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E ainda o preconceituoso sou eu!

Há algum tempo, foi publicado aqui na WatchGOD o artigo Preconceituoso é você! por mim criticando várias coisas, dentre elas a postura de pessoas como o Conde de simplesmente devolver as acusações que recebe, sem mais nem menos ou no máximo com desculpas mirabolantes e racionalizações malucas. Usei como exemplo aquelas acusações sobre racismo e aproveitei para me debruçar sobre o tema também. Defendi que as cotas até que pressupõem o problema correto, mas que não são a melhor forma de resolvê-lo e até acho que não deveriam ter sido implementadas. Uma solução que não resolve nada só atrasa o processo que realmente resolverá. Vejam lá, tudo isso está escrito claramente.

E não é que desta vez eu obtive uma resposta no post Um blogueiro esquizofrênico que linkava o meu artigo original? Parabéns ao Conde, os leitores deles merecem ler as duas partes da história. E a cada dia que passa, ele diz menos palavrões na minha caixa de comentários e parece estar tentando postar tudo que quer dizer de uma vez, ao invés de floodar minha caixa de comentários. O Conde é esperto e aprende rápido!

Elogios feitos, vamos à parte ruim. Para começar, ele não entendeu absolutamente nada da minha introdução política, fazendo alguns comentários sobre conservadorismo e reacionarismo que me tiraram uns “do que esse cara tá falando?” Não que eu discorde do que ele escreveu, é que ele se baseou numa interpretação tão equivocada do meu texto, que é como se ele estivesse respondendo outra pessoa. Mas ok, vamos deixar isso de lado para não perdermos tempo demais. Quem quiser, pode acessar os dois textos e ver por si só.

Outra atitude digna de nota foi a seguinte resposta:

E não custa nada observar: quem gosta de retrucar “é você” é o próprio Suriani.

Chega a ser bisonho, mas ele responde até à minha crítica do “é você”, com um “é você”! Isto é incrível! Eu dei três (TRÊS!) exemplos dessa prática no campo estritamente religioso e dissertei sobre seu uso na questão do preconceito, me certificando de que não estava fazendo uma acusação infundada, mas uma muito bem fundamentada. E o que ele responde? Que eu é que faço isso! E o que ele dá como evidência, como exemplo? NADA. Nadica de nada. Isso é que dá tentar debater com gente ignorante, que tenta debater no gogó, na lábia, e na postura convicta para compensar a falta de conteúdo.

Outro ponto é ele me acusar de querer fazer caridade dando vagas para quem não merece. Mas quanta asneira! Eu fiz justamente uma crítica ao sistema de cotas. Disse que ele é insustentável e que só finge resolver o problema e até que ele carece de um objetivo formal. Em momento algum indiquei que a solução seria aumentar o programa ou fazer pequenos ajustes no critério de concessão de cotas, mas sim que se bolasse algo que pudesse efetivamente resolver o problema e que eu preferia não aprofundar em qual solução seria. Por favor, leiam o que escrevi e confrontem com citações como essas aqui em baixo e depois me respondam: será que o Conde sabe interpretar mesmo o que lê?

Suriani oferece um argumento, no mínimo, assustador: ele quer abolir o direito individual, para implantar uma espécie de coletivismo racial.

[…] Uma lei racista e fajuta não se tornará melhor se houver finalidade para isso. [Como se eu tivesse dito que a lei das cotas é válida e que só falta arrumar um propósito rs]

[…] O que seria uma política de cotas eficiente? Uma política mais racista? Uma política mais discriminatória? Uma política racista mais abrangente? Suriani parece meio desequilibrado da cabeça. Ele não consegue formular uma sentença decente. [Como se minha crítica ao sistema de cotas fosse o fato dela ser muito pequena e “leve” rs²]

Eu critiquei o sistema de cotas como sendo uma solução ruim e em momento algum afirmei, como ele se deleitou em dizer, que eu quero fazer caridade distribuindo vagas para negros que não merecem. Ele falhou miseravelmente ao não entender que eu disse que o sistema de cotas é a solução errada para o problema certo.

Mas faço esse post mesmo para responder o seguinte trecho da resposta dele:

Os negros não precisam pedir nada, apenas estudar tanto quanto ou melhor.

[…] Suriani, seu babaca, os negros precisam apenas assumir as responsabilidades e deveres legais comuns a quaisquer pessoas.

[…] Suriani deve se achar melhor do que um cristão, porque, no fundo, deve crer na inferioridade racial dos negros. Coitadinhos, eles sempre precisam de cotas, de tutela governamental, porque são incapazes, como os pródigos, os incapazes e os loucos de todo o gênero.

Opa opa opa, calma aí. Vamos nos ater aos fatos: a proporção de brancos universitários é maior que a proporção de negros universitários. Correto? As estatísticas mostram isso claramente, o próprio Conde sugere formas de se reverter isso (os negros devem estudar o mesmo tanto que os brancos ou até mais) e creio que isso seja indiscutível. Tão indiscutível quanto dizer que isso deve ter uma explicação. Agora, que explicação é essa? Pode até parecer que o que farei aqui é uma falsa dicotomia, mas na verdade essa é uma dicotomia legítima, e só existem dois tipos de explicações possíveis:

  1. Isso é culpa dos próprios negros.
  2. Isso não é culpa dos negros, mas de algo sobre o qual eles não possuem controle.

Creio que até aqui, eu e o Conde concordamos. Cada uma dessas opções esconde inúmeras outras hipóteses, mas todas as explicações possíveis se resumem a essa dicotomia: ou põe a culpa nos negros ou não põe. No máximo, pode ser que mais de uma explicação seja correta, de modo que uma (ou mais) seja do tipo 1 e uma (ou mais) do tipo 2. Ninguém seria louco de discordar de mim até aqui.

Mas onde eu e o Conde nos separamos? Ele acredita que o problema seja do tipo 1, enquanto que eu acredito que o problema seja do tipo 2. É por isso que ele sugere que os negros devem estudar mais e ser mais responsáveis e eu sugiro que as outras pessoas devem se esforçar para reparar isso. Oras, as soluções propostas por cada um gritam o que cada um enxerga como problema!

E o que pode levar alguém a preferir uma explicação do tipo 2? Eu particularmente acredito nela pois não acredito que os negros sejam inferiores, nem em inteligência e nem em disposição e nem em cultura (se é que se pode falar em diferenças culturais muito grandes aqui). Não acho que eles sejam irresponsáveis também. Portanto, não aceito a explicação de que eles precisam estudar mais ou se esforçar mais que o fazem hoje.

O Conde, por outro lado, acha que basta os negros ter mais esforço e mais responsabilidade para conseguirem suas vagas. Mas ué, eles não estão se esforçando tanto quanto os brancos? Ou se esforçam igual mas são burros e precisam de um esforço extra para conseguirem? O Conde chega ao cúmulo de dizer que os negros devem se esforçar até mais que os brancos para conseguir vagas na universidade. Por que Conde? O caminho do branco deve ser mais fácil que o do negro?

E outra, os negros não têm cumprido seus deveres legais? Ora, então os negros são em geral criminosos? Como assim, Conde? “Me explica essa!”

As implicações lógicas e as intenções (nem tão) ocultas do discurso do Conde traem uma pessoa que acredita que negros estão em menor número na universidade porque são pobres, estudam pouco, são burros, são irresponsáveis, não cumprem seus deveres legais e têm que seguir um caminho mais difícil até a universidade. Eu, ao contrário, coloquei a culpa na sociedade como um todo, disse que a solução deve envolver, portanto, toda ela, apesar da solução das cotas ser falha.

E ainda o preconceituoso sou eu!

Preconceituoso é você!

Pessoalmente, compartilho de alguns ideais expostos na teoria clássica do conservadorismo, principalmente quando ele diz, em grossas palavras, que as mudanças devem ser graduais [1]. Contudo, a grande maioria dos conservadores atuais estabelecem critérios tão absurdos para essas mudanças que acabaram sendo reclassificados como reacionários: pessoas que sentem verdadeira fobia a qualquer tipo de mudança que não reforce seus bolsos ou seus preciosos status quo. O reacionarismo é a utilização do conservadorismo a serviço do egoísmo – este último disfarçado de individualismo ou até mesmo de liberdade. [2]

Liberdade individual é um direito tão importante quanto qualquer outro, e cabe a nós sabermos dosar seus limites. [3] Eu não posso vir no meu blog e dizer “matem os racistas”, mesmo que eu realmente achasse que devem morrer, pois isso seria um exemplo patente de abuso da liberdade de expressão. Mas os reacionários, amparados pelas elucubrações mirabolantes dos libertários e que beiram a pseudociência, insistem que não existem limites à liberdade individual (deles mesmos, obviamente). E mais, deturpam o conceito de liberdade para se adequar às próprias opiniões. [4]

Reacionários são a face do retrocesso. Acuados pelo fato de estarem sendo deixados para trás pelo mundo, tentam desesperadamente criar uma realidade paralela, nos moldes conspiracionistas. Quando os veículos não se posicionam da maneira que lhes agrada, não é o caso de começarem a repensar suas opiniões, mas sim de acusar a mídia de querer derrotá-los. Criam até seu canal próprio, isolado do mundo e da realidade, onde as notícias são dadas de acordo com os interesses pessoais e com as ideologias em curso. Não que isso seja errado, só é ridículo. [5]

E nem assim eles conseguem muita repercussão, já que carecem de lideranças políticas e intelectuais capazes de levar seu pobre movimento para frente. Na política, os dois grupos mais relevantes que temos hoje é um que está aderido ao populismo barato do PT e outro aderido ao evangelismo, ambos quase que completamente alheios aos reacionários – que votam nesses últimos de trouxas que são. No campo intelectual, o supra-sumo brasileiro são naipes como Olavo de Carvalho [6] e Leonardo Bruno [7], duas figuras que de tão desconhecidas, arrancaram um sonoro “quem???” de todas pessoas às quais citei o nome até hoje.

(Não que eu seja muito melhor do que isso, reconheço. Mas meu trabalho é muito mais restrito.)

De todos os comportamentos típicos de pessoas que prezam mais pela criação de uma falsa fachada de erudição e intelectualidade, um dos piores é o chamado “é você.” Eu costumo dizer que tal estratégia é a prova máxima de que uma pessoa não tem a mínima ideia do que está falando. É um atestado de perdedor. Quando eu estava na quinta série, adorava fazer isso: “Marco, você é burro.” “Burro é você.” Ou senão: “Pedro, comi sua mãe.” “Eu comi a sua duas vezes.” e por aí vai. Mas naquela época isso era perdoável – e divertido. Agora, ver os reacionários fazendo isso não é divertido, muito menos perdoável.

Digo os reacionários porque suas principais lideranças são justamente um bando de pessoas que se encaixam como uma luva no perfil dos charlatões intelectuais que usam o “é você.”

Um exemplo comum são os cristãos frustrados dizendo que para ser ateu é necessário ter mais fé do que para ser cristão. [8] Que para ser ateu tem que ser mais anticientífico do que para ser cristão. [9] Que para ser ateu tem que ser até – pasmem! – mais supersticioso do que para ser cristão. [10] É a baixaria do “é você” se manifestando da forma mais patética possível. Até parece que eles acham que excesso de fé é algo condenável. Até parece que eles acham que dominam muito bem o naturalismo metodológico. [11] Até parece que acham que ser supersticioso é algo ruim.

Peguemos Leonardo Bruno. Agora a criatura deu para falar que preconceituosos são os próprios defensores das cotas para negros. [12] “Preconceituoso é você, que acha que negro precisa de cota para entrar na universidade.” resume o pensamento do autointitulado Conde-de-qualquer-lugar-por-aí. Então eles precisam de quê? Vergonha na cara? Nascer brancos? Largar de ser vagabundos? Parar de se fazer de coitados e aceitarem sua condição? Ou será que devem estudar mais ao invés de pedir para estudarem junto com os brancos?

Olhemos hoje a proporção de negros na sociedade e comparemos com a proporção nas universidades. Segundo o Portal Brasil, “Entre os jovens brancos com mais de 16 anos, 5,6% frequentavam o ensino superior em 2007, enquanto entre os negros esse percentual era 2,8%.” [13] Alguém acha isso certo? Os defensores do egoísmo travestido de individualismo dizem que sim! Mas onde fica o direito ao individualismo, quando ele funciona como um limite para a plenitude dele mesmo?

Não que eu concorde plenamente com as políticas do Governo Federal, que se preocupa mais com eleições e com políticas populistas do que com a própria eficácia de suas medidas. [14] A Lei das Cotas está errada por falhar naquilo que defendo que toda lei de cunho social deve ter: metas. A lei que estabelece o Ciência sem Fronteiras possui metas definidas e claras, e por isso é uma grande política do Governo Federal. [15] Mas onde estão as metas e os objetivos da Lei das Cotas? Qual a sociedade que ela vislumbra? Quando ela pretende se tornar uma lei inútil? Sim, pois políticas que visam corrigir distorções devem corrigir distorções e depois se tornar obsoletas, ao invés de empurrá-las com a barriga com resultados pequenos.

Muitos podem dizer que sim, a Lei das Cotas trará benefícios cedo ou tarde. [16] E que é melhor uma lei meia-boca do que nenhuma. Não concordo nem um pouco. Uma política fraca é uma desculpa forte para não fazer mais nada. Ou alguém acha que algum político vai se dar ao trabalho de melhorá-la nos próximos dez ou vinte anos? Duvido. Talvez possa ser fácil para mim pensar assim, mas acredito que era melhor esperar mais um tempo e ter uma solução eficaz do que ter uma solução meia-boca agora.

Não estou dizendo que as cotas são erradas, mas que a política de cotas do Governo Federal passa longe de ser uma solução eficaz na forma que foi proposta.

Contudo, nada se compara à atitude “preconceituoso é você” adotada por pessoas como o Leonardo Bruno e sua crítica completamente furada às cotas. (Talvez o movimento negro também erre ao tachar de preconceituosos os que são contrários a seus ideais, mas não vou entrar nesse assunto para não perder o foco.) Quando uma pessoa fica cega pelo egoísmo, ela passa a ver a bondade com “os olhos do demônio.” A ideologia egoísta o faz esquecer até mesmo os ensinamentos de sua religião, cujo líder pregou o amor e a igualdade e que se sacrificou pelo bem de todos. Mas não, os difamadores da fé acham que fé e luta pela igualdade são ambas coisas de ateus.

Ok.

Se brincar, eles estão até certos mesmo: os ateus estão se mostrando menos egoístas e mais preocupados com o próximo do que aqueles que seguem o profeta que deu esses ensinamentos. Os ateus estão se mostrando melhores cristãos do que muito “cristão exemplar” por aí, enquanto que pessoas como Leonardo Bruno, ao ser duramente acusadas de agir como pessoas que abrem mão do orgulho para colaborar por uma sociedade mais justa e igualitária, respondem na lata: “justo e igualitário é você.” Pelo menos nesse “é você” ele está certo.

Notas e Referências:

1. Não me considero conservador, mas me dou ao direito a ver dentro de cada linha de raciocínio aquilo que presta e aquilo que não presta. No meu ponto de vista, o ideal conservador de se opôr à “mudança por mudança” e às mudanças bruscas provocadas por um grupo muito restrito é admirável. Entretanto, não pensem que aprovo sequer 10% de baboseiras como a deste link.

2. “Me engana que eu gosto.” Os reacionário adoram dizer têm respaldo de documentários e teses libertárias como feito neste link, mas a verdade é que o libertarianismo deles é puro interesse: quando a coisa aperta, a liberdade não presta para mais nada. No fundo, eles se vêem como certos e os trabalhos alheiros só são certos se concordarem com eles. Para mais, leia este artigo aqui do blog, em especial o que foi postado pelo comentarista vivaorock.

3. É justamente neste ponto que vejo a falha do libertarianismo: uma visão excessivamente utópica de um mundo livre, como podem ver neste link.

4. Vejam um excelente exemplo neste link de reacionários deturpando o libertarianismo aos próprios ideais: “liberdade individual é o governo impondo restrições à autonomia do cidadão.”

5. O melhor exemplo que posso dar é o site Mídia sem Máscara. Vejam aqui seu “Quem somos” e confiram por si só o clima conspiaracionalista.

6. Líder do Mídia sem Máscara e o principal articulista da direita cristã reacionária brasileira.

7. Autor do blog Cavaleiro Conde e dono do canal Conde Loppeaux no youtube, além de ser colaborador do Mídia sem Máscara. Conhecido por ser pedante, por se expressar extremamente mal e por seu linguajar folclórico, é duramente criticado neste blog.

8. Que o diga Norman Geisler e seu célebre livro “Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu” Editora Vida.

9. Conforme afirmado por Logan Gage em seu artigo “Which Secular Superstition do you Believe?”

10. “Nada é mais anticientífico do que ser ateu”, Francis Collins.

11.  O naturalismo como metodologia científica é algo criticado duramente pelos defensores do Design Inteligente, como Dembski (Dembski, W.A., 1999. Intelligent Design, the Bridge Between Science & Theology. InterVarsity Press, Downers Grove, Illinois. 312 pp.) Acredito que quem defende Dembski acaba tendo que reconhecer que está tentando fazer a ciência retroceder, retirando dela seu maior pilar: o empirismo. Como fazer experimentos que provam Deus? Caso concordem com o naturalismo metodológico, devem reconhecer que a crença do Design Inteligente não tem sustentação científica, mas que é somente baseada em fé.

12. Ver o artigo Uma turba de estúpidos militantes do Leonardo Bruno.

13. Ver o artigo Percentual de negros no ensino superior é metade do de brancos do Portal Brasil.

14. Ver o excelente artigo O brasileiro não é racista deste blog, republicação de um texto da Revista Época.

15. Tudo fica bem melhor quando tem objetivos claros e metas definidas.

16. Na verdade, dizem que já estão trazendo.  Ver o artigo Pesquisa revela aumento na proporção de negros nas universidades federais da Fundação Palmares. Contudo, penso que este resultado hoje é insustentável e se reverteria em poucos anos se a lei fosse revogada. No fundo, fico com a triste impressão que estão a comemorar os resultados de políticas paliativas.

Emerson “Apologética” Oliveira – Parte 2

A apologia é mesmo um campo vasto. Se por um lado, temos pessoas que conseguem – pelo menos – criar uma fachada de erudição, lógica, intelectualidade, respeito, seriedade e honestidade, por outro lado temos pessoas que fazem questão de andar na contramão até disso. Não que eu ache pessoas como Willian Lane Craig e Swinburne dignas de serem levadas a sério – na verdade tenho me esforçado aqui para mostrar que a grande fachada que eles possuem é só isso: apenas fachada. Duas pessoas que conseguem usar o Teorema de Bayes para concluir que a probabilidade de Jesus ter ressuscitado é virtualmente 100% apresentam um sério de sintoma de subordinação da razão à loucura.

No outro extremo da apologia moderna estão figuras como Emerson, Conde e Luciano Henrique/Snowball, que parecem atuar metade do tempo na arte da verborragia incontida e outra metade na arte de promover auto-ajuda para cristãos que no fundo sabem que os ateus estão certos. Cristãos bem-resolvidos não precisam de ver um pôster falando mal da ATEA ou do Dawkins por dia para não abandonarem o papai do céu.

A WatchGOD nasceu justamente para tratar de gente assim. Desejo que ela se torne o registro do último suspiro da apologia popular, aquela que vem do povão. Daqui alguns anos, todos vão poder ver aqui os últimos gritos dos apologistas, poderão ver como seu desespero tomou conta de seus corações ao testemunharem a secularização em massa da sociedade. Não nego que uma parte para lá de considerável do movimento evangélico atual também esteja dando um grito sufocado de dor por verem seu redor se secularizando, mas eles são sem graça e já tem muita gente para registrar. Eu quero bater uma foto é dos apologistas decadentes.

Emerson Oliveira, o Vaginética, é um excelente exemplo! Suas páginas no facebook são um antro de auto-ajuda para cristãos deprimidos. Pôsteres atribuindo a ciência ao cristianismo, por exemplo, é o que não faltam alí, como quem diz: “os ateus disseram que a ciência é deles, mas a ciência é nossa!” Lamento informar, mas a ciência não é de ninguém. A ciência nasce naturalmente nas sociedades humanas, apesar de algumas vezes ter sido reprimida. O método científico moderno teve como base a filosofia grega e só floresceu quando a Igreja Católica deixou de ser capaz de reprimir o empirismo. Ele não nasceu por causa do cristianismo, mas apesar dele. O ateísmo em si em pouco ou em nada contribuíram para o nascimento do método científico (pelo menos não atrapalharam rs), sendo que foi o primeiro surto de secularização que deu a maior contribuição.

Esse ponto de vista, obviamente, só se sustenta quando se lança mão de uma visão de mundo e de um estudo histórico tendencioso e enviesado. Historiadores como Le Goff que relativizaram a miséria das Idades das Trevas foram interpretados como brilhantes defensores da Verdadeira Era das Luzes guiada pela Santíssima Igreja Católica. Textos históricos são ocultados e quando trazidos à tona, são relativizados por um caminhão de explicações non-sense que só quem quer acreditar acredita. Tenta-se consertar mentiras contando mentiras e meia-verdades, aproveitando a existência de um mito para estabelecer o mito contrário. Vejam esse pôster do Apologética (como o carimbo dele):

Os dois únicos escritores? Que ridículo! E Severian de Gabala (380), Theodoro de Mopsuestia (350-430) e Deodoro de Tarsus (394)? Na verdade, sempre houveram cristãos que defendiam que a Terra era plana. Isso é tão verdade quanto o fato deles sempre terem sido ignorados. Natural: gente estúpida dizendo coisas que, de tão estúpidas, nem os outros estúpidos acreditam. Vejam, até hoje tem gente que a acha que a evolução é falsa (evolução e Teoria da Evolução são coisas distintas) e que realmente existiram Adão e Eva. Se daqui mil anos algum historiador pegar um livro de um padre de hoje dizendo que Gênesis era literal, sem olhar para todo o contexto, vai poder ser levado (ou induzir) à falsa conclusão de que a Igreja é contrária à evolução. Com efeito, é justamente isso o que ocorreu com a Terra Plana: Cosmos era tratado como idiota até por seus pares, e não é por acaso. Contudo, ele teve a importância de sua obra super-estimada por historiadores posteriores e até hoje muita gente acha que acreditavam que a Terra era plana. Não que os intelectuais da Idade Média negassem isso com veemência, na verdade eles só extinguiram suas dúvidas no século XII, com o trabalho de Ptolomeu. Não me entendam mal, essa dúvida não é uma acusação de ignorância, só estou a colocando aqui para que todos os fatos fiquem claros.

Outra coisa que é verdade e deve ser dita: a Bíblia não contribui em nada nessa história. Jô, por exemplo,  fala bastante sobre as origens da Terra e dá a entender que ela é firmada sobre algo, não podendo ser esférica por consequência:

9:5—7 — Ele é o que remove os montes, sem que o saibam, e os transtorna no seu furor; o que sacode a terra do seu lugar, de modo que as suas colunas estremecem; o que dá ordens ao sol, e ele não nasce; o que sela as estrelas

38:4—6 — Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Faze-mo saber, se tens entendimento. Quem lhe fixou as medidas, se é que o sabes? ou quem a mediu com o cordel? Sobre que foram firmadas as suas bases, ou quem lhe assentou a pedra de esquina

26:7—11 — Ele estende o norte sobre o vazio; suspende a terra sobre o nada. (…) Marcou um limite circular sobre a superfície das águas, onde a luz e as trevas se confinam. As colunas do céu tremem, e se espantam da sua ameaça

22:14 — Grossas nuvens o encobrem, de modo que não pode ver; e ele passeia em volta da abóbada do céu

37:18 — Acaso podes, como Ele, estender o firmamento, que é sólido como um espelho fundido?

Obviamente, desculpas é o que não faltam. Na Bíblia, existem dois tipos de passagens: as que estão certas e as que estão sendo mal-interpretadas. E com essa ideia na cabeça, as portas da imaginação estão abertas para dar novos significados a tudo que for inconveniente. Admitir que ela está errada? NUNCA! Não é atoa que digo que se os cristãos fossem levar a Bíblia realmente a sério, já teriam visto que não passa de bobeira.

Enfim, Emerson não está interessado em desfazer mitos, mas em fazer auto-ajuda estúpida e parcial e propaganda desonesta e oportunista. Incapaz de explicar de maneira clara que a questão da Terra Plana é um mito (não só dos ateus, mas de toda a sociedade), se limita a fazer um pôster mentiroso e que não trata nem 10% do assunto que se propõe a elucidar.

Mas não é só esse o problema do Emerson. Sua Ilusão alcançou níveis tão estarrecedores que agora ele acha que qualquer baboseira mal-formulada de duas linhas já é capaz de deixar qualquer ateu sem palavras:

Não é um non sequiteur, de forma alguma. Non sequiteur é uma falácia informal na qual a conclusão não se segue de suas premissas, que ocorre quando dizemos, por exemplo: “meu joelho está doendo, então hoje a noite chove.” Perguntar pela origem de Deus não é um non sequiteur, pois não há uma conclusão sendo derivada de uma premissa, então não há uma conclusão que não se segue da premissa. Tadan!! Também não é péssima filosofia, pois é uma pergunta válida de ser feita. Dizer que Deus não possui causa é uma resposta possível, mas a existência de um resposta de qualidade para lá de duvidável como essa não torna a pergunta uma péssima filosofia. Além do mais, sem sentido é o segundo quadro, completamente superficial e inofensivo, incapaz de deixar nem o ateu de internet mais abobado sem palavras. Desculpem, mas é verdade.

Mas não foi só essa não:

Outra de cair o cu da bunda. Se esse argumento estivesse correto, invalidaria simplesmente QUALQUER alegação do tipo: “o grupo X oculta informações.” Qualquer uma! Prova de que não serve para nada. O fato de um grupo ocultar informações não significa que ele seja capaz de ocultá-las de forma que ninguém possa acessá-las ou mesmo possa desconfiar que haja algo sendo ocultado. Agora, que a ICAR oculta informações, isso eu duvido. As únicas informações que ela oculta são coisas valiosíssimas como o Terceiro Segredo de Fátima (já revelaram isso, né?) e outras profecias do tipo. (Isso sem contar a lista dos padres pedófilos, mas deixa para lá rs).

A verdade é que esses quadrinhos não traduzem a realidade, mas sim expressam o desejo ardente que a mente tacanha e incompetente de seu autor tem de que a realidade fosse tão fácil quanto ele deseja. Já pensou se as bobagens mal-formuladas e hiper simplificadas que ele diz calasse qualquer ateu? É o sonho dele!!

Agora vejam essa similar:

Só um comentário: QUANTA ESTUPIDEZ! Agora eu pergunto a ele: onde está na etimologia da palavra “cristão” que eles devem se opor ao casamento gay e ao aborto? Onde na etimologia da palavra “cristão” está escrito que eles devem se opor ao comunismo? Onde na etimologia da palavra “cristão” está escrito que eles devem se opor ao ateísmo? Onde na etimologia da palavra “cristão” está escrito que eles devem se usar a ciência, além de mentir sobre sua origem para fingir que foram eles que propiciaram seu surgimento? Ah, mas faça-me o favor! Qual o sentido de fazer um pôster tão demente e inútil quanto esse?

Agora vejamos o parecer dele sobre temas mais atuais. A começar pelo “Deus seja Louvado” nas cédulas. Sobre Emerson nutrir uma admiração pueril por Luciano Henrique, inclusive trabalhando com divulgador do seu “trabalho”, isso até que vai. Mas comprar a ideia estúpida de que a estátua da república é símbolo religioso que agrada os ateus? Pfff

Ayanice detected. Querem saber o que acho dessa imagem? EU ESTOU ME FODENDO PARA ELA. E tenho certeza que falo pela enorme maioria dos ateus e dos seculares, que também estão pouco se fodendo para ela. Ela não está ali para agradar ninguém. Mas se os cristãos acham que desrespeita o estado laico, peçam para retirá-la, oras bolas! Duvido que haveria da nossa parte alguma reação à retirada desse símbolo, que de religioso não tem nada. Mas se acham que um estado laico de verdade não pode ter Mariane, tirem ela também, caralho! Se quiserem, até ajudo, porque acho ela feia. Coloquem uma foto minha no lugar, por que não? Que piada, que piada!!!

Além do mais, pergunto ao Emerson e ao Luciano Henrique: se vocês tivessem que escolher entre tirar os dois símbolos ou não tirar nenhum, qual escolheriam? Aha! Logo se vê que é só um trocadilho para fazer pirracinha de internet. Não existe absolutamente nada de sério ali. As bobagens naqueles blogs estão completamente desprendidas do mundo real, só servem para fazer auto-ajuda e manual de pirracinhas na internet.

Por fim, a morte do Niemeyer:

É impressão minha, ou Emerson está insinuando que ser ateu e comunista diminui as capacidades arquitetônicas das pessoas? Depois reclama quando os ateus fazem o mesmo. Patético, se arrastando na lama das briguinhas de internet: “o meu time tem melhores arquitetos que o se-eu lálálálá” pff Nem a Revista Veja teve a cara-de-pau de duvidar do talento de Niemeyer, e disse que ele era meio gênio e meio estúpido. Eu particularmente não admiro sua obsessão pelo concreto, mas reconheço que tirando isso ele de fato foi um dos maiores de sua classe, com certeza o maior brasileiro, e não dou a mínima para o fato dele ser ateu (se bem que ser comunista é forçar a barra rs)

Para terminar com tudo, duas imagens compartilhadas na página dele, ambas com mensagens de aprovação por parte da pessoa que compartilhou (ele jura que nem tudo compartilhado ali é ação dele):

SIM, faz sim. Cristão é quem crê em Cristo e o venera. Apologistas concordam com o extermínio praticado nas Cruzadas, mas não concordam quando um louco sai matando pessoas por motivos quaisquer. Ou seja, assassino cristão é aquele que mata quem os apologistas concordam que deve morrer. Os outros, ah!, não são cristãos de verdade! Ah tá…

E para terminar com chave de ouro:

Logos Apologética concordando que segue uma religião tão intolerável que os ateus ainda estão longe de alcançar tal nível. kkkkkkkkkkkkkkkk

Tem que rir mesmo de umas figuras como você, Mérsão. Tem que rir muito!

Sexo, Mulheres e Homossexualidade na Idade Média

Recentemente, divulguei uma série aqui desconstruindo um vídeo publicado pelo vlogger Bruno Fonseca – auto-intitulado Conde Loppeux de la Villanueva. Eu argumentei que o louvor e a reverência que ele fazia ao medievalismo eram completamente descabidos e que a Idade Média não proveu uma moralidade adequada ao seu povo. Se essa moralidade atendia às necessidades da época – o que pode até ter sido o caso – então não passaria de um código utilitarista e complemente amoral (desprovido de senso moral, apesar de não ser contrário à ela). Mas o código medieval pretendia se passar por moralidade, então não é certo dizer que ela tinha em mente as necessidades da época ou que só tinha em mente tais necessidades.

Tratando a conduta medieval como a moralidade medieval, argumentei que o sexo era um completo tabu, que as mulheres eram desprezadas e que o homossexualismo era normal entre o alto-clero católico. Sobre as mulheres, Conde lembrou da reverência católica a Maria. Sobre o homossexualismo, o Conde disse que eu li apenas “mentirinhas” contadas por ateus em cursinhos pré-vestibular. Aliás, ele reclamou que eu não tenho embasamento histórico e que as minhas fontes são piores do que as dele. Mas estas reclamações dele procedem?

Quando perguntei qual o problema com minhas fontes, ele se limitou a dizer que eram ruins e que as dele eram boas. Quando pedi as fontes dele, ele se limitou a dizer alguns nomes, sem apontar livros, trechos nem nada. Quando perguntei a ele qual critério que devo utilizar para distinguir bons historiadores de ruins ele se recusou e preferiu fazer chacota (sabe-se lá porque). Ou seja, minhas fontes não foram provadas falsas e o Conde não apresentou as que ele julga serem corretas. Em outras palavras, não faz sentido dizer que fui respondido. O Conde falou muito, mas não me respondeu; sua esparafatosa resposta foi vistosa e ofensiva, cheia de pose de intelectual que não quer se misturar com a plebe, mas tudo isso foi uma maquiagem para esconder a nulidade da resposta dele.

E vamos dizer bem a verdade: só quem não tem fontes, não as cita. Não existe desculpa para esconder fontes. E mais ainda: quando pedi um critério, eu não estava agindo como um mendigo pedindo esmola, mas como um professor testando seu aluno. Eu queria saber se ele usava um critério sério e ele agiu como se eu estivesse implorando por um. Mas vá…

Ao que parece, o Conde acha (com uma dose cavalar de ingenuidade) que pode render todas as minhas fontes afirmando que são coisa de cursinho pré-vestibular sem sequer se dar o trabalho de analisar uma por uma e demonstrar isso. Logo ele, defensor da resposta ponto-por-ponto!

Mas já que ele reclama de eu não usar como fonte historiadores melhores (os que ele acha melhores, sabe-se lá porque), então resolvi dar uma fuçada e ver o que encontrava, só para não correr o risco do Conde ter defendido algo certo mesmo sendo incapaz de demonstrar que estava certo. E descobri que o Conde estava errado. Jacques Le Goff, um dos autores mais queridos do Conde, afirma textualmente o contrário do que seu fã defende. O contrário. E isso porque o Conde me chamou de iletrado por defender minhas ideias sem ler tal historiador. Sendo assim, coloco dois textos de Le Goff aqui, ambos publicados no mesmo livro, mostrando exatamente aquilo que sempre defendi aqui. Agora, não existe mais desculpa para ignorar o que eu disse sob o pretexto de ser originário de fontes nas quais o nobre francês de terras espanholas não gosta.

Complementarmente, disponho a vocês a tradução de um capítulo escrito por David Deming sobre as atitudes para com as mulheres nas eras antigas, comparando a atitude dos gregos com a atitude dos católicos medievais. Esse texto até tira um pouco das costas da Igreja Católica o desdenho contra as mulheres – mas nem tanto. Ele faz sua análise baseado nos textos bíblicos e nos textos de cristãos famosos da época. Contudo, é verdade e tudo que é verdade merece espaço aqui.

Este texto do Deming é interessante porque acaba lançando um conflito interessante: seria muita ousadia para um apologista pé-rapado afirmar que a Idade Média não herdou as ciências naturais dos gregos, mas que o machismo, este sim, fez parte da herança. Ou eles podem dizer que o machismo foi criação cristã mesmo… vai saber o que eles vão preferir. De qualquer modo, este texto do Deming ficou bem engraçado e eu simplesmente adorei seu método de escrever.

Divirtam-se!

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Título Original: A mulher, subordinada
Autores: JACQUES LE GOFF e NICOLAS TRUONG
Publicado Originalmente em: Uma História do Corpo na Idade Média,
Editora Record, Brasil, 2006, pgs. 52-55
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A derrota doutrinal do corpo parece, portanto, total. [1] Assim, a subordinação da mulher possui uma raiz espiritual, mas também corporal. “A mulher é fraca”, observa Hildegarde de Bingen no século XII, “ela vê no homem aquilo que pode lhe dar força , assim como a lua recebe a força do sol. Razão pela qual ela é submetida ao homem e deve sempre estar pronta para servi-lo.” Segunda e secundária, a mulher não é nem o equilíbrio e nem a completude do homem. Em um mundo de ordem e de homens necessariamente hierarquizado, “o homem está em cima, a mulher embaixo”, escreve Christiane Klapisch-Zuber. [2]

O corpus da intervenção dos textos bíblicos dos Padres da Igreja dos séculos IV e V (como Ambrósio, Jerônimo, João Crisóstomo e Agostinho) é incansavelmente retomado e repetido durante a Idade Média. Assim, a primeira versão da Criação presente na Bíblia é esquecida em proveito da segunda, mais desfavorável à mulher. Ao Deus criou “o homem à nossa imagem, à nossa semelhança”, isto é, “homem e mulher” (Gênesis 1:26-27), os Padres e os clérigos preferem a versão da modelagem divina de Eva a partir da costela de Adão (Gênesis 2:21-24). Da criação dos corpos nasce, portanto, a desigualdade original da mulher. Uma parte da teologia medieval segue o passo de Agostinho, que faz remonstar a submissão da mulher antes da Queda. O ser humano é portanto cindido: a parte superior (a razão e o espírito) está do lado masculino, a parte inferior (o corpo, a carne), do lado feminino. As Confissões de Agostinho são a narrativa de uma conversão, por meio da qual o futuro bispo de Hipona conta, igualmente, como a mulher em geral – e a sua em particular – foi um obstáculo à sua nova vida de homem da Igreja.

Oito séculos mais tarde, Tomás de Aquino (c. 1224-1274) se afastará em parte do caminho tomado por Agostinho, porém se fazer que a mulher entre no caminho da liberdade e da igualdade. Embebido do pensamento de Aristóteles (384-322 a.C.), para quem “a alma é a forma do corpo”, Tomás de Aquino recusa e refuta o argumento dos dois níveis de criação de Agostinho. Alma e corpo, homem e mulher foram criados ao mesmo tempo. Assim, masculino e feminino são, ambos, a sede da alma divina. Entretanto, o homem dá provas de mais acuidade na razão. E sua semente é a única que, durante a copulação, eterniza o gênero humano e recebe a bênção divina. A imperfeição do corpo da mulher, presente na obra de Aristóteles e na de seu leitor medieval Tomás de Aquino, explica as raízes ideológicas da inferioridade feminina, que, de original, se torna natural e corporal. Tomás de Aquino, entretanto, mantém uma igualdade teórica entre o homem e a mulher, observando que, se Deus quisesse fazer da mulher um ser superior ao homem, ele a teria criado de sua cabeça e, se decidisse fazer dela um ser inferior, ele a teria criado de seus pés. Ora, ele a criou do meio de seu corpo para ressaltar sua igualdade. Também é preciso destacar que a regulamentação do casamento pela Igreja irá exigir o consentimento mútuo dos cônjuges e, embora essa prescrição nem sempre tenha sido respeitada, ela marca um avanço no estatuto da mulher. Do mesmo modo, se é possível afirmar que o grande impulso do culto da Virgem tem repercussões sobre uma promoção da mulher, a exaltação de uma figura feminina divina só pode reforçar uma certa dignidade da mulher, em particular da mãe e, através de Santa Ana, da avó.

A influência de Aristóteles sobre os teólogos da Idade Média não traz benefício à condição feminina. Assim, depois dele, a mulher é considerada “um macho defeituoso”. Essa fraqueza psíquica tem “efeitos diretos sobre seu entendimento e sua vontade”, ela “explica a incontinência que marca seu comportamento; ela influi em sua alma e em sua capacidade de elevar-se à compreensão do divino”, escreve Christiane Klapisch-Zuber. O homem será, por consequência, o guia dessa pecadora. E as mulheres, que não possuem voz na história, vão oscilar entre “Eva e Maria, pecadora e redentora, megera conjugal e dama cortês”. [3]

A mulher irá pagar em sua carne o passe de mágica dos teólogos, que transformaram o pecado original em pecado sexual. Pálido reflexo dos homens, a ponto de Tomás de Aquino, que às vezes segue o pensamento comum, dizer que “a imagem de Deus se verifica no homem de uma maneira que não se verifica na mulher”, ela é subtraída até mesmo em sua natureza biológica, já que a incultura científica da época ignora a existência da ovulação, atribuindo a fecundação apenas ao sexo masculino. “Essa Idade Média é masculina, decididamente”, escreve Georges Duby. “Pois todos os discursos que chegam até mim e sobre os quais me informo são feitos por homens, convencidos da superioridade de seu sexo. É apenas a eles que ouço. No entanto, eu os escuto falando antes de tudo de seu desejo e, por consequência, das mulheres. Eles têm medo delas e, para se afirmarem, desprezam-nas.” Boa esposa e boa mãe, as homenagens que o homem rende à mulher assemelham-se, por vezes, a desgraças, se levarmos em conta o vocabulário corrente entre os operários e os artesãos do século XV, que falam de “cavalgar”, “justar”, “lavrar” e “roissier” (bater e espancar) as mulheres. “O homem se dirige à mulher como se dirige à latrina: para satisfazer uma necessidade”, [4] resume Jacques Rossiaud.

Ao mesmo tempo, os confessores tentam refrear as pulsões masculinas por meio das proibições, mas também controlando a prostituição nos bordéis e nos banhos públicos, esses lugares de exutório. As prostitutas, cuja “condição é vergonhosa”, e “não aquilo que elas obtém”, escreve Tomás de Aquino, encontram-se, pois, em grandes ou pequenos bordeis comunais ou privados, banhos públicos e outros lupanares, vindas dos arredores das cidades, onde exercem “o mais antigo ofício do mundo”, frequentemente após terem sido violadas por grupos de jovens que buscam, por sua vez, exercer e aguçar sua virilidade. Relegadas, mas igualmente reguladoras da sociedade, as prostitutas vivem em seus corpos as tensões da sociedade medieval.

Notas

1. Um resumo dos estudos sobre o corpo na Idade Média produzidos antes desta nova síntese por Jacques Le Goff, e, sobretudo, provenientes de suas pesquisas sobre L’Imaginaire médiéval (Paris, Gallimard, 1985 e 1991), figura em Jacques Le Goff, Un autre Moyen Âge, Paris, Gallimard, 1999.

2. Christiane Klapisch-Zuber, “Masculin/féminin”, in: Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt (orgs.), op. cit.

3. Christiane Klapisch-Zuber, ibid.

4. Ver, sobretudo, Jacques Rossiaud, La prostitution médiévale, Paris, Flammarion, 1990 (reedição). Edição brasileira: A prostituição na Idade Média, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1991.

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Título Original: A sexualidade, o ápide da depreciação (trecho)
Autores: JACQUES LE GOFF e NICOLAS TRUONG
Publicado Originalmente em: Uma História do Corpo na Idade Média,
Editora Record, Brasil, 2006, pgs. 41-42
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Assim, é possível afirmar que o corpo sexuado da Idade Média é majoritariamente desvalorizado, as pulsões e o desejo carnal, amplamente reprimidos. O próprio casamento cristão, que aparece, não sem dificuldade, no século XVIII, será uma tentativa de remediar a concupiscência. A cópula só é compreendida e tolerada com a única finalidade de procriar. “O adúltero é também aquele apaixonado de modo demasiadamente ardente por sua mulher”, repetirão os clérigos da Igreja. Prescreve-se, deste modo, o domínio do corpo; as práticas “desviantes” são proibidas.

Na cama, a mulher deve ser passiva, o homem, ativo, mas moderadamente, sem arrebatamento. No século XVII, apenas Abelardo (1079-1142), pensando talvez em sua Heloísa, chegará a dizer que a dominação masculina “termina no ato conjugal, em que homem e mulher detém igual poder sobre o corpo um do outro.” Mas, para a maior parte dos clérigos e dos leigos, o homem é um possuidor. “O marido é proprietário do corpo de sua mulher, ele tem direito de posse sobre o corpo dela”, resume Georges Duby. Toda tentativa contraceptiva é pecado mortal para os teólogos. A sodomia é uma abominação. A homossexualidade – após ter sido condenada, depois tolerada, a ponto de constituir-se no século XVII, segundo Boswell, em uma cultura “gay” no próprio seio da Igreja – torna-se, a partir do século XVIII, uma perversão por vezes associada ao canibalismo.

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Título Original: Attitudes Toward Women
Autor: DAVID DEMING
Publicado Originalmente em: Science and Technology in World History,
Vol. 2 – Early Christianity, the Rise of Islam and the Middle Ages,
McFarland & Company, EUA, 2010, pgs. 36-41
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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Atitudes em Relação às Mulheres

MULHERES EM ROMA

As sociedades gregas e romanas eram patriarcais. Na Grécia Antiga, mulheres eram consideradas significativamente inferiores aos homens. Esta crença era comum não só entre os mais simples, mas também entre as mentes mais incisivas e brilhantes, incluindo Platão e Aristóteles.

O patriarquismo em Roma talvez tenha sido de alguma forma menos opressivo do que na Grécia. “A defesa do patriarcado não era um tema tão visível na literatura romana quanto era na grega.” [1] Mas no entanto, “a esposa … [era] a propriedade de seu marido … [e dentro da família] o pai sozinho tinha a autoridade independente, e enquanto ele vivesse todos aqueles sob seu poder – seus filhos, e as esposas e filhos deles, e suas filhas solteiras – não poderiam adquirir nenhuma propriedade para si mesmos.” [2]

O debate no Senado sobre a Lei Oppian ilustra o papel da mulher na sociedade sob a República Romana. Em 195 aC*, durante a Segunda Guerra Púnica, o Senado romano promulgou a Lei Oppian, uma medida que proibiu a ostentação de riqueza por mulheres. “Nenhuma mulher deve possuir mais de metade de uma onça de ouro, ou vestir uma roupa de várias cores, ou dirigir uma carruagem puxada por cavalos, em uma cidade, ou em qualquer vilarejo, ou em qualquer lugar mais próximo de uma milha [1609 metros] dos mesmos , exceto na ocasião de alguma solenidade pública religiosa.” [3]

(Nota do Tradutor: O autor se confundiu com as datas aqui. O ano de 195 aC foi o ano em que a Lei Oppian foi revogada. Sua promulgação ocorreu, na verdade, em 215 aC. O próprio Deming diz adiante que ela foi revogada em 195 aC, o que me faz crer que ele não tenha errado por desconhecimento, mas por descuido.)

Após a conclusão com êxito da Segunda Guerra Púnica em 201 aC, Roma prosperou, e a Lei Oppian foi revogada em 195 aC. A revogação foi contestada por Catão, o Censor. Em seu discurso no Senado, Catão alertou contra o aumento dos direitos e privilégios permitidos para as mulheres. “Se, romanos, cada indivíduo entre nós tivesse tomado como regra manter a prerrogativa e autoridade de um marido com relação a sua própria mulher, nós teríamos menos problemas com todo o sexo.” [4]

Catão ficou indignado por ter sido abordado por mulheres que tiveram a audácia de confrontá-lo em público, em vez de confiar as suas preocupações em particular aos seus maridos. “Que tipo de prática é essa, de correr para locais públicos, assediando as ruas e enfrentando os maridos de outras mulheres? Não seria possível que cada uma tivesse feito o mesmo pedido para o próprio marido em casa?”

Catão se queixou de que a disciplina das antigas e veneráveis tradições romanas ​​foi sendo corroída e relaxada. “Nossos ancestrais pensaram que não era adequado que as mulheres pudessem realizar qualquer negócio, mesmo privado, sem um diretor; mas que elas deveriam estar sempre sob o controle de pais, irmãos ou maridos. Nós, ao que parece, permitimos, agora, que interferiram na gestão dos assuntos do Estado, e que introduzam a si mesmas no fórum, em assembleias gerais, e em assembleias de eleição.” [5]

Catão advertiu que a igualdade de concessão para mulheres na verdade seria consentir com sua superioridade. “No momento em que elas [as mulheres] chegarem a uma igualdade com você, elas vão ter se tornado seus superiores.” [6]

As descrições mais depreciativas das mulheres na literatura romana são encontrados na sátira, As Formas de Mulheres, pelo poeta Juvenal, que escreveu no final do primeiro século dC, e no início do segundo.

Todas as mulheres em prostitutas sem vergonha nas quais não se podia confiar. “Se você tiver a sorte de encontrar uma esposa modesta, você deve prostrar-se diante do Tarpeian, e sacrificar uma bezerra com chifres dourados a Juno.” [7]

Em qualquer dever virtuoso que requirisse coragem, as mulheres eram covardes. Mas se elas estivessem envolvidas em um ato de infâmia, sua fortaleza era ilimitada. “Quando o perigo vem em um caminho certo e honrado, o coração de uma mulher se esfria com o medo, ela não consegue permanecer sob seus pés trêmulos; mas se ela estiverr fazendo uma coisa ruim, sua coragem não falha.” [8]

Mesmo se uma esposa perfeita pudesse ser encontrada, ela seria indesejável, devido ao seu ego e vaidade. “Você diz que nenhuma esposa digna encontra-se entre todas estas multidões? Bem, imagine uma bonita, charmosa, rica e fértil; imagine-a tendo ancestrais antigos extendidos sobre seus salões; imagine-a sendo mais casta do que as donzelas desgrenhadas de Sabine que pararam a guerra – um prodígio tão raro na Terra quanto um cisne negro! No entanto, quem poderia suportar uma esposa que possua todas essas perfeições?” [9]

Qualquer homem tolo o suficiente para ser um marido dedicado e amoroso só seria explorado por sua esposa cruel. “Se você é honestamente dedicado à esposa, e devotado a uma única mulher, então abaixe a cabeça e submeta-se ao jugo. Você nunca vai encontrar uma mulher que poupa o homem que a ama; pois embora ela mesma seja ardente, ela adora atormentá-lo e roubá-lo. Assim, quanto melhor o homem, quanto mais desejável ele seja como marido, menos benefícios ele vai extrair de sua esposa.” [10]

As mulheres eram briguentas. “Nunca houve um caso em tribunal em que a briga não foi iniciada por uma mulher.” [11] Homens foram avisados ​​de que deveriam “abandonar toda a esperança de paz enquanto sua sogra estiver viva. É ela que ensina a filha a deleitar-se em decapar e despojar seu marido … a vil mulher idosa encontra um lucro em tornar sua filha vil.” [12]

Se uma mulher acusasse seu marido de ser infiel, era apenas para esconder seu próprio adultério.

A cama que mantém uma mulher nunca está livre de disputas e desavenças mútuas, o sono não deve ser encontrado lá! É lá que ela se coloca sobre seu marido, mais selvagem do que uma tigresa que perdeu seus filhotes; consciente de seus deslizes secretos, ela elabora uma queixa, abusando de seus escravos, ou chorando por algum amante imaginário. Ela tem uma oferta abundante de lágrimas sempre pronto, esperando ela ordenar a forma na qual elas devem fluir. Você, idiota pobre, muito satisfeito, acreditando que eles sejam lágrimas de amor, as consola com carinho; mas quais bilhetes, quais cartas de amor você encontraria se abrisse a mesa de sua mulher adúltera de olhos verdes! [13]

Foi Juvenal que originou o ditado, “quem guardará os guardas?” “Eu ouço todo esse tempo o conselho dos meus velhos amigos – mantenha suas mulheres em casa, e as coloque a sete chaves. Sim, mas quem vai assistir os guardas? Esposas são astutas e vai começar por eles.” [14]

As mulheres pobres tinham que ter filhos. Mas uma mulher romana rica poderia contratar um aborteiro. No entanto, o marido foi aconselhado por Juvenal a não resistir ao aborto, mas ajudar com isso. “Grande é a habilidade, tão poderosas são as drogas do aborteiro, pago para assassinar a humanidade dentro do útero. Alegra-te, pobre coitado; dê a ela o líquido para beber o que quer que ele seja, com a sua própria mão: […] você pode encontrar-se o pai de um etíope; e algum dia um colorido herdeiro, a quem você prefere não atender à luz do dia, irá preencher todos os lugares em seu testamento.” [15]

A humilhação final para um homem era ser forçado a ouvir uma mulher culta e articulada participar de conversas inteligentes. “Mas o mais insuportável de tudo é a mulher que assim que chegou para jantar elogia Virgílio, perdoa a moribunda Dido, e coloca os poetas uns contra os outros …. Ela estabelece definições, e discursa sobre a moral, tal como um filósofo; sedente de ser considerada sábia e eloquente.” [16]

A sátira de Juvenal tem despertado a ira de feministas modernas. “[Ele] é provavelmente o mais terrível de todos os catálogos de vícios do sexo feminino.” [17] Mas uma sátira é geralmente escrito a exagerar um vício, e, portanto, ridicularizá-lo. As caracterizações de Juvenal talvez foram escritas não para condenar as mulheres, mas para zombar de estereótipos de comportamentos femininos.

FILHAS DE EVA

As atitudes cristãs em relação às mulheres foram, em parte, influenciadas pelas normas culturais da Roma e da Grécia, nas quais as mulheres eram consideradas inferiores. Mas as escrituras judaicas também foram patriarcais. Deus criou o primeiro homem, a mulher era uma espécie de adendo, fabricado apenas para ser uma auxiliar para o homem – uma serva. “E o Senhor Deus disse: Não é bom que o homem esteja só, vou fazer-lhe uma ajuda própria para ele.” [18]

O homem foi criado “à imagem de Deus”.* [19] Mas a primeira mulher, Eva, foi feita de costela tirada do primeiro homem, Adão. “E da costela que o Senhor Deus tomara do homem, transformou-a numa mulher.” [20] Eva “não foi sequer criada à imagem de Deus, mas somente homem foi; portanto, ela está mais longe de Deus do que o homem, e como conseqüência são mais propensas à loucura e ao vício.” [21]

(Nota do Tradutor: Esse trecho parece entrar em conflito com o texto de Le Goff. Mas é natural, dada que a própria passagem bíblica é confusa. Em Gênesis 1:27 é dito: “E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Deus criou o homem e a mulher à sua imagem  ou criou ambos, mas só o homem à sua imagem? Não culpem a mim e aos autores que coloco aqui as ambiguidades bíblicas! Como vocês poderão notar, Tertuliano concorda com Deming e não com Le Goff.)

A primeira coisa que Eva fez foi criar o pecado original ao convencer Adão a comer da árvore proibida do conhecimento do bem e do mal. Na visão dos pais da Igreja, foi o maior crime de todos os tempos. “E quando a mulher viu que a árvore era boa para se comer, e que era agradável aos olhos, e uma árvore desejável por dar sabedoria, tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido com ela; e ele comeu.” [22] “E o Senhor Deus disse à mulher: Que é isto que fizeste? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi. “ [23]

Como castigo pelo pecado de Eva, Deus condenou as mulheres a sofrerem dor durante o parto, e a serem governadas por seus maridos. “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor terás filhos;  e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” [24]

As mulheres eram tão más que seduziram até os anjos. Em Gênesis 6, foi registrado que as mulheres humanas haviam tentado os próprios anjos (os “filhos de Deus”) em pecado e corrupção. Os descendentes dessa união ilegítima de mulher humana e anjos caídos formavam uma raça de gigantes. “Naqueles dias havia nefilins na terra, e também posteriormente, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens e elas lhes deram filhos. Eles foram os heróis do passado, homens famosos.” [25]

O autor dos livros Eclesiastes advertiu: “Descobri que muito mais amarga do que a morte é a mulher que serve de laço, cujo coração é uma armadilha e cujas mãos são correntes. O homem que agrada a Deus escapará dela, mas ao pecador ela apanhará.” [26] Caso haja uma “mulher virtuosa”, sua bondade não seria merecedora de reconhecimento em si, mas apenas na medida em que for “uma coroa de seu marido”. [27]

O papel das mulheres na Igreja Cristã e da sociedade foi fortemente influenciado pelas doutrinas de Paulo, o Apóstolo. Paulo enfatizou que as mulheres eram espiritualmente inferiores aos homens. “A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. Mas eu não permito que a mulher ensine, nem possua de autoridade sobre o homem, mas que esteja em silêncio. Pois primeiro foi formado Adão, depois Eva.” [28]

As mulheres não eram autorizados a falar nas igrejas. “As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas, pois não lhes é permitido falar, mas elas são ordenadas a estar sob obediência como também diz a lei. E se querem aprender alguma coisa, interroguem seus maridos em casa, pois é uma vergonha que as mulheres falem na igreja.” [29]

Maridos foram intimados por Paulo a “amar suas esposas”. [30] Mas as mulheres tiveram que se submeter à autoridade do marido. “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor. Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres estão sujeitas a seus maridos em tudo.” [31]

Na doutrina de Paulo, as mulheres eram consideradas criaturas subsidiárias que existiam para o bem dos homens. “Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem. Nem foi o homem criado por causa da mulher, mas a mulher para o homem.” [32]

Tertuliano (c. 155-220 dC) foi “o primeiro e depois de Agostinho o maior dos escritores antiga Igreja do Ocidente.” [33] Este santo tinha pouca paciência com as mulheres. Em seu ensaio Sobre as Roupas Femininas, começou por lembrar às mulheres que elas eram a fonte do pecado original. Estas filhas de Eva eram tão culpadas como a primeira mulher. “E você não sabe que cada uma de vocês é uma Eva? A sentença de Deus sobre este teu sexo vive nesta era: a culpa deve necessariamente viver também. Vocês são a porta do diabo: vocês quebraram o selo da árvore (proibida): vocês são as primeiras desertoras da lei divina: vocês são aquelas que o convenceram ele de que o diabo não era valente o suficiente para atacar. Vocês destruiram tão facilmente a imagem de Deus, o homem. Por conta de sua deserção – isto é, a morte – mesmo o Filho de Deus teve que morrer.” [34]

Embora ele próprio fosse casado, Tertuliano comparou o casamento à fornicação. “Suas leis parecem formar a diferença entre o casamento e a prostituição; através da diversidade de ilicitudes, não pela natureza da coisa em si. Além disso, qual é a coisa que acontece em todos os homens e mulheres para a produção de casamento e fornicação? Comistura da carne, é claro; a concupiscência da qual o Senhor colocou em pé de igualdade com a fornicação.” [35]

Philip Schaff explicou que Tertuliano colocou “a essência do casamento na comunhão de carne, e considerou isso como uma mera concessão que Deus faz à nossa sensualidade … o ideal da vida cristã, com ele [Tertuliano], não só para o clero, mas também para os leigos, é o celibato.” [36]

Lactâncio atribuiu a origem dos demônios, em parte, às mulheres. Demônios eram originalmente anjos que haviam sido enviados para proteger a raça humana. No entanto, eles também receberam o livre arbítrio e foram seduzidos por Satanás e contaminados por terem relações sexuais com mulheres humanas. “Deus … enviou anjos para a proteção e melhoria da raça humana … [Mas], durante sua estadia entre os homens, o ditador mais enganoso da terra [o diabo], … gradualmente os seduziu aos vícios, e os contaminou através de relações sexuais com as mulheres.” [37]

As mulheres eram uma tentação constante para os monges. Histórias notáveis ​​e fantásticas constantemente circularam entre a comunidade monástica sobre os perigos representados por mulheres.

Histórias estranhas foram contadas entre os monges sobre os perigos da paixão. De um monge em específico, que por muito tempo foi considerado como um padrão de ascetismo, mas que caiu na auto-complacência, o que era muito comum entre os eremitas, foi dito que uma noite uma mulher desmaiando apareceu na porta de sua cela, e implorou-lhe por abrigo, e para que ele não permitisse que ela fosse devorada pelos animais selvagens. Em má hora ele cedeu à oração dela. Com todo o aspecto de profunda reverência ela conseguiu a consideração dele, e finalmente se aventurou a colocar sua mão sobre ele. Mas aquele toque convulsionou sua mente. Paixões a tempo adormecidas e esquecidas correram com uma fúria impetuosa em suas veias. Em um paroxismo de amor feroz, ele tentou agarrar a mulher ao seu coração, mas ela desapareceu de sua vista, e um coro de demônios, com gargalhadas, exultava com sua queda. [38]

Alguns monges evitavam a tentação com um expediente simples: eles ficavam longe das mulheres. São João de Licópolis não viu uma mulher por 48 anos. [39] Para o desgosto de São Arsênio, um dia uma mulher apareceu em sua porta:

Uma jovem menina romana fez uma peregrinação da Itália para Alexandria, para olhar para o rosto e obter as orações de São Arsênio, em cuja presença ela forçou. Desanimada devido ao mau acolhimento, atirou-se a seus pés, implorando-lhe com lágrimas a conceder-lhe seu único pedido – lembrar-se dela e orar por ela. “Lembre-se você!”, gritou o santo indignado, “Deve ser a oração da minha vida que eu possa esquecer você.” A pobre menina procurou o consolo do arcebispo de Alexandria, que a confortou assegurando que embora ela pertencia ao sexo que demônios comumente usam para tentar santos, ele não duvidava que o eremita iria rezar por sua alma, embora ele iria tentar esquecer seu rosto. [40]

Gregório I relatou como São Bento foi tentado pela memória de uma mulher desejável. A tentação foi trazida por um demônio na forma de um pequeno pássaro negro que esvoaçava em torno da cabeça de Bento. Afim de não sucumbir à tentação, o venerável Bento a venceu arrancando todas as suas roupas e mergulhando nu em um espinheiro.

Certa vez, quando estava só, apareceu-lhe o tentador: uma dessas avezinhas pretas, conhecidas vulgarmente pelo nome de melro, começou a esvoaçar em torno do seu rosto e a chegar importunamente tão perto que o santo homem, se o quisesse, a poderia apanhar com a mão. Em vez disto, fez o sinal da cruz, e o pássaro afastou-se. Desaparecida, porém, a ave, seguiu-se-lhe grande tentação carnal, qual nunca o santo experimentara. Conhecera outrora certa mulher, que o espírito maligno lhe fazia por essa ocasião voltar aos olhos do espírito, inflamando de tal modo o coração do servo de Deus a lembrança de sua formosura, que seu peito mal podia conter as chamas do amor, e que quase pensava em abandonar o deserto, vencido pela paixão. Mas eis que de repente foi contemplado pela graça celeste, e voltou a si; vendo, então, ao lado de si crescerem densas moitas de urtigas e espinhos, atirou-se, despido, a essas pontas e a essas chamas, onde se revolveu por tanto tempo, que, ao sair, estava ferido por todo o corpo. Assim expulsou do corpo, pelas feridas da carne, a chaga do espírito: convertera em dor a volúpia. Ardendo por fora em justa punição, apagou o que por dentro ilicitamente queimava. Venceu, pois, o pecado, porque transformou a natureza do incêndio. E a partir dessa época, como ele mesmo dizia aos discípulos, foi nele a tal ponto subjugada a tentação da volúpia que nunca mais a sentiu. [41]

De acordo com Gregório I, a virtude de São Bento foi tão grande que despertou a inveja de um sacerdote local chamado Florêncio, um homem “possesso com malícia diabólica.” [42] Florêncio tentou matar Bento, mas não conseguiu. Em seguida, ele tentou destruir a castidade dos monges de Bento enviando mulheres nuas para dançar na frente deles. “E Florêncio, vendo que não podia matar o corpo do mestre, maquinou … para destruir as almas dos seus discípulos; e com este propósito ele enviou para o pátio da Abadia diante de seus olhos sete jovens nuas, que, de mãos dadas, dançaram diante deles por muito tempo, a fim de inflamar-lhes o espírito para as depravações da luxúria.” [43]

Se Bento venceu a tentação de seu corpo mutilando-o com espinhos, isso não foi um ato sem precedentes na Igreja. Orígenes (c. 185-253), que tem sido descrito como “o mais distinto e mais influente de todos os teólogos da antiga igreja, com a possível exceção de Agostinho,” [44] teria se castrado. A fonte deste relato é Eusébio, que escreveu que a inspiração de Orígenes foi uma passagem de Mateus em que Jesus disse que existem aqueles “que se fizeram eunucos pelo bem do reino dos céus.” [45]

Orígenes “realizou uma façanha, que poderia parecer, de fato, em vez de proceder de um entendimento da juventude ainda não amadurecida… [Orígenes entendeu a] expressão ‘há eunucos que se fizeram tais por amor do reino dos céus,’ em demasiado literal e pueril sentido … [E Orígenes] foi levado para cumprir as palavras de nosso Salvador em seus atos.” [46]

1. Rogers, K. M., 1966, The Troublesome Helpmate. University of Washington Press, Seattle, p. 37.
2. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1910, Charity and Charities, vol. 5. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 865.
3. Livius, T., 1850, The History of Rome, Books Twenty-Seven to Thirty-Six, Book 34, Chapter 1, translated by CyrusEdmonds. Henry G. Bohn, London, p. 1490.
4. Ibid., Book 34, Chapter 2, p. 1491.
5. Ibid.
6. Ibid., Book 34, Chapter 3, p. 1491.
7. Juvenal, 1918, Satire 6, The Ways of Women, Lines 50–52, in Juvenal and Perseus, translated by G. G. Ramsay. William Heinemann, London, p. 87.
8. Ibid., Lines 92–96, p. 91.
8. Ibid., Lines 161–168, p. 97.
10. Ibid., Lines 207–213, p. 100–101.
11. Ibid., Lines 242–243, p. 103.
12. Ibid., Lines 232–241, p. 102–103.
13. Ibid., Lines 268 –280, p. 105.
14. Ibid., Lines 246 –349, p. 111.
15. Ibid., Lines 593–601, p. 133.
16. Ibid., Lines 434–447, p. 119.
17. Rogers, K. M., 1966, The Troublesome Helpmate. University of Washington Press, Seattle, p. 38.
18. Bible, King James Version, Genesis 2:18.
19. Ibid., Genesis 1:27.
20. Ibid. Genesis 2:22.
21. Rogers, K. M., 1966, The Troublesome Helpmate. University of Washington Press, Seattle, p. 4.
22. Bible, King James Version, Genesis 3:6.
23. Ibid., Genesis 3:13.
24. Ibid., Genesis 3:16.
25. Ibid., Genesis 6:4.
26. Ibid., Ecclesiastes 7:26.
27. Ibid., Proverbs 12:4.
28. Ibid., 1 Timothy 2:11–2:13.
29. Ibid., 1 Corinthians 14:34–14:35.
30. Ibid., Ephesians 5:25.
31. Ibid., Ephesians 5:22–5:24.
32. Ibid., 1 Corinthians 11:8–11:9.
33. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1911, Tertullian, vol. 26. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 661.
34. Tertullian, 1869, On Female Dress, Book I, Chapter 1, in Ante-Nicene Christian Library, edited by Rev. Alexander Roberts and James Donaldson, vol. 11, The Writings of Tertullian, vol. 1. T. & T. Clark, Edinburgh, p. 304–305.
35. Tertullian, 1870, On Exhortation to Chastity, Chapter 9, in Ante-Nicene Christian Library, edited by Rev. Alexander Roberts and James Donaldson, vol. 18, The Writings of Tertullian, vol. 3. T. & T. Clark, Edinburgh, p. 14.
36. Schaff, P., 1859, History of the Christian Church, A.D. 1–311. Charles Scribner, New York, p. 333–334.
37. Lactantius, 1871, The Divine Institutes, Book 2, Chapter 15, in Ante-Nicene Christian Library, vol. 21, The Works of Lactantius, vol. 1, edited by Alexander Roberts and James Donaldson. T. & T. Clark, Edinburgh, p. 126–127.
38. Lecky, W. E. H., 1897, History of European Morals, Third Edition, Revised, vol. 2. D. Appleton, New York, p. 118–119.
39. Ibid., p. 120.
40. Ibid., p. 121.
41. Gregory I, 1911, The Dialogues of St. Gregory, Book 2, Chapter 2. Philip Lee Warner, London, p. 55.
42. Ibid., Book 2, Chapter 8, p. 65.
43. Ibid., p. 66.
44. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1911, Origen, vol. 20. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 270.
45. Bible, King James Version, Matthew 19:12.
46. Eusebius, 1851, Ecclesiastical History, Book 6, Chapter 8, translated by C. F. Cruse. Henry G. Bohn, London, p. 212.

Amor Romântico é possessividade, mesquinhez e ciúme

=============================================================== Título Original: Chester prefere pagar pelo sexo
Autora: ELIANE BRUM
Publicado Originalmente em: Revista Época – 23/07/2012 – 09h59min
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Premiado autor de histórias em quadrinhos só transa com prostitutas há mais de uma década. Em um livro inteligente e engraçado, ele critica o amor romântico e defende a normalidade da prostituição

Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista (Foto: ÉPOCA)Em junho de 1996, o canadense Chester Brown desenhava histórias em quadrinhos no apartamento que dividia com a namorada, em Toronto, quando ela anunciou: “Te amo como sempre amei e sei que sempre vou te amar, mas…. acho que me apaixonei por outra pessoa”. Chester percebeu que não estava abalado – nem se abalou quando o novo namorado passou a dormir com a recentíssima ex no quarto ao lado. Uma passagem tão tranquila que os dois decidiram continuar dividindo o mesmo apartamento, o que fizeram por muito tempo. Um ano depois, aos 37 anos, Chester chegou a uma conclusão que mudaria a sua vida: “Tenho dois desejos contraditórios: o de transar e o de não ter namorada”.

Chester acabou descobrindo que, pelo menos para ele, não havia contradição alguma. Depois de uma fase de celibato, ele deu início a uma vida sexual com prostitutas que, em geral, era bastante prazerosa. Quando as descrições dos anúncios não correspondiam aos fatos, ele podia inventar uma desculpa e cair fora – ou acabar constatando que, apesar de a mulher não ser tão gostosa quanto dizia que era, tinha outros talentos ou simplesmente era divertida.

Descobriu que, para ele, o “amor romântico” não fazia sentido algum. “Nossa cultura impõe a ideia de que o amor romântico é mais importante que as outras formas de amor”, diz ele um dia à ex-namorada. “Já não acredito nisso. O amor dos amigos e o da família podem ser tão satisfatórios quanto o amor romântico. A longo prazo, provavelmente são mais satisfatórios.”

Mais tarde, explica sua tese a uma prostituta, durante uma conversa na cama. “O amor é doação, partilha e carinho. O amor romântico é possessividade, mesquinhez e ciúme”, diz à moça. “A mãe que tem vários filhos ama todos eles. Quem tem vários amigos pode amar todos eles. Mas não se acha correto que se sinta amor romântico por mais de uma pessoa por vez. Acho que é a natureza excludente do amor romântico que o torna diferente de outros tipos de amor.”

As aventuras de Chester Brown e sua escolha pelo sexo pago são contadas por ele em uma deliciosa graphic novel (novela em quadrinhos), que acabou de chegar às livrarias do Brasil. Pagando por sexo (WMF Martins Fontes) é o relato confessional do quadrinista, escrito com rigor jornalístico. Inclusive trocando o nome das prostitutas, para não identificá-las, assim como jamais desenhando seu rosto ou suas marcas pessoais, para que não sejam reconhecidas – mas buscando ser fiel à forma de seus corpos.

Ao longo das 284 páginas, Chester vai narrando seus dilemas, seus encontros com prostitutas e suas discussões com amigos. Especialmente com os quadrinistas Joe Matt e Seth, com quem formava “os três mosqueteiros” no mundo das HQs. Estas conversas, geralmente em um bar ou café, são as partes mais interessantes do livro, já que os amigos têm dificuldade de aceitar a escolha de Chester – tanto pelo enorme preconceito existente ainda hoje com relação à prostituição, quanto pelo que essa alternativa pouco convencional produz de incômodo com relação à vida amorosa-sexual de cada um deles.

Ao final do livro, temos vontade (eu, pelo menos) de ser amiga do Chester que vai se mostrando com abissal honestidade a cada página. Sem esquecer, é claro, que, como qualquer relato autobiográfico, as verdades sobre quem escreve sobre si mesmo são filtradas por um olhar amoroso e, às vezes, complacente. Mas Chester consegue rir de si mesmo – e duvidar de si mesmo – vezes o suficiente para a história nos envolver e convencer. A certa altura, por exemplo, uma das prostitutas explica a ele por que prefere trabalhar à tarde em vez de à noite. Ela diz: “Quando a gente trabalha à noite, muitos caras chegam bêbados. Os piores clientes são os bêbados e os que têm pênis grande”. E acrescenta: “Quem dera todos os meus clientes fossem como você”.

As aventuras de Chester, porém, não são apenas deliciosas. Seu maior mérito é nos confrontar com uma visão sobre o amor, o sexo e a prostituição que contraria o senso comum. Mesmo para pessoas consideradas de “mente aberta”, a prostituição ainda é um tabu. Ainda hoje, as prostitutas são reduzidas ou a “vagabundas” ou a “vítimas da sociedade, do machismo e do patriarcado” – visões pobres e autoritárias sobre uma identidade complexa. De certa forma, sobre a prostituição há quase uma unanimidade negativa unindo setores da sociedade que discordam em quase todo o resto.

Chester incomoda também por não caber no estereótipo do que se imagina como um cliente do sexo pago. Ele não é o sinhozinho do passado, que mantinha em casa a mulher “honesta” e “mãe dos filhos”, mas divertia-se mesmo era no puteiro da cidade. Tampouco é o explorador de mulheres violento, tarado e com “vícios” inconfessáveis das histórias que viram notícia. Muito menos é o “loser” infeliz, desajustado e solitário que busca o prazer nos becos escuros, esgueirando-se pelo submundo.

Chester usa seu nome verdadeiro, não esconde de ninguém que transa com prostitutas e trata sua escolha com tanta naturalidade como se estivesse falando de um casamento convencional. Ao colocar um tema historicamente relegado à sombra – e ao assombro – debaixo do sol, ele torna-se algo novo. Especialmente porque tem a inteligência de não escorregar para o lado oposto – o do glamour –, o que seria desastroso.

Para Chester, transar com prostitutas é tão comezinho quanto namorar, morar junto ou casar. Como um homem da era digital, ele escolhe as mulheres pelos anúncios e avalia as “resenhas” deixadas por outros clientes em sites na internet. Paga o preço combinado e respeita os limites estipulados, porque é uma pessoa decente, e dá gorjetas até quando não gosta muito, porque talvez seja bom moço demais.

Nota do blog: O médico House também escolhia suas garotas via anúncios.

Por conta da reação persistente e quase ofendida que sua escolha causou, Chester acabou por tornar-se um defensor público da legalidade da prostituição – ainda proibida em vários países, mesmo ocidentais. Embora defenda a legalização da prostituição, porém, é contra a regulamentação da profissão, por considerar que o Estado deve ficar fora da cama dos cidadãos – qualquer que seja a relação estabelecida entre as partes. É contra também porque acredita que a partir dela se criaria uma nova distinção entre as prostitutas, que deixaria as não regulamentadas desprotegidas.

Mas Chester é, principalmente, um defensor da “normalidade” do sexo pago. Em nome dessa militância, ele faz um longo apêndice ao final do livro, dividido em 23 itens – o mesmo número de prostitutas com quem teve relações sexuais – para rebater os argumentos contrários à prostituição, que chama de “namoro pago”. Em geral, rebate os argumentos usados por uma parcela do movimento feminista, que coloca a prostituição como uma exploração da mulher – e a prostituta como uma vítima.

A seguir, alguns dos itens elencados por Chester Brown:

1) Você é dono do seu corpo. Dizer “Quero transar com você porque você vai me dar dinheiro” é tão moral quanto dizer “Quero transar com você porque eu o amo”. E isso tanto para homens quanto para mulheres.

2) Os clientes não compram as prostitutas. Quando alguém compra um livro, leva-o para casa e faz o que quiser com ele, por quanto tempo quiser. Com uma prostituta, você paga para transar durante um tempo determinado, limitado por aquilo que é combinado, e depois se separa dela. Nenhum cliente faz o que quiser com uma prostituta – nem é dono dela.

3) A violência, minoritária, é tão presente no sexo pago como no sexo não pago. Existem clientes cretinos na mesma proporção que existem maridos e namorados cretinos, que ignoram os pedidos e os limites estabelecidos pelas mulheres. Assim como há aqueles que extrapolam e as espancam. Para reprimir esse comportamento, há leis. Mas, se concluirmos que devemos criminalizar ou condenar o sexo pago porque alguns homens são cretinos e outros são violentos, então é preciso criminalizar ou condenar também o casamento e o sexo não pago. Da mesma forma, com relação ao tipo de trabalho, qualquer um acharia descabido terminar com a profissão de taxista porque alguns são assaltados, feridos e até mortos por assaltantes travestidos de clientes.

4) Não são apenas as prostitutas que muitas vezes transam sem desejo. Muitas pessoas, em relacionamentos amorosos, também transam sem vontade. A frase “Não quero transar com esse cara, mas vou transar porque preciso de dinheiro” é tão moral quanto “Não quero transar agora, mas vou transar porque ele é meu namorado e eu o amo” ou “Não sinto mais desejo pelo meu marido, mas vou transar pelo bem do nosso casamento”.

5) A prostituição não destrói a dignidade das prostitutas. A vergonha que algumas prostitutas sentem por conta da profissão é provocada pela interiorização do preconceito enfrentado na sociedade – e não pela venda do sexo em si. Assim como no passado (e ainda hoje, em alguns casos) os homossexuais sentiam vergonha, depressão, culpa e repulsa por sua orientação sexual. Isso não significava que ser gay era errado – e sim que muitos homossexuais interiorizavam os valores da cultura em que viviam, assumindo o preconceito da sociedade como vergonha e como culpa.

6) A diferença com que a sociedade trata a prostituição masculina mostra que o preconceito, como sempre, é com relação à autonomia das mulheres. Em geral, os adversários da prostituição feminina ignoram a masculina. A razão é que os argumentos usados para condenar a prostituição feminina soariam ridículos se aplicados à masculina. Nossa cultura acredita que os homens controlam a própria sexualidade. E, se um homem se coloca em uma situação potencialmente arriscada, a sociedade compreende como um comportamento inerente à natureza masculina. Já, com relação às mulheres, não. Elas são sempre vítimas, e há sempre alguém – mesmo que outras mulheres – apto a determinar o que é melhor para elas.

7) A prostituição é uma escolha. Setores contrários à prostituição afirmam que não há escolha real se a mulher tem de eleger entre ganhar um salário baixo em um emprego pouco valorizado ou se prostituir, assim como não haveria escolha se a mulher se prostitui supostamente porque foi abusada na infância, caso de parte das prostitutas (como de parte das mulheres). Mas uma escolha é uma escolha, ainda que seja uma escolha difícil. Dizer que adultos não teriam o direito de escolha porque tiveram uma infância difícil é um terreno perigoso. Estas mulheres que não poderiam escolher pelo sexo pago não estariam, então, aptas a fazer qualquer escolha sexual, mesmo amorosa, por causa do seu passado. Da mesma forma que a realidade impõe escolhas difíceis para ganhar a vida o tempo todo, tanto para homens como para mulheres. E do mesmo modo como há quem gosta do que faz e há quem não gosta em qualquer profissão. Todas as pessoas – e não só as prostitutas – são fruto de suas circunstâncias e do sentido que conseguiram dar ao vivido. Alguém tem o direito de determinar quais adultos estão aptos e quais não estão aptos a fazer escolhas sobre a sua própria vida, ainda que sejam escolhas que não agradem aos outros?

Estes são alguns dos argumentos que Chester Brown propõe ao leitor, construídos a partir de pesquisa e leituras, mas principalmente a partir da sua própria experiência no mundo do sexo pago. Na novela da vida real que ele conta em quadrinhos, cada prostituta entende sua escolha de forma diversa. Quando não contam para a família e para os amigos sobre sua profissão, em geral é por temer o preconceito – e não por desprezar o que fazem.

Por características de sua personalidade, um pouco obsessiva, Chester esmiuça o sexo pago e suas implicações com algo próximo do método científico. Meticuloso, ele escuta e duvida tanto dos outros quanto de si mesmo, o que o torna digno de ser escutado naquilo que diz. Ao terminar o livro, Chester parece ter achado o melhor para ele, pelo menos naquele momento: estava há seis anos transando com uma única prostituta, que, por sua vez, só transava com ele, numa curiosa relação monogâmica sem compromisso. Chester acredita que ela não transaria com ele se não pagasse – e acha ótimo que seja assim.

No último apêndice do livro, seu amigo Seth comenta com ironia amorosa: “A verdade é que, se no passado o envolvimento de Chet com prostitutas me incomodava, hoje eu superei isso. A prostituição pode não funcionar para todos, mas funciona para ele. O gozado em Chester é que, de todos os homens que conheço, ele talvez seja o que daria o melhor marido ou namorado para qualquer mulher… e, no entanto, foi ele que escolheu a prostituição. O mundo é muito engraçado”.

Mas Chester escorrega em pelo menos um ponto, o que é uma pena. Ao escolher transar apenas com prostitutas, por achar que o amor romântico não serve para ele, Chester é atacado por muitos – e também pelos amigos mais queridos. Afinal, manter uma relação amorosa romântica com alguém parece ser a busca maior e a redenção de boa parte das pessoas em nossa época. Para Chester, o amor romântico é apenas um mito no qual as insatisfações mútuas são mascaradas para não comprometer a sua idealização, tão cara à nossa cultura.

 O problema é que Chester trata o amor romântico – e o casamento – com preconceito semelhante ao reservado à prostituição pelos seus opositores. Quando o melhor, me parece, seria não substituir um dogma pelo outro. Assim como pagar para transar pode ser a melhor solução para Chester e para muitos, o sexo não pago pode ser a melhor solução para outros. Há um zilhão de pactos diferentes que um homem e uma mulher – ou um homem e um homem, uma mulher e uma mulher – podem fazer entre si e que só diz respeito a eles. Seria melhor ter ficado por aí, mas Chester Brown, como muitos que defendem uma bandeira na contramão, acaba tornando-se dogmático pelo avesso.

Esse escorregão, porém, não tira o brilho de sua obra e da sua reflexão. É importante quando alguém nos arranca do senso comum e nos lança diante de novas perguntas – não para concordar com ele, mas para pensar com ele. E mais ainda em uma época na qual o politicamente correto tem reprimido a liberdade das ideias. Chester não provoca polêmica pela polêmica, como muitos em busca de audiência e leitores. Estuda, pesquisa, experimenta e conta. E é sua honestidade moral e intelectual que torna Pagando por sexo tão instigante.

O livro me lembrou de um evento, ocorrido há quatro anos em Porto Alegre, chamado “Um puta sarau”. Na ocasião, um folhetim escrito por um grupo de prostitutas e intitulado “Uma puta história” foi lido para o público. A certa altura, uma feminista não se conteve e disse: “Espero que um dia as mulheres não precisem mais vender o seu corpo para sobreviver”. Janete, a prostituta que estava no palco, retrucou na hora:

– Mas eu não vendo o meu corpo, eu alugo. E só um pedacinho dele. A senhora não aluga o seu cérebro para o seu patrão?

Como se vê, há muito para refletir.

Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. Foto: Revista Época

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