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Sobre o Humanismo e sua relação com o Mitologismo

No último post, eu apresentei um resumo do capítulo 6 do livro Jesus Existiu? de Bart Ehrman apresentando o conceito de Mitologismo e rebatendo as principais críticas a ele como um argumento. Mas ele não é passível de crítica como ideia, mas também como comportamento, uma vez que é contraproducente para o debate. Ehrman lembra que muitos humanistas caem na armadilha do Mitologismo e acabam agindo contra seus próprios interesses ao incluir um argumento tão duvidoso em sua agenda.

Para complementar o que já havia sido dito e explorar essa relação com o humanismo, trago a vocês dois textos de Bart Ehrman traduzidos por mim mesmo. O primeiro é um artigo do historiador para o Huffington Post divulgando o seu livro Jesus Existiu? e o segundo é a conclusão do referido livro.

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Título Original: Did Jesus Exist? (Artigo)
Autor: Bart Ehrman
Publicado Originalmente em: Huffington Post (20/03/2012)
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani (Bruno Almeida)
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Em uma sociedade na qual as pessoas ainda afirmam que o Holocausto não aconteceu, e na qual há reclamações contundentes de que o presidente americano é, na verdade, um muçulmano nascido em solo estrangeiro, não é nenhuma surpresa descobrir que a maior figura da história da civilização ocidental, o homem sobre o qual a mais poderosa e influente instituição social, política, econômica, cultural e religiosa do mundo – a igreja cristã – foi construída, o homem adorado, literalmente, por bilhões de pessoas hoje em dia – é alguma surpresa ouvir que Jesus nunca existiu realmente?

Essa é a afirmação feita por um grupo pequeno mas crescente de escritores (publicados), blogueiros e viciados em Internet que se chamam mitologistas. Este grupo extraordinariamente vociferante de negadores sustenta que Jesus é um mito inventado para propósitos nefastos (ou altruístas) pelos primeiros cristãos que modelaram seu salvador nos moldes dos deuses pagãos que, alega-se, também nasceram de uma virgem em 25 de dezembro, também fizeram milagres, também morreram como expiação pelo pecado e foram, então, ressuscitados dos mortos.

Poucos destes mitologistas são realmente estudiosos formados em história antiga, religião, estudos bíblicos ou qualquer campo cognato, sem falar nas línguas antigas geralmente importantes para aqueles que querem dizer alguma coisa com algum grau de autoridade sobre um professor judeu que (supostamente) viveu na Palestina do primeiro século. Existem algumas exceções: das centenas – milhares? – dos mitologistas, dois (que eu saiba) realmente têm Ph.D. em áreas relevantes do estudo. Mas mesmo tendo isso em conta, não há um único mitologista que ensina o Novo Testamento ou o cristianismo antigo ou mesmo Clássicos em qualquer instituição acreditada de ensino superior no mundo ocidental. E não é de admirar. Estes pontos de vista são tão extremos e tão pouco convincentes a 99,99 por cento dos verdadeiros especialistas que alguém que os defenda possui a mesma probabilidade de conseguir um emprego em um departamento de ensino de religião bem estabelecido que um criacionista dos seis dias tem de aterrizar em um departamento de biologia de boa fé.

Por que então o movimento mitologista está crescendo, com defensores tão confiantes de seus pontos de vista e de sua denúncia da ideia de radical que Jesus não existiu realmente? Isso acontece, em grande parte, porque esses negadores de Jesus são ao mesmo tempo denunciantes da religião – uma raça de humanos agora muito em voga. E que melhor maneira de difamar os pontos de vista religiosos da grande maioria das pessoas religiosas no mundo ocidental que se mantém, apesar de tudo, predominantemente cristãs, que a alegação de que o fundador histórico de sua religião era na verdade o produto da imaginação de seus seguidores?

A visão, no entanto, tropeça nas suas próprias premissas. A realidade – triste ou salutar – é que Jesus era real. E esse é o tema de meu novo livro, “Jesus existiu?”

É verdade que Jesus não é mencionado em nenhuma fonte romana de sua época. No entanto, isso dificilmente deveria contar contra sua existência, uma vez que estas mesmas fontes não mencionam quase ninguém de seu tempo e lugar. Nem mesmo o famoso historiador judeu, Josefo, ou ainda a figura mais notável, mais importante e poderosa de sua época, Pôncio Pilatos.

Também é verdade que as nossas melhores fontes sobre Jesus, os Evangelhos iniciais, estão cheias de problemas. Eles foram escritos décadas após a vida de Jesus por autores tendenciosas que estão em desacordo uns com os outros em detalhes implícitos e explícitos. Mas os historiadores nunca podem descartar fontes simplesmente porque elas são tendenciosas. Você não pode confiar nos relatos de Rush Limbaugh sobre Sandra Fluke, mas eles certamente fornecem evidências de que ela existe.

A pergunta não é se as fontes são tendenciosas, mas se fontes tendenciosas podem ser usadas para produzir informação histórica confiável, uma vez que seu enviesamento é separado do núcleo histórico. E os historiadores têm buscado formas de fazer isso.

Com relação a Jesus, temos numerosos relatos independentes de sua vida nas fontes por trás dos Evangelhos (e nos escritos de Paulo) – fontes escritas na língua nativa de Jesus, o aramaico, e que podem ser datados dentro de apenas um ano ou dois de sua vida (antes da religião começar a converter pagãos em massa). Fontes históricas como essas são bastante surpreendentes para uma antiga figura de qualquer tipo. Além disso, temos escritos relativamente extensos de um autor do primeiro século, Paulo, que adquiriu a sua informação sobre a vida de Jesus e que realmente conhecia, em primeira mão, o discípulo mais próximo de Jesus, Pedro, e seu irmão James. Se Jesus não existiu, é de se esperar que seu irmão soubesse.

Além disso, a afirmação de que Jesus foi simplesmente construído vacila em qualquer terreno. Os paralelos alegados entre Jesus e os deuses-salvadores “pagãos” na maioria dos casos residem no imaginário moderno: Nós não temos relatos de outros deuses que nasceram de mães virgens e que morreram como expiação pelo pecado e, em seguida, foram ressuscitados dos mortos (apesar dos sensacionalistas afirmarem isso ad nauseum em suas versões propagandeadas).

Além disso, aspectos da história de Jesus simplesmente não teriam sido inventados por quem deseja fazer um novo Salvador. Os primeiros seguidores de Jesus declararam que ele era um Messias crucificado. Mas antes do cristianismo, não havia nenhum judeu sequer, de qualquer espécie, que pensava que haveria um futuro messias crucificado. O Messias era para ser uma figura de grandeza e poder que derrubaria o inimigo. Qualquer um que queria fazer-se um messias faria assim. Por que os cristãos não fizeram? Porque acreditavam especificamente que Jesus era o Messias. E eles sabiam muito bem que ele foi crucificado. Os cristãos não inventaram Jesus. Eles inventaram a idéia de que o Messias tinha de ser crucificado.

Pode-se também fazer a escolha de ressoar com as preocupações dos nossos desprezadores culturais modernos e pós-modernos da religião estabelecida (ou não). Mas certamente a melhor maneira de promover qualquer agenda como essa não é negar o que praticamente todo historiador sadio sobre o planeta – cristãos, judeus, muçulmanos, agnósticos, pagãos, ateus – concluiu com base em uma série de evidência histórica convincente.

Quer queiramos ou não, Jesus certamente existiu.

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Título Original: Conclusion (Capítulo de Conclusão)
Autor: Bart Ehrman
Publicado Originalmente em: Did Jesus Exist? (2012)
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani (Bruno Almeida)
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Jesus e os Mitologistas

Em abril passado, fui homenageado no encontro nacional da Associação Humanista Americana, onde recebi o Prêmio de Liberdade Religiosa. Eu estava apenas vagamente consciente da associação antes de participar deste encontro em Cambridge, Massachusetts. Quatrocentos ou quinhentos humanistas se reúnem a cada ano para discutir questões de interesse mútuo, participando de sessões e workshops sobre questões relacionadas com a necessidade de promover os objetivos e ideais humanistas em toda a sociedade. O grupo utiliza o termo humanista com um sentido positivo. Eles celebram o que há de bom em ser humano. Contudo, uma implicação negativa corre abaixo da superfície da auto-descrição mas está sobre a superfície das reuniões da assembleia e de quase todas as conversas acontecendo lá. Esta é uma celebração do ser humano sem Deus. Humanismo é entendido como uma negação ao teísmo. Esta é uma reunião de descrentes que acreditam no poder da humanidade para tornar a sociedade e a vida individual felizes, realizantes, com êxito, e significativas. E o grupo é composto quase exclusivamente de agnósticos e ateus.

Mesmo que anteriormente eu tivesse estado no escuro sobre o grupo e seus objetivos, eu concordo completamente com seus ideais. Eu mesmo sou um agnóstico, e eu certamente acredito que é desejável e possível ter uma vida feliz, plena e significativa sem a fé cristã ou qualquer outro tipo de fé. Acho que eu sou um testemunho vivo para essa possibilidade. Minha vida é absolutamente fantástica, e eu não poderia desejar nada melhor, que não seja mais do mesmo.

Mas o que mais me impressionou sobre o encontro foi precisamente o quão religioso ele era. Todo ano eu participo das reuniões da Sociedade de Literatura Bíblica, conferências sobre primeiros estudos cristãos, e afins. Eu nunca, na minha lembrança, fui a uma reunião que estava tão cheia de conversa sobre religião pessoal como a Associação Humanista Americana, um grupo dedicado à vida sem religião.

Suponho que havia muita conversa sobre a crença religiosa porque é quase impossível na nossa sociedade falar sobre significado e realização sem referência à religião, e humanistas sentem a necessidade de colocarem a si mesmos contra o discurso dominante. E assim em suas reuniões anuais encontram-se workshops e sessões que tratam de questões como a forma de falar com a família quando se abandona a fé, como lidar com a religião nas escolas (oração da escola, o criacionismo, e assim por diante), como exercer a prática da meditação fora das estruturas religiosas (por exemplo, budista), e assim por diante. Tudo isso situa o humanismo em relação a outra coisa, como é evidente, bem como quando humanistas descrevem suas crenças pessoais em termos negativos: “agnosticismo” (aquele que não sabe se há um Deus) ou “ateísmo” (aquele que não acredita em Deus). Mesmo a auto-descrição da associação em seu site envolve um contraste com os outros na sociedade: “O Humanismo é uma filosofia progressiva da vida que, sem o teísmo e outras crenças sobrenaturais, afirma nossa capacidade e responsabilidade de conduzir vidas éticas de realização pessoal que aspiram ao bem maior da humanidade.”

Da mesma forma que fiquei surpreso na reunião de humanistas em ouvir tanto sobre a religião, eu não fiquei surpreso ao saber que um bom número das pessoas de lá — pelo menos aquelas com quem eu conversei — são ou mitologistas ou estão se inclinando para o mitologismo. Seus autores favoritos são figuras como Robert Price, Earl Doherty, e alguns dos outros que mencionei nestas páginas. E muitos deles ficaram completamente surpreendidos quando souberam que eu tenho uma visão diferente, que eu acho que certamente havia um Jesus de Nazaré, que existiu na história, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e de quem se pode dizer que muitas coisas como uma figura histórica.

O Problema com o Jesus Histórico

No meu ponto de vista os mitologistas estão, ironicamente, fazendo um desserviço aos humanistas para quem estão escrevendo. Ao demarcar uma posição que não é aceita por quase ninguém, eles se abrem ao escárnio e a acusações de desonestidade intelectual. Mas para realizar seus objetivos (sobre os quais eu vou dizer mais em breve), isto é completamente desnecessário. Claro que para mitologistas, não posso deixar de dizer, a crença em Jesus é um problema. Mas o problema real com Jesus não é que ele é um mito inventado pelos primeiros cristãos, isto é, que ele nunca apareceu como uma figura real no palco da história. O problema com Jesus é justamente o oposto. Como Albert Schweitzer percebeu há muito tempo, o problema com o Jesus histórico é que ele era muito histórico.

A maioria dos televangelistas, populares ícones pregadores cristãos, e chefes dessas empresas que chamamos de megaigrejas compartilham uma visão moderna irrefletida de Jesus — que ele se traduz de forma fácil e quase que automática em uma linguagem moderna. O fato é, porém, que Jesus não era uma pessoa do século XXI, que falava a linguagem do cristão contemporâneo da América (ou da Inglaterra ou da Alemanha ou de qualquer outro lugar). Jesus era necessária e inevitavelmente um judeu que vivia na Palestina do primeiro século. Ele não era como nós, e se fizermos dele como nós, transformamos o Jesus histórico em uma criatura que nós inventamos para nós mesmos e para nossos próprios fins.

Jesus não se reconheceria na pregação da maioria de seus seguidores hoje. Ele não sabia nada sobre o nosso mundo. Ele não era um capitalista. Ele não acreditava na livre empresa. Ele não apoiava a aquisição de riqueza ou das coisas boas da vida. Ele não acreditava na educação massiva. Ele nunca tinha ouvido falar de democracia. Ele não tinha nada a ver com ir à igreja no domingo. Ele não sabia nada da segurança social, vale-alimentação, bem-estar, excepcionalismo americano, os números do desemprego, ou da imigração. Ele não tinha posição sobre a reforma tributária, sobre planos de saúde (além de querer curar a lepra), ou sobre o estado do bem-estar. Até onde sabemos, ele não expressou nenhuma opinião sobre as questões éticas que nos afligem hoje: aborto e direitos reprodutivos, o casamento gay, eutanásia, ou o bombardeio do Iraque. Seu mundo não era o nosso, suas preocupações não eram as nossos e, acima de tudo, suas crenças não eram as nossas.

Jesus era um judeu do primeiro século, e quando tentamos fazer dele um americano do século XXI, distorcemos tudo o que ele foi e tudo o que ele representava. O próprio Jesus era um sobrenaturalista completo. Ele acreditava no Diabo e em demônios e que as forças do mal operam neste mundo. Ele sabia pouco — possivelmente, quase nada — sobre o funcionamento do Império Romano. Mas o pouco que sabia, ele considerou mal. Ele pode ter considerado todos os governos injustos a menos que fosse uma (futura) teocracia a ser comandada pelo próprio Deus através de seu messias. Ele certamente não era defensor de nossos pontos de vista políticos, quaisquer que eles estejam.

Essas forças do mal estavam exercendo seu controle sobre o mundo com veemência crescente. Mas Jesus pensou que Deus iria intervir em breve e destruir todos eles para trazer seu reino de bem na terra. Isso não viria do esforço humano – expansão da democracia, construção da defesa nacional, melhoria do sistema educacional, vencer a guerra contra as drogas, e assim por diante. O esforço humano não contava para nada. Isso viria de Deus, quando ele enviasse um juiz cósmico para destruir a atual ordem e estabelecer o reino de Deus aqui na terra. Isso não era uma metáfora para Jesus. Ele acreditava que ia acontecer. E acontecer em breve. Dentro de alguns anos.

Jesus estava enganado sobre isso. Ele estava confundido sobre um monte de coisas. As pessoas não querem ouvir isso, mas é verdade. Jesus era um homem de seu tempo. E assim como todos os homens e mulheres de seu tempo estavam errado sobre muitas coisas, assim também era Jesus. E assim também somos nós.

O problema então com Jesus é que ele não pode ser removido do seu tempo e transplantado para o nosso próprio, sem simplesmente recriá-lo. Quando nós criamos ele de novo, nós já não temos mais o Jesus da história mas o Jesus da nossa própria imaginação, uma invenção monstruosa criada para servir aos nossos próprios fins. Mas Jesus não é transportado e transformado tão facilmente. Ele é fortemente resistente. Ele permanece sempre em seu próprio tempo. À medida que modismos sobre Jesus vêm e vão, que novos Jesuses são inventados e depois esquecidos, que Jesuses mais novos vêm para tomar o lugar do velho, o verdadeiro e histórico Jesus continua a existir, lá no passado, o profeta apocalíptico que esperava que uma ruptura cataclísmica iria ocorrer dentro de sua geração e que Deus iria destruir as forças do mal, instituir seu reino, e instalar o próprio Jesus no trono. Este é o Jesus histórico. E ele é, obviamente, muito histórico para o gosto moderno. É por isso que muitos cristãos de hoje tentam reformá-lo.

A Agenda Mitologista

No meu ponto de vista, humanistas, agnósticos, ateus, mitologistas, e qualquer outra pessoa que não defende a crença em Jesus faria melhor se destacasse que o Jesus da história não é o Jesus do Cristianismo moderno ao invés de insistir — de forma errada e contraprodutiva — que Jesus nunca existiu. Jesus existiu. Ele simplesmente não era a pessoa que os crentes mais modernos hoje pensam que ele era.

Por que então mitologistas afirmam que ele não existiu? Eu não estou pedindo que os mitologistas ofereçam provas para a não-existência de Jesus. Eu já considerei a evidência e mostrei por que é problemática. Eu estou pedindo pela questão mais profunda: O que está impulsionando a agenda dos mitologistas? Por que trabalham tão duro para mostrar que Jesus nunca viveu realmente? Eu não tenho uma resposta definitiva para essa pergunta, mas eu tenho um palpite.

Não é por acaso que quase todos os mitologistas (na verdade, todos eles, a meu conhecimento) são ou ateus ou agnósticos. Os que eu conheço alguma coisa a respeito são ateus bastante virulentos, mesmo militantes. Na superfície, pode fazer sentido: quem mais poderia querer mostrar que Jesus nunca existiu? Mas quando você pensa sobre isso por um momento, isso não é inteiramente lógico. Saber se Jesus existiu é completamente irrelevante para a questão de saber se Deus existe ou não. (NdoT: A existência do Jesus Divino é bastante relevante para a discussão da existência de Deus, uma vez que o cristianismo criou uma forte relação de co-dependência entre seus conceitos. Mas a existência (ou não) de um Jesus histórico não diz muita coisa sobre o assunto. Acredito que seja isso que Ehrman quis dizer.) Então, por que os virulentos ateus (ou agnósticos) desejam tanto mostrar que Jesus não existiu?

É importante perceber o fato óbvio de que todos os mitologistas vivem em um mundo cristão no qual o cristianismo é a religião escolhida pela grande maioria da população. É claro que temos um grande número de judeus e muçulmanos entre nós, além de budistas, hindus, e pessoas de outras tradições de fé espalhadas em nossa cultura. Mas em geral, as pessoas avidamente religiosas que encontramos são cristãs. E mitologistas são avidamente anti-religiosos. Para desmistificar a religião, então, é preciso minar especificamente a forma cristã de religião. E qual o caminho mais fácil disponível para minar o cristianismo do que afirmar que a figura no centro do culto e devoção cristãos nunca existiu, mas que foi inventada, composta, criada? Se o cristianismo é baseado em Jesus, e Jesus nunca existiu, onde isso deixa a religião de bilhões de população do mundo? Isso deixa em total desordem, pelo menos no pensamento dos mitologistas. (Pode-se facilmente argumentar que o cristianismo iria sobreviver muito bem sem a figura histórica de Jesus, mas que seria uma história diferente e um livro diferente.)

O que isto significa é que, ironicamente, assim como os humanistas seculares gastam tanto tempo em suas reuniões anuais falando sobre religião, assim também os mitologistas que são tão empenhados em mostrar que o Jesus histórico nunca existiu não estão sendo levados por um interesse histórico. A agenda deles é religiosa, e eles são cúmplices de uma ideologia religiosa. Eles não estão fazendo história; eles estão fazendo teologia.

Para ter certeza, eles estão fazendo a sua teologia a fim de se opor à religião tradicional. Mas a oposição é impulsionada não por preocupações históricas, mas por preocupações religiosas.

Mas por que mitologistas seriam tão violentamente contra a religião tradicional? Minha sensação é que é porque eles acreditam que o cristianismo histórico—a forma de religião mais conhecida nos ambientes mitologistas—tem feito e continua a fazer mais mal do que bem ao mundo. Eles olham para os nossos sistemas de ensino e veem cristãos fervorosos trabalhando duro para promover a ignorância sobre o conhecimento, por exemplo, na insistência de que a evolução é apenas uma teoria e que o criacionismo deveria ser ensinado nas escolas. Eles olham para a nossa sociedade e veem o incrível dano que a religião fez a vidas humanas: desde o patrocínio da escravidão até a recusa de concessão de direitos reprodutivos às mulheres e a negação da possibilidade do amor e do casamento gay. Eles olham para a cena política e veem o poder político terrível que a direita religiosa produz: desde impor certos conjuntos de crenças religiosas em nossa sociedade ou em nossas escolas até eleger apenas as figuras políticas que apoiam certas agendas religiosas, não importa o quanto eles possam ser odiosas para outros seres humanos (pobres, ou não-americanos) e o quanto elas possam ser ignorantes sobre o mundo em geral.

Eu tenho que admitir que tenho uma boa dose de simpatia com estas preocupações. Mas eu também sou um historiador que pensa que é importante não promover versões revisionistas do passado por razões ideológicas arraigadas em agendas não-históricas. A escrita da história deve ser feita seguindo rigorosos protocolos históricos. Não é simplesmente um meio de promover um conjunto de gostos e desgostos pessoais.

Também devo dizer que mesmo que eu de fato compartilhe alguns dos vieses de muitos dos mitologistas quando se trata do dano que tem sido feito ao longo dos anos em nome de Cristo (e não apenas em cruzadas e inquisições, mas em nossa própria sociedade, aqui e agora), vejo também que uma quantidade enorme de bem tem sido feito em seu nome, e continua a ser feito, por cristãos bem-intencionados e trabalhadores, homens e mulheres que fazem bem incalculável no mundo, tanto em escalas em massa quanto individuais.

Mas nenhum lado—o bem feito em nome de Cristo ou o mal—será de alguma relevância para mim como historiador quando eu tentar reconstruir o que realmente aconteceu no passado. Eu me recuso a sacrificar o passado a fim de promover uma causa digna de minhas próprias agendas sociais e políticas. E ninguém mais deveria também. Jesus existiu, quer queiramos ou não.

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Jesus e os Mitologistas

Bart Ehrman lançou em 2012 o livro “Did Jesus Exist?” (Jesus Existiu?), no qual defende que Jesus existiu, mas que não passou de homem normal ao qual foram atribuídos poderes divinos e que teve sua ideias superestimadas ao longo dos dois últimos milênios. Um dos pontos que mais chamam atenção neste livro, e em declarações recentes, é que Ehrman ataca vigorosamente as pessoas que se declaram mitologistas (a melhor tradução que encontrei para mythicists), pessoas que alegam que Jesus nunca foi nada além de um mito e que não existiu sequer como humano comum.

Essa ideia pode ser um pouco chocante para muitos ateus, pois a princípio parece validar de certa forma o cristianismo. Mas se paramos para pensar bem, veremos que a existência real de Jesus como um humano comum e sem nenhuma conexão com o Deus Criador é um fato totalmente irrelevante quando formos avaliar a credibilidade do cristianismo. Tal religião não é simplesmente a crença nas palavras de Jesus, mas também a crença de que ele é o Messias Salvador que os profetas do Antigo Testamento anunciavam.

Segundo Ehrman, muitos ateus, em sua ânsia de tentar desconstruir e difamar o cristianismo a qualquer custo, acabam achando que o caminho mais fácil é argumentar que Jesus nunca sequer existiu. Isso com certeza facilitaria muito a vida deles, se fosse verdade. Mas Ehrman é enfático ao dizer que não é.

O sexto capítulo desse livro é chamado “The Mythicist Case: Weak and Irrelevant Claims” (O caso Mitologista: Alegações Fracas e Irrelevantes) e nele Ehrman apresenta e refuta os principais argumentos apresentados pelos mitologistas. Apesar do padrão aqui do blog é trazer traduções dos textos, dessa vez me restringirei a trazer um resumo em português. Faço isso antes de mais nada porque é um capítulo razoavelmente grande (14.500 palavras) e eu definitivamente não tenho tanto tempo sobrando. Eu teria que sacrificar projetos que julgo mais importantes. Além disso, muitos ateus (quase todos?) se julgam mais abertos aos fatos do que os cristãos. Bem, se é assim acredito que não preciso ter os mesmos cuidados que dispenso nos textos dirigidos aos cristãos nos textos que dirijo aos ateus, correto? Presumo que posso me dar ao luxo de ser mais sucinto e menos enfático.

Não que eu esteja dizendo que todo mundo deve ler e aceitar tudo que é dito sobre Jesus (ou sobre qualquer um), longe disso. Só espero que esse resumo não seja subestimado por ser pequeno e indigesto. De toda forma, estou disponibilizando neste link um pdf com o texto original do capítulo para quem quiser se aprofundar no tema. Ainda essa semana publico uma continuação desse texto, no qual Ehrman defende que o mitologismo, além de ser historicamente insustentável, é incompatível e até mesmo nocivo ao humanismo, e que qualquer mitologista que possua uma agenda humanista secular já começou completamente errado.

Mas por hora, foquemos apenas na argumentação histórica.

Sobre argumentos irrelevantes

A primeira coisa que devemos ter em mente é que certos argumentos são totalmente irrelevantes na defesa das ideias que desejam sustentar. Por exemplo, muitos cristãos alegam que podemos confiar no Novo Testamento porque ele é mais bem atestado do que o Antigo Testamento, o que de fato é verdade. Por melhor atestado, refiro me à legitimidade da autoria e da fidelidade das cópias. Mas se esse argumento fizesse o mínimo de sentido, teríamos que admitir que livros como Das Kapital de Karl Marx e Mein Kampf de Adolf Hitler são livros com conteúdo extremamente confiável e digno de ser levado a sério, já que são incomparavelmente melhor atestados do que qualquer livro da Bíblia. Temos certeza que ambos foram escritos pelas pessoas que estão em suas respectivas capas e que não foram adulterados. Mas é evidente que isso seria uma completa fraude intelectual, bem como o argumento cristão apresentado.

Contudo, Ehrman avisa que os argumentos dos mitologistas não são melhores do que esse apresentado.

Alegação 1: Os Evangelhos são Muito Problemáticos como Fontes Históricas

Assim como é verdade que o Novo Testamento é melhor atestado do que o Antigo, mas que isso não conta muito pontos para a sua credibilidade em si, também é verdade que os evangelhos são escritos bastante problemáticos, mas que isso não chega a ser um problema muito grande ao se discutir a existência de Jesus. Autorias contestadas, trechos ausentes, “falhas” na tradução, contradições, narrativas de eventos históricos que jamais ocorreram… tudo isso está lá, mas é irrelevante. Vejamos os principais deles.

a) Nós não possuímos os textos originais dos evangelhos. Apesar dos evangelhos serem uns dos escritos melhor atestados do mundo antigo, eles possuem diversas falhas. Nós não temos os escritos originais dos evangelhos, assim como os de nenhum dos livros do Novo Testamento. Em geral, as cópias disponíveis hoje foram feitas 1.00o anos depois das cópias originais e todas elas possuem erros claros.

Contudo, o que isso nos diz sobre a real existência de Jesus? Se alguns fatos foram acrescentados posteriormente durante os processos de cópias, Jesus não deixaria de existir. Vejamos o caso de Obama. Suponhamos que sua certidão de nascimento realmente tenha sido adulterada, como seus opositores alegam. Isso significa que Obama não nasceu? A adulteração de um registro não altera a factualidade daquilo que não foi adulterado.

Os trechos perdidos e as passagens com erros claros que poderiam ser sanadas caso dispuséssemos do original também não representam um argumento relevante pelos mesmos motivos. (Ver mais em Ehrman, Misquoting Jesus: The Story Behind Who Changed the Bible and Why, San Francisco: Harper San Francisco, 2005).

b) Nós não conhecemos os autores dos evangelhos. De fato não conhecemos. Dos 27 livros do Antigo Testamento, apenas 8 foram escritos pelas pessoas às quais atribuimos a autoria. Os próprios evangelhos não foram escritos pelos discípulos Mateus e João e pelos amigos dos discípulos Marcos e Lucas, mas por pessoas que viveram bem depois. (Ver Bart Ehrman, Forged: Writing in the Name of God: Why the Bible’s Authors Are Not Who We Think They Are [Forjado: Escrevendo em Nome de Deus: Porque os autores da Bíblia não são quem pensamos que seja], San Francisco: HarperOne, 2010). Os seguidores de Jesus eram indivíduos da baixa-classe rural da Galileia, que falavam aramaico e que provavelmente eram analfabetos. Quem quer que tenha escrito os evangelhos eram intelectuais bem educados que falavam o grego e que provavelmente eram de fora da Palestina. Marcos, Mateus, Lucas e João jamais poderiam ter escrito os evangelhos.

Mais uma vez, isso é irrelevante na questão da existência ou não de Jesus. Quando os Diários de Hitler vieram a público em 1983,r ninguém imaginava que eles eram forjados, mas eles de fato foram escritos por um homem chamado Konrad Kujau. Mas isso não quer dizer que Hitler não existiu. Uma argumentação mais detalhada de como isso não interfere em nada é encontrada nos capítulos anteriores do livro. A verdade é que pode-se assumir como históricos os materiais em circulação antes dos evangelhos foram escritos e que serviram como fontes para as narrativas.

c) Os Evangelhos estão repletos de discrepâncias e contradições. Parece repetitivo, mas Ehrman concorda plenamente com isso também. O autor fornece uma lista de pequenas contradições e lembra de uma que é bastante importante: por que apenas João relata que Jesus se declarou como Deus? Será que os outros autores não acharam importante uma alegação como essa? Isso não faz sentido, pois tal alegação seria definitivamente um dos fatos mais importantes a se relatar sobre Jesus. Mais contradições podem ser vistas em Bart Ehrman, Jesus, Interrupted, chap. 2. Mas essas contradições são um obstáculos apenas para aqueles que desejam saber o que Jesus realmente falou e fez, sendo absolutamente irrelevante na discussão sobre sua existência.

d) Os evangelhos contém materiais não históricos. Narrativas como aquela em Lucas que dizem que João e Maria viajaram para realizar um censo ordenado por Augusto César são patentemente falsas. Tal censo jamais existiu. (Ver mais em Ehrman, Jesus, Interrupted, 29–39.) A histórias de Barrabás também parece ser falsa, e eu ainda acrescentaria a morte de todos primogênitos da região ordenada por Herodes como narrado em Mateus 2. Porém, mais uma vez é precipitado afirmar que se alguns detalhes da história de Jesus são falsos, então todos também são. É um salto lógico injustificável. Existem muitos mitos sobre a vida de George Washington, mas ninguém acha que tudo que é dito sobre ele também seja mito – até mesmo a sua existência.

e) Todos os Evangelhos estão repletos de lendas. A partir de agora, serei um pouco mais sucinto. Neste ponto, Ehrman trata diretamente de duas obras de Robert Price: The Christ-Myth Theory and Its Problems (Cranford, NJ: American Atheist Press, 2011) e The Incredible Shrinking Son of Man (Amherst, NY: Prometheus Books, 2003). Não desejo aqui fazer uma argumentação completa, mas simplesmente expor os principais pontos de Ehrman, uma tarefa que fica mais difícil em trechos mais “técnicos” como este.

Em primeiro lugar, é preciso saber o que é o Critério de Dissimilaridade. Em história, tal critério é usado para separar narrativas mais confiáveis das que provavelmente foram acrescentadas posteriormente por terceiros. Para isso, compara-se os propósitos aparentes das narrativas com a “agenda” do povo da época, ou seja, com seus desejos e expectativas. Ehrman alega que Price faz mal uso desse critério ao dizer que se algo não passa por ele então é falso. Certas passagens evangélicas são provavelmente invenções posteriores realizadas por terceiros para cumprir uma série de objetivos próprios, o que coloca a autenticidade da passagem em dúvida, mas que também não determina que são necessariamente falsas. O Critério da Dissimilaridade é um argumento probabilístico, mas Price o utilizou de forma falaciosamente dedutiva.

Além disso, não se pode esperar que hajam histórias sendo contadas sem nenhum viés e sem nenhum tipo de acréscimo de seu autor. Todas histórias que contamos sobre outras pessoas possuem um pouco de lenda. Algumas histórias são completamente legendárias, sem nenhum núcleo histórico, mas outras são meramente alterações de um núcleo histórico. Portanto, o mero fato de ser legendário não implica necessariamente em ser historicamente falso. E caso exista um núcleo histórico, ele pode ser alcançado, mesmo depois de ser alterado com lendas e com vieses pessoais.

Alegação 2: Nazaré não existiu

Essa alegação poderia ser derrubada com os mesmos argumentos usados quando Ehrman falou sobre as alegações anteriores, mas como esta alegação em específico é mais comum, ele achou melhor aprofundar um pouco mais. Ehrman apresenta a argumentação de Frank Zindler como exemplo (ver Frank Zindler, “Where Jesus Never Walked,” Through Atheist Eyes, vol. 1, Cranford, NJ: American Atheist Press, 2011, 27–55.) Segundo Zindler, Marcos nunca disse que Jesus veio de Nazaré. Ué, mas e a passagem Marcos 1:9? Zindler afirma que foi inserida posteriormente. Agora é fácil se livrar de passagens indesejáveis na Bíblia, basta dizer que foram inseridas por alguém depois! Isso é história sendo feita por conveniência. Além disso, seu argumento de que essa passagem é gramaticalmente diferente de passagens que citam locais (e que portanto foram feitas por outras pessoas) falha, já que Marcos usa tal construção em outros pontos.

Outro argumento de Zindler é que Nazaré provavelmente foi um erro de tradução. Em Isaías 11:1, é profetizado que o Messias seria do ramo de Davi. Bem, ramo é escrito NZR em hebreu. Zindler alega que os tradutores não sabiam o que era isso e acharam que significava Nazareth, e que era a cidade de onde Jesus veio. Para começar, isso é um salto e tanto. Segundo, eles poderiam ter pesquisado um pouco mais e esclarecido a questão facilmente, ao invés de dar um chute e ter achado que era uma cidade mesmo. Terceiro, está escrito que Jesus É um ramo, e não que ele VEIO de um ramo. Essa alegação de Zindler, além de não ter sido provada, é bastante forçada.

O autor George Wells possui alegações igualmente problemáticas. (Ver George A. Wells, Did Jesus Exist?, 2nd ed., Amherst, NY: Prometheus Books, 1986, p. 146.) Ele alega que Marcos fez confusão quando relatou que chamavam Jesus de Nazareno. Ser Nazareno significava ser pertencente a uma seita de judeus, não que era nascido em uma cidade chamada Nazaré (como Wells alega que Marcos achou). Mais uma vez, existe um grande salto lógico, sem contar que Marcos não iria, sem mais nem menos, pressupor que o termo Nazareno se refere a uma cidade que ele não conhece. Além disso, uma pessoa que conhecia as escrituras antigas saberia que a seita era a dos Nazireus e não faria confusão com uma cidade chamada Nazaré.

Outro mitologista criticado por Ehrman é René Salm (ver René Salm, The Myth of Nazareth, Cranford, NJ: American Atheist Press, 2008). Salm usa descobertas arqueológicas para afirmar que Nazaré tinha existido antes dos tempos de Jesus, mas foi abandonada e só voltou a existir depois de Jesus, nunca existindo, assim, durante a época dele. Para suportar essa alegação, Salm usa achados arqueológicos na região onde teria sido Nazaré datados depois da época de Jesus. Ehrman argumenta que isso não quer dizer que na época de Jesus propriamente dita, a cidade estava abandonada. Salm também argumenta que tumbas em pedra não foram achadas na região, contudo essas tumbas são muito caras e só costumam ser achadas em regiões bastante prósperas economicamente. Ehrman também lembra que Salm não é especializado em arqueologia o bastante para argumentar com base em achados arqueológicos e depois apresenta uma série de outros erros no livro de Salm. O historiador por fim fala sobre um review feito por Ken Dark, um arqueologista especializado na Galileia e diretor do Projeto Arquológico de Nazaré, que acredita que Salm cometeu diversos tipos de erros em sua tese e que não está qualificado para falar sobre o assunto. (Ken Dark, “Review of Salm, Myth of Nazareth,” publicado em Bulletin of the Anglo-Israel Archaeological Society 26, 2008.)

Para terminar, Ehrman salienta que um ano depois que o livro de Salm foi publicado, foi encontrada uma casa na região que data os tempos de Jesus. A melhor maneira de explicar os relatos evangélicos e as descobertas arqueológicas, de fato, é tomando como real a existência da cidade de Nazaré no lugar exato onde os evangelistas dizem que ficava. E mesmo que não existisse tal cidade, isso seria de pouca utilidade contra a existência de Jesus como um homem comum.

Alegação 3: Os Evangelhos São Paráfrases Interpretativas do Antigo Testamento

Esta não é uma alegação muito famosa, talvez por ser difícil de entender. Sendo assim, não vou me aprofundar muito aqui.

a) Robert Price e o Haggadic Midrash. Robert Price alegou recentemente que: “a narrativa evangélica como um todo é o produto de haggadic Midrash sobre o Antigo Testamento.” (ver Robert Price, Christ-Myth Theory, 34) Na tradição judaica, a reinterpretação de um texto através da paráfrase, expansão e reaplicação é chamada de Midrash, e se o texto é uma narrativa, essa Midrash é do tipo haggadic (textos jurídicos geram Midrash do tipo halakhic).

Para não contrariar a tradição, a primeira coisa que Ehrman argumenta é que apesar dos erros desse ponto de vista, o maior defeito dele é pressupor que a existência de uma parte falsa implica na inexistência de um núcleo histórico.

Por exemplo, é sabido que Mateus tenta forçar a barra para que a história de Jesus seja a mais parecida possível com a de Moisés, promovendo numerosos paralelos com o livro de Êxodo. Os motivos para isso são, antes de mais nada, teológicos: Mateus queria que Jesus fosse o Novo Moisés. Mas isso não implica que Jesus seja realmente uma total invenção. Seria fácil, por exemplo, forçar a barra para contar a história de Richard Nixon em termos de uma tragédia de Shakespeare, simplesmente ressaltando as semelhanças e deformando ou escondendo as diferenças. Se alguém fizesse isso, o Watergate e o próprio Nixon não deixariam de existir como num passe de mágica.

É fato que existem similaridades como essa em todo evangelho, pelos mesmos motivos. Mas daí até dizer que todo o evangelho não passa de midrash é um grande exagero. Isso não explica diversas passagens que não encontram paralelos (e em algumas dessas passagens, Ehrman mostra como Price forçou a barra para criá-los.) Price fez bem em ver que certas passagens são midrash, mas erra em achar que virtualmente qualquer passagem que tenha a mais ligeira ligação com o Antigo Testamento seja midrash.

b) Thomas Thompson e o Mito do Messias. Esse autor tem um argumento similar ao de Price: ele alega que se as principais figuras do Antigo Testamento como Moisés, Davi e Abraão são legendárias, então Jesus também é (ver Thomas L. Thompson, The Messiah Myth: The Near Eastern Roots of Jesus and David, New York: Basic Books, 2005.) O argumento principal de Thompson não é tão ingênuo quanto parece. Ele mostra como as narrativas evangélicas são escrituras intrinsecamente literárias, e que por isso lê-las como documentos históricos vai contra a própria vontade de seus autores. Sim, os evangelhos são textos literários, o que é irrelevante, pois não significa (pela milésima vez) que não possuem nada de histórico. Ehrman cita um exemplo que vou adaptar aqui à realidade brasileira: vejam o excelente livro 1808: Como uma Rainha Louca, um Príncipe Medroso e uma Corte Corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil, de Laurentino Gomes. Trata-se, antes de mais nada, de um livro literário, o que não quer dizer que não seja histórico. Evidentemente, Ehrman explica isso muito melhor, mas como esse argumento é complexo e pouco famoso, deixo para os mais curiosos procurarem saber mais.

Alegação 4: Jesus é Baseado em Deuses Pagãos

Essa alegação é praticamente a mesma da anterior, com a diferença de que aqui Jesus é baseado não nas tradições do AT, mas em outras tradições “concorrentes“. Por esse motivo, tais alegações sofrem com os mesmos problemas já apresentados na alegação 3. A diferença é que este argumento é bem mais famoso.

a) A Alegação e sua Exposição. Existem diversas semelhanças entre os evangelhos e histórias de outros deuses pagãos, mas os mitologistas enfatizam demais nessas semelhanças, sendo que alguns as exageram e outros ignoram as diferenças.

O primeiro exemplo é Kersey Graves, que em 1875 alegou que existiam 45 deuses cujas histórias foram usadas como base para a construção de Jesus. (ver Kersey Graves, The World’s Sixteen Crucified Saviors: Christianity Before Christ, 1875; repr., New York: Cosimo Classics, 2007) O problema é que alguns dos deuses dessa lista são ilustres como Buddha que, convenhamos, não tem nada a ver com Jesus. Além disso, a maioria de seus argumentos apelam para exageros claros. Se existem algumas semelhanças, ele diz que existem várias. Se algum evento importante na história de Jesus possui um paralelo, então quase todo evento importante encontra paralelo. E pior de tudo, Graves não dá sequer uma fonte para checar as alegações dele, de modo que é impossível checar se é verdade que certas divindades realmente compartilhavam eventos biográficos com o nazareno.

Ehrman se mostra impressionado com o fato de que 140 anos depois de Graves publicar tal livro, ainda exista quem seja influenciado por ele. Um exemplo é Frank Zindler, quem em artigo de 2011 falou sobre o fato do cristianismo ter origem em um culto pagão misterioso baseado no Mitraísmo, mas sem oferecer sequer uma evidência (ver Frank Zindler, “How Jesus Got a Life,” em Through Atheist Eyes: Scenes from a World That Won’t Reason, Cranford, NJ: American Atheist Press, 2011, 1:57–80.) Ehrman argumenta que ainda hoje, não se sabe praticamente nada sobre o Mitraísmo, sobre quais eram suas crenças, e que por isso é difícil dizer quais eram suas práticas e seus feitos – especialmente dizer que eles inventaram Jesus.

b) Outros Problemas com os Paralelos. Vejamos os paralelos entre a Virgem Maria e as histórias pagãs de deuses que tiveram filhos com humanas. Nas histórias pagãs, quase sempre a concepção envolve sexo entre a divindade e a humana, gerando um filho metade deus metade humano. A história de Jesus não envolve sexo e Jesus é o próprio Deus em sua forma de Filho. Não é exatamente a mesma coisa.

Outros paralelos são ainda mais problemáticos. Por exemplo, um deus morrendo para expiar os pecados do mundo é algo completamente novo introduzido pelo cristianismo e que não “aconteceu” em nenhuma mitologia pagã. Qualquer alegação neste sentido é pura invenção de mitologistas. Não que Jesus de fato tenha morrido e assim expiado os pecados do mundo, mas essa história também não foi tirada de outra mitologia. Na verdade, quando os judeus foram contar as histórias sobre Jesus, eles o fizeram tomando como base as histórias e profecias do Antigo Testamento e não de outras mitologias. E se não é relevante que as histórias foram moldadas segundo o AT, o fato de serem moldadas segundo outras mitologias seria igualmente irrelevante.

Conclusão

O capítulo seis do livro “Jesus Existiu?” de Bart Ehrman (ainda sem tradução para o português) trata das principais, e piores, alegações dos mitologistas em defesa de tese de que Jesus eram completamente mitológico. Algumas das respostas de Ehrman chegam a ser massantes de tão repetitivas, já que a grande maioria das alegações mitologistas são irrelevantes: Jesus pode muito bem ter existido e os detalhes duvidosos serem acréscimos à sua história. Muitos podem pensar que falta um caso positivo pela existência de Jesus, mas isso não é feito nesse capítulo, mas nos capítulos anteriores.

De qualquer forma, espero ter deixado claro que a alegação de que Jesus não existiu sequer como ser humano comum é bastante duvidosa. No próximo post, irei mostrar o quanto é irrelevante se ele existiu mesmo ou não (o importante é que ele não realizou milagres, não era filho de nenhum deus, não ressuscitou etc) e o quanto é contraprodutivo pensar assim.