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Falácias: Argumentos Irrelevantes

“Estas falácias têm em comum o fato de falharem a prova de que a conclusão é verdadeira.” Essa é a explicação para o termo “Falhar o Alvo” que é encontrada em quase qualquer guia de falácias lusófono na internet. Contudo, eu não gosto muito nem dessa definição para agrupar as falácias sobre as quais vou falar aqui hoje, pois ela é muito genérica e engloba a maioria dos argumentos possíveis.

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O que Não é um argumento? – Parte 2: Justificativas, causas e explicações

Nos posts anteriores eu apresentei os argumentos e expliquei que eles são compostos de duas partes: a parte formal, ou lógica, que dá validade ao argumento e a parte informal, que dá solidez a ele. Para contextualizar o leitor, repito o que já disse antes: que o argumento tem o propósito de sustentar uma conclusão através de uma premissa ou um conjunto de premissas. É importante que se diga isso, pois uma construção organizada formalmente como um argumento válido e sólido pode não ser um argumento. Vamos ver um exemplo:

O filho do Pedro está no hospital, por isso ele se ausentou do serviço nos últimos dias.

Isto é um argumento ou não é? Acertou quem disse que depende do contexto. Vejam bem, essa frase está construida mais ou menos na forma “A logo B”, então podemos afirmar que a “conclusão” à qual se deseja chegar só pode ser B, ou seja, que Pedro se ausentou do serviço dos últimos dias. Então, se A – o fato de seu filho estar no hospital – tiver sido apresentado para provar que essa conclusão, então trata-se de um argumento sim. Vejam um possível contexto:

João: O Pedro é um funcionário exemplar, nunca falta ao serviço. Cheguei de viagem ontem a noite e estranhei muito quando ouvi dizer agora há pouco que ele não aparece há alguns dias. Eu não acredito que isso seja verdade.
Tereza: O filho do Pedro está no hospital, por isso ele se ausentou do serviço nos últimos dias.

Essa conversa pode ter ficado um pouco irreal, mas serve bem aos propósitos desse post. Entendam o que aconteceu: João não sabia se Pedro tinha faltado no serviço mesmo e precisava de ser convencido disso. O que Tereza fez foi demonstrar que isso realmente ocorreu apresentando a razão do acontecimento. Seu argumento foi:

P1: O filho do Pedro esteve no hospital nos últimos dias.
P2: Pedro precisou acompanhar o filho no hospital ou ficou sem cabeça para trabalhar. (premissa implícita)
C: Pedro não pôde trabalhar nos últimos dias.

Mas suponhamos um contexto que não visa demonstrar B porque B é algo já sabido e cuja veracidade seja trivial ou mesmo consensual. Entretanto, mesmo assim os motivos que levaram ao acontecimento de B são desconhecidos e A precisa ser apresentado para sanar esse problema. Vejam este novo contexto:

João: O Pedro tem feito muita falta aqui na firma e eu até agora não sei porque ele sumiu!
Tereza: O filho do Pedro está no hospital, por isso ele se ausentou do serviço nos últimos dias.

Notem que existe uma diferença sutil entre os dois casos. Agora, João sabe que Pedro se ausentou nos últimos dias, só não sabe porque. Ele demandou uma causa, uma justificativa ou uma explicação para algo que ele sabia que acontecera. Apesar da resposta de Tereza ter sido estruturada como um argumento, não se tratava de um, pois argumentos visam dar veracidade a alguma conclusão e não justificar um fato verdadeiro.

Vejam este outro exemplo que compara dois raciocínios semelhantes:

  1. O Brasil investe pouco e muito mal em esportes e dá pouco suporte a nossos atletas. Como consequência, mais uma vez nosso país terá um desempenho fraco nos Jogos Olímpicos.
  2. O Brasil investe pouco e muito mal em esportes e dá pouco suporte a nossos atletas. Como consequência, mais uma vez nosso país teve um desempenho fraco nos Jogos Olímpicos.

No primeiro caso, quem quer que tenha feito a declaração, a fez antes dos jogos e tentava convencer o leitor de que a delegação brasileira não traria muitas medalhas para nosso país, como tem acontecido nas últimas edições. Trata-se, então, de um claro argumento.

Já no segundo caso, o autor fazia sua declaração após os jogos e contava com o fato que seus leitores sabiam que nossa delegação continuou tendo poucos resultados e tentou mostrar o porquê disto ter acontecido. Como sua conclusão já era algo previamente estabelecido, então ele não tentou convencer ninguém, logo não houve um argumento.

Compreenderam a diferença? Para quem ainda tem dúvidas sugiro o artigo “Argument” do site IEP. Para quem deseja se aprofundar, sugiro o artigo “Theories of Explanation”, que eventualmente será trazido para este blog.

Referências e Leituras Recomendadas:

O que é um Argumento? – Parte 3b: Validade e Solidez

Esse post é um curto adendo á parte três da série sobre argumentação e visa reparar um erro que infelizmente cometi. Aliás, não foi exatamente um erro, mas sim a omissão de dois conceitos importantes que aconteceu enquanto eu escrevia a parte 3. Tratam-se dos conceitos de Validade e de Solidez.

Um argumento é válido quando sua estrutura lógica é formalmente correta. Em outras palavras, um argumento válido está corretamente amparado por um princípio lógico, é imune a testes de paródia e sua conclusão sempre será verdadeira quando suas premissas assim o forem. Isso é algo muito importante: um argumento válido não necessariamente possui uma conclusão verdadeira. (Aos pobres desprivilegiados que porventura possam achar que relativizo aqui o conceito de certo e errado, recomendo a leitura de textos que exigem menos capacidade intelectual para serem compreendidos, como uma entrevista do Neymar.) A validade de um argumento garante que a conclusão será correta caso as premissas sejam corretas.

Um argumento sólido, por sua vez, é aquele argumento que é simultaneamente válido e cujas premissas são corretas. A solidez de um argumento (soundness) faz com que sua conclusão seja necessariamente verdadeira.

Segundo o IEP: Um argumento é válido se e somente se possuir uma estrutura formal logicamente correta ou se for impossível que a conclusão seja falsa quando as premissas forem verdadeiras. Um argumento é sólido se e somente se for válido e suas premissas forem verdadeiras.

Por exemplo, considerem esses dois argumentos:

Todos macacos são aves.
Nenhuma ave é um animal.
Logo, nenhum macaco é animal.

Todos tigres são mamíferos.
Nenhum animal mamífero possui escamas.
Logo, tigres não possuem escamas.

Notemos que os dois argumentos seguem a mesma forma lógica:

Todo A é B.
Nenhum B é C.
Logo, nenhum A é C.

Como a forma lógica de ambos é correta, ambos são válidos. Porém, o primeiro argumento é claramente falacioso e não possui solidez, e isso ocorre por que suas premissas são evidentemente falsas. O segundo argumento, por sua vez, apresenta duas premissas verdadeiras sendo portanto um argumento não somente válido, como também sólido.

Agora considerem esse argumento:

Todos papas moram no Vaticano.
Bento XVI mora no Vaticano.
Logo, Bento XVI é um papa.

Alguém pode pensar que como as duas premissas são verdadeiras e como a conclusão é verdadeira, que logo o argumento é sólido. Nada mais errado. Este argumento é inválido, portanto não-sólido, falacioso e falso. Vejamos a forma que ele segue:

Todo A é B.
X é B.
Logo, X é A.

Esse raciocínio não procede e isso pode ser visto através da lógica proposicional (ver nas Leituras Recomendadas). Um teste da paródia simpes também serve:

Todos papas moram no Vaticano.
Alguns cardeais moram no Vaticano.
Logo, alguns cardeais são papas.

Nota-se aqui claramente como este argumento é inválido. Um argumento inválido não garante que duas premissas corretas levarão a uma conclusão correta, como ocorre neste último caso. Já no caso anterior, as duas premissas também eram verdadeiras mas a conclusão era verdadeira por pura sorte. Isso não valida o argumento de forma alguma e nem o torna melhor do que este último.

Muitos teístas cristãos que conheço jamais seriam capazes de admitir que um argumento tão fraco quanto o ontológico seja falso, como se sua falsidade de alguma forma provasse a não existência de Deus. Lamento a ignorância deles. Deus pode existir e o argumento ontológico pode ser falso, simultaneamente. Eu poderia dizer: “Bananas não voam, logo Deus existe” e isto seria falso mesmo se Deus existir.

Se um argumento é sólido, sua conclusão é verdadeira. Isso implica em dizer que um argumento sem solidez não necessariamente possui uma conclusão falsa: ela pode ser verdadeira por mero acidente de percurso. E também implica, pelos mesmos motivos, que uma conclusão verdadeira não garante a solidez do argumento.

Além disso, existem alguns argumentos que são um pouco controversos. Veja estes dois exemplos interessantes:

Minha mesa é redonda. Portanto, ela não é quadrada.
Minha mesa é redonda. Portanto, ela não é de madeira.

Nota-se que um deles é verdadeiro e que o outro é falso. Mas ambos possuem a mesma forma! Como pode?

A é B. Logo, A não é C.

E para piorar, a forma é claramente inválida. Como pode um argumento inválido ser sólido? Prestemos bastante atenção. O primeiro argumento possui uma premissa oculta e implícita: “Nenhum objeto redondo possui forma quadrada (ou triangular, ou elíptica etc.)”. Sendo assim, temos um argumento do tipo: “A é B. Nenhum B é C. Logo, A não é C.” que é válido. Já o segundo argumento, coitado, não existe premissa oculta que dê solução. Ele de fato é inválido.

Por fim, chamo a atenção para a relação entre a construção gramatical de uma premissa e sua forma. Duas construções gramaticais idênticas podem não ser interpretadas do ponto de vista lógico da mesma forma. Compare esses dois argumentos:

Tom é um tigre feroz. Portanto, ele é um animal temível.
Bob é um tucano. Portanto, ele tem um bico comprido.

Aqui no Brasil, a afirmação “Bob é um tucano” pode significar que Bob é uma pessoa filiada ao partido político PSDB. Portanto, a conclusão de que Bob tem bico comprido só faz sentido quando a conotação da palavra tucano não for esta. Da forma como apresentei, nada garante qual o significado do termo, então o argumento está inválido. Já o primeiro argumento não admite mais de uma interpretação e assim está correto.

Então, dois argumentos gramaticalmente idênticos são formalmente diferentes ou possuem representação lógicas que podem ser distintas. Devemos tomar este cuidado. Quem quiser entender melhor ou ver mais exemplos, pode visitar a página “Validity and Soundness” no IEP (ver Referências), apesar deste artigo conter muitas definições e exemplos retirados de lá.

Referências e Leituras Recomendadas:

O que é um Argumento? – Parte 4: Tipos de Debate

A argumentação não é a base apenas do debate clássico, mas de uma gama de outras formas de se transmitir ou compartilhar ideias. Todas as formas de “debate”, desde a ideia mais comum que temos do termo até as variações mais, digamos assim, exóticas, dependem de argumentos e, por esse motivo, todas elas estudam essa arte e se aprofundam as sub-áreas e nas habilidades que julgam mais importantes. Portanto, antes de prosseguir irei expôr quais são os tipos de debate.

Mas devemos ter um pouco de atenção aqui. Em um sentido mais amplo, qualquer troca de ideias entre duas partes pode ser considerada como um debate, apesar de definições amplas assim esvaziarem os verbetes e os tornarem um pouco inúteis. Num sentido mais restrito, a palavra debate se refere somente a discussões como aquelas do Craig contra ateus, e assim temos um verbete mais conciso. Não que seja errado usar o termo debate em um sentido mais geral, por favor não me entendam assim. Seria errado se ao menos tivéssemos uma opção, mas não é este o caso. Ficaria bem estranho se eu chamasse esse post de “Tipos de Difusão de Ideias entre Pessoas e/ou Grupos de Pessoas”, não? Tendo em vista tal multiplicidade de sentidos, peço aos leitores que fiquem atentos e que procurem distinguir os significados pelo contexto.

Vamos então às definições!

Debate: disputa entre duas ou mais partes e que possui um tema e um conjunto de regras previamente definidos e que visa a exposição pública de seu conteúdo, seja via auditório, seja via imagem (TV, internet), seja via escrita (livros, jornais, blogs, revistas) ou mesmo via combinação de um conjunto desses meios. O debate envolve habilidades como: análise formal de argumentos, validade e factualidade das premissas, persuassão, estratégia, oratória etc, sendo assim uma das formas mais complexas e completas já que envolve um pouco de cada um dos outros tipos.

Um bom debatedor deve possuir todas as habilidades acima além de ter a capacidade de saber quem é seu público-alvo, quem é seu oponente, quais são os meios de publicação e qual o alcance do debate. Um bom debatedor não usará um tom excesivavemente formal em um debate para estudantes de ensino médio e nem ficará muito preocupado com análises pós-debate em um debate que se dará exclusivamente a um auditório, sem nenhuma recordação física.

Conversação/diálogo: Também conhecido como debate informal, é similar ao debate, menos na formalidade. Envolve desde pessoas discutindo pessoalmente o novo CD do Luan Santana (ouch!) até dois grupos discutindo através de aparições isoladas em mídias de massa quais os melhores rumos para o futebol brasileiro pós-olímpiadas e pré-copa. Eles podem ser amistosos ou beliciosos. Além disso, a enorme popularidade impede que análises mais formais sejam comuns nessa modalidade, sendo que persuassão e estratégias são bem importantes.

Negociação: é o diálogo entre duas ou mais partes com o objetivo de alcançar um entendimento, de resolver pontos de divergências ou de produzir conciliação, de ganhar vantagem como resultado das resoluções, ou de barganhar vantagens individuais ou coletivas (wikipedia). Um bom negociador deve ser persuassivo e sensível aos interesses das outras partes. Por sensibilidade aos interesses, não me refiro à disposição em atendê-los prontamente mas sim à capacidade de detectá-los e usá-los para convencer a outra parte a cumprir seus próprios desejos.

Diálogo Erístico: é o ramo do debate no qual somente a vitória sobre a outra parte importa para o debatedor. O debatedor erístico não busca a verdade e nem conquistar objetivos pessoais, mas sim gastar seu tempo em discussões infrutíferas. A erística é a busca por conflitos ao invés da busca por respostas. O Sr. Mensalão foi muito feliz em usar o termo “[pessoas que gostam de] engalfinhar-se na lama com outros machos” para definir pessoas exclusivamente erísticas em um post recente. Schopenhauer escreveu um livro famoso sobre o assunto: “Como vencer um debate sem ter razão”, que também é usado como ferramenta em debates mais sérios quando uma das partes se perde de seu objetivo e passa a buscar a vitória em detritemento de buscar a razão. Em tempo: é raro encontrar debates meramente erísticos, mas mais raro ainda é não encontrar nenhum elemento de erística em um debate. Por isso a importãncia de seu estudo.

Debate científico: troca de ideias entre especialistas em uma determinada ciência afim de se buscar o desenvolvimento científico. Segue regras formais próprias, geralmente aquelas apresentadas por Karl Popper e Thomas Kuhn. A própria Epistemologia fornece o conjunto de regras para este tipo de debate. Envolve desde discussões entre especialistas até a publicação de papers.

Debate Legal: ao contrário do que o nome parace dizer, este é um dos tipos de debate mais entediantes que existe! São os textos feitos por advogados e promotores perante a juízes e juris com o objetivo de convencê-los da inocência ou da culpa do réu. É extremamente formalizado e controlado por regras, sendo que estas variam muito de lugar para lugar.

Debate político: muito famoso e não se restringe somente aos debates formais organizados pelas emissoras de TV nas vésperas de eleições, mas também a diálogos descontínuos entre políticos através de suas campanhas e até mesmo a conversas informais entre eleitores.

Também estão inclusas nesta categoria as disputas político-ideológicas como campanhas por aprovação (ou reprovação) de determinadas leis, manifestações públicas e movimentos de mudança social. Não digo que todas essas são antes de mais nada debates, mas que envolvem debates polítcos em algum nível.

Evidentemente, há outros tipos de debate e de discussões, mas não os considero relevantes para colocar e nem acho que posso pagar o preço de ser enfadonho ao apresentá-los. Alguns poderiam dizer que faltou o debate religioso, mas não creio que seja o caso. O acréscimo do modificador religioso só altera o tema do debate, ao contrário do que acontece no debate político, no qual existem regras e objetivos claramente diferentes. O debate religioso busca verdades sobre religiões, ou seja, busca verdades; já o debate político busca votos. Por este motivo, existe uma categoria seperada para estes últimos mas não existe para aqueles primeiros.

Para ampliarem as leituras, sugiro os verbetes “Argument Theory” e “Negotiation” nas referências. E falando em negociação, talvez eu faça uma série sobre o assunto depois que fizer uma sobre erística. O debate científico fica com o Fomon. Como ninguém aqui entende de direito o suficiente e como poucos se interessam pelo tema, não falaremos sobre argumentos legais. Sobre debates políticos, um dos objetivos do blog a longo prazo é tratar de política, mas não com esse foco. Portanto, não garanto que haverá algo neste sentido.

Referências e Leituras Recomendadas: