dama idealizada e inatingível)

A uma altura dessas, eu já estou concordando com as referências do Conde mais do que ele mesmo!!

Continua…