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Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Conclusão: A Dissonância Cognitiva (ou: Não é preciso nenhum milagre aqui!)

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Título Original: Explaining the Resurrection without Recourse to Miracle
Autor: Dr. Robert M. Price
Publicado Originalmente em: The End of Christinaity,
editado por John W. Loftus, Prometheus Books, EUA, 2011, Capítulo 9
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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SÓ PRECISA DE UMA FAÍSCA PARA ACENDER O FOGO – NÃO DE UM MILAGRE

Será que imaginar o começo de uma nova religião requer que se force os limites de lei natural? Muitas delas alcançaram êxitos impressionantes, não somente numéricos, e ninguém fica tão intrigado. O Sociólogo Rodney Stark mostra como a expansão do cristianismo a partir de um círculo de fiéis sectários a uma crescente e influente seita que se tornou uma candidata credível para a religião do estado de Roma (assim como o mitraísmo e o louvor a Baal [35] tinham sido candidatos antes) se emparelha ao sucesso de seitas modernas análogas, tais como a Igreja Mórmon e a Igreja da Unificação, no mesmo período de tempo. [36] Nenhum milagre foi necessário, embora certamente houvessem virtudes cristãs que a tornou atraente, como o judaísmo tinha feito antes com os estranhos e com os pagãos. Os cristãos devem estar orgulhosos do sucesso inicial de sua fé, mas não há nada de sobrenatural nisso. [37] Tenha em mente que apelar para um milagre é simplesmente admitir que não podemos ainda explicar o fenômeno. Mas nós podemos. Existem inúmeros fatores que não envolvem sobrenaturalismo que explicam o sucesso cristão.

Algumas pessoas se focam diretamente nas consequências da morte de Jesus. Se ele não ressuscitou dos mortos de fato, como podemos explicar a súbita expansão da nova fé? Por que o círculo dos discípulos simplesmente não desistiu e não voltou para casa? Não é necessária nenhuma rejeição a milagres propriamente dita para julgar que a ascensão do cristianismo após a morte decepcionante de Jesus não precisa de um. Ela pode ser facilmente explicada em termos de redução via dissonância cognitiva. Leon Festinger, Henry Riecken e Stanley Schachter, em seu clássico psicossocial “Quando a profecia falha”, [38] desenvolveu uma teoria da “dissonância cognitiva” para explicar as reações de um culto UFO ao fracasso de sua profecia de uma invasão alienígena. [39] Extremamente constrangidos publicamente, muitos ainda assim ficaram com o grupo e, de fato, redobraram seus esforços de recrutamento. Por quê? Aparentemente, por um lado, o nível de humilhação teria sido muito profundo para enfrentar e aceitar. Não importa o quão difícil deve ser engoli-la, qualquer racionalização seria menos dolorosa do que a ter que lidar consigo mesmo e com os outros caso quisessem admitir os erros e encarar a realidade. (Alguns membros decepcionados dos modernos cultos messiânicos cometeram suicídio ao invés de encarar os fatos.) Eis o que acho dos discípulos de Jesus: eles tinham abandonado todos os trabalhos e atividades mundanas, até mesmo a família, a fim de juntar-se a Jesus e sentar-se à sua direita e à sua esquerda em sua glória que estava se aproximando. Agora ele é vergonhosamente morto, e só se pode imaginar as piadinhas que guardavam, por exemplo, para os dois discípulos assim que voltassem para a casa em Emaús. Talvez eles tenham programado de chegar em casa na calada da noite!

Por outro lado, alguém pode esperar atenuar, ou mesmo reverter, a repulsa do público à sua fé redobrando os esforços para converter estranhos a ela. Cada nova pessoa recrutada significava mais um que admitia que sua parte na campanha de ridicularização pública estava errada (como o ladrão arrependido na cruz). Então essa pessoa fica mais ocupada do que nunca batendo nas portas. “Quando as pessoas estão comprometidas com uma crença e com um curso de ação, uma evidência que claramente a refuta pode simplesmente resultar no aprofundamento da convicção e no aumento do proselitismo.” [40] Eles simplesmente começaram de novo, racionalizando que eles haviam interpretado mal isso ou aquilo da primeira vez, mas que nada iria parar o trem dessa vez! Não há milagre envolvido em nada disso. Uma reviravolta de 180 graus não é suficiente para conter as esperanças de crentes. [41] Na verdade, a derrota súbita e total pode funcionar como uma catalisador para acender a bomba com mais força do que da primeira vez. Longe de ir contra a natureza, essa é precisamente a forma como a natureza humana funciona!

Mas, realmente, todo esse maquinamento é necessário? Isso não seria como atirar num rato com uma espingarda? Alguém é incapaz de retratar os discípulos desolados, seja de Jesus ou do Dr. King, se reunindo após o choque inicial do assassinato de seu líder, se recompondo de seu pânico momentâneo, e depois se unindo uns aos outros para redobrar seus esforços em levar a causa do mestre em seu nome, e inventando histórias de que eles precisavam fazer isso? Isso é a coisa mais natural do mundo; o único “milagre” que precisamos para explicar “a transformação dos discípulos.”

CONCLUSÃO: ELEMENTAR, MEU CARO WATSON!

A ascensão do cristianismo é notável, mas não misteriosa. Gostaríamos de saber muito mais do que sabemos sobre um grande número de aspectos de origens cristãs. Mas é apenas falsa e absurda a alegação de que não poderíamos explicar o aumento da fé cristã na ressurreição sem apelarmos a um milagre. Não é o caso de só nos ter restado postular circunstâncias especiais ou multiplicar hipóteses. O crescimento da fé na ressurreição simplesmente não é nenhum problema. Se colocarmos a questão nos termos preferidos pelos apologistas da fé, negaríamos que há qualquer problema em explicar os “fatos da manhã de Páscoa”, sem recorrer a uma suspensão da lei natural. Argumentar que a fé na ressurreição não poderia ter aparecido e se espalhado a menos que tivesse sido iniciada por um verdadeiro milagre da ressurreição é como dizer que alienígenas do espaço devem ter construído as pirâmides, uma vez que não sabemos como isso poderia ter sido feito com os recursos que é sabido que os antigos egípcios dispunham. Não, mesmo que não soubéssemos como os antigos egípcios poderiam ter projetado e produzido as estruturas, a nossa ignorância de nenhuma forma poderia justificar algum apelo a uma “explicação” sobre a qual nós sabemos menos ainda. Mas não estamos sequer em tal posição. Nós não estamos coçando a cabeça nos perguntando como a fé na ressurreição surgiu. Simplesmente não há nenhum mistério.

Notas e Referências:

35. Sim, culto a Baal! Isso foi ideia do imperador Heliogábalo; tal culto já havia sido popular na Síria Romana.

36. Rodney Stark, The Rise of Christianity: A Sociologist Reconsiders History (Princeton: Princeton University Press, 1996).

37. Richard Carrier, Not the Impossible Faith: Why Christianity Didn’t Need a Miracle to Succeed (Raleigh, NC: Lulu, 2009). Veja o capítulo 2, do Carrier, neste volume.

38. Leon Festinger, Henry Riecken, and Stanley Schachter, When Prophecy Fails: A Social and Psychological Study of a Modern Group that Predicted the Destruction of the World (New York: Harper and Row Torchbooks, 1964).

39. A teoria da dissonância cognitiva está bem estabelecida na psicologia e tem sido aplicada sobre as origens do cristianismo por Adela Collins e outros: ver Carrier, “Burial of Jesus,” 387–88 (com nota 55, 392); e Carrier, “Plausibility of Theft,” 356–57, para vários outros exemplos na história da religião.

40. Festinger, Riecken, and Schachter, When Prophecy Fails, 12.

41. Eric Hoffer, The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements (New York: Harper and Row, 1951).

Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 4: Os Sósias

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Título Original: Explaining the Resurrection without Recourse to Miracle
Autor: Dr. Robert M. Price
Publicado Originalmente em: The End of Christinaity,
editado por John W. Loftus, Prometheus Books, EUA, 2011, Capítulo 9
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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NÓS JÁ NOS VIMOS ANTES?

À primeira vista, a ideia de que o Senhor Ressuscitado era, hm, uma outra pessoa, talvez algum outro salvador, ou alguém representando Jesus, parece bobagem. Identidade errada? Você só pode estar brincando! Mas os próprios Evangelhos introduzem esta suspeita – não a de que alguém estava representando o Jesus morto (como as pessoas que posteriormente alegaram ser David Koresh, por exemplo [N.doT.: é mais ou menos como alguém alegando ser Cleópatra ou Júlio César hoje em dia]), mas sim a suspeita de que os seus discípulos em luto, resistentes em deixá-lo ir, agarraram-se à ilusão de que algum indivíduo desconhecido que encontraram logo após a crucificação deve realmente ter sido Jesus, vivo novamente.

Se quiséssemos fazer o papel de verdadeiros críticos do Novo Testamento, e não apenas jogar o jogo dos apologistas, nós provavelmente devemos chegar a algo como a teoria de James M. Robinson na qual o motivo para o não reconhecimento era decorrente do entendimento original de que aparições de ressurreição seriam como explosões de luz brilhante e ofuscante, na qual nenhuma forma humana poderia ser facilmente delineada. [29] Pense em Apocalipse 1:14-16; ou Marcos 9:2-3; ou Mateus 17:2 (muitas vezes tomada como uma narrativa deslocada da ressurreição); ou Atos 9:3-6: todos estes representam um Jesus brilhante com uma radiação sobrenatural. [30]

Como tal, ele não é facilmente reconhecível. “Quem és tu, Senhor?” (Atos 9:5). Robinson acha que esta é a origem e o ambiente natural do motivo. O problema é que ela foi herdada por narrativas da Páscoa que foram reescritas como se o Jesus carnal tivesse se levantado da maca do necrotério e se anunciado: o mesmo homem, no mesmo corpo. Nesse caso, por que eles não conseguiram reconhecê-lo da mesma forma que faz um parente chamado para o identificar um defunto?

O motivo do não reconhecimento já não serve, funcionando apenas como um lembrete revelador da fé pascal de tempos passados. (Do mesmo modo, as histórias que ainda retratam o Jesus Ressuscitado no meio de uma luz da qual não conseguimos chegar perto não são mais apresentados como tecnicamente histórias de ressurreição! Agora elas são visões especiais concedidas a indivíduos ou pequenos grupos, antes ou depois da Páscoa).

As histórias de Páscoa que são contadas atualmente apresentam um Jesus carnal, sem os efeitos especiais, mas ainda há este persistente detalhe de duvidar que é ele mesmo, ou até mesmo de pensar que ele é uma outra pessoa. Os discípulos a caminho dos Emaús  (Lucas 24:13-35) conversam com o homem durante horas, e apenas quando ele desaparece, ocorre a eles que era seu velho mestre. Os discípulos, mesmo ao receberem ordens diretas, ponderam se é realmente ele (Mateus 28:17“mas eles [não “alguns deles”] duvidavam”). [31] (N.doT.: Não deixem de ler essa nota!) Maria Madalena no túmulo também não reconhece Jesus (João 20:14). Os discípulos desiludidos, se reajustando a uma vida mundana, vêm Jesus na praia, mas eles não o reconheceram (João 21:4). Vamos dar aos apologistas o benefício da dúvida e agir como se essas histórias evangélicas da Páscoa fossem, como eles insistem, narrativas genuínas de encontros. Todo esse negócio de não reconhecimento, que nós jamais esperaríamos, inevitavelmente convida à suspeita de que os encontros de Páscoa eram realmente avistamentos de, encontros com, figuras só mais tarde identificadas como Jesus, e depois como um meio de escapar da tristeza e do desespero.

“Percebendo” que era Jesus em retrospecto não era tão bom como percebê-lo no momento exato, mas depois surgiu uma vantagem: tal afirmação não poderia ser desmascarada. É como quando alguém dá instruções a uma pessoa perdida que parece familiar, mas não pode ser reconhecida, e mais tarde um amigo lhe diz: “Eu ouvi tal celebridade estava na cidade hoje, sem aviso prévio.” E então se pensa, “Deve ter sido ele! Se eu tivesse percebido isso naquele momento! Eu poderia ter pedido um autógrafo!” Mas que diabos, ainda assim é muito emocionante. E, claro, poderia não ter sido a celebridade, e uma vez que você não pode mais verificar de uma forma ou de outra, você ainda pode contar a história, usando o elemento de incerteza apenas como tempero.

Marcos (6:14; 8:28) fornece um precedente marcante quando nos diz (duas vezes, não menos) que muitas pessoas acreditavam que estavam vendo ou ouvindo sobre um João Batista ressuscitado, apesar de Marcos afirmar saber mais: era um caso de identidade trocada, uma vez que a figura era na verdade Jesus. Não é exagero se perguntar se a mesma coisa aconteceu no caso de Jesus. Afinal, havia uma abundância de tais figuras ao redor. Celso nos diz que sempre havia um profeta circulando pela Fenícia e pela Palestina:

Há muitos, que não possuem nome …, que profetizam pela menor desculpa por alguma causa trivial dentro e fora dos templos, e há alguns que vagueiam mendigando em torno de cidades e campos militares; e eles fingem se moverem como se tivessem dando algum auxílio oracular. É um costume ordinário e comum para eles dizer: “Eu sou Deus (ou um filho de Deus, ou um espírito divino). E eu vim. O mundo já está sendo destruído. E vocês, ó homens, estão prestes a perecer por causa de suas iniquidades. Mas eu gostaria de vos salvar. E vocês devem me ver voltar novamente com o poder celestial. Bendito é aquele que me adora agora! Mas eu lançarei fogo eterno sobre todo o resto, tanto em cidades e quanto em lugares do país. E os homens que não conseguem perceber as penalidades que os aguardam irão em vão se arrepender e gemer. Mas vou preservar para sempre aqueles que foram convencidos por mim.” [32]

Jesus pode ter sido tomado por um destes, ou um desses por Jesus. O Sermão do Monte das Oliveiras explicitamente adverte seus leitores a não misturar pessoas como Simão bar-Giora e Jesus ben-Ananias com Jesus Cristo (Marcos 13:5-6, 21-23), alguma coisa alguém deve ter feito, ou nós não estaríamos lendo nenhum aviso! Da mesma forma, Paulo foi levado para o profeta revolucionário egípcio em Atos 21:38, também mencionado por Josefo. É dito que Simão Mago alegou ser Jesus: “Ele contou que era ele mesmo que, em verdade, apareceu entre os judeus como o Filho…. e pensaram que ele tinha sofrido na Judéia, embora ele realmente não tenha sofrido.” [33]

Essas identificações errôneas não são difíceis de entender, uma vez que compreender a forma como “heróis locais” (incluindo os santos populares e revolucionários) são venerados no Oriente Médio e tem sido por milênios. Scott D. Hill diz: “Muitas vezes, os homens vivos são vistos como encarnações ou representantes de um herói local conhecido.” [34]

Vamos nos imaginar entre a comunidade apostólica nos primeiros dias. Ouvimos relatos de vários dos irmãos que viram o retalhado Jesus vivo novamente. Naturalmente, nossos olhos se arregalam; nossos ouvidos ficam em pé. E, como Thomas, perguntamos: “Você têm certeza? Conte-me mais sobre isso!” E alguém diz: “É claro que eu não sabia que era Jesus na época. Eu só me dei conta depois.” (assim como em Lucas 24:13-32). Outro diz: “A pessoa que vi não se parecia exatamente com ele, eu admito, mas depois eu percebi que deve ter sido Jesus.” (assim como em Mateus 28:17; João 20:14-15; 21:2-12). E assim por diante. Eu digo a você que estaríamos justificados em imaginar o que poderia ter acontecido, ao invés de ficarmos convencidos de que os nossos amigos tinham realmente visto Jesus. Seus próprios testemunhos criam dúvida em vez de fé.

Continua…

Notas e Referências:

29. James M. Robinson, “Jesus from Easter to Valentinus (or to the Apostles Creed),” em Jesus according to the Earliest Witness, ed. James M. Robinson (Minneapolis: Fortress, 2007), 38–39.

30. Rudolf Bultmann, History of the Synoptic Tradition, tradz. John Marsh (New York: Harper and Row, 1972), 259–61.

31. Ao contrário das contenciosas mas populares traduções modernas, o texto simplesmente diz kai idontes autonprosekunesan hoi de edistasan, “e ao vê-lo eles o adoraram, mas duvidaram”, implicando todos os 11 discípulos (o hoi de Mateus 28:17 é o mesmo de hoi de Mateus 28:16, especificamente hoi endeka mathetai“os 11 discípulos”).

32. Citado em Origen, Contra Celsum, tradz. Henry Chadwick (New York: Cambridge University Press, 1980), 402.

33. Irenaeus, Against Heresies 1.23.1, 3.

34. Scott D. Hill, “The Local Hero in Palestine in Comparative Perspective,” em Elijah and Elisha em Socioliterary Perspective, ed. Robert B. Coote (Atlanta: Scholars Press, 1992), 37–74.

Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 3: A Tumba Provisória

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Título Original: Explaining the Resurrection without Recourse to Miracle
Autor: Dr. Robert M. Price
Publicado Originalmente em: The End of Christinaity,
editado por John W. Loftus, Prometheus Books, EUA, 2011, Capítulo 9
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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SEM ENDEREÇO PARA REDIRECIONAMENTO

Ao ler o relato de Páscoa em João 20:11-15, eu não preciso impor algum tipo de ódio de Jesus ao ceticismo para que ele pudesse “escapar” das implicações do texto. Não, eu me vejo lendo o texto com reverência, valorizando sua atmosfera sobrenaturalmente refrescante nessa história maravilhosa e, de repente, sou surpreendido com Maria Madalena não encontrando ninguém no túmulo: Ó Deus! Haverá um fim para os horrores desse fim de semana? E agora? Ela pergunta a um homem que estava por perto, aparentemente o zelador do mausoléu, se ele já transferiu o cadáver para outro lugar. Ela não faz ideia do que pode ter acontecido com ele. É bastante óbvio. Como também nos foi dito em 19:41-42, “E havia um horto naquele lugar onde fora crucificado, e no horto um sepulcro novo, em que ainda ninguém havia sido posto. Ali, pois (por causa da preparação dos judeus, e por estar perto aquele sepulcro), puseram a Jesus.” Os restos de Jesus foram depositados nessa tumba próxima apenas como uma medida de emergência porque havia pouco tempo. Não era para ele para ficar lá. [26]

Maria está preocupada apenas com a possibilidade de não ser capaz de descobrir o lugar de descanso final. Isso não é apenas uma especulação estranha feita por racionalistas. Esse é o cenário traçado pelo próprio Evangelho. E embora o evangelista (obviamente) passe a fornecer uma explicação alternativa, a da fé na ressurreição de Jesus, o próprio texto já forneceu uma explicação puramente natural para um túmulo vazio, bem como a implicação de que os cristãos podem não ter sido informados (ou jamais ter sido informados) do local final de descanso de Jesus. [27] O próprio João nos diz que à primeira vista, a explicação era uma simples realocação de um cadáver escondido lá às pressas por algum momento.

Talvez seja isso que aconteceu. Bingo: Jesus é enterrado, o túmulo vazio é descoberto, e é muito tarde para descobrir para onde o corpo foi levado, talvez porque os discípulos não sabiam do papel de José de Arimateia e de Nicodemos. Talvez o guardião interrogado por Maria fosse o substituto do homem que havia aprovado a retirada do corpo no turno anterior, e ele simplesmente não sabia o que dizer a ela. (“Não, minha senhora, eu não sei quem ele é; desculpe”) Não há nenhuma perplexidade aqui que nos faria preferir milagres sobrenaturais como a melhor explicação, não é?

Se não fôssemos tão familiarizados com o texto, nos pareceria bastante ridículo pensar que se deve fazer a inferência de que se o túmulo estava vazio então Jesus deve ter ressuscitado dos mortos, tão absurda quanto a cena de “A Vida de Brian” de Monty Python em que os seguidores de Brian momentaneamente perdem ele de vista no meio de uma multidão e já saltam para a conclusão, “Ele foi levado para cima!” “Não, lá está ele!” [28] Mas os discípulos afirmaram ter visto ele! Bem, também há explicações prontas para isso…

Continua…

Notas e Referências:

26. Veja Richard Carrier, “The Burial of Jesus in Light of Jewish Law,” Price and Lowder, The Empty Tomb, 369–92.

27. Similarmente, o atestado de Mateus ao relato difundido de que o corpo foi roubado é evidência de que ele foi: veja Carrier, “Plausibility of Theft,” em Price and Lowder, “The Empty Tomb,” 355–57.

28. Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, e Michael Palin, Monty Python’s The Life of Brian (of Nazareth) (New York: Ace, 1979), 99.

Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 2: Jesus não morreu

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Título Original: Explaining the Resurrection without Recourse to Miracle
Autor: Dr. Robert M. Price
Publicado Originalmente em: The End of Christinaity,
editado por John W. Loftus, Prometheus Books, EUA, 2011, Capítulo 9
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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“Mas eu não estou morto!”
“Você não está enganando ninguém!”

Apologistas acham que podem refutar a Teoria de Scheintod (morte aparente) através de uma citação de DF Strauss, que ridicularizou a noção de que um Jesus vivo mas crucificado, quebrado e sangrando poderia ter cambaleado entre seus discípulos posando como o poderoso vencedor sobre a morte:

É impossível que um ser que foi roubado meio morto do sepulcramento, que se arrastava por aí fraco e doente, querendo tratamento médico, que necessitava de curativos, de fortalecimento e de indulgência, e que no fim de tudo ainda se rendeu a seus sofrimentos, poderia ter dado aos discípulos a impressão de que ele era um conquistador sobre a morte e a sepultura, o príncipe da vida, uma impressão que estava no âmago de seu futuro ministério. Tal reanimação só poderia ter enfraquecido a impressão que ele tinha deixado sobre eles na vida e na morte – no máximo, só poderia ter dado a ela um tom elegíaco, mas não poderia de forma alguma transformar sua tristeza em entusiasmo, ou ter elevado sua reverência em adorar. [11]

Eu não sei se consigo ver onde esse argumento quer chegar. Tal cena é um pouco cômica, mas não é necessária ou implícita na Teoria de Scheintod. Tudo que essa teoria (também  chamada de Teoria do Desmaio) implica é um Jesus que, na providência do Pai, enganou a morte, e cuja filiação foi, desta forma, confirmada de forma segura. A subsequente idolatria apaixonada de seus discípulos aliviados no salvador em recuperação só teria alimentado o instinto de adorá-lo. Tudo o que há de supor é que ele esperou um tempo, até que ele ficou melhor e mais forte, para fazer pronunciamentos grandiosos. Isso não é pedir muito.

Mas vamos voltar um pouco. O que sugere a Teoria do Desmaio? Logo acima eu a retratei como um produto de pressupostos Racionalistas: como uma explicação, é tudo o que restou a eles. Mas agora vou comprovar que há muito mais do que isso. Eu acho que os próprios textos sugerem isso, e na verdade sugerem com tanta força, que me parece que o modelo de Scheintod foi o ensinamento real dos Evangelhos, em algum estágio anterior. Desde então, tal ensinamento foi editado no curso da evolução da crença cristã. [12]

Eis os meus motivos. Primeiro, há a oração de Jesus no Jardim do Getsêmani, em Mar 14:35-36: “E, tendo ido um pouco mais adiante, prostrou-se em terra; e orou para que, se fosse possível, passasse dele aquela hora. E disse: ‘Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres.'” O que soa mais naturalmente para mim é Marcos destinando esta súplica para receber uma resposta, apesar das aparências iniciais: “Nos dias da sua carne, Jesus ofereceu, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas àquele que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia.” (Hb 5:7) [13]. E se isto não é uma leitura da oração Getsêmani que enxerga Deus entregando a Jesus o que ele pediu, eu não sei o que as palavras significam. [14] Em suma, o texto parece antecipar que era a intenção de Jesus de seguir o caminho do sacrifício que expiaria Israel, assim como, para muitos pensadores rabínicos, era a intenção de Isaque de morrer, e não qualquer eventualidade de sua morte real, que expiou os pecados futuros de Israel. [15]

Em segundo lugar, há a surpresa de Pôncio Pilatos que Jesus havia expirado tão rapidamente, o que significa que talvez ele não tivesse expirado. “Chegou José de Arimatéia, senador honrado, que também esperava o reino de Deus, e ousadamente foi a Pilatos, e pediu o corpo de Jesus. E Pilatos se maravilhou de que já estivesse morto. E, chamando o centurião, perguntou-lhe se já havia muito que tinha morrido. E, tendo-se certificado pelo centurião, deu o corpo a José.” (Marcos 15:43-45). Este fato estranho, a morte prematura sem explicação de Jesus, certamente é a primeira parte da teoria. Ficamos esperando a segunda: ele não está morto, mas apenas drogado. (Nota do Tradutor: recentemente a série South Park fez um episódio especulando sobre a possibilidade de Jesus ter sido drogado durante a crucificação, fazendo um paralelo com o caso recente do ciclista Armstrong. Será que os autores da série leram este artigo?) De fato, a atenção  dedicada a dar a Jesus uma bebida é surpreendente se não desejava revelar ter produzido algum efeito. Afinal, uma esponja embebida em algo com forte odor sendo aplicado na sua boca muito suspeitamente no momento imediatamente anterior à sua morte é outra coisa estranha de ocorrer (Marcos 15:36-37), mas essa esquisitice é confirmada de forma independente por uma testemunha ocular (João 19:29-35). Exegetas islâmicos têm sido rápidos em reconhecer este ponto: “as palavras de Pilatos … mostram que, no momento da crucificação em si, uma dúvida tinha sido levantada sobre se Jesus tivesse de fato morrido e a dúvida emanava de ninguém menos do que aquele que sabia a partir da experiência o tempo que uma pessoa levava para morrer na cruz.” [16]

Da mesma forma, a zombaria dos Sanhedrinistas (Marcos 15:32: “Ó Cristo, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para que possamos ver e crer”) só é realmente uma ironia se Jesus,  de fato, estivesse prestes a demonstrar sua filiação divina descendo da cruz vivo. Isso tudo  é coincidência? Apenas uma leitura rasa e bitolada de Marcos diz que sim.

Eu não sou o primeiro a notar o paralelo surpreendente entre Marcos 15:43-46 e a história de Flávio Josefo (Josefo, filho de Matias), o historiador, de como ele reconheceu um antigo aliado na cruz e convenceu Tito a trazê-lo para baixo, salvando sua vida…

Eu vi muitos cativos crucificados, e me lembrei de três deles como amigos antigos. Fiquei muito triste com isso em minha mente, e fui com lágrimas nos olhos a Tito, e disse-lhe sobre eles; então ele imediatamente ordenou que eles fossem trazidos para baixo, e para que se tivesse o maior cuidado com eles, tendo em vista a sua recuperação; ainda assim, dois deles morreram sob os cuidados do médico, enquanto o terceiro se recuperou. [17]

Alguém poderia plausivelmente argumentar que a história de Marcos foi na verdade emprestada de Josefo (“José de Arimatéia” = “Josefo, filho de Matias”, que é de fato o nome real de Josefo). [18] Mas se não foi, a história de Josefo pelo menos fica em paralelo com a versão de Marcos, como eu estou sugerindo que a entendemos.

Terceiro, falando de José de Arimatéia, por que Mateus nos diz que José era rico (27:57)? Essa narrativa dificilmente pode ser concebida como um cumprimento de mais uma profecia (como se poderia sugerir, mas Mateus não diz), desta vez Isaías 53:9, “E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte.” Por um lado, Mateus sempre chama a atenção para cumprimentos proféticos (veja a história do nascimento, etc: Mateus 1:22; 2:17-23; 4:14). Por outro lado, ele dificilmente pode ter considerado Josefo um homem mau e, na verdade, diz exatamente o contrário (Mateus 27:57). Então, o que este detalhe está fazendo lá? Eu acredito que se destina a proporcionar motivação para ladrões invadindo o opulento túmulo recém-fechado dentro do qual apenas um machucado e surrado Jesus esperava, ao contrário de suas expectativas. Ladrões, como contado em romances antigos deste período (por exemplo, Chaereas e Callirhoe de Chariton, Conto de Éfeso de Xenofonte), arrombaram o opulento túmulo recém-fechado, na esperança de encontrar símbolos funerários valiosos, a la faraós, mas encontraram apenas uma vítima de um sepultamento acidentalmente prematuro voltando à consciência. [20] Caso contrário, a existência de tais contos formariam uma estranha coincidência.

Quarto, a cena de Lucas da reunião em que Jesus demonstra sua corporeidade (Lucas 24:36-43) pode ser vista como um surpreendente paralelo com a cena de Apolônio de Tiana, quando ele reaparece através do Mediterrâneo para saudar seus discípulos que assumiram que ele tinha sido executado pelo tirano romano Domiciano e agora achavam que ele era um fantasma: [21]

Damis gemeu em voz alta, e algo como, “Deuses acima, será que vamos ver o nosso bom e nobre camarada?” Apolônio, que agora estava de pé na entrada da gruta, ouviu e disse: “Você vai, na verdade, você já pode ver.” “Vivo”, perguntou Demétrio, “Mas se morto, nós nunca paramos de chorar por você.” Apolônio estendeu a mão, e disse: “Pegue em mim. Se eu estou te iludindo, então eu sou um fantasma de volta do domínio de Perséfone, como os fantasmas que os deuses abaixo revelam aos homens quando o luto os torna muito desanimados. Mas se eu permanecer aqui quando você me tocar, convença Damis, também, que eu estou vivo e que não perdi o meu corpo.”

O que a cena de Apolônio quis narrar (e eu acredito que Lucas também) definitivamente não é aquela em que o herói morre e volta de alguma maneira dos mortos, mas sim aquela em que ele escapa da morte. Ele não morreu. Em ambos os casos, é contado que os discípulos primeiramente imaginaram que estavam vendo o fantasma de seu mestre, apenas para ter certeza de sua corporeidade viva. Ele não morreu, no fim das contas. Por que será que João muda a história (que ele encontrou ou na tradição oral, ou seja: no uso litúrgico, ou em Lucas), de modo que o foco agora não é só a corporalidade, mas suas feridas mortais tangíveis? Precisamente para acabar com essa possibilidade de compreensão de Jesus ter escapado da morte. É somente em João 20 que nós já lemos que Jesus foi pregado na cruz em vez de, digamos, ser apenas anexado a ela, como era sempre narrado. É somente em João 19:34-37 e 20:25-27, que lemos sobre uma facada fatal através das costelas (onde é prontamente citada uma testemunha anônima de quem ninguém jamais ouviu falar antes). João adicionou esses “detalhes” para garantir que o leitor soubesse que Jesus estava realmente morto, algo que ele deve ter tido que fazer uma vez que muitos não acreditavam nisso. Este também deve ser o motivo pelo qual ele descartou a especulação dos inimigos de Jesus de que ele poderia estar planejando deixar a Palestina para viajar entre a diáspora (João 7:35); isso é o que ele deveria fazer caso sobrevivesse à crucificação, fugindo da Palestina assim como Aristóteles fugiu de Atenas quando o problema ameaçou a sua cabeça, “para que Atenas não peque pela segunda vez contra a filosofia”.

É bastante comum para os seguidores de heróis e líderes mortos reivindicar que seu homem não morreu, mas que somente entrou na clandestinidade, [22] então o fato de alguns cristãos terem contado a história de Jesus desta forma dificilmente é prova de que ele sobreviveu a crucificação (embora alguns estudiosos, cuja erudição é muito superior à minha e à dos apologistas, achem que ele sobreviveu). [23] Mas a minha tese é que, tendo em vista todos esses fatores no texto, que de outra forma seriam meros “red herrings” na narrativa (mesmo que tenham acontecido da forma como aconteceram, por que os evangelistas se preocuparam registrá-las?), não é de forma alguma um ato de desespero sugerir que Jesus estava drogado na cruz, tirado de lá prematuramente, e que sobreviveu pelo menos por um tempo. (Pode-se mesmo tomar a história da ascensão como um eufemismo para a sua morte que chegou logo em seguida).

Um último ponto: o trunfo apologista contra essa possibilidade é que os guardas romanos no túmulo teriam constituído uma barreira boa o bastante para um Jesus doente e ferido. Como ele poderia ter passado por eles? Mais uma vez, não vou perder tempo com o óbvio: somente Mateus menciona tais guardas, uma impossibilidade se houve tal desprendimento. [24] Vamos supor que Mateus esteja certo e que os outros evangelistas de alguma forma ignoraram essa parte da história como uma indigna ninharia sem importância de menção. Nesse caso, talvez fossem esses soldados que tomaram a precaução elementar de verificar o conteúdo da tumba antes de selá-la. Existia, afinal, uma espécie de intervalo entre José enterrar Jesus e o Sinédrio Pilatos pedindo para os guardas. Eles devem ter verificado. E se Jesus estivesse revivendo, simplesmente não há razão para acreditar que teriam o trancado vivo! Talvez eles teriam fugido, assim como as mulheres em Marcos fizeram, vítimas de medo supersticioso. Ou talvez eles teriam ajudado o “homem acabado”. [25] Essa reconstrução é tão plausível como uma quanto qualquer harmonização evangélica dos relatos contraditórios do Evangelho, que recorrerem necessariamente à mesma prática de pressupor eventos ocorridos que nenhum Evangelho menciona. Uma ressurreição milagrosa realmente é mais provável?

Continua…

Notas e Referências

11. David Friedrich Strauss, The Life of Jesus for the People”, 2nd ed. (London: Williams and Norgate, 1879), 1:412.

12. Sim, sim, eu sei que os apologistas irão chamar a atenção sobre isso, insistindo que não havia tempo para uma evolução textual como essa e que não há nenhuma evidência nos manuscritos de que isso ocorreu. Mas os primeiros apologistas datadores não valorizam o fato de que a datação seria, se verdadeira, mais conveniente para eles. E quanto às evidências de manuscritos, não há, de um modo ou de outro, nenhum deles para o período entre a composição dos Evangelhos e os primeiros exemplares que possuímos. Nós não temos nenhuma alternativa a não ser tentar procurar pistas internas de redação, e nenhum direito de simplesmente assumir que os Evangelhos sempre foram lidos como eles são hoje.

13. Mumtaz Ahmad Faruqui, “The Crumbling of the Cross” (Lahore, Pakistan: Ahmadiyya Anjuman Isha’at-i-Islam, 1973), 25. Faruqui já faz tal conexão, apesar de com certeza ele estar falando por uma longa tradição polêmica/exegética.

14. “É certo que a oração feita em Getsêmani foi aceita.” Hazrat Mirza Ghulam Ahmad, Jesus in India: Being an Account of Jesus’ Escape from Death on the Cross and of His Journey to India, trans. Qazi Abdul Hamid (Rabwah, Pakistan: Ahmadiyya Muslim Foreign Missions Department, 1962), 37.

15. Solomon Schechter, “Some Aspects of Rabbinic Theology” (New York: Macmillan, 1910), 174–75;
Shalom Spiegel, The Last Trial: On the Legends and Lore of the Command to Abraham to Offer Isaac as a Sacrifice: The Akedah”, trans. Judah Goldin (Woodstock, VT: Jewish Lights Classic Reprints, 1993), 41–43. Spiegel está argumentando que, de acordo com uma tradição antiga e persistente, os judeus primeiramente contavam a história de Isaac sendo na realidade morto e sua morte valendo pelo pecado de Israel. Então a história foi mudada mais tarde por causa do desprezo ao sacrifício humano: a disposição de Isaac (ou Abraão) deve ter sido o suficiente. Mesmo assim, pode-se inferir que a história do Evangelho originalmente contava uma morte real, e que os fatos que eu estou destacando eram parte de uma tentativa generalizada de reescrita “docética”. Isso pode ser. Mas não afeta minha teoria de um jeito ou de outro. É apenas uma versão pré-canônica e pré-redacional de Scheintod, seja primária ou secundária, e que torna o estado da evidência ambígua o suficiente para que a Teoria do Desmaio permaneça totalmente plausível, o que é o único veredicto que pode ser tomado por qualquer das teorias nesta data atual da história.

16. Ahmad, “Jesus in India”, 33. Este ramo do Islã aceita a afirmação do Corão de que Jesus não morreu na cruz (4:157-58), mas eles acreditam que Jesus desceu da cruz ainda vivo, o que fez com que, dentre outras coisas, os seguidores dos ensinamentos de Ahmad (o Ahmadiyya) fossem descartados como hereges pela maioria dos muçulmanos.

17. Josephus, Life 75 [William Whiston translation].

18. Veja Josephus, Life 1. Para apologistas é axiomático (ou seja, um artigo de fé) que os escritores dos Atos e dos Evangelhos não podem ter usado Josefo, já que isso mandaria para o inferno as suas datações. Entretanto, Steve Mason, Josephus and the New Testament” (Peabody, MA: Hendrickson, 1992), 185–229, conta uma estória bem diferente, e os principais acadêmicos concordam, como por exemplo Richard Pervo, The Mystery of Acts: Unraveling Its Story” (Santa Rosa, CA: Polebridge, 2008) e Acts: A Commentary” (Minneapolis: Fortress, 2009). Além dissom Theodore J. Weeden, The Two Jesuses: Jesus of Jerusalem and Jesus of Nazareth” [monografia publicada em Forum, New Series 6, no. 2 (Fall 2003), 137–341] rearranja a mobília no Titabic: a narrativa da paixão revela ser baseada nos escritos de Josefo sobre Jesus ben Ananias (Josefo, Jewish War 6.300–9)! Esta possibilidade é corroborada em Craig Evans, “Jesus in Non-Christian Sources,” em “Studying the Historical Jesus: Evaluations of the State of Current Research“, ed. Bruce Chilton and Craig Evans (Leiden, South Holland: Brill Academic, 1998), 475–77.

19. Krister Stendahl, “The School of St. Matthew and Its Use of the Old Testament” (Philadelphia: Fortress, 1986);
Richard Longenecker, Biblical Exegesis in the Apostolic Period” (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1975), 140–52.

20. B. P. Reardon, ed., “Collected Ancient Greek Novels” (Berkeley: University of California Press, 1989), 29–32 (Chariton, Book 1, Chapters 7–9) and 151–53 (Xenophon, Book 3, Chapters 8-10).

21. Philostratus, Life of Apollonius of Tyana 8.12, trans. C. P. Jones, Eu não estou sugerindo que Lucas pegou essa cena de Filóstrato ou de alguma fonte anterior sobre Apolônio. Não, só quero dizer que um coloca o outro sob uma nova luz: eles soam tão semelhantes, quem vai dizer que Lucas está tentando dizer algo mais do que Filóstrato queria?

22. Stephen Fuchs, Rebellious Prophets: “A Study of Messianic Movements in Indian Religions” (New York: Asia Publishing House, 1965), 31, 33,154,188,197,220.

23. Robert Graves and Joshua Podro, “Jesus in Rome: A Historical Conjecture” (London: Cassell, 1957);
J. Duncan and M. Derrett, “The Anastasia: The Resurrection of Jesus as an Historical Event” (Shipston-on-Stour, UK: P. Drinkwater, 1982);
Barbara Thiering, “Jesus of the Apocalypse: The Life of Jesus After the Crucifixion” (New York: Doubleday, 1995).

24. Veja Richard Carrier, “The Plausibility of Theft,” em “The Empty Tomb: Jesus beyond the Grave”, ed. Robert M. Price and Jeffery Jay Lowder (Amherst, NY: Prometheus Books, 2005), 358–64.

25. Pilatos assim descreve o Jesus brutalizado em Tim Rice, “Jesus Christ Superstar”.

Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 1: Entrando no Jogo

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Título Original: Explaining the Resurrection without Recourse to Miracle
Autor: Dr. Robert M. Price
Publicado Originalmente em: The End of Christinaity,
editado por John W. Loftus, Prometheus Books, EUA, 2011, Capítulo 9
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres

Uma coisa é decidir que se deve buscar uma alternativa naturalista para uma ressurreição milagrosa. É isso o que os apologistas cristãos imaginam que os céticos estão fazendo, jogando acuados, com todos os caminhos de fuga fechados. Da mesma forma que uma pessoa pode imaginar um crente religioso, contra a parede, rezando por um milagre de libertação, apologistas pintam os céticos cercados pelo “Cão do Céu” em uma caça evangelística e, por mais estranho que possa parecer, “orando” (pedindo desesperadamente) para a ausência de um milagre: alguma alternativa naturalista para a ressurreição da Jesus. [1] Outra coisa é o cético afirmar que o recurso ao milagre é completamente supérfluo, uma hipótese de “estepe”. E este será o meu caso aqui. Eu não estou sequer levantando a questão da possibilidade dos milagres. Isto não vem ao caso, até onde posso ver. Deixe-me explicar o porquê.

Para fins de argumentação, vou assumir que a narrativa “padrão” para a ressurreição nos Evangelhos é historicamente correta. Realmente havia um José de Arimatéa. Realmente havia um grupo de discípulos do sexo feminino que testemunhou seu enterro. O túmulo realmente foi descoberto vazio posteriormente. Discípulos realmente reivindicaram tê-lo visto. Claro, por que não? Tenha em mente, porém, que isso é puramente um exercício de análise da abordagem particular usada por William Lane Craig e seus colegas [2], não a abordagem usada pelos críticos do Novo Testamento [3], que não asseguram a precisão das histórias dos Evangelhos. Craig e os outros contam com a ingenuidade de seu público, que abre os Evangelhos pronto e ansioso para acreditar no que eles dizem [4]. Eles estão argumentando como contra os racionalistas do século XVIII que asseveravam a inerrância virtual da narrativa do Novo Testamento, disputando (por mais estranho que pareça) apenas o fator de causalidade milagrosa alegado [5]. Se o Evangelho nos diz que Jesus foi crucificado e que três dias depois ele apareceu aos seus entes queridos, então devemos acreditar em ambos. Alguns detalhes podem ser enfeites lendários, mas o núcleo da história deve ser verdadeiro. A questão é:

Como podemos ir de um para o outro? Como podemos ligar os pontos? Racionalistas descartaram o sobrenatural por uma questão de método; eles assumiram que Deus não trabalhou e nem trabalha desse modo. Ele opera através de um sistema sublime das leis naturais que, por exemplo, impedem um corpo genuinamente morto volte espontaneamente à vida. Então, concluíram os Racionalistas, se Jesus tenha sido crucificado e aparecido vivo novamente depois, é porque ele não sucumbiu à crucificação. Ele deve ter sido retirado vivo, lambeu suas feridas por um curto tempo, e voltou aos discípulos, pelo menos temporariamente. É contra esse argumento e outros como ele (a Teoria do Túmulo Errado etc.) que os apologistas contemporâneos respondem.

Mas estudiosos modernos do Novo Testamento já não dão como certo que as narrativas de Páscoa são históricas. Por que elas deveriam ser? Elas são tão parecidas com narrativas apoteóticas como as de Hércules, Rômulo, Apolônio, Empédocles, e outras [6] que o ônus da prova cabe àquele que insistir que, no caso único de Jesus o “mito tornou-se realidade.” [7]. E isso que acabei de dizer é manifestamente um juízo teológico, não um veredito histórico [8]. Mas o importante é ver que a cadeia de “eventos” que levou à epifania do Ressuscitado é igualmente lendária: mera cenografia para os estudiosos do “Grande Evento”. Estudiosos não supõem que, digamos, a estória de José de Arimatéa, ou que as mulheres que visitam o túmulo, sejam história, e que a única coisa que exige explicação especial é por que o túmulo estava vazio. Como o meu velho pastor Donald Morris uma vez brincou em um sermão, “Deixe-me citar a mim mesmo para não deturpar minhas próprias opiniões”:

O que os apologistas evangélicos ainda estão tentando mostrar … é que a sua versão da ressurreição foi o mais compatível com a aceitação de todos os detalhes das narrativas evangélicas da Páscoa como verdadeiros e inegociáveis. Este é um argumento muito estranho quando você percebe o que realmente está acontecendo: é implicitamente um argumento entre inerrantistas bíblicos em que os defensores da ressurreição assumem que seus opositores concordam com eles que todos os detalhes são verdadeiros, que apenas o ponto culminante está em questão… É por isso que, se apologistas como William Lane Craig conseguirem levar um adversário a admitir que José de Arimatéa provavelmente enterrou Jesus no seu próprio túmulo, e que as mulheres  provavelmente visitaram o túmulo, e que o túmulo foi provavelmente encontrado vazio, então ele pode pressionar para a conclusão de que, Bingo! Jesus deve ter ressuscitado dos mortos! O que eles de alguma forma não vêem é que argumentar assim é como argumentar que a Cidade Esmeralda de Oz deve existir efetivamente já que, caso contrário, para onde a Estrada dos Tijolos Amarelos levaria?… Nós simplesmente não temos nenhuma razão para supor que qualquer coisa que uma narrativa antiga nos diz é verdadeira. [9]

Por que eles/nós deveríamos? Como eu já disse antes, estes apologistas cristãos podem não gostar, mas como historiador RG Collingwood explica muito bem, “o historiador crítico (lidando tanto com a Bíblia quanto com o jornal) exige que as afirmações em fontes antigas ou modernas sejam corroboradas. O historiador não toma simplesmente o escritor antigo ou moderno na sua palavra, até que ele julgue o contrário.” [10]

E, no entanto, é o que eu vou fazer aqui. É simplesmente uma experiência de pensamento. Até onde eu sei, apologistas perderam o jogo há muito tempo por errarem a identificação do tipo de narrativa que estamos lidando com Marcos 15-16, Mateus 27-28, Lucas 23-24 e João 19-21. Mas eu talvez esteja perversamente interessado em ver o quanto podem ser fracos os outros elos da cadeia de sua suposta prova. Eu quero jogar o jogo deles de Racionalismo contra anti-Racionalismo. Vou assumir como verdadeiro o caráter essencialmente histórico dos “eventos” que precederam a ressurreição. A única diferença é a seguinte: eu não acho que alguém tem que ir muito longe para chegar a uma explicação completamente natural para a suposta ressurreição. Não há necessidade de uma estratégia de recuo, algum expediente, ou algum plano de emergência. Nunca chega a isso. Tenha paciência comigo enquanto eu me aventuro na defesa da Teoria do Desmaio, da Teoria do Reenterro, da Teoria da Identidade Trocada, e da Teoria da Dissonância Cognitiva (“Transformação dos Discípulos”). Eu prevejo que iremos descobrir que não há a menor improbabilidade, nem sequer implausibilidade, anexada a qualquer uma destas opções.

Continua…

Notas e Referências:

1. Veja John Warwick Montgomery, History and Christianity (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1974), 41–58.

2. Por William Lane Craig: The Son Rises: Historical Evidencefor the Resurrection of Jesus (Chicago: Moody, 1981);
Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics, rev. ed. (Wheaton, IL: Crossway, 1994);
“The Bodily Resurrection of Jesus,” em Gospel Perspectives: Studies of History and Tradition in the Four Gospels, ed. R. T. France e David Wenham (Sheffield, England: JSOT Press, 1980), 47–74;
“The Empty Tomb of Jesus,” em Gospel Perspectives II: Studies of History and Tradition in the Four Gospels, ed. R. T. France and David Wenham (Sheffield, England: JSOT Press, 1980), 173–200;
“Did Jesus Rise from the Dead?” em Jesus under Fire: Modern Scholarship Reinvents the Historical Jesus, ed. Michael J. Wilkins and J. P. Moreland (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1995), 141–76.
Outros exemplos: Gary R. Habermas e Michael Licona, The Case for the Resurrection of Jesus (Grand Rapids, MI: Kregel, 2004);
Gregory A. Boyd e Paul Rhodes Eddy, The Jesus Legend: A Casefor the Historical Reliability of the Synoptic Jesus (Grand Rapids, MI: Baker, 2007);
Michael Licona, The Resurrection of Jesus: A New Historiographical Approach (Downers Grove, IL: IVP Academic, 2010).

3. David Friedrich Strauss, “Death and Resurrection of Jesus” em The Life of Jesus Critically Examined, trans. George Eliot e Mary Ann Evans (Philadelphia: Fortress, 1972), 691–744;
Willi Marxsen, The Resurrection of Jesus of Nazareth, trans. Margaret Kohl (Philadelphia: Fortress 1970);
Reginald H. Fuller, The Formation of the Resurrection Narratives (New York: Macmillan, 1971);
Norman Perrin, The Resurrection according to Matthew, Mark, and Luke (Philadelphia: Fortress 1977);
E veja a discussão e bibliografia citados em Richard Carrier, “Why the Resurrection Is Unbelievable,” em John Loftus, ed., The Christian Delusion: Why Faith Fails (Amherst, NY: Prometheus Books, 2010), 291–315.

4. Suas polêmicas são destinadas para o vazio, abro apóstrofo (“Ó morte, onde está o teu aguilhão?”), para adversários ausentes: os racionalistas antigos; mas a audiência/leitores real é principalmente formada por crentes que procuram acalmar as suas dúvidas. Eles, também, já estão ansiosos para acreditar no que diz a narrativa e, assim, tomar por certo a maior parte dela sem sequer perceberem, mesmo quando a história em si é o que está em questão. Não é de admirar que evangélicos, especialmente colegas apologistas, pretendem achar esta apologética convincente!

5. Albert Schweitzer, The Quest of the Historical Jesus: A Critical Study of Its Progress from Reimarus to Wrede, trans. W. Montgomery (New York: Macmillan, 1975), 27–67. Veja os capítulos 3-6 devotados aos Racionalistas, incluindo Heinrich Eber-hard Gottlob Paulus, Karl Friedrich Bahrdt, e Karl Heinrich Venturini.

6. Charles H. Talbert, What Is a Gospel? The Genre of the Canonical Gospels (Philadelphia: Fortress, 1977);
Robert M. Price, “Brand X Easters,” em The Resurrection of Jesus: A Sourcebook, ed. Bernard Brandon Scott (Santa Rosa, CA: Polebridge, 2008), 49–59.

7. C. S. Lewis, “Myth Became Fact,” in C. S. Lewis, God in the Dock: Essays on Theology and Ethics, ed. Walter Hooper (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1970), 63–67.

8. Price, “Jesus: Myth and Method,” in Loftus, The Christian Delusion, 273–90.

9. Robert M. Price, The Case against the Case for Christ: A New Testament Scholar Refutes the Reverend Lee Strobel (Cranford, NJ: American Atheist, 2010), 209–10. Veja o astuto quadrinho “Jesus and Mo”, no qual sou viciado, acompanhando o texto. (de jesusandmo.net, usado com permissão).

10. R. G. Collingwood, The Idea of History (New York: Oxford University Press/ Galaxy Books, 1956), 236–39; veja Price, Against the Case for Christ, 210.