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Os estagiários e estagiárias brasileiros e brasileiras estão sendo explorados e exploradas por seus patrões e suas patroas

É incrível como certas ideias são tão toscas que nem seus defensores as levam a sério. Militam por causas que, por lá no fundo saberem que são erradas, eles mesmos acabam negligenciando. Deem uma olhada rápida neste artigo sobre estagiários do Jusbrasil, que é um excelente exemplo. Continuar lendo Os estagiários e estagiárias brasileiros e brasileiras estão sendo explorados e exploradas por seus patrões e suas patroas

Sobre o preço do ônibus

Esse post fica mais ou menos na onda de “querido diário”, feito de qualquer jeito, e sequer conta dentro da minha programação semanal. Ontem estava eu todo serelepe almoçando no Restaurante Universitário da UFU, comendo meu arroz com carne de sol feliz, quando uma louca começa a gritar e a fazer protestos. Que coisa desagradável. Eu querendo almoçar tranquilo enquanto a idiota gritava na minha orelha… para que possam entender bem o meu nível de desgosto, tenham em mente que eu não ficaria mais desconfortável se fosse um pastor pregando a “bibra” alí. O que ela estava gritando não me interessa, afinal de contas, eu paguei para estar ali naquele lugar e tudo que eu queria era sossego. Tenho que reconhecer que pelo menos dessa vez ficou só na gritaria, da última vez colocaram uma caixa de som com microfone, mas mesmo assim já achei demais.

Mas se ela pelo menos estivesse gritando algo como “o Marco Aurélio é bem dotado e bom de cama”, ou “acessem o blog do Marco Aurélio” eu ainda calava minha boca, mas o que ela estava gritando eram outras coisas. (Brincadeira) Não que só apoie manifestações públicas que exigem coisas que são do meu interesse: eu não apoio manifestações que incomodam a mim quando não quero ser incomodado (leia-se: horário de almoço). Eles não estavam protestando CONTRA mim, então porque diabos eu tenho que ser incomodado? Porque fazer gritaria RU é mais fácil, tem muita gente reunida? Foda-se, eu quero almoçar. Que ficassem na saída.

E que tipo de reivindicação fazia ela? Aquela, nos melhores moldes marxi-revolucionários de estudantes universitários, com um tom de voz de revolta, com rimas de dar pena e convidando a um protesto. Completamente indigesto. E queriam que eu fosse numa passeata pedir o quê? Vejam a imagem abaixo:

“MAIS UM AUMENTO EU NÃO AGUENTO.” Amostra de um dos ápices literários do século 10.

Sim, estão reclamando que a tarifa de ônibus subiu. Quando o salário mínimo é reajustado com a inflação, ninguém reclama. Mas quando a passagem de ônibus sobe, ai… Na prática, congelar os preços é baratear, o que implica em alguém bancando o transporte do bolso. É disso que precisamos mesmo? E mais: é sim de se questionar que o governo aumente salários com a inflação, pois isso em si aumenta a inflação. Talvez essa não seja a melhor política. Agora, o que eles estão pedindo é um pouco contraditório, se não for hipócrita.

Mas não pára ai! Eles querem que o transporte público em Uberlândia volte a ser operado diretamente pela prefeitura, sabe-se lá porque! Empresas malvadas, não podem ter chance de ganhar dinheiro nem quando vencem licitações. E a culpa do aumento é deles, óbvio. Se a prefeitura operasse as linhas, não aumentaria a passagem de ônibus quando precisasse e operaria no vermelho para atender o povo. Porque ela não cobre o prejuízo das empresas de ônibus, tornando desnecessário o aumento, eu não sei. Só sei que o aumento é culpa das empresas e ponto final. (E se algum debilóide interpretou que eu acho que a prefeitura deveria cobrir o prejuízo, por favor, se mate. Não vou explicar tudo em detalhes aqui, aproveitem para treinar interpretação de textos.)

E eles ainda querem mais! Querem que nós estudantes andemos de ônibus de graça! Mas aí eu tenho que concordar. Desculpem, mas eu sou um semideus que conseguiu passar no vestibular e mereço andar de ônibus de graça! Que mané meio-passe é esse? Porque eu deveria me contentar com o tão pouco que já tenho? Eu sou um semideus porra, eu quero andar de busão de graça. Falo mermo.

Sinceramente, fico com pena deles. Essa exigência deve ter sido incluída pelo DCE da UFU, muito provavelmente. Essa manifestação contra o aumento não começou com eles, então imagino que eles devem ter feito uma reunião com os organizadores originais, articulado uma ideias e convencido a incluir free-pass para estudantes no rol de exigências a ser conquistadas.

Pior ainda é a forma com que querem conquistar as reivindicações: de forma pacífica na praça mais movimentada da cidade, que fica longe da prefeitura, mas que pelo menos vai parar o trânsito da cidade. Óbvio. Eles querem atingir o prefeito, então nada mais eficaz que congestionar o cruzamento mais movimentado do centro. Cheque mate! Gilmar Machado (PT) mal assumiu e já vai ter que amargar um congestionamento que ele não vai pegar! UHULL!!

(Acreditem em mim, vale a pena clicar no link sobre o nome do prefeito.)

E para acabar com tudo, ainda exigem que além de fornecer um serviço mais barato e com isenção para estudantes, que ainda deve ser mais rápido e mais espaçoso! Uau! Não que eu seja defensor ferrenho do estado enxuto, mas também não acho que a prefeitura deva priorizar um transporte de primeiro mundo a preço de terceiro.

Não quero entrar aqui em questões políticas de modo muito profundo, mas o maior problema que vejo é que eles querem tudo! Nunca vi isso! Pedem, pedem, pedem… nunca param para pensar que o modelo que eles querem pode ser simplesmente impraticável no mundo atual (ou mesmo num “mundo melhor”). Querem simplesmente que as coisas funcionem como desejam, sem parar para pensar na viabilidade, sem sugerir meios de se fazer isso, sem atrelar a uma lista de prioridades. E acredito que se parassem para pensar, não fariam esse protesto. Nossos políticos já são grandes incompetentes e o povo ainda quer que façam mágica para atender seus delírios revolucionários!

Esse protesto mostra que na cabeça de certas pessoas a reivindicação, o ato de reivindicar e de protestar, é mais importante que a causa em si. Falta a essas pessoas entenderem que a conscientização pública não é um processo no qual devemos incentivar as pessoas a protestar, mas ensinar as pessoas a pensar no que deve ser feito para melhorar a vida em sociedade. Mas berrar durante o almoço dos outros e parar o trânsito da cidade para sair no noticiário local é mais fácil do que pensar naquilo que realmente precisa ser melhorado e em estratégias de resolução, então fazer o quê?

Mas bem, só espero que hoje eu possa almoçar mais tranquilo. Sem loucos gritando e sem gente pedindo coisas que não podem (e nem precisam) ser feitas.

E ainda o preconceituoso sou eu!

Há algum tempo, foi publicado aqui na WatchGOD o artigo Preconceituoso é você! por mim criticando várias coisas, dentre elas a postura de pessoas como o Conde de simplesmente devolver as acusações que recebe, sem mais nem menos ou no máximo com desculpas mirabolantes e racionalizações malucas. Usei como exemplo aquelas acusações sobre racismo e aproveitei para me debruçar sobre o tema também. Defendi que as cotas até que pressupõem o problema correto, mas que não são a melhor forma de resolvê-lo e até acho que não deveriam ter sido implementadas. Uma solução que não resolve nada só atrasa o processo que realmente resolverá. Vejam lá, tudo isso está escrito claramente.

E não é que desta vez eu obtive uma resposta no post Um blogueiro esquizofrênico que linkava o meu artigo original? Parabéns ao Conde, os leitores deles merecem ler as duas partes da história. E a cada dia que passa, ele diz menos palavrões na minha caixa de comentários e parece estar tentando postar tudo que quer dizer de uma vez, ao invés de floodar minha caixa de comentários. O Conde é esperto e aprende rápido!

Elogios feitos, vamos à parte ruim. Para começar, ele não entendeu absolutamente nada da minha introdução política, fazendo alguns comentários sobre conservadorismo e reacionarismo que me tiraram uns “do que esse cara tá falando?” Não que eu discorde do que ele escreveu, é que ele se baseou numa interpretação tão equivocada do meu texto, que é como se ele estivesse respondendo outra pessoa. Mas ok, vamos deixar isso de lado para não perdermos tempo demais. Quem quiser, pode acessar os dois textos e ver por si só.

Outra atitude digna de nota foi a seguinte resposta:

E não custa nada observar: quem gosta de retrucar “é você” é o próprio Suriani.

Chega a ser bisonho, mas ele responde até à minha crítica do “é você”, com um “é você”! Isto é incrível! Eu dei três (TRÊS!) exemplos dessa prática no campo estritamente religioso e dissertei sobre seu uso na questão do preconceito, me certificando de que não estava fazendo uma acusação infundada, mas uma muito bem fundamentada. E o que ele responde? Que eu é que faço isso! E o que ele dá como evidência, como exemplo? NADA. Nadica de nada. Isso é que dá tentar debater com gente ignorante, que tenta debater no gogó, na lábia, e na postura convicta para compensar a falta de conteúdo.

Outro ponto é ele me acusar de querer fazer caridade dando vagas para quem não merece. Mas quanta asneira! Eu fiz justamente uma crítica ao sistema de cotas. Disse que ele é insustentável e que só finge resolver o problema e até que ele carece de um objetivo formal. Em momento algum indiquei que a solução seria aumentar o programa ou fazer pequenos ajustes no critério de concessão de cotas, mas sim que se bolasse algo que pudesse efetivamente resolver o problema e que eu preferia não aprofundar em qual solução seria. Por favor, leiam o que escrevi e confrontem com citações como essas aqui em baixo e depois me respondam: será que o Conde sabe interpretar mesmo o que lê?

Suriani oferece um argumento, no mínimo, assustador: ele quer abolir o direito individual, para implantar uma espécie de coletivismo racial.

[…] Uma lei racista e fajuta não se tornará melhor se houver finalidade para isso. [Como se eu tivesse dito que a lei das cotas é válida e que só falta arrumar um propósito rs]

[…] O que seria uma política de cotas eficiente? Uma política mais racista? Uma política mais discriminatória? Uma política racista mais abrangente? Suriani parece meio desequilibrado da cabeça. Ele não consegue formular uma sentença decente. [Como se minha crítica ao sistema de cotas fosse o fato dela ser muito pequena e “leve” rs²]

Eu critiquei o sistema de cotas como sendo uma solução ruim e em momento algum afirmei, como ele se deleitou em dizer, que eu quero fazer caridade distribuindo vagas para negros que não merecem. Ele falhou miseravelmente ao não entender que eu disse que o sistema de cotas é a solução errada para o problema certo.

Mas faço esse post mesmo para responder o seguinte trecho da resposta dele:

Os negros não precisam pedir nada, apenas estudar tanto quanto ou melhor.

[…] Suriani, seu babaca, os negros precisam apenas assumir as responsabilidades e deveres legais comuns a quaisquer pessoas.

[…] Suriani deve se achar melhor do que um cristão, porque, no fundo, deve crer na inferioridade racial dos negros. Coitadinhos, eles sempre precisam de cotas, de tutela governamental, porque são incapazes, como os pródigos, os incapazes e os loucos de todo o gênero.

Opa opa opa, calma aí. Vamos nos ater aos fatos: a proporção de brancos universitários é maior que a proporção de negros universitários. Correto? As estatísticas mostram isso claramente, o próprio Conde sugere formas de se reverter isso (os negros devem estudar o mesmo tanto que os brancos ou até mais) e creio que isso seja indiscutível. Tão indiscutível quanto dizer que isso deve ter uma explicação. Agora, que explicação é essa? Pode até parecer que o que farei aqui é uma falsa dicotomia, mas na verdade essa é uma dicotomia legítima, e só existem dois tipos de explicações possíveis:

  1. Isso é culpa dos próprios negros.
  2. Isso não é culpa dos negros, mas de algo sobre o qual eles não possuem controle.

Creio que até aqui, eu e o Conde concordamos. Cada uma dessas opções esconde inúmeras outras hipóteses, mas todas as explicações possíveis se resumem a essa dicotomia: ou põe a culpa nos negros ou não põe. No máximo, pode ser que mais de uma explicação seja correta, de modo que uma (ou mais) seja do tipo 1 e uma (ou mais) do tipo 2. Ninguém seria louco de discordar de mim até aqui.

Mas onde eu e o Conde nos separamos? Ele acredita que o problema seja do tipo 1, enquanto que eu acredito que o problema seja do tipo 2. É por isso que ele sugere que os negros devem estudar mais e ser mais responsáveis e eu sugiro que as outras pessoas devem se esforçar para reparar isso. Oras, as soluções propostas por cada um gritam o que cada um enxerga como problema!

E o que pode levar alguém a preferir uma explicação do tipo 2? Eu particularmente acredito nela pois não acredito que os negros sejam inferiores, nem em inteligência e nem em disposição e nem em cultura (se é que se pode falar em diferenças culturais muito grandes aqui). Não acho que eles sejam irresponsáveis também. Portanto, não aceito a explicação de que eles precisam estudar mais ou se esforçar mais que o fazem hoje.

O Conde, por outro lado, acha que basta os negros ter mais esforço e mais responsabilidade para conseguirem suas vagas. Mas ué, eles não estão se esforçando tanto quanto os brancos? Ou se esforçam igual mas são burros e precisam de um esforço extra para conseguirem? O Conde chega ao cúmulo de dizer que os negros devem se esforçar até mais que os brancos para conseguir vagas na universidade. Por que Conde? O caminho do branco deve ser mais fácil que o do negro?

E outra, os negros não têm cumprido seus deveres legais? Ora, então os negros são em geral criminosos? Como assim, Conde? “Me explica essa!”

As implicações lógicas e as intenções (nem tão) ocultas do discurso do Conde traem uma pessoa que acredita que negros estão em menor número na universidade porque são pobres, estudam pouco, são burros, são irresponsáveis, não cumprem seus deveres legais e têm que seguir um caminho mais difícil até a universidade. Eu, ao contrário, coloquei a culpa na sociedade como um todo, disse que a solução deve envolver, portanto, toda ela, apesar da solução das cotas ser falha.

E ainda o preconceituoso sou eu!

Craig e o Massacre de Newtown – Parte 2: O que está em jogo

Este post é um pequeno complemento ao que foi publicado há alguns dias intitulado Craig e o Massacre de Newtown. Julguei erroneamente que a maioria dos cristãos fosse entender o que realmente estava em jogo naquela publicação, que fossem entender que esta não era uma crítica do ateísmo à religião como um todo, mas uma crítica àquela visão apresentada por Craig.

Desconfiei que houve um erro de interpretação quando, em mídias sociais, alguns cristãos tentaram defender Craig. Desconfiei porque acredito que a grande maioria dos cristãos não concorda com aquilo que o apologista realmente quis dizer na ocasião. Acredito que algumas pessoas que discordam dele o defenderam porque não entenderam, e num ato de automatismo, o defenderam achando que estavam defendendo sua própria fé. Então vamos explicar o que Craig realmente estava dizendo e colocar a limpo o que realmente estava em jogo.

A primeira coisa a se saber é que Craig parte do pressuposto de que a teoria moral válida é a Teoria do Comando Divino (doravante TdoCD), que basicamente diz que tudo que Deus ordenar é certo, mesmo que possa parecer absurdo. Essa teoria, entretanto, não é unânime sequer dentro da teologia. A maioria dos cristãos tem preferido a Teoria da Lei Natural (doravante TdaLN), que diz que Deus embutiu uma moralidade correta no mundo, ou na natureza, e que pode ser deduzida pela razão.

Teologicamente falando, cabe a mim provar que qualquer uma delas é falsa? Não! Para mim, que não acredito em Deus, ambas são falsas, logo não preciso fazer demonstrações teológicas.

Contudo, dentro de um ponto de vista um pouco mais amplo, fora da teologia, aí sim faz sentido – para mim – tentar desacreditar a TdoCD. Mas o que eu posso fazer? Se eu fosse capaz de mais do que provar – provar E convencer – qualquer pessoa de que Deus não existe, eu estaria feito e tudo se resolveria. Mas não posso.

Então me resta tentar demonstrar o absurdo que é acreditar na TdoCD. Veja, ela leva uma pessoa como Craig acreditar que tudo bem: Deus pode permitir um massacre de inocentes desde que isso ajude ele a ter um relacionamento melhor com sua criação. Parece razoável?

Daí alguém pode dizer: “mas o mundo é um lugar muito mal, precisamos dessa relação com Deus para nos sentirmos melhor” ou algo parecido, mas daí vem a pergunta: é preferível viver em mundo onde Deus evita o mal e nós temos menos motivos pelos quais temer e sofrer ou num mundo onde Deus não evita o mal e nós temos que procurá-lo para renovar nossa esperança?

Aliás, segundo Craig, Deus não só permite o mal, como o usa como forma de nos lembrar que devemos nos relacionar com ele! Será que nos relacionar com ele é mais importante do que uma vida menos miserável? Será que é moralmente aceitável um ser que usa crimes para nos deixar em pânico e nos forçar a buscar auxílio dele? Será que é moralmente aceitável ser coagido a se relacionar com alguém, mesmo que esse alguém seja nosso criador?

Se eu pudesse estabelecer como metáfora a história de um policial que ao invés de impedir crimes, apenas consola as vítimas, poderíamos pelo menos nos degladiar sobre um assunto muito mais delicado: esse livre-arbítrio “hard core” realmente faz sentido? Mas essa não é a metáfora mais correta. A metáfora mais adequada seria a de um policial que deliberadamente permite os crimes que poderia evitar para depois consolar as vítimas. Um policial que fizesse isso, seria um canalha com sérios problemas sociais e afetivos. Por que um Deus que faz isso não é?

Só a TdoCD pode justificar Deus se comportando dessa maneira. Por isso, ela é errada e por isso acho desprezíveis as conclusões que se tira delas e, de certa forma, as pessoas que recorrem a ela.

Se por outro lado Craig seguisse a TdaLN, ele diria que Deus permitiu os ataques porque não se permite agir sobre o mundo, mas espera que as pessoas, ao verem isso, reflitam e busquem melhorar e que ele pode ajudar quem não estiver suportando os males do mundo. Seria a metáfora do policial omisso mas que tem ombro amigo, e eu não ficaria tão indignado como fiquei.

Veja que minha crítica foi feita pelo lado de fora, sem entrar na questão teológica de qual das duas teorias é correta. Aliás, minha crítica pode ser feita perfeitamente por qualquer cristão que siga a TdaLN e que condene o uso da TdoCD.

O que está em jogo aqui é o quão absurda era essa ideia de Craig de que Deus promove o mal no mundo como uma mensagem de que devemos nos relacionar com ele para termos mais esperança. Se ao menos o “maldito” ficasse quieto no canto dele, o mundo seria melhor e, pobrezinho, não daríamos a mínima para ele. O que está em jogo aqui é uma crítica à TdoCD e não uma crítica a toda moralidade cristã. Não que eu não queira criticar toda ela, mas esse caso só me dá material para criticar a TdoCD especificamente. Eu desejava mostrar o quanto é absurda a ideia de Craig de Deus usando o massacre como mensagem de Natal e que de quebra colocar a base dele em cheque.

Alguns cristãos, imersos em sua (completamente negada) falta de conhecimento sobre religião, trocaram os pés pelas mãos e acharam que ao me criticar estavam defendendo a crença em Deus sendo que, na verdade, defender Craig nesse caso é defender um Deus que usa os crimes dos outros para promover a si mesmo, numa atitude que seria claramente mesquinha e desprezível se feita por qualquer outra pessoa.

Se não foi isso que aconteceu, então quem me criticou prefere a TdoCD à TdaLN e concorda que está tudo bem em acreditar num Deus que age dessa forma, mas meu palpite é que eles não sabiam sequer o que estava em jogo nessa conversa toda.

E aí? Vão continuar defendendo Craig e a visão de Deus que ELE tem?

A Falha da Ciência e da Filosofia Natural na Era das Trevas – Parte 2: O Problema do Conhecimento

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Título Original: The Intellectual Decline of Europe /
Failure of Ancient Science and Natural Philosophy
Autor: DAVID DEMING
Publicado Originalmente em: Science and Technology in World History,
Vol. 2 – Early Christianity, the Rise of Islam and the Middle Ages,
McFarland & Company, EUA, 2010, pgs. 47-56
Tradução: Marco Aurélio Suriani
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O PROBLEMA DO CONHECIMENTO

Através da invenção da matemática (como uma ciência sistemática e exata) e da lógica, os gregos mostraram que era possível ir além opinião humana e encontrar uma verdade demonstrável na qual todos os homens concordassem. Eles estabeleceram o método e a demonstração. Os gregos descobriram que haviam formas adequadas, metódicas e lógicas de pensamento que levariam a verdades universais.

Mas tendo constatado que um método correto poderia levar à verdade demonstrável, os filósofos gregos fizeram poucos progressos na decisão de qual o método que deveria ser usado. Este é o “problema do conhecimento,” o problema de escolher o método epistemológico correto para a produção de conhecimento confiável. Por “conhecimento confiável”, refiro ao conhecimento que é consistente com um critério de verdade estabelecido. A única coisa que pode ser exigida de qualquer sistema de conhecimento, seja na filosofia, na ciência ou na religião, é a consistência interna. Não é possível estabelecer a superioridade ou o caráter absoluto de um dado critério de verdade, já que tal alegação deve ela mesma ser validada por um critério de verdade ad infinitum. Mesmo a geometria repousa sobre axiomas que não podem ser provados.

Todos concordaram que o raciocínio geométrico levou a verdades demonstráveis, mas que os métodos de geometria não eram capazes de aplicação universal. Houve uma apreciação de que tanto a observação quanto a razão fossem necessários, mas nenhum consenso sobre o peso relativo a aplicar em cada epistemologia. Em um extremo, Parmênides e os eleatas foram longe a ponto de argumentar que essencialmente todas as informações obtidas através dos sentidos eram falsas e ilusórias. O problema deste ponto de vista é que devemos viver no mundo dos sentidos, e não um mundo imaginário criado por um filósofo ou mágico. Em 1890, índios americanos que usavam “saias fantasmas” pensaram que “seriam invulneráveis a balas.” [14] Mas mesmo assim eles morreram.

Os paradoxos de Zenão foram construídos para demonstrar que a filosofia eleática estava correta. Mas eles demonstraram precisamente o contrário. O fato de Aquiles poder, de fato, ultrapassar uma tartaruga não ilustra que o movimento é uma ilusão, mas que o pressuposto empregado na construção do paradoxo é falso. O paradoxo foi baseado na suposição de Zenão que um número infinito de pontos não pode ser percorrida em um tempo finito. Mas os matemáticos foram capazes de demonstrar mais tarde que uma série infinita pode ter uma soma finita, provando assim o que já foi indicado pela evidência dos sentidos.

Isto não significa que os eleatas não fizeram nenhuma contribuição para o problema do conhecimento. Pelo contrário, a sua incapacidade demonstrou a loucura de tentar construir um sistema de conhecimento confiável baseado na razão humana sozinha.

No outro extremo, Estratão enfatizou uma abordagem mecanicista para os problemas naturais e empregou o método experimental. A posição de Aristóteles era intermediária. Ele realizou experiências dada a ocasião, e invocou a observação como um argumento conclusivo. Mas ele nunca defendeu um programa sistemático de experimentação controlada. Experimentação e observação foram incidentais em sua filosofia, não integrais.

Os filósofos teriam feito bem se tivessem ouvido os médicos. Desde pelo menos o tempo de Hipócrates (c. 460-370 aC), os médicos haviam reconhecido o valor do empirismo. A escola hipocrática rejeitava o sobrenaturalismo, abraçava o naturalismo, e acreditava na causa e efeito. A observação foi enfatizada, e o raciocínio puramente teórico foi abandonado por possuir pouco ou nenhum valor. Hipócrates observou que o fato de os filósofos naturais se contradizerem todos uns aos outros era evidência “da sua ignorância do assunto como um todo.” [15] Ele defendeu que “os fatos são muito superiores ao raciocínio.” [16]

Mas a medicina não era filosofia nem ciência. Na civilização clássica, era considerada um ofício, como ferraria ou vinificação. [17] O empirismo no mundo antigo foi menosprezado por duas razões.

Primeiro, a ideia de que as informações obtidas através dos sentidos não era confiável porque cada pessoa vê e interpreta os eventos e objetos de forma diferente era largamente apreciada. O exemplo clássico disso é a história de Diógenes Laércio sobre Esfairo [c. 285-210 aC] sendo enganado por Ptolomeu IV. “O rei [Ptolomeu IV], desejando que refutá-lo [Esfairo], ordenou que algumas romãs de cera fossem colocadas na frente dele, e quando Esfairo foi enganado por elas, o rei gritou que ele havia dado o seu assentimento a uma falsa percepção. Mas Esfairo respondeu muito ordenadamente, que ele não tinha dado o seu assentimento ao fato de que eles eram romãs, mas ao fato de que era provável que elas pudessem ser romãs.” [18] Esfairo tentou se salvar do embaraço, mas o estrago já tinha sido feito.

Segundo, os dados empíricos disponíveis para os gregos e romanos consistiam inteiramente de informações anedóticas. Dados assim são notoriamente não-confiáveis. Isso foi reconhecido no mais famoso dos aforismos de Hipócrates: “a ocasião [é] fugaz; a experiência enganosa, e o julgamento difícil.” [19] Com a notável exceção de Estratão, houve pouca ou nenhuma experimentação sistemática e controlada. Não está claro se as sociedades grega ou romana teriam sido prósperas economicamente o suficiente para apoiar ou financiar tal programa. Daí então a necessidade de um substrato econômico.

Continua…

Notas e Referências:

14. Mooney, J., 1896, The Ghost-Dance Religion and the Sioux Outbreak of 1890, in Fourteenth Annual Report of the Bureau of Ethnology, Part 2. U. S. Government Printing Office, Washington, p. 831.
15. Hippocrates, 1846, On the Nature of Man, in The Writings of Hippocrates and Galen, translated by John Redman Coxe. Lindsay and Blakiston, Philadelphia, p. 148.
16. Hippocrates, 1846, On the Art of Medicine, in The Writings of Hippocrates and Galen, translated by John Redman Coxe. Lindsay and Blakiston, Philadelphia, p. 54.
17. Nutton, V., 2004, Ancient Medicine. Routledge, London, p. 87, 152–153.
18. Diogenes Laërtius, 1905, The Lives and Opinions of Eminent Philosophers, Book 7, translated by C. D. Yonge. George Bell & Sons, London, p. 326.
19. Hippocrates, 1886, The Genuine Works of Hippocrates, vol. 2, translated by Francis Adams. William Wood and Company, New York, p. 192.