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Perguntas Cristãs Estúpidas

Estava eu nesse último fim de semana, alegre e feliz, bisbilhotando a vida alheia no Facebook, quando me deparo com um cristão postando uma série de perguntas do tipo “chequemate, ateu!” em um fórum de discussões religiosas. Como algumas perguntas chegam ao ponto de serem ridículas, resolvi trazer aqui como primeiro post da volta das férias, afinal de contas, é melhor voltar pegando mais leve um pouco rs

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Jesus e os Mitologistas

Bart Ehrman lançou em 2012 o livro “Did Jesus Exist?” (Jesus Existiu?), no qual defende que Jesus existiu, mas que não passou de homem normal ao qual foram atribuídos poderes divinos e que teve sua ideias superestimadas ao longo dos dois últimos milênios. Um dos pontos que mais chamam atenção neste livro, e em declarações recentes, é que Ehrman ataca vigorosamente as pessoas que se declaram mitologistas (a melhor tradução que encontrei para mythicists), pessoas que alegam que Jesus nunca foi nada além de um mito e que não existiu sequer como humano comum.

Essa ideia pode ser um pouco chocante para muitos ateus, pois a princípio parece validar de certa forma o cristianismo. Mas se paramos para pensar bem, veremos que a existência real de Jesus como um humano comum e sem nenhuma conexão com o Deus Criador é um fato totalmente irrelevante quando formos avaliar a credibilidade do cristianismo. Tal religião não é simplesmente a crença nas palavras de Jesus, mas também a crença de que ele é o Messias Salvador que os profetas do Antigo Testamento anunciavam.

Segundo Ehrman, muitos ateus, em sua ânsia de tentar desconstruir e difamar o cristianismo a qualquer custo, acabam achando que o caminho mais fácil é argumentar que Jesus nunca sequer existiu. Isso com certeza facilitaria muito a vida deles, se fosse verdade. Mas Ehrman é enfático ao dizer que não é.

O sexto capítulo desse livro é chamado “The Mythicist Case: Weak and Irrelevant Claims” (O caso Mitologista: Alegações Fracas e Irrelevantes) e nele Ehrman apresenta e refuta os principais argumentos apresentados pelos mitologistas. Apesar do padrão aqui do blog é trazer traduções dos textos, dessa vez me restringirei a trazer um resumo em português. Faço isso antes de mais nada porque é um capítulo razoavelmente grande (14.500 palavras) e eu definitivamente não tenho tanto tempo sobrando. Eu teria que sacrificar projetos que julgo mais importantes. Além disso, muitos ateus (quase todos?) se julgam mais abertos aos fatos do que os cristãos. Bem, se é assim acredito que não preciso ter os mesmos cuidados que dispenso nos textos dirigidos aos cristãos nos textos que dirijo aos ateus, correto? Presumo que posso me dar ao luxo de ser mais sucinto e menos enfático.

Não que eu esteja dizendo que todo mundo deve ler e aceitar tudo que é dito sobre Jesus (ou sobre qualquer um), longe disso. Só espero que esse resumo não seja subestimado por ser pequeno e indigesto. De toda forma, estou disponibilizando neste link um pdf com o texto original do capítulo para quem quiser se aprofundar no tema. Ainda essa semana publico uma continuação desse texto, no qual Ehrman defende que o mitologismo, além de ser historicamente insustentável, é incompatível e até mesmo nocivo ao humanismo, e que qualquer mitologista que possua uma agenda humanista secular já começou completamente errado.

Mas por hora, foquemos apenas na argumentação histórica.

Sobre argumentos irrelevantes

A primeira coisa que devemos ter em mente é que certos argumentos são totalmente irrelevantes na defesa das ideias que desejam sustentar. Por exemplo, muitos cristãos alegam que podemos confiar no Novo Testamento porque ele é mais bem atestado do que o Antigo Testamento, o que de fato é verdade. Por melhor atestado, refiro me à legitimidade da autoria e da fidelidade das cópias. Mas se esse argumento fizesse o mínimo de sentido, teríamos que admitir que livros como Das Kapital de Karl Marx e Mein Kampf de Adolf Hitler são livros com conteúdo extremamente confiável e digno de ser levado a sério, já que são incomparavelmente melhor atestados do que qualquer livro da Bíblia. Temos certeza que ambos foram escritos pelas pessoas que estão em suas respectivas capas e que não foram adulterados. Mas é evidente que isso seria uma completa fraude intelectual, bem como o argumento cristão apresentado.

Contudo, Ehrman avisa que os argumentos dos mitologistas não são melhores do que esse apresentado.

Alegação 1: Os Evangelhos são Muito Problemáticos como Fontes Históricas

Assim como é verdade que o Novo Testamento é melhor atestado do que o Antigo, mas que isso não conta muito pontos para a sua credibilidade em si, também é verdade que os evangelhos são escritos bastante problemáticos, mas que isso não chega a ser um problema muito grande ao se discutir a existência de Jesus. Autorias contestadas, trechos ausentes, “falhas” na tradução, contradições, narrativas de eventos históricos que jamais ocorreram… tudo isso está lá, mas é irrelevante. Vejamos os principais deles.

a) Nós não possuímos os textos originais dos evangelhos. Apesar dos evangelhos serem uns dos escritos melhor atestados do mundo antigo, eles possuem diversas falhas. Nós não temos os escritos originais dos evangelhos, assim como os de nenhum dos livros do Novo Testamento. Em geral, as cópias disponíveis hoje foram feitas 1.00o anos depois das cópias originais e todas elas possuem erros claros.

Contudo, o que isso nos diz sobre a real existência de Jesus? Se alguns fatos foram acrescentados posteriormente durante os processos de cópias, Jesus não deixaria de existir. Vejamos o caso de Obama. Suponhamos que sua certidão de nascimento realmente tenha sido adulterada, como seus opositores alegam. Isso significa que Obama não nasceu? A adulteração de um registro não altera a factualidade daquilo que não foi adulterado.

Os trechos perdidos e as passagens com erros claros que poderiam ser sanadas caso dispuséssemos do original também não representam um argumento relevante pelos mesmos motivos. (Ver mais em Ehrman, Misquoting Jesus: The Story Behind Who Changed the Bible and Why, San Francisco: Harper San Francisco, 2005).

b) Nós não conhecemos os autores dos evangelhos. De fato não conhecemos. Dos 27 livros do Antigo Testamento, apenas 8 foram escritos pelas pessoas às quais atribuimos a autoria. Os próprios evangelhos não foram escritos pelos discípulos Mateus e João e pelos amigos dos discípulos Marcos e Lucas, mas por pessoas que viveram bem depois. (Ver Bart Ehrman, Forged: Writing in the Name of God: Why the Bible’s Authors Are Not Who We Think They Are [Forjado: Escrevendo em Nome de Deus: Porque os autores da Bíblia não são quem pensamos que seja], San Francisco: HarperOne, 2010). Os seguidores de Jesus eram indivíduos da baixa-classe rural da Galileia, que falavam aramaico e que provavelmente eram analfabetos. Quem quer que tenha escrito os evangelhos eram intelectuais bem educados que falavam o grego e que provavelmente eram de fora da Palestina. Marcos, Mateus, Lucas e João jamais poderiam ter escrito os evangelhos.

Mais uma vez, isso é irrelevante na questão da existência ou não de Jesus. Quando os Diários de Hitler vieram a público em 1983,r ninguém imaginava que eles eram forjados, mas eles de fato foram escritos por um homem chamado Konrad Kujau. Mas isso não quer dizer que Hitler não existiu. Uma argumentação mais detalhada de como isso não interfere em nada é encontrada nos capítulos anteriores do livro. A verdade é que pode-se assumir como históricos os materiais em circulação antes dos evangelhos foram escritos e que serviram como fontes para as narrativas.

c) Os Evangelhos estão repletos de discrepâncias e contradições. Parece repetitivo, mas Ehrman concorda plenamente com isso também. O autor fornece uma lista de pequenas contradições e lembra de uma que é bastante importante: por que apenas João relata que Jesus se declarou como Deus? Será que os outros autores não acharam importante uma alegação como essa? Isso não faz sentido, pois tal alegação seria definitivamente um dos fatos mais importantes a se relatar sobre Jesus. Mais contradições podem ser vistas em Bart Ehrman, Jesus, Interrupted, chap. 2. Mas essas contradições são um obstáculos apenas para aqueles que desejam saber o que Jesus realmente falou e fez, sendo absolutamente irrelevante na discussão sobre sua existência.

d) Os evangelhos contém materiais não históricos. Narrativas como aquela em Lucas que dizem que João e Maria viajaram para realizar um censo ordenado por Augusto César são patentemente falsas. Tal censo jamais existiu. (Ver mais em Ehrman, Jesus, Interrupted, 29–39.) A histórias de Barrabás também parece ser falsa, e eu ainda acrescentaria a morte de todos primogênitos da região ordenada por Herodes como narrado em Mateus 2. Porém, mais uma vez é precipitado afirmar que se alguns detalhes da história de Jesus são falsos, então todos também são. É um salto lógico injustificável. Existem muitos mitos sobre a vida de George Washington, mas ninguém acha que tudo que é dito sobre ele também seja mito – até mesmo a sua existência.

e) Todos os Evangelhos estão repletos de lendas. A partir de agora, serei um pouco mais sucinto. Neste ponto, Ehrman trata diretamente de duas obras de Robert Price: The Christ-Myth Theory and Its Problems (Cranford, NJ: American Atheist Press, 2011) e The Incredible Shrinking Son of Man (Amherst, NY: Prometheus Books, 2003). Não desejo aqui fazer uma argumentação completa, mas simplesmente expor os principais pontos de Ehrman, uma tarefa que fica mais difícil em trechos mais “técnicos” como este.

Em primeiro lugar, é preciso saber o que é o Critério de Dissimilaridade. Em história, tal critério é usado para separar narrativas mais confiáveis das que provavelmente foram acrescentadas posteriormente por terceiros. Para isso, compara-se os propósitos aparentes das narrativas com a “agenda” do povo da época, ou seja, com seus desejos e expectativas. Ehrman alega que Price faz mal uso desse critério ao dizer que se algo não passa por ele então é falso. Certas passagens evangélicas são provavelmente invenções posteriores realizadas por terceiros para cumprir uma série de objetivos próprios, o que coloca a autenticidade da passagem em dúvida, mas que também não determina que são necessariamente falsas. O Critério da Dissimilaridade é um argumento probabilístico, mas Price o utilizou de forma falaciosamente dedutiva.

Além disso, não se pode esperar que hajam histórias sendo contadas sem nenhum viés e sem nenhum tipo de acréscimo de seu autor. Todas histórias que contamos sobre outras pessoas possuem um pouco de lenda. Algumas histórias são completamente legendárias, sem nenhum núcleo histórico, mas outras são meramente alterações de um núcleo histórico. Portanto, o mero fato de ser legendário não implica necessariamente em ser historicamente falso. E caso exista um núcleo histórico, ele pode ser alcançado, mesmo depois de ser alterado com lendas e com vieses pessoais.

Alegação 2: Nazaré não existiu

Essa alegação poderia ser derrubada com os mesmos argumentos usados quando Ehrman falou sobre as alegações anteriores, mas como esta alegação em específico é mais comum, ele achou melhor aprofundar um pouco mais. Ehrman apresenta a argumentação de Frank Zindler como exemplo (ver Frank Zindler, “Where Jesus Never Walked,” Through Atheist Eyes, vol. 1, Cranford, NJ: American Atheist Press, 2011, 27–55.) Segundo Zindler, Marcos nunca disse que Jesus veio de Nazaré. Ué, mas e a passagem Marcos 1:9? Zindler afirma que foi inserida posteriormente. Agora é fácil se livrar de passagens indesejáveis na Bíblia, basta dizer que foram inseridas por alguém depois! Isso é história sendo feita por conveniência. Além disso, seu argumento de que essa passagem é gramaticalmente diferente de passagens que citam locais (e que portanto foram feitas por outras pessoas) falha, já que Marcos usa tal construção em outros pontos.

Outro argumento de Zindler é que Nazaré provavelmente foi um erro de tradução. Em Isaías 11:1, é profetizado que o Messias seria do ramo de Davi. Bem, ramo é escrito NZR em hebreu. Zindler alega que os tradutores não sabiam o que era isso e acharam que significava Nazareth, e que era a cidade de onde Jesus veio. Para começar, isso é um salto e tanto. Segundo, eles poderiam ter pesquisado um pouco mais e esclarecido a questão facilmente, ao invés de dar um chute e ter achado que era uma cidade mesmo. Terceiro, está escrito que Jesus É um ramo, e não que ele VEIO de um ramo. Essa alegação de Zindler, além de não ter sido provada, é bastante forçada.

O autor George Wells possui alegações igualmente problemáticas. (Ver George A. Wells, Did Jesus Exist?, 2nd ed., Amherst, NY: Prometheus Books, 1986, p. 146.) Ele alega que Marcos fez confusão quando relatou que chamavam Jesus de Nazareno. Ser Nazareno significava ser pertencente a uma seita de judeus, não que era nascido em uma cidade chamada Nazaré (como Wells alega que Marcos achou). Mais uma vez, existe um grande salto lógico, sem contar que Marcos não iria, sem mais nem menos, pressupor que o termo Nazareno se refere a uma cidade que ele não conhece. Além disso, uma pessoa que conhecia as escrituras antigas saberia que a seita era a dos Nazireus e não faria confusão com uma cidade chamada Nazaré.

Outro mitologista criticado por Ehrman é René Salm (ver René Salm, The Myth of Nazareth, Cranford, NJ: American Atheist Press, 2008). Salm usa descobertas arqueológicas para afirmar que Nazaré tinha existido antes dos tempos de Jesus, mas foi abandonada e só voltou a existir depois de Jesus, nunca existindo, assim, durante a época dele. Para suportar essa alegação, Salm usa achados arqueológicos na região onde teria sido Nazaré datados depois da época de Jesus. Ehrman argumenta que isso não quer dizer que na época de Jesus propriamente dita, a cidade estava abandonada. Salm também argumenta que tumbas em pedra não foram achadas na região, contudo essas tumbas são muito caras e só costumam ser achadas em regiões bastante prósperas economicamente. Ehrman também lembra que Salm não é especializado em arqueologia o bastante para argumentar com base em achados arqueológicos e depois apresenta uma série de outros erros no livro de Salm. O historiador por fim fala sobre um review feito por Ken Dark, um arqueologista especializado na Galileia e diretor do Projeto Arquológico de Nazaré, que acredita que Salm cometeu diversos tipos de erros em sua tese e que não está qualificado para falar sobre o assunto. (Ken Dark, “Review of Salm, Myth of Nazareth,” publicado em Bulletin of the Anglo-Israel Archaeological Society 26, 2008.)

Para terminar, Ehrman salienta que um ano depois que o livro de Salm foi publicado, foi encontrada uma casa na região que data os tempos de Jesus. A melhor maneira de explicar os relatos evangélicos e as descobertas arqueológicas, de fato, é tomando como real a existência da cidade de Nazaré no lugar exato onde os evangelistas dizem que ficava. E mesmo que não existisse tal cidade, isso seria de pouca utilidade contra a existência de Jesus como um homem comum.

Alegação 3: Os Evangelhos São Paráfrases Interpretativas do Antigo Testamento

Esta não é uma alegação muito famosa, talvez por ser difícil de entender. Sendo assim, não vou me aprofundar muito aqui.

a) Robert Price e o Haggadic Midrash. Robert Price alegou recentemente que: “a narrativa evangélica como um todo é o produto de haggadic Midrash sobre o Antigo Testamento.” (ver Robert Price, Christ-Myth Theory, 34) Na tradição judaica, a reinterpretação de um texto através da paráfrase, expansão e reaplicação é chamada de Midrash, e se o texto é uma narrativa, essa Midrash é do tipo haggadic (textos jurídicos geram Midrash do tipo halakhic).

Para não contrariar a tradição, a primeira coisa que Ehrman argumenta é que apesar dos erros desse ponto de vista, o maior defeito dele é pressupor que a existência de uma parte falsa implica na inexistência de um núcleo histórico.

Por exemplo, é sabido que Mateus tenta forçar a barra para que a história de Jesus seja a mais parecida possível com a de Moisés, promovendo numerosos paralelos com o livro de Êxodo. Os motivos para isso são, antes de mais nada, teológicos: Mateus queria que Jesus fosse o Novo Moisés. Mas isso não implica que Jesus seja realmente uma total invenção. Seria fácil, por exemplo, forçar a barra para contar a história de Richard Nixon em termos de uma tragédia de Shakespeare, simplesmente ressaltando as semelhanças e deformando ou escondendo as diferenças. Se alguém fizesse isso, o Watergate e o próprio Nixon não deixariam de existir como num passe de mágica.

É fato que existem similaridades como essa em todo evangelho, pelos mesmos motivos. Mas daí até dizer que todo o evangelho não passa de midrash é um grande exagero. Isso não explica diversas passagens que não encontram paralelos (e em algumas dessas passagens, Ehrman mostra como Price forçou a barra para criá-los.) Price fez bem em ver que certas passagens são midrash, mas erra em achar que virtualmente qualquer passagem que tenha a mais ligeira ligação com o Antigo Testamento seja midrash.

b) Thomas Thompson e o Mito do Messias. Esse autor tem um argumento similar ao de Price: ele alega que se as principais figuras do Antigo Testamento como Moisés, Davi e Abraão são legendárias, então Jesus também é (ver Thomas L. Thompson, The Messiah Myth: The Near Eastern Roots of Jesus and David, New York: Basic Books, 2005.) O argumento principal de Thompson não é tão ingênuo quanto parece. Ele mostra como as narrativas evangélicas são escrituras intrinsecamente literárias, e que por isso lê-las como documentos históricos vai contra a própria vontade de seus autores. Sim, os evangelhos são textos literários, o que é irrelevante, pois não significa (pela milésima vez) que não possuem nada de histórico. Ehrman cita um exemplo que vou adaptar aqui à realidade brasileira: vejam o excelente livro 1808: Como uma Rainha Louca, um Príncipe Medroso e uma Corte Corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil, de Laurentino Gomes. Trata-se, antes de mais nada, de um livro literário, o que não quer dizer que não seja histórico. Evidentemente, Ehrman explica isso muito melhor, mas como esse argumento é complexo e pouco famoso, deixo para os mais curiosos procurarem saber mais.

Alegação 4: Jesus é Baseado em Deuses Pagãos

Essa alegação é praticamente a mesma da anterior, com a diferença de que aqui Jesus é baseado não nas tradições do AT, mas em outras tradições “concorrentes“. Por esse motivo, tais alegações sofrem com os mesmos problemas já apresentados na alegação 3. A diferença é que este argumento é bem mais famoso.

a) A Alegação e sua Exposição. Existem diversas semelhanças entre os evangelhos e histórias de outros deuses pagãos, mas os mitologistas enfatizam demais nessas semelhanças, sendo que alguns as exageram e outros ignoram as diferenças.

O primeiro exemplo é Kersey Graves, que em 1875 alegou que existiam 45 deuses cujas histórias foram usadas como base para a construção de Jesus. (ver Kersey Graves, The World’s Sixteen Crucified Saviors: Christianity Before Christ, 1875; repr., New York: Cosimo Classics, 2007) O problema é que alguns dos deuses dessa lista são ilustres como Buddha que, convenhamos, não tem nada a ver com Jesus. Além disso, a maioria de seus argumentos apelam para exageros claros. Se existem algumas semelhanças, ele diz que existem várias. Se algum evento importante na história de Jesus possui um paralelo, então quase todo evento importante encontra paralelo. E pior de tudo, Graves não dá sequer uma fonte para checar as alegações dele, de modo que é impossível checar se é verdade que certas divindades realmente compartilhavam eventos biográficos com o nazareno.

Ehrman se mostra impressionado com o fato de que 140 anos depois de Graves publicar tal livro, ainda exista quem seja influenciado por ele. Um exemplo é Frank Zindler, quem em artigo de 2011 falou sobre o fato do cristianismo ter origem em um culto pagão misterioso baseado no Mitraísmo, mas sem oferecer sequer uma evidência (ver Frank Zindler, “How Jesus Got a Life,” em Through Atheist Eyes: Scenes from a World That Won’t Reason, Cranford, NJ: American Atheist Press, 2011, 1:57–80.) Ehrman argumenta que ainda hoje, não se sabe praticamente nada sobre o Mitraísmo, sobre quais eram suas crenças, e que por isso é difícil dizer quais eram suas práticas e seus feitos – especialmente dizer que eles inventaram Jesus.

b) Outros Problemas com os Paralelos. Vejamos os paralelos entre a Virgem Maria e as histórias pagãs de deuses que tiveram filhos com humanas. Nas histórias pagãs, quase sempre a concepção envolve sexo entre a divindade e a humana, gerando um filho metade deus metade humano. A história de Jesus não envolve sexo e Jesus é o próprio Deus em sua forma de Filho. Não é exatamente a mesma coisa.

Outros paralelos são ainda mais problemáticos. Por exemplo, um deus morrendo para expiar os pecados do mundo é algo completamente novo introduzido pelo cristianismo e que não “aconteceu” em nenhuma mitologia pagã. Qualquer alegação neste sentido é pura invenção de mitologistas. Não que Jesus de fato tenha morrido e assim expiado os pecados do mundo, mas essa história também não foi tirada de outra mitologia. Na verdade, quando os judeus foram contar as histórias sobre Jesus, eles o fizeram tomando como base as histórias e profecias do Antigo Testamento e não de outras mitologias. E se não é relevante que as histórias foram moldadas segundo o AT, o fato de serem moldadas segundo outras mitologias seria igualmente irrelevante.

Conclusão

O capítulo seis do livro “Jesus Existiu?” de Bart Ehrman (ainda sem tradução para o português) trata das principais, e piores, alegações dos mitologistas em defesa de tese de que Jesus eram completamente mitológico. Algumas das respostas de Ehrman chegam a ser massantes de tão repetitivas, já que a grande maioria das alegações mitologistas são irrelevantes: Jesus pode muito bem ter existido e os detalhes duvidosos serem acréscimos à sua história. Muitos podem pensar que falta um caso positivo pela existência de Jesus, mas isso não é feito nesse capítulo, mas nos capítulos anteriores.

De qualquer forma, espero ter deixado claro que a alegação de que Jesus não existiu sequer como ser humano comum é bastante duvidosa. No próximo post, irei mostrar o quanto é irrelevante se ele existiu mesmo ou não (o importante é que ele não realizou milagres, não era filho de nenhum deus, não ressuscitou etc) e o quanto é contraprodutivo pensar assim.

O Caso de Aaron Swartz

Aaron Swartz, um jovem gênio da informática de 26 anos, suicidou-se em seu apartamento em Nova Iorque recentemente. O motivo? Estava sendo processado por violar direitos autorais ao invadir um servidor de artigos acadêmicos e distribui-los livremente. Swartz era um entusiasta da internet 100% livre e morre como candidato a mártir da causa. Abaixo, um artigo da Eliane Brum sobre o assunto para a Revista Época que fez certo sucesso. Quem se interessar pode clicar nos links no corpo do texto (todos dela mesma ou da editora) e saber mais do assunto.

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Título Original: Perdão, Aaron Swartz
Autor: Eliane Brum
Publicado Originalmente em: Revista Época (21/01/2013)
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A morte de um gênio da internet, aos 26 anos, é um marco trágico do nosso tempo. É hora de pensar sobre nossas ações – ou omissões.

Eu sinto fortemente que não é suficiente simplesmente viver no mundo como ele é e fazer o que os adultos disseram que você deve fazer, ou o que a sociedade diz que você deve fazer. Eu acredito que você deve sempre estar se questionando. Eu levo muito a sério essa atitude científica de que tudo o que você aprende é provisório, tudo é aberto ao questionamento e à refutação. O mesmo se aplica à sociedade. Eu cresci e através de um lento processo percebi que o discurso de que nada pode ser mudado e que as coisas são naturalmente como são é falso. Elas não são naturais. As coisas podem ser mudadas. E mais importante: há coisas que são erradas e devem ser mudadas. Depois que percebi isso, não havia como voltar atrás. Eu não poderia me enganar e dizer: “Ok, agora vou trabalhar para uma empresa”. Depois que percebi que havia problemas fundamentais que eu poderia enfrentar, eu não podia mais esquecer disso.

Aaron Swartz tinha 22 anos quando explicou por que fazia o que fazia, era quem era. Aos 26, ele está morto. Foi encontrado enforcado em seu apartamento de Nova York na sexta-feira, 11 de janeiro. Provável suicídio. Talvez a maioria não o conheça, mas Aaron está presente na nossa vida cotidiana há bastante tempo. Desde os 14anos, ele trabalha criando ferramentas, programas e organizações na internet. E, de algum modo, em algum momento, quem usa a rede foi beneficiado por algo que ele fez. Isso significa que, aos 26 anos, Aaron já tinha trabalhado praticamente metade da sua vida. E, nesta metade ele participou da criação do RSS (que nos permite receber atualizações do conteúdo de sites e blogs de que gostamos), do Reddit (plataforma aberta em que se pode votar em histórias e discussões importantes), e do Creative Commons (licença que libera conteúdos sem a cobrança de alguns direitos por parte dos autores). Mas não só. A grande luta de Aaron, como fica explícito no depoimento que abre esta coluna, era uma luta política: ele queria mudar o mundo e acreditava que era possível.

E queria mudar o mundo como alguém da sua geração vislumbra mudar o mundo: dando acesso livre ao conhecimento acumulado da humanidade pela internet. E também usando a rede para fiscalizar o poder e conquistar avanços nas políticas públicas. Movido por esse desejo, Aaron ajudou a criar o Watchdog, website que permite a criação de petições públicas; a Open Library, espécie de biblioteca universal, com o objetivo de ter uma página na web para cada livro já publicado no mundo; e o Demand Progress, plataforma para obter conquistas em políticas públicas para pessoas comuns, através de campanhas online, contato com congressistas e advocacia em causas coletivas. Em 2008, lançou um manifesto no qual dizia: “A informação é poder. Mas tal como acontece com todo o poder, há aqueles que querem guardá-lo para si”.

Indignado com a passividade dos acadêmicos diante do controle da informação por grandes corporações, ele conclamava a todos para lutar juntos contra o que chamava de “privatização do conhecimento”. Baixou milhões de arquivos do judiciário americano, cujo acesso era cobrado, apesar de os documentos serem públicos. Chegou a ser investigado pelo FBI, mas sem consequências jurídicas. Em 2011, porém, Aaron foi alcançado.

>> O risco de criar um mártir da pirataria

Em alguns dias, ele baixou 4,8 milhões de artigos acadêmicos de um banco de dados chamado JSTOR, cujo acesso é pago pelas universidades e instituições. Aaron usou a rede do conceituado MIT (Massachusets Institute of Technology) para acessar o banco de dados, fazendo download de muitos documentos ao mesmo tempo, o que era – é importante ressaltar – permitido pelo sistema. Não se sabe o que ele faria com os documentos, possivelmente dar-lhes livre acesso. Mas, se era esta a intenção, Aaron não chegou a concretizá-la. Ao ser flagrado, ele assegurou que não pretendia lucrar com o ato e devolveu os arquivos copiados para o JSTOR, que extinguiu a ação judicial no plano civil.

Havia, porém, um processo penal: Aaron foi enquadrado nos crimes de fraude eletrônica e obtenção ilegal de informações, entre outros delitos. “Roubo é roubo, não interessa se você usa um computador ou um pé-de-cabra, e se você rouba documentos, dados ou dólares”, afirmou a procuradora dos Estados Unidos em Massachusetts, Carmen Ortiz (United StatesAttorney). Aaron seria julgado em abril. E, se fosse acatado o pedido da acusação, esta seria a sua punição: 35 anos de prisão e uma multa de 1 milhão de dólares.

Aaron Swartz morreu antes, aos 26 anos. E, como disse Kevin Poulsen, na Wired: “O mundo é roubado em meio século de todas as coisas que nós nem podemos imaginar que Aaron realizaria com o resto da sua vida”. Na The Economist, ele assim foi descrito: “Chamar Aaron Swartz de talentoso seria pouco. No que se refere à internet, ele era o talento”. Susan Crawford, que foi conselheira de tecnologia do governo de Barack Obama, afirmou, como conta John Schwartz, no The New York Times: “Aaron construiu coisas novas e surpreendentes, que mudaram o fluxo da informação ao redor do mundo”. E, acrescentou: “Ele era um prodígio complicado”.

Li em vários artigos que Aaron seria depressivo. Em alguns textos, a suposta depressão foi citada como causa de sua decisão, como se a doença pudesse estar isolada – e não associada aos possíveis abusos cometidos contra ele no curso do processo judicial. É evidente que qualquer pessoa, e especialmente se ela for saudável, sofreria com a perspectiva de passar as próximas três décadas na cadeia – mais ainda se isso significasse um tempo superior à toda a sua vida até então. Esta é uma possibilidade capaz de abater até o mais autoconfiante e otimista entre nós, o que não equivale a dizer que todos lidariam com esse pesadelo da mesma forma. Se é perigoso encontrar um culpado para uma escolha tão complexa quanto o suicídio, também é perigoso quando a depressão é vista como algo apartado da vida vivida – e a patologia é colocada a serviço da simplificação. Se as doenças falam do indivíduo, falam também do seu mundo e de seu momento histórico. (leia mais sobre a trajetória de Aaron aqui e aqui.)

Se Aaron Swartz encerrou a própria vida, esta foi a sua decisão. Tornar-se adulto é também bancar as suas escolhas – e, neste sentido, estar só. Digo isso para que a nossa dor não esvazie de protagonismo o último ato de Aaron, o que equivaleria a desrespeitá-lo. Aaron é responsável por sua escolha, por mais que ela possa ser lamentada. E só ele poderia afirmar por que a fez.

Isso não significa, porém, que vários atores do caso judicial que envenenou a vida de Aaron nos últimos dois anos, com aparentes excessos, não precisem também assumir responsabilidades e responder por suas respectivas escolhas.Um dos mentores de Aaron, Larry Lessig (escritor, professor de Direito da Universidade de Harvard, cofundador do Creative Commons) afirmou que ele tinha errado, mas considerou a acusação e a possível punição uma resposta desproporcional ao ato. Logo após a morte de Aaron, escreveu: “(Ele) partiu hoje, levado ao limite pelo que uma sociedade decente só poderia chamar de bullying”.

Colunistas como Glenn Greenwald, do Guardian, acreditam que o processo penal era uma resposta do governo dos Estados Unidos contra o seu ativismo libertário: “Swartz foi destruído por um sistema de ‘justiça’ que dá proteção integral aos criminosos mais ilustres – desde que sejam membros dos grupos mais poderosos do país, ou úteis para estes –, mas que pune sem piedade e com dureza incomparável quem não tem poder e, acima de tudo, aqueles que desafiam o poder”. Em declaração pública, a família afirmou: “A morte de Aaron não é apenas uma tragédia pessoal. É produto de um sistema de justiça criminal repleto de intimidações”. A família também responsabilizou o MIT pelo desfecho.

Em comunicado, o presidente do MIT, L. Rafael Reif, anunciou a abertura de um inquérito interno para apurar a responsabilidade da instituição nos acontecimentos que levaram à morte de Aaron. Reif escreveu: “Eu e todos do MIT estamos extremamente tristes pela morte deste jovem promissor que tocou a vida de tantos. Me dói pensar que o MIT tenha tido algum papel na série de eventos que terminaram em tragédia. (…) Agora é o momento de todos os envolvidos refletirem sobre suas ações, e isso inclui todos nós do MIT”.

É tarde para o MIT, é tarde para nós. Mas, ainda assim, necessário. É importante pensar sobre o significado da tragédia de Aaron Swartz. E, para começar, só o fato de ela poder significar algo para todos, sendo ele um jovem americano encontrado morto num apartamento em Nova York, é bastante revelador desse mundo novo que Aaron ajudava a construir. Esse mundo que nos une em rede, simultaneamente, que faz o longe ficar perto. Nesse contexto, a tragédia de Aaron Schwartz não é apenas um episódio, mas o marco de um momento histórico específico. Nele, diferentes forças econômicas, políticas e culturais se batem para impor ou derrubar barreiras no acesso ao conhecimentona internet. E este é, junto com a questão socioambiental, o maior debate atual. E é ele que está moldando nosso futuro.

Como disse Tatiana de Mello Dias, em seu blog no Estadão, “poucas pessoas traduziram tão bem a época em que nós estamos vivemos quanto Aaron Swartz”. Isso faz com que possamos pensar que sua morte é também, simbolicamente, um fracasso da geração a qual pertenço. Essa geração que testemunhou o nascimento da internet, que está decidindo – na maioria dos casos por omissão – como o conhecimento vai circular dentro dela e que, por ter crescido num mundo sem ela, nem chega a compreender totalmente o que está em jogo. E por isso deixa a geração de Aaron tão só.

Obviamente sou capaz de perceber os poderosos interesses envolvidos nas decisões relacionadas à internet, boa parte deles conduzidos também por gente da geração a qual pertenço. Mas me refiro aqui à passividade de muitos, no exercício da cidadania, diante de um dos debates cruciais do nosso tempo. E aqui vale uma observação: quando se diz que a juventude atual é alienada, que não trava lutas políticas como seus pais e avós, não é também deixar de enxergar o que se passa na internet, a “rua/praça” de uma série de movimentos políticos levados adiante pelos mais jovens? Já não é um tanto estúpido pensar em mundo real/mundo virtual como oposições? Criticar o “ativismo de sofá” dos mais jovens, menosprezando as ações na rede, não seria má fé ou ignorância? Talvez, como pais e adultos desse tempo, parte de nós tenha apenas medo e vergonha daquilo que não compreende. E, em vez de tentar compreender, num comportamento humano tão triste quanto clássico, desqualifica e rechaça. Afinal, literalmente, a internet tirou o chão que acreditávamos existir debaixo dos nossos trêmulos pés. Ou, pelo menos, nos mostrou que não havia nenhum.

Aaron não era apenas um gênio da internet, ainda que essa palavra “gênio” já tenha sido tão abusada. Talvez o maior ato político de Aaron tenha sido o que fez com seu talento. Ele usou-o para lutar pelo acesso livre ao conhecimento, via internet. Isso, em si, já o tornaria perigoso para muitos. Mas há algo que pode ter soado ainda mais imperdoável: Aaron não queria ganhar dinheiro com o seu talento. Ele não era aquilo que as crianças são ensinadas a admirar: um jovem gênio milionário da internet, como Mark Zuckerberg, o criador do Facebook. Aaron Swartz era um jovem gênio que não queria ser milionário. E, convenhamos, nada pode ser mais subversivo do que isso.

Ao ler sobre a morte de Aaron Swartz, lembrei de dois versos. Ao fim ou diante dele, apesar de todos os argumentos, é só a poesia que dá conta da tragédia. Um é do eternamente jovem Rimbaud (1854-1891): “Por delicadeza, perdi minha vida”. E o outro foi escrito por um Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) já velho: “Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer”.

Quando lemos o que Aaron Swartz escreveu, ouvimos o que disse, ele que acreditava tanto em mudar o mundo, é difícil não pensar: por que ele desistiu de nós, ele que acreditava tanto? Que mundo é esse que criamos, onde alguém como Aaron Swartz acredita não caber?

Então, é isso. Ele nos deixou sozinhos no mundo que legamos à sua geração. Entre os tantos feitos admiráveis deixados por Aaron em sua curta trajetória, ao morrer ele deixou também um outro legado: a denúncia do nosso fracasso.

Perdão, Aaron Swartz.

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Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br

Bart Ehrman e a Época

A seguir dois textos publicados pela Revista Época de autoria de Bart Ehrman. O primeiro é uma entrevista dada em 2009 para divulgação de seu livro Jesus, Interrupted, na qual ele fala brevemente sobre o livro, sua trajetória e sobre seus objetivos pessoais como autor de livros. Em seguida, um texto sob encomenda para a Revista falando sobre aspectos gerais do Jesus histórico.

Vale lembrar que Bart Ehrman é um agnóstico, apesar de rejeitar a crença no cristianismo. Ele já escreveu diversos livros e já debateu com Willian Lane Craig sobre a Historicidade da Ressurreição de Jesus.

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Título Original: “A Bíblia não tem inspiração divina”
Autor: José Antonio Lima
Publicado Originalmente em: Revista Época (10/05/2009)
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“A Bíblia não tem inspiração divina”

Em entrevista a ÉPOCA, Bart Ehrman, professor de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte, fala sobre seu novo livro, no qual debate as contradições dos evangelhos.

Ehrman afirma que apenas oito dos 27 livros no Novo Testamento foram escritos pelos autores aos quais são atribuídos.
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O americano Bart Ehrman cresceu em uma família religiosa e, quando adolescente, havia se tornado um evangélico fervoroso. O interesse pela Bíblia e por sua história o acompanhou a vida toda e hoje, após 35 anos de estudo, diz ter abandonado o Cristianismo por não acreditar que Deus poderia estar no “comando de um mundo cheio de dor e sofrimento”. Professor de estudos religiosos na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, Ehrman já escreveu 21 livros sobre religião, incluindo Verdade e Ficção em O Código Da Vinci, sobre o best-seller de Dan Brown, e O que Jesus Disse? O que Jesus Não Disse? – Quem mudou a Bíblia e por quê, que figurou entre os mais vendidos na lista do jornal The New York Times. Agora, em Jesus, Interrupted (ainda sem tradução), que será lançado no Brasil no segundo semestre pela Ediouro, Ehrman tenta revelar as contradições da Bíblia, que provam, segundo ele, que o livro não foi enviado à humanidade por Deus.

ÉPOCA – De um tempo para cá temos visto um crescimento do número de títulos com críticas às religiões. O que está motivando os leitores?
Bart Ehrman – Há uma reação contra a direita conservadora do mundo religioso. Aqui nos Estados Unidos há vários líderes desse tipo que tiveram muita atenção da mídia por muito tempo, e as pessoas que estão do lado esquerdo deste espectro começaram a se incomodar. Muitos desses livros escritos por essas pessoas chamadas de “neo-ateístas” são uma representação deste movimento.

ÉPOCA – Alguns dos principais representantes do “neo-ateísmo” são Sam Harris e Richard Dawkins. Em um artigo recente da revista Time, o senhor reconheceu que compartilha leitores com eles. Mas o senhor se considera parte deste movimento?
Ehrman – Não me considero um ateu e não acho que estou fazendo a mesma coisa que esses autores. Eles têm feito coisas boas, mas estão atacando a religião sem conhecer muito. Quando eu escrevo, faço isso como alguém que já esteve profundamente envolvido com a Cristandade, mas que agora a rejeitou. Por isso, a minha perspectiva é completamente diferente.

ÉPOCA – O que fez o senhor passar de um fiel cristão a um “agnóstico feliz”?
Ehrman – Fui criado na Igreja Protestante e fui um cristão muito ativo por vários anos. Mas eu deixei a cristandade não por conta dos meus estudos históricos sobre a Bíblia, mas por não conseguir mais acreditar que poderia haver um deus no comando deste mundo cheio de dor e sofrimento.

ÉPOCA – Qual é o motivo de o livro se chamar Jesus, Interrupted [em tradução livre: Jesus, interrompido]? Quando e como ele foi interrompido?
Ehrman – O título significa que há inúmeras vozes diferentes falando no Novo Testamento. São autores diferentes, que possuem pontos de vista diferentes e que, muitas vezes, são conflitantes. Com tantas vozes assim falando no mesmo livro, muitas vezes é impossível escutar a voz do Jesus histórico, porque ele foi interrompido por outras pessoas.

ÉPOCA – E é possível definir qual é a maior contradição da Bíblia?
Ehrman – São muitas discrepâncias, mas é possível destacar duas. O apóstolo Paulo, por exemplo, acha que a pessoa chega a Deus apenas pela fé, e não pelo que faz. No capítulo 24 de Mateus, no entanto, nós lemos que boas ações levam ao reino dos céus. Essas duas visões são excludentes em um assunto determinante, que é a salvação. Também há visões diferentes sobre quem era Jesus. No evangelho de João, Jesus é Deus, mas nos textos atribuídos a Marcos, Mateus e Lucas não há nada sobre isso. No evangelho de Mateus fica claro que ele acredita que Jesus é um ser humano, e que é o Messias. A Igreja acabou juntando essas duas visões, de que ele é humano e divino, e criou um conceito que não está escrito nem em João e nem em Mateus.

ÉPOCA – O senhor acha que essas discrepâncias fazem da Bíblia uma história falsa?
Ehrman – Eu diria que os diferentes autores da Bíblia tem versões diferentes da história e por isso é errado tentar fazer com que eles digam a mesma coisa. Há muitos erros na Bíblia e, mais importante que isso, há diferentes pontos de vista teológicos e isso precisa ser reconhecido.

ÉPOCA – Desde quando a Bíblia começou a ser questionada? De que maneira isso enfraquece a Cristandade?
Ehrman – As pessoas só começaram a notar essas diferenças na época do Iluminismo, no século XVIII. Antes disso, os estudioso da Bíblia eram teologicamente comprometidos com ela e não imaginavam que poderia haver erros. Essas descobertas são problemáticas especialmente para quem acredita que a Bíblia foi entregue a nós diretamente por Deus. Se isso ocorreu, por que não temos a Bíblia original? Por que temos apenas manuscritos escritos mais tarde e que não são iguais? Essas diferenças mostram que não existe um livro com inspiração divina que foi entregue a nós.

ÉPOCA – E como isso afeta especificamente a Igreja Católica?
Ehrman – Existem estudiosos na Igreja Católica que concordam com quase tudo o que está escrito em Jesus, Interrupted. Mas na tradição católica a fé nunca foi sobre a Bíblia, mas sobre os ensinamentos da Igreja e sobre acreditar que Jesus é o filho de Deus. E isso não muda se a pessoa perceber ou não os erros da Bíblia. É bem diferente do fundamentalismo cristão que é tão poderoso onde eu vivo, no sul dos Estados Unidos. Aqui as pessoas acham que você só poder ser cristão se acreditar totalmente na Bíblia.

ÉPOCA – Alguns críticos do seu trabalho, especialmente o líder evangélico James White, dizem que você quer destruir a fé cristã. O que você acha disso?
Ehrman Estou tentando destruir o tipo de fé cristã de James White! (risos). Mas na verdade nada que eu faça pode destruir o Cristianismo. O problema é que há um certo tipo de fé cristã que diz que a Bíblia não tem erros e é infalível, e eu não concordo com isso. Eu não sou o único que pensa assim. As opiniões que estão descritas no meu livro são as mesmas da maioria dos estudiosos da Bíblia há muitas e muitas décadas, mas eles não costumam falar disso em público. Meu livro apenas pega o que os estudiosos dizem há muito tempo e torna disponível para os leitores normais.

ÉPOCA – Você recebeu muitas críticas de leitores por conta do livro?
Ehrman – Recebi e-mails de pessoas bravas e sei que na internet há muita gente contrariada. Dizem que quero destruir sua fé, que sou o anti-Cristo. Mas a maior parte dos que escreve ficou grata pelo livro e feliz por eu ter dito essas coisas, já que suspeitavam desses erros, mas não tinham base teológica para questionar a Bíblia.

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Título Original: “O que sabemos sobre Jesus”
Autor: Bart Ehrman
Publicado Originalmente em: Revista Época (01/01/2013)
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Ele teve uma mulher? Descendia dos patriarcas judeus? A vida de Cristo como a conhecemos vem de relatos que, em boa parte, não estão nos Evangelhos – quando eles estão, os textos se contradizem

Neste período que celebra o nascimento de Jesus Cristo, poucos assuntos poderiam ser mais momentosos que um recém-descoberto fragmento de um papiro, batizado de “O Evangelho da Mulher de Jesus” pela professora Karen King, da Universidade Harvard, que anunciou a novidade. Esse pequeno achado voltou a levantar questões sobre o que sabemos a respeito da história de Jesus de Nazaré, e se há outros Evangelhos fora do Novo Testamento que possam contribuir com alguma informação valiosa.

O fragmento, do tamanho de um cartão de crédito, está escrito em copta, a língua do Antigo Egito. Tem apenas oito linhas cortadas de texto. Em uma delas, Jesus fala sobre “minha mulher”. Os teóricos da conspiração imediatamente enxergaram uma revelação dos céus e alegaram que a notícia comprova a visão do estado matrimonial de Jesus detalhada por esta altíssima autoridade, Dan Brown, no livro O código Da Vinci. Cristãos conservadores dizem que um papiro tão insignificante não prova nada. A pesquisadora Karen King e seus colegas tomaram o caminho do meio. Dada a estimativa de que o fragmento data do século IV, mais de 300 anos depois de Jesus e seus parentes terem existido, eles afirmam que isso mostra em que acreditavam os cristãos sobre Jesus naquela época, mas nada se pode concluir sobre o que aconteceu realmente durante sua vida.

Muitos especialistas em cristianismo antigo consideraram o fragmento uma farsa, algo forjado recentemente por um amador que, ao contrário de Karen King, não era bem versado nos detalhes da gramática copta. O veredicto ainda não está dado. Aguardam-se os resultados da análise da tinta, para descobrir se era antiga ou moderna. Mesmo se o texto for falso, como é provável, isso nos alerta para o fato de que há Evangelhos com informações divergentes das versões amplamente aceitas hoje.

Precisamos lembrar que muito do “conhecimento comum” sobre a criança de Belém não pode ser achado em nenhuma escritura. Alguns exemplos óbvios: em nenhum momento, a Bíblia diz em que ano Jesus veio ao mundo, ou se ele nasceu em 25 de dezembro. Tampouco coloca um boi e um burro em torno de sua manjedoura nem diz que eram três os Reis Magos que foram visitá-lo.

Por muitos séculos, os cristãos extraíram informações sobre o nascimento de Jesus não do Novo Testamento, mas sim de escritos populares. Um dos mais conhecidos é o Proto-Evangelho de Tiago, provavelmente do fim do século II, 100 anos após os Evangelhos canônicos. É bastante improvável que haja alguma informação histórica confiável nesse texto. No entanto, os cristãos ao longo da Idade Média raramente estavam interessados em precisão histórica. Eles amavam histórias, especialmente as que pouco tinham a ver com a aparição do Filho de Deus no mundo.

Em muitos aspectos, o Proto-Evangelho de Tiago é guiado pela preocupação em saber detalhes da mãe de Jesus, a Virgem Maria. Por que ela foi a escolhida para dar à luz o Filho de Deus? Esse texto é o primeiro relato sobre o milagroso nascimento de Maria. Sua mãe, Ana, seria estéril, mas Deus lhe deu a graça da concepção. Quando Maria nasceu, Ana a dedicou a Deus e fez do quarto da filha um santuário no qual ela viveu à parte das influências mundanas pelos primeiros três anos de vida. Maria foi então levada pelos pais para o Templo de Deus em Jerusalém. Criada pelos guardiães do templo, era alimentada diariamente por um anjo vindo dos céus. Quando ela se aproximou da puberdade, os guardiães escolheram um homem para lhe servir de companheiro. Era um viúvo mais velho chamado José, que inicialmente se recusou a ter essa responsabilidade. Os guardiães lhe disseram que Deus não aceitaria um “não” como resposta. Desde então, milhões de cristãos retratam José como um homem idoso e Maria uma jovem (pense em todas as ilustrações do casal viajando para Belém ou no momento da Natividade), além de crer que os “irmãos” de Jesus (incluindo Tiago, o suposto autor dos escritos) são filhos de José de um casamento anterior. Isso não está na Bíblia.

A história continua adentrando pelo território familiar: um anjo anuncia a Maria que ela conceberá pelo Espírito Santo. José se exaspera com a gravidez da mulher por achar que fora traído, mas depois descobre o que aconteceu. Na viagem para Belém, Jesus nasce. Há numerosos detalhes apócrifos, entre eles uma fascinante descrição em primeira pessoa, de José, sobre como o tempo parou quando Jesus veio ao mundo. Ele vê pássaros imóveis no ar e um grupo de homens comendo com as mãos paralisadas a meio caminho da boca.

Ainda mais notável é o que acontece depois da aparição de Jesus. Na hora do parto, José sai para procurar uma parteira que ajude Maria. Quando os dois voltam, é tarde demais: a gruta (e não um estábulo) está tomada por uma luz ofuscante; a criança já nasceu e anda (com menos de uma hora de vida!) em direção ao colo da mãe. A parteira vai atrás de uma colega, Salomé, e anuncia que uma virgem deu à luz. Salomé é incrédula e diz que só acreditará se ela mesma examinar Maria. Ela o faz e, para seu espanto, constata que Maria está fisicamente intacta. A mão que Salomé usou para tocar Maria começa a pegar fogo, como uma punição por sua descrença. Por instrução divina, ela acolhe a criança, e sua mão volta ao normal. Esse é o primeiro milagre registrado de Jesus.

Os evangelhos não são uma fonte aceitável para quem deseja reconstruir com seriedade os eventos históricos. Para alguns cristãos, isso é um problema; para outros, uma libertação.

Os leitores que não estão familiarizados com essas histórias tendem a achá-las obviamente inverossímeis. Raramente temos a mesma impressão de histórias conhecidas de nossa infância que são igualmente espetaculares e soam bizarras para pessoas que as ouvem pela primeira vez. Os relatos sobre Jesus são totalmente fantasiosos? Depende de quem responde. Em novembro, o papa Bento XVI publicou seu terceiro livro sobre a vida de Jesus, concentrado nos relatos do Novo Testamento. Apesar de Joseph Ratzinger ter construído uma respitável trajetória como teólogo antes de se tornar papa, não se trata de um livro catedrático escrito por um pesquisador. É uma obra perfeita para qualquer cristão que defenda os Evangelhos não só por seu valor teológico, mas como relato histórico. Mas não agrada a quem quer saber o que aconteceu de fato na vida de Jesus.

Um grande número de estudiosos – católicos, protestantes, judeus, agnósticos – reconhece que há problemas nos tradicionais relatos de Mateus e Lucas, os dois evangelistas que abordam a infância de Jesus. Por mais que eles sejam valiosas reflexões sobre o significado e a importância do Filho de Deus, não são o tipo de fonte histórica aceitável para quem deseja reconstruir com seriedade os eventos históricos. Para alguns cristãos, isso é um problema. Para outros, é uma libertação, porque os desobriga de basear sua fé em relatos imprecisos.

NOVO MISTÉRIO Reprodução do papiro recém-descoberto em que o trecho “minha mulher” é atribuído a Jesus. Testes da tinta usada dirão se o fragmento escrito em copta é autêntico (Foto: Harvard University, Karen L. King/AP)NOVO MISTÉRIO Reprodução do papiro recém-descoberto em que o trecho “minha mulher” é atribuído a Jesus. Testes da tinta usada dirão se o fragmento escrito em copta é autêntico (Foto: Harvard University, Karen L. King/AP)

Os dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus e os dois iniciais de Lucas são bastante distintos um do outro, a ponto de parecer inconciliáveis. De cara, divergem sobre a genealogia de José: cada um cita pai, avô e bisavô diferentes. Lucas e Mateus querem vincular José à linha ancestral dos patriarcas judeus, mas nenhum deles tem dados confiáveis para comprovar isso. Por isso, criaram genealogias com esse intuito, que acabaram se tornando conflitantes. As discrepâncias se estendem ao longo dos outros capítulos.

Esses dois Evangelhos também exibem contradições com fatos conhecidos da história. Apenas Lucas narra a viagem de Nazaré a Belém feita por José e Maria para se registrar num censo no qual “o mundo inteiro” deveria ser contado, sob o governo do imperador César Augusto. O mundo inteiro? Lucas só pode ter tido a intenção de dizer “todo o Império Romano”. Mesmo isso não pode estar certo. Há boa documentação sobre o tempo de César, e não houve nenhum censo durante todo o seu reinado, que dirá um em que as pessoas precisavam se registrar na terra de seus antepassados. Pelo relato de Lucas, José e Maria precisavam se registrar em Belém, porque José descendia do rei Davi. No entanto, Davi viveu milhares de anos antes. Toda a população sob o governo romano estava retornando a sua terra ancestral? Imagine as migrações em massa para esse censo. Nenhum historiador daquela época não pensaria que aquilo pudesse ser digno de registro? O Evangelho não é uma história baseada em fatos. É uma narrativa construída para explicar como Jesus poderia ter nascido em Belém – onde o Messias estava por vir –, se todos sabiam que a família dele era de Nazaré.

Há outras tantas informações implausíveis nos relatos. Em Mateus, os Reis Magos seguem a estrela na direção de Belém, até que ela para sobre a casa onde está Jesus (por que, aliás, a família de Jesus vivia numa casa, se eles estavam recém-chegados para se registrar no censo?). Como uma estrela, ou qualquer corpo celeste, pode guiar alguém até um local específico? E como pode parar sobre uma determinada casa?

Muitos cristãos se ofendem com os questionamentos dos Evangelhos, mas essa reação não tem razão de ser. Os relatos sobre a vida de Jesus no Novo Testamento nunca foram chamados de “histórias”, mas sim de “evangelhos”, o que quer dizer “proclamações de boas-novas”. Esses livros têm o objetivo de declarar verdades religiosas, não fatos históricos. Isso pode não ser uma boa notícia para os crentes que pensam que a verdade tem de estar necessariamente vinculada à história. Mas, aos que têm uma visão mais ampla, um gosto mais apurado pela literatura e uma noção do significado de teologia, a história do Menino Jesus e sua aparição no mundo se fundamentam não no que realmente aconteceu. Sustentam-se, sim, naquilo que desfrutam todos os que acreditam que histórias como essa levam a uma verdade maior.


Bart Ehrman é professor de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte e autor de O problema com Deus.

A Imprensa e o PT

Transcrevo aqui dois artigos de Eugênio Bucci para a Revista Época sobre o mesmo assunto: as relações entre o PT de Lula e a Imprensa.

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Título Original: A lógica desastrosa de Lula sobre a imprensa
Autor: Eugênio Bucci
Publicado Originalmente em: Revista Época (23/12/2012)
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O julgamento do ex-presidente está baseado em quatro mentiras que só desinformam

Há coisa de dez dias, em Paris, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamou dos jornais. De novo. “Quando político é denunciado, a cara dele sai noite e dia nos jornais”, disse ele. Na sequência, lançou uma acusação baixa contra a imprensa: “Vocês já viram banqueiro nos jornais? São eles que pagam as publicidades da mídia”. Segundo Lula, os anunciantes estão a salvo das reportagens investigativas, pois os repórteres e os editores não têm a dignidade de apurar os fatos e de publicá-los com um grau mínimo de independência crítica.

Claro: os jornalistas de brio, honrados, foram ultrajados por ele. O interessante é que quase ninguém se deu ao trabalho de responder à ofensa. Por que será?

Existe uma explicação. Essa história de político falando mal dos jornais e das revistas já se banalizou. Virou uma epidemia. Lula não é o único, embora seja dos mais reincidentes. Há cerca de dois meses, no final da campanha municipal, em São Paulo, o então candidato a prefeito José Serra (PSDB) deu de acusar os repórteres que formulavam perguntas incômodas (na opinião dele) de ser agentes de “pautas petistas”. Ao desqualificar os profissionais que cumpriam seu dever de perguntar, procurava se esquivar das indagações e, em parte, foi bem-sucedido na manobra. Lula, outra vez, lança mão do mesmo truque. Quando lhe cobram explicações sobre os escândalos de seu partido, investe contra a reportagem. Como ele fala isso a toda hora, seus vitupérios já não chamam a atenção. Deixaram de ser notícia. Daí que os próprios jornalistas não se dão ao trabalho de responder.

Desta vez, porém, uma resposta não pode faltar. O julgamento de Lula está baseado em quatro grandes mentiras, que desinformam a sociedade e podem induzir a enganos desastrosos. Por isso, tratemos de pôr as coisas a limpo.

Primeira mentira. Não é verdade que a imprensa não publica reportagens que incomodam banqueiros. Você, leitor, há de se lembrar. Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos; Luís Octávio Indio da Costa, do Banco Cruzeiro do Sul; Salvatore Cacciola, do Banco Marca; Silvio Santos, do Banco Panamericano; Katia Rabello, do Banco Rural; Ricardo Guimarães, do Banco BMG; entre outros, muitos outros, também se lembram muito bem.

Segunda mentira. Não é verdade que os bancos privados são os maiores anunciantes do Brasil. Segundo um levantamento do anuário Mídia Dados, o Bradesco investiu, em 2011, R$ 905 milhões em publicidade. É muito dinheiro. Mas atenção: a Caixa, que pertence ao governo federal, investiu mais que o Bradesco: R$ 1,092 bilhão. E os dois maiores anunciantes privados do país em 2011 não têm nada a ver com bancos: Casas Bahia (R$ 3,3 bilhões) e Unilever (R$ 2,6 bilhões).

Terceira mentira. Não é verdade que qualquer acusação contra político vira manchete assim sem mais nem menos. A imprensa erra, claro que erra, deve ser criticada com rigor – mas a imprensa não é uma instituição corrupta, vendida. Nos escândalos recentes (mensalão etc.), acertou muito e ajudou a flagrar os bandidos de colarinho branco.

Quarta mentira. Não é verdade que os anunciantes saem sempre bem na foto. Se assim fosse, nenhuma revista, nenhum jornal, ninguém falaria mal dos governos (federal e estaduais), que anunciam bem mais que os banqueiros privados. Já vimos que a Caixa é um anunciante mastodôntico, assim como o Banco do Brasil (R$ 587 milhões em 2011), e, não obstante, alguns de seus dirigentes andaram frequentando o noticiário. Somente o Ministério da Educação, segundo estimativas do mesmo Mídia Dados, veiculou anúncios no valor de R$ 298 milhões em 2011 – e nem por isso está a salvo de críticas.

Essas quatro grandes mentiras põem em marcha uma lógica desastrosa. Nos dois governos de Lula, os gastos de dinheiro público em publicidade se mantiveram em crescimento. Hoje, o governo federal, com suas estatais, é um dos maiores anunciantes do mercado. Agora que sabemos que, na opinião de Lula, os jornalistas são comprados pelos anunciantes, é o caso de perguntar: com que propósito o governo gasta fortunas em comunicação? Será que pretende comprar jornalistas? Será que os anúncios governamentais são uma tentativa de suborno?

Cuidado. Não caia em embromação. A imprensa pode perfeitamente brigar com os anunciantes, sejam eles estatais, governamentais ou privados. Ela pode até perdê-los. O que ela não pode perder é a confiança do leitor, a sua confiança, que vale mais que banco, mais que ouro. A boa imprensa, aquela que realmente conta, é refém apenas da verdade. Não cede ao dinheiro do anunciante nem aos gritos dos políticos.

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Título Original:Esses “jornais de oposição”…
Autor: Eugênio Bucci
Publicado Originalmente em: Revista Época (13/01/2013)
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A ditadura se retirou, mas a teoria da “campanha articulada” contra o governo continua na ativa

A Folha de S.Paulo é “a vanguarda entre os veículos da imprensa empenhados em isolar o governo da opinião pública”. Num país em que a oposição não tem peito nem engenho para fazer oposição, as redações jornalísticas se encarregam de jogar as autoridades no descrédito. É assim, ao menos, que pensam os entusiastas do governo federal. Para eles, os jornais cumprem o papel que deveria ser dos partidos de oposição. Inconformados, os representantes do Palácio do Planalto contra-atacam, como fez o líder do partido do governo na Câmara dos Deputados, diante de mais uma reportagem crítica lida em plenário por algum adversário mal-agradecido. “Sinceramente, não encontramos aqui um pensamento inédito”, disse o parlamentar governista. Segundo ele, a imprensa apenas requenta fatos velhos para agredir quem trabalha sem descanso para melhorar a vida dos brasileiros. Os governantes, segundo essa visão, não passam de vítimas da maledicência, padecem sob o bombardeio de uma campanha articulada para desacreditá-los. O líder do partido do governo, no mesmo pronunciamento em que reclamou das notícias requentadas, foi severo e categórico em seu diagnóstico: os órgãos de imprensa “são o grande veículo dessa campanha articulada”.

Antes de qualquer interpretação apressada, vamos esclarecer. As declarações transcritas no parágrafo acima não reproduzem falas de integrantes do governo Dilma Rousseff. São anteriores. Também não trazem recortes dos inflamados discursos de entusiastas do primeiro ou do segundo governos de Luiz Inácio Lula da Silva. Nem de beneficiários das duas gestões de Fernando Henrique Cardoso, ou do breve mandato de Itamar Franco, ou de Collor, ou mesmo de José Sarney. Elas vêm de um período ainda mais antigo, vêm dos tempos da ditadura militar.

Quem disse que a Folha é “a vanguarda entre os veículos da imprensa empenhados em isolar o governo da opinião pública” foi João Baptista Figueiredo, o mesmo que chegou a ocupar a Presidência da República entre 1979 e 1985. Ele disse ou, mais exatamente, ele escreveu isso um pouco antes de ser empossado ditador, num relatório que entregou, em 1977, ao então ministro da Justiça, Armando Falcão. Naquela temporada, Figueiredo era o chefe do temido SNI, o Serviço Nacional de Informações, e enxergava no diário paulistano um criadouro de oposicionistas ou, nas palavras dele, “o esquema de infiltração mais bem montado da chamada grande imprensa”. Se as coisas não iam bem, a culpa deveria ser das redações. O episódio pode ser lido com mais detalhes no livro Folha (páginas 67 e 68), escrito pela jornalista Ana Estela de Sousa Pinto, que chegou em dezembro às livrarias com o selo da Publifolha.

Quanto ao governista que reclamou das “campanhas articuladas” contra o governo, de nome Cantídio Sampaio, ele foi líder da Arena, a Aliança Renovadora Nacional, o partido que apoiava a ditadura militar. O arenista enunciou seu juízo sobre a imprensa também em 1977, ao protestar, na Câmara dos Deputados, contra a extensa cobertura que os jornais tinham dedicado ao lançamento da Carta aos Brasileiros, do professor e jurista Goffredo Telles Júnior, no dia 8 de agosto, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Em sua Carta, hoje célebre, Goffredo conclamou os compatriotas a exigir com ele o fim do regime de exceção, numa guinada decisiva para a conquista da democracia no Brasil. O deputado governista, acuado, sem outros argumentos, pôs a culpa no noticiário, como relata Cássio Schubsky em Estado de direito já! – Os trinta anos da Carta aos Brasileiros (a partir da página 219), lançado em 2007 pela editora Lettera.doc.

Tudo isso é passado, claro. A ditadura acabou e, com ela, caiu em desuso a doutrina de segurança nacional que consistia em pôr toda a responsabilidade pelos males nacionais nos “inimigos infiltrados” dentro dos meios de comunicação. Espantosamente, porém, tudo isso ainda é presente. A velha doutrina se retirou, é fato, mas as teorias de que ela se serviu, como a da “notícia requentada”, ou a da “campanha articulada” para “isolar o governo da opinião pública”, continuam na ativa. Toda semana, a gente dá de cara com tentativas de demonizar jornalistas para inocentar governantes, num furibundo fanatismo anti-imprensa. Presentemente, essas tentativas gostam de se declarar “de esquerda”, mas são apenas obscurantistas, como eram nos tempos da ditadura. São apenas autoritárias, intolerantes e mal-intencionadas. Nesse ponto, só o que mudou no Brasil foi a cor da gravata.

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EUGÊNIO BUCCI é jornalista e professor da ECA-USP.