Arquivo da categoria: Trabalhos Científicos

Suscetibilidade ao Estereótipo: Ênfase na Identidade e Mudanças no Desempenho Quantitativo

O artigo abaixo foi escrito por um conjunto de autores da Harvard para o periódico Psychologival Science em 1999. Bastante famoso na psicologia, este artigo ficou conhecido pelo público geral depois que Dan Ariely publicou um resumo dele em seu excelente livro “Previsivelmente Irracional”. Devido ao seu conteúdo relevante e à sua linguagem nem tão complexa, resolvi fazer a experiência de trazê-lo ao português. Acredito que muitas pessoas irão apreciar fazer a leitura de um artigo científico na área de psicologia, até porque sei que para alguns, essa se tratará da primeira experiência com artigos científicos!

Além do mais, o tema é bastante importante: ao falar de esteriótipos e de seus efeitos medidos de forma quantitativa, fala-se implicitamente sobre o efeito do preconceito na vida de negros, homossexuais e até mesmo das mulheres. Ao provar que um esteriótipo negativo sobre a capacidade de uma pessoa realizar determinada tarefa diminui estatisticamente sua capacidade de realizá-la, pode-se pensar que seja esse mecanismo cerebral de se adequar às expectativas que faça, por exemplo, certas mulheres dirigir mal quando imersas em uma cultura onde está disseminado o esteriótipo de que dirigem mal. Vocês irão se surpreender ao ver como o simples ato de lembrar a uma mulher que ela é mulher diminui perceptivelmente o seu desempenho em testes matemáticos.

O artigo em inglês pode ser encontrado na internet de forma aparentemente legal no Pubget (o link que direciona diretamente ao pdf é este). Antes de mais nada, só gostaria de salientar que o estudo tratou de desempenho quantitativo, ou seja, de desempenhos objetivamente mensuráveis. Não foram feitos testes qualitativos do tipo “quem desenha melhor”, pois isso poderia levantar dúvidas sobre a objetividade da avaliação. Ao invés disso, os testes eram sempre do tipo certo/errado com gabarito.

==============================================
Título Original: Stereotype Susceptibility:
Identity Salience and Shifts in Quantitative Performance
Autores: Margaret Shih, Todd L. Pittinsky e Nalini Ambady
Publicação: Revista Psychological Science; 10 (1999)
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani

==============================================

Suscetibilidade ao Estereótipo: Ênfase na Identidade
e Mudanças no Desempenho Quantitativo

Resumo—Estudos recentes têm documentado que o desempenho em um domínio é dificultado quando os indivíduos sentem que o grupo sociocultural a que pertencem é negativamente estereotipado naquele domínio. Nós relatamos que a ativação implícita de uma identidade social pode facilitar, bem como impedir o desempenho em uma tarefa quantitativa. Quando foi dada ênfase em um nível implícito a uma identidade social particular, o desempenho foi alterado na direção prevista pelo estereótipo associado com a identidade. Estereótipos culturais comuns sustentam que os asiáticos têm habilidades quantitativas superiores em comparação com outros grupos étnicos e que as mulheres têm habilidades quantitativas inferiores em comparação com os homens. Descobrimos que mulheres americanas asiáticas tiveram melhor desempenho em um teste de matemática quando sua identidade étnica foi ativada, mas pior quando sua identidade de gênero foi ativada, em comparação com um grupo controle que não tinha nenhuma identidade ativada. Uma investigação inter-cultural indica que era o estereótipo, e não a identidade per se, que influenciou o desempenho.

Estudos recentes descobriram que a ativação de um estereótipo implícito sociocultural pode influenciar o desempenho do indivíduo estereotipado. Steele e Aronson (1995) descobriram que estudantes afro-americanos, que são estereotipados como estudantes pobres, tiveram desempenho inferior em relação a estudantes brancos quando foram informados de que o teste era um diagnóstico de suas habilidades. Além disso, Levy (1996) descobriu que os idosos tiveram um desempenho pior em uma tarefa de memória quando previamente preparados com um estereótipo negativo do idoso do que quando preparados com um estereótipo positivo dos idosos.

Neste artigo, vamos expandir o trabalho sobre os efeitos poderosos de ativação automática e inconsciente (ver, por exemplo, Banaji & Greenwald, 1994; Banaji, Hardin, & Rothman, 1993; Bargh, Chen, & Burrows, 1996) e auto-aplicação de estereótipos, examinando se a ativação implícita de identidades particulares podem facilitar, assim como debilitar o desempenho acadêmico. Nós nos concentramos em duas questões nas quais psicólogos sociais têm largamente negligenciado mas que merecem investigação — os efeitos da ativação de diversas identidades que um indivíduo pode ter e os efeitos positivos de alguns estereótipos sobre o desempenho.

Pesquisas anteriores sobre a auto-estereotipagem centraram-se quase exclusivamente em apenas uma dimensão da identidade dos participantes. Por exemplo, tanto os estudos de Levy (1996) quanto os de Steele e Aronson (1995) classificaram os participantes ao longo de apenas uma dimensão da identidade social, idade e raça, respectivamente. No entanto, as pessoas carregam com elas muitas dimensões ricas de identidade social (Hewstone, 1996), e diferentes situações sociais e objetivos desencadeiam diferentes identidades (Richeson & Ambady, 1998). Por exemplo, um contador branco, macho e cristão pode ser identificada como um macho, como um branco, como um cristão, ou como um contador. Porque diferentes identidades sociais estão associadas com diferentes estereótipos, os indivíduos podem ser passíveis de estereótipos diferentes e, em alguns casos, até mesmo conflitantes.

Uma segunda questão negligenciada na pesquisa sobre a auto-estereotipagem é o efeito de estereótipos positivos. Incidir apenas sobre os efeitos negativos dos estereótipos associados a certas categorias sociais significa que dinâmicas de como os estereótipos afetam os indivíduos no mundo real estão sendo ignoradas.

Nos estudos que relatamos aqui, foram considerados estereótipos positivos e negativos associados com diferentes identidades que podem coexistir dentro de um indivíduo. Pode a ativação implícita de diferentes dimensões da identidade levar os indivíduos a acessar e se comportar de acordo com os estereótipos diferentes que podem ajudar ou atrapalhar o seu desempenho acadêmico? Nós examinamos se a ativação sutil de diferentes auto-estereótipos afetaria o desempenho quantitativo de mulheres americanas asiáticas. Um estereótipo cultural comum das mulheres, apoiada por dados sobre o desempenho do teste, é que elas têm habilidades quantitativas inferiores em comparação com os homens (Benbow, 1988; Hedges & Nowell, 1995). Um estereótipo comum sobre os asiáticos, também apoiado por dados sobre o desempenho do teste, é que eles têm habilidades quantitativas superiores em comparação com outros grupos étnicos (Steen, 1987). Esses estereótipos sugerem que o desempenho de mulheres americanas asiáticas em um domínio quantitativo é susceptível a dois estereótipos muito diferentes.

ESTUDO 1

Visão Geral

No Estudo 1, pedimos para alunas asiático-americanas de graduação fazerem um teste quantitativo. Trabalhamos com a hipótese de que seu desempenho seria deprimido quando fosse dada ênfase a sua identidade feminina e reforçada quando dada ênfase a sua identidade asiática, em comparação com um grupo controle de mulheres americanas asiáticas para as quais nenhuma identidade particular foi feita saliente. [1] A ênfase na identidade foi manipulada fazendo com que os participantes completassem diferentes versões de um questionário sobre a vida residencial na sua universidade. Os participantes aleatoriamente designados para a condição de ênfase na identidade feminina tiveram que indicar o seu sexo e responder a perguntas relacionadas com a sua identidade de gênero. Participantes com ênfase na identidade asiática foram solicitadas a indicar sua etnia e de responder a perguntas relacionadas com a sua identidade étnica. Na condição de controle sem ênfase em identidade, os participantes não foram solicitados a indicar seu gênero ou sua etnia, mas foram convidados a responder perguntas não relacionadas a nenhuma das identidades. Os questionários foram construídos para enfatizar a identidade de interesse (étnica ou de gênero) implicitamente, sem diretamente remeter ao estereótipo real (habilidades quantitativas superiores ou inferiores).

Procedimento

Quarenta e seis estudantes asiático-americanas do sexo feminino foram examinadas individualmente em uma sessão de laboratório. Primeiro, um experimentador cego para a manipulação pediu-lhes para preencher o questionário manipulação adequada. Na condição de ênfase na identidade de mulher, as participantes (n = 14) foram perguntadas (a) se viviam dentro ou fora do campus, (b) se elas tinham um companheiro de quarto, (c) se os seus andares eram mistos ou do mesmo sexo, (d) se preferiam pisos mistos ou de um único sexo, (e) listar três razões pelas quais eles prefeririam um piso misto, e (f) listar três razões pelas quais eles prefeririam um piso com sexo único. Na condição de ênfase na identidade asiática, as participantes (n = 16) foram perguntadas (a) se seus pais ou avós falavam outras línguas que não o inglês, (b) quais línguas elas conheciam, (c) quais línguas falavam em casa, (d) quais oportunidades que elas tiveram de falar outras línguas no campus, (e) o percentual dessas oportunidades que ocorreram em suas residências, e (f) quantas gerações de sua família viveram na América. Na condição controle, as participantes (n = 16) foram perguntadas (a) se viviam dentro ou fora do campus, (b) se eles usaram o serviço telefônico da universidade, (c) avaliar em uma escala de 7 pontos o quão satisfeitas estavam com o serviço, (d) se elas considerem assinar TV a cabo, (e) o quanto elas estariam dispostas a pagar por mês para a televisão por cabo, e (f) para listar uma ou duas razões pelas quais elas assinariam ou não televisão por cabo.

Depois do questionário, as participantes receberam um teste quantitativo que consistia em 12 questões de matemática da Competição Canadense de Matemática [2] e foram informadas que teriam 20 minutos para concluir esta tarefa. No final da sessão, as participantes completaram um conjunto final de questões, indicando, entre outras coisas, a sua própria pontuação na parte quantitativa da Scholastic Aptitude Test (SAT), o quanto gostaram de participar da experiência, o talento que elas possuíam em matemática, e os seus pensamentos sobre os objetivos da pesquisa. As participantes foram, então, pagas e dispensadas.

Resultados e Discussão

A principal variável dependente foi a precisão, que corresponde ao número de questões matemáticas que uma participante respondeu corretamente dividido pelo número de questões que a participante tentou responder (Steele & Aronson, 1995). Como mostrado na Tabela 1, as nossas previsões foram suportadas: o desempenho no teste quantitativo era melhor na condição de ênfase na identidade asiática, intermediária na condição de controle, e na pior na condição de ênfase na identidade feminina. O incremento de desempenho associado com a ativação da dimensão asiática da identidade foi semelhante em magnitude ao decréscimo de desempenho associado com a ativação da dimensão feminina da identidade. Estes resultados são particularmente atraentes porque o efeito foi exibido entre estudantes com excelentes habilidades quantitativas (a média quantitativa de pontuação SAT relatada pelas participantes foi de 750,9, DP = 46,53).

Tabela

Participantes na condição de ênfase na identidade asiática responderam corretamente uma média de 54% das perguntas que eles tentaram , participantes na condição de controle responderam corretamente uma média de 49%, e participantes na condição de ênfase na identidade feminina responderam corretamente uma média de 43%. Uma análise de contraste linear testando nossa previsão de que as participantes na condição de ênfase na identidade asiática obtiveram a maior pontuação, as participantes na condição de controle obtiveram pontuação intermediária, e as participantes na condição de ênfase na identidade feminina obtiveram a menor pontuação revelou que este padrão foi significativo , t(43) = 1,86, p <0,05, r = 0,27. Participantes na condição de ênfase na identidade asiática tiveram desempenho significativamente melhor do que aos participantes na condição de ênfase na identidade feminina, t(29) = 2,02, p <0,05, r = 0,35. Quando considerado apenas o número de questões respondidas corretamente, encontramos o mesmo, embora com padrão de resultados estatisticamente menos  significativo. Participantes na condição de ênfase na identidade asiática responderam à maioria das perguntas corretamente (M = 5,37), as participantes na condição de ênfase na identidade feminina responderam o menor número de perguntas corretamente (M = 4,71), e as participantes na condição de controle estavam no meio (M = 5,31), t(43) = 0,89, p = 0,19, r = 0,13. Precisão, no entanto, é uma variável dependente mais significativa do que o número de questões respondidas corretamente, porque leva em conta não apenas o número de questões respondidas corretamente, mas também o número de perguntas tentadas.

Curiosamente, a manipulação não afetou o nível de motivação das participantes, que foi semelhante em todas as condições: uma análise unilateral de variância (ANOVA) não mostrou diferenças significativas entre as condições em que (a) o número de perguntas que as participantes tentaram responder (o esforço que elas exibiram), (b) o número de questões para as quais as participantes relataram adivinhar as respostas, (c) o quanto as participantes gostaram do teste, (d) avaliação pessoal de como elas se saíram no teste, (e) a sua avaliação da dificuldade do teste, e (f) a avaliação de suas habilidades matemáticas.

A descoberta de ausência de diferenças entre as condições dessas variáveis ​​levanta questões importantes para a compreensão dos efeitos de estereótipos sobre o desempenho dos participantes. Parece pouco provável que os efeitos negativos da auto-estereotipagem poderiam ter sido diminuídos simplesmente incentivando as participantes a tentar mais. O desempenho neste estudo foi significativamente menor entre as participantes na condição de ênfase na identidade de mulher, mas em comparação com participantes nas outras condições, as participantes nessa condição tentaram números semelhantes de perguntas e foram igualmente confiantes em seus desempenhos.

Nossos dados também sugerem que as participantes não estavam cientes de que o seu desempenho está sendo afetado. Não houve diferenças entre as condições de como as participantes julgaram seu desempenho. Além disso, as participantes não tinham conhecimento de que havia uma identidade específico sendo enfatizada neste estudo e não foram capazes de adivinhar a hipótese do estudo.

Também não houveram diferenças significativas nas pontuações dos teste quantitativos do SAT entre as condições. A média para a amostra foi de 750,9, com uma pontuação mínima de 600 e uma pontuação máxima de 800, uma gama extremamente restrita de pontuação. A pontuação média para a população em geral na escala quantitativa do SAT em 1996 era de 508, com um desvio padrão de 110 (Educational Testing Service, 1998). A estreita faixa de pontuação e os escores elevados para esta amostra indicam que essas mulheres eram todas muito talentosas. A obtenção de mudanças significativas no desempenho de uma tarefa com ativação de identidade implícita é ainda mais impressionante com uma amostra tão altamente talentosa. Corrigir para a gama restrita torna o efeito mais forte (Snedecor & Cochran, 1980). Usando o desvio padrão relatado pelo Educational Testing Service (1998) para corrigir a restrição de faixa, descobrimos que o efeito é ainda maior e mais significativo para a hipótese principal, t(43) = 2,37, p = 0,01, r = 0,34.

ESTUDO 2

Visão Geral

O Estudo 2 examinou a hipótese de que era o estereótipo associado a uma identidade (ou seja, os asiáticos têm talento para a matemática) e não a própria identidade (ou seja, Asiático) que levou ao diferencial de desempenho que obtivemos. A fim de fazer isso, nós replicamos o estudo em uma segunda cultura na qual diferentes estereótipos são associados com as mesmas identidades. Em Vancouver, Canadá, a maior parte da comunidade asiática imigrou recentemente. Usando um questionário desenvolvido para examinar os estereótipos étnicos e de gênero predominantes, confirmamos que o estereótipo de que os asiáticos são quantitativamente talentosos prevalece mais na América do que no Canadá, t(81) = 2,07, p <0,05, r = 0,22. (3)

Usando o mesmo paradigma do Estudo 1, previmos que o desempenho no teste quantitativo de mulheres asiáticas de Vancouver seria deprimido, em relação ao do grupo de controle, quando fosse dada ênfase na sua identidade de gênero. Nós também previmos que o seu desempenho não poderia ser aumentado em relação ao desempenho de um grupo de controle quando fosse dada ênfase na sua identidade asiática (ao contrário da amostra nos EUA). O procedimento foi o mesmo que o do Estudo 1. As participantes foram 19 estudantes asiático-americanas do sexo feminino no ensino médio.

Resultados e Discussão

Os resultados apoiam a hipótese de que os estereótipos, e não apenas as identidades, influenciam o desempenho. Nessa população, o estereótipo de que os asiáticos possuem habilidades superiores quantitativos não é predominante. Como previsto (ver Tabela 1), as participantes na condição de ênfase na identidade feminina tiveram a pior pontuação (28% de precisão) dos três grupos. Participantes na condição de ênfase na identidade asiática (44% de precisão) também tiveram um desempenho pior do que o grupo controle (59% de precisão), contraste t(16) = 4,55, p <0,0005, r = 0,75.

Ao considerar apenas o número de questões corretas, nós encontramos um padrão semelhante: as participantes na condição de ênfase na identidade feminina responderam o menor número de perguntas corretamente (M = 3,00). Participantes na condição de ênfase na identidade asiática também responderam menos perguntas corretamente (M = 4,50) do que o grupo controle (M = 5,00). Um contraste utilizando pesos lambda de 1, 1 e -2 revelou que o padrão foi significativo, t(16) = 2,43, p = 0,01, r = 0,52.

Combinação das Duas Amostras

Quando combinamos os dois estudos e aplicamos uma ANOVA sobre a precisão percentual, encontramos uma interação país/condição significativa, F (2, 60) = 2,78, p = 0,069, eta = 0,30 (4) indicando que o padrão de desempenho entre as três condições foi significativamente diferente entre os dois países. Isto sugere que a manipulação de identidade teve efeitos diferentes sobre o desempenho dos participantes dos Estados Unidos e do Canadá.

DISCUSSÃO GERAL

Este trabalho demonstra a forte influência de estereótipos socioculturais sobre o desempenho individual. Nos estudos atuais, os participantes não foram explicitamente preparados com a ideia do estereótipo, mas simplesmente tiveram uma categoria sociocultural a que pertencem sendo sutilmente ativada. Talvez a evidência mais significativa que encontramos é a de que quando é dada ênfase a uma identidade em um nível implícito, o desempenho pode ser tanto melhorado quanto piorado. Os trabalhos anteriores mostraram que o desempenho das mulheres em uma tarefa quantitativa é prejudicado quando lhes é dito que a tarefa explicita as diferenças de gênero, mas não é prejudicado quando elas são informadas de que a tarefa não é sensível a diferenças de gênero (Aronson, Quinn, & Spencer, 1998; Steele, 1997). A presente pesquisa indica que o desempenho quantitativo de mulheres pode ser afetado tanto positiva como negativamente sem quaisquer instruções explícitas. Apesar de ainda ser preocupante o fato da ativação implícita da identidade de gênero feminino inibir o desempenho, é encorajador o fato da ativação implícita de certas identidades étnicas poderem ajudar alguns indivíduos a melhorar seu desempenho.

Os nossos resultados conversam com uma série de áreas aplicadas de grande preocupação da comunidade científica, bem como do público em geral, incluindo o desempenho das mulheres nos campos quantitativos como matemática e ciências. Eles sugerem que mais atenção deve ser dada às influências socioculturais sobre o desempenho das mulheres (Barinaga, 1994), particularmente à luz das recentes descobertas sobre as diferenças sexuais em matemática e ciências (Hedges e Nowell, 1995) em um número de diferentes culturas ( Lummis & Stevenson, 1990; Stevenson, Chen, & Lee, 1993).

Os resultados deste estudo também sugerem que quando o fato das pessoas terem múltiplas identidades é analisado, os efeitos de auto-estereotipagem podem ser abordados de forma muito mais estratégica do que anteriormente. Até o momento, os indivíduos foram amplamente colocados como vítimas da auto-estereotipagem. Mas existe a possibilidade de que as intervenções—neste caso, uma manipulação experimental que enfatizou uma dimensão de identidade sobre as outras—podem ser usadas para influenciar estrategicamente o desempenho. A presente descoberta também aponta para questões intrigantes e inexploradas sobre como os indivíduos podem experimentar ênfase em identidade e processos de auto-estereotipagem. A teoria de Brewer (1991) de distintividade ótima afirma que os indivíduos identificam ao longo de dimensões particulares para alcançar um estado de distinção ideal. Parece plausível que os indivíduos também possam identificar a si mesmos ao longo de dimensões a fim de atingir a “adaptação ótima.”

Finalmente, a descoberta de que o desempenho acadêmico pode ser tanto melhorado quanto prejudicado por mudanças implícitas na identificação coloca desafios importantes para as noções de desempenho acadêmico e de inteligência. Embora haja muito debate sobre a natureza da inteligência (Fraser, 1995; Neisser et al,, 1996), fortes defensores de diferenças genéticas sobre o QI assumem que a capacidade é fixada e que pode ser quantificada através de testes (Herrnstein e Murray, 1994). Os resultados aqui apresentados indicam claramente que o desempenho do teste é, além de maleável, surpreendentemente suscetível a pressões socioculturais implícitas.

Notas

1. Pode-se conceber uma quarta condição na qual são enfatizados tanto gênero quanto etnia, a fim de ver se uma identidade predominaria. Esta é uma pergunta provocativa, mas fora do âmbito do presente estudo, em que testamos se pudéssemos alterar o desempenho ao fazer uma identidade mais saliente que a outra.

2. A Competição Canadense de Matemática é uma prestigiada competição anual para alunos do ensino médio patrocinada pela Universidade de Waterloo.

3. Pessoas selecionadas aleatoriamente (n = 50) em Vancouver, British Columbia, e Cambridge, Massachusetts, foram solicitadas a classificar (em uma escala de 1 a 7) o quão comum o estereótipo “asiáticos são bons em matemática” está presente em sua sociedade.

4. Não houve interação país/condição significativa quando considerado apenas o número de questões respondidas corretamente. Isto não é surpreendente, devido à diferença no grau de escolaridade entre as duas amostras. As participantes canadenses eram estudantes do ensino médio, enquanto que as participantes dos americanos eram estudantes universitárias. As participantes americanas responderam às perguntas significativamente mais corretamente (M = 5,12) do que as participantes canadenses (M = 4.11), F (1,60) = 3,84, p = 0,05, eta = 0,25.

Referências

Aronson, J., Quinn, D.M., & Spencer, S.J. (1998). Stereotype threat and the academic underperformance of minorities and women. In J. Swim & C. Stangor (Eds.), Prejudice:The target’s perspective (pp. 83–103). San Diego: Academic Press.

Banaji, M., & Greenwald, A.G. (1994). Implicit stereotyping and prejudice. In M.P. Zanna & J.M. Olson (Eds.), The psychology of prejudice: The Ontario symposium (Vol. 7, pp. 55–76). Hillsdale, NJ: Erlbaum.

Banaji, M.R., Hardin, C., & Rothman, A.J. (1993). Implicit stereotyping in person judgment. Journal of Personality and Social Psychology, 65, 272–281.

Bargh, J.A., Chen, M., & Burrows, L. (1996). Automaticity of social behavior: Direct effects of trait construct and stereotype activation on action. Journal of Personality and Social Psychology, 71, 230–244.

Barinaga, M. (1994). Surprises across the cultural divide. Science, 263, 1468–1472.

Benbow, C.P. (1988). Sex differences in mathematical reasoning ability in intellectually talented preadolescents: Their nature, effects, and possible causes. Behavioral and Brain Sciences, 11, 169–232.

Brewer, M.B. (1991). The social self: On being the same and different at the same time. Personality and Social Psychology Bulletin, 17, 475–482.

Educational Testing Service. (1998). Background information: All SAT I test takers [Online]. Available:
http://www.collegeboard.org/sat/cbsenior/yr1998/nat/natbk389.html

Fraser, S. (Ed.). (1995). The bell curve wars. New York: Basic Books.

Hedges, L.V., & Nowell, A. (1995). Sex differences in mental test scores, variability, and numbers of high-scoring individuals. Science, 269, 41–45.

Herrnstein, R.J., & Murray, C. (1994). The bell curve. New York: Free Press.

Hewstone, M. (1996). Contact and categorization: Social psychological interventions to change intergroup relations. In C.N. Macrae, C. Stangor, & M. Hewstone (Eds.), Stereotypes and stereotyping (pp. 323–368). New York: Guilford Press.

Levy, B. (1996). Improving memory in old age through implicit self-stereotyping. Journal of Personality and Social Psychology, 71, 1092–1107.

Lummis, M., & Stevenson, H.W. (1990). Gender differences in beliefs and achievement: A cross-cultural study. Developmental Psychology, 26, 254–263.

Neisser, U., Boodoo, G., Bouchard, T.J., Boykin, A.W., Brody, N., Ceci, S.J., Halpern, D.F., Loehlin, J.C., Perloff, R., Sternberg, R.J., & Urbina, S. (1996). Intelligence: Knowns and unknowns. American Psychologist, 51, 77–101.

Richeson, J.A., & Ambady, N. (1998). Roles vs. goals: When race matters in dyadic interactions. Manuscript submitted for publication.

Snedecor, G.W., & Cochran,W.G. (1980). Statistical methods (7th ed.). Ames: Iowa State University Press.

Steele, C.M. (1997). A threat in the air: How stereotypes shape intellectual identity and performance. American Psychologist, 52, 613–629.

Steele, C.M., & Aronson, J. (1995). Stereotype threat and the intellectual test performance of African-Americans. Journal of Personality and Social Psychology, 69, 797–811.

Steen, L.A. (1987). Mathematics education: A predictor of scientific competitiveness. Science, 237, 251–253.

Stevenson, H.W., Chen, C., & Lee, S.-Y. (1993). Mathematics achievement of Chinese, Japanese and American children: Ten years later. Science, 259, 53.

Anúncios