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Ressurreição de Jesus: Uma Conclusão

Quando criei este blog, um dos meus objetivos era explorar profundamente alguns dos temas mais importantes nos debates entre ateus e religiosos (mais especificamente os apologistas cristãos). O primeiro tema que escolhi foi a ressurreição de Jesus, pois acredito que seja um dos temas mais importantes dentro do cristianismo em si, e a forma como conhecemos tal religião hoje talvez não faça o mínimo sentido se Jesus não morreu e reviveu.

Não achem que eu esteja aqui defendendo que Jesus não ressuscitou. Eu defendo dados os problemas na hipótese da ressurreição, a crença em sua não existência é incomparavelmente mais sensata. Além do mais, o que uma pessoa pode fazer para provar que uma outra pessoa não ressuscitou? Ou seja, não podemos declarar através de argumentos racionais que Jesus ressuscitou, só podemos acreditar nisso pela fé. E irei mostrar que os cristãos deveriam tratar pessoas que negam isso como Difamadores da Fé.

Mas o meu foco é demonstrar a primeira ideia: a de que eventos como ressurreição não podem ser acreditados através da razão, em hipótese alguma. Apologistas como William Lane Craig discordam veementemente de mim. Para ele, é absolutamente racional acreditar em qualquer doutrina ou narrativa associados ao cristianismo, incluindo toda a história de Jesus narrada no Novo Testamento, em especial nos evangelhos. Craig vai além e diz que o Método Histórico pode ser usado para indicar com quase 100% de certeza que Jesus ressuscitou dos mortos!

Não vou me estender aqui explicando quais os perigos de tentar dar às religiões em geral, que são inventadas, o status de racional. (Não cometo aqui a falácia genética pois não afirmo que são falsas por serem inventadas, mas que não são racionais. Como demonstrado em A Falácia Genética e o Ateísmo – Parte 2: O Erro de Parsons, uma invenção irracional pode ser verdadeira por pura sorte, e inclusive é esta possibilidade que serve como contraexemplo fundamental da falácia genética.) Só digo que quando tratamos como racional um conjunto de ideias inventadas que possui implicações em nossas vidas social, cultural, econômica, política etc estamos agindo de forma contrária ao progresso. As religiões são ótimas em nos prover amparo em situações emocionais delicadas tais como a morte, o sentido da vida, a necessidade de agradecer pelas coisas boas que não podem ser explicadas, a expectativa e a vontade de pedir a alguém que atenda nossos desejos, a introspecção, a meditação etc. Quando difamadores da fé como Craig começam a dizer que histórias fantásticas são reais e racionais, abre as portas não só para a anti-intelectualidade, mas também para pessoas que querem reger a vida alheia e a política de acordo com suas crenças religiosas.

Acreditar na ressurreição de Jesus (ou na reencarnação dos espíritas, ou nas quarenta virgens dos muçulmanos etc) não é um exercício de burrice. Burrice, no meu mais humilde ponto de vista, é achar que isso pode ser alcançado de forma racional. Temos crenças irracionais o tempo todo: acreditamos que iremos nos curar de um câncer agressivo, que nosso time vai ser campeão, que tiraremos o Renan Calheiros da presidência do Senado com um abaixo-assinado, que ganharemos mais dinheiro esse ano, que perderemos peso na nova dieta… e nenhuma dessas crenças nos torna idiotas ambulantes. O que nos tornaria verdadeiros tolos é dar a essas crenças o mesmo grau de confiança que damos a teorias científicas como as Leis de Newton, por exemplo.

E por que a crença na ressurreição não tem respaldo nenhum? Porque se trata de um evento extremamente improvável por si só e porque relatos bíblicos não acrescentam quase nada à sua probabilidade. Craig concorda com a primeira parte, mas discorda completamente da segunda, usando como argumentos os pontos colocados no debate entre ele e Bart Ehrman. Eu já disponibilizei aqui transcrições em português e em inglês de tal debate e fiz um resumo em uma série de postagens, mas vou colocar aqui um guia geral dessa série para apresentar por alto o raciocínio de Craig:

(1) Craig x Ehrman Parte 1: Introdução: Apresentação do debate com vídeos e transcrições.

(2) Craig x Ehrman Parte 2: Discurso de Abertura de Craig: Craig expõe seu argumento histórico pela ressurreição de Jesus: (I) Existem quatro fatos históricos que precisam ser explicados por alguma hipótese histórica adequada: o sepultamento de Jesus, a descoberta de seu túmulo vazio, suas aparições post-mortem, e a origem da crença dos discípulos em sua ressurreição; e (II) A melhor explicação para estes fatos é que Jesus ressuscitou dentre os mortos.

(3) Craig x Ehrman Parte 3: Discurso de Abertura de Ehrman: Ehrman argumenta que a explicação (II) de Craig não é histórica, mas sim teológica. Tanto é verdade que ela pressupõe a existência de Deus como agente causador do milagre. Ora, historiadores não podem pressupor a existência de um deus, muito menos a existência de Deus especificamente, pois eles não possuem acesso a Ele. A pesquisa histórica só tem acesso àquilo que ocorre no plano terreno, sendo que supostos eventos que ocorreram em outros planos são discussões teológicas. Além disso, os relatos evangélicos não são confiáveis o suficiente a ponto de se dizer que as afirmações em (I) são fatos históricos.

(4) Craig x Ehrman Parte 4: A primeira Refutação de Craig: Ehrman havia afirmado anteriormente que é contraditório afirmar que um milagre – que é a maior das explicações improváveis – é a explicação mais provável. Mas Craig afirma que Ehrman só diz isso porque confunde Pr(R|B & E) com Pr(R|B). A probabilidade do primeiro (probabilidade de Jesus ter ressuscitado dadas as evidências do evangelho) pode ser muito alta enquanto a do segundo (probabilidade de Jesus ter ressuscitado) pode ser muito baixa. Através de cálculos matemáticos, é possível provar que Pr(R|B & E) é praticamente igual a 1.

(5) Craig x Ehrman Parte 5: A primeira Refutação de Ehrman: Ehrman pergunta a Craig se ele analisou criticamente os documentos que usou em sua pesquisa e se, caso positivo, ele foi capaz de encontrar algum erro neles. E se ele não encontrou nenhum erro, como espera que acreditemos que ele está avaliando historicamente tais fontes? Por ser um adepto da inerrância bíblia, Craig deve pensar que os textos necessariamente são corretos.

(6) Craig x Ehrman Parte 6: A segunda Refutação dos debatedores: Craig também argumenta que um historiador não precisa ter acesso direto às entidades explicativas em suas hipóteses, a exemplo dos físicos contemporâneos e teorias como a das cordas. Ehrman tenta sustentar que: “Mesmo que nós queiramos acreditar na ressurreição de Jesus, esta crença seria uma crença teológica. Você não pode provar a ressurreição. Este evento não é suscetível à evidência histórica; é fé. Os crentes acreditam na ressurreição e o fazem pela fé; história não pode prová-la.”

A argumentação de Craig tem como base a confiabilidade das narrativas bíblicas e a inferência de que a melhor explicação para elas é a ressurreição. Sobre a confiabilidade dos evangelhos, Ehrman, bem como várias outras pessoas, já demonstraram que as inúmeras contradições desmoronam qualquer alegação neste sentido. Mas mesmo que fossem confiáveis, elas ainda assim não sustentariam a ressurreição. Por este motivo, foquei a segunda parte da análise no estudo de tal inferência.

Para começar, Craig usa um argumento matemático baseado no Teorema de Bayes para demonstrar que a probabilidade de Jesus ter ressuscitado dadas as evidências contidas nos evangelhos é praticamente 100% (veja a explicação completa na parte 4 do resumo do debate). Mas esse argumento é completamente falacioso. Na verdade, os três posts abaixo mostram que tal probabilidade independe da confiabilidade das narrativas bíblicas:

(1) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 1: O Erro Matemático Escandaloso de Craig
(2) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 7: A Cagada Calamitosa de Craig
(3) 

Uma outra série de postagens, composta basicamente pela tradução de um capítulo de livro escrito por Robert Price, mostra que mesmo que acreditemos piamente na Bíblia, podemos chegar à conclusão de que Jesus não ressuscitou. É perfeitamente plausível que os relatos sejam verdadeiros (na verdade sinceros) e que os evangelistas olharam para os fatos e acreditaram inocentemente que Jesus voltou dos mortos.

(1) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 1: Entrando no Jogo: E, no entanto, é o que eu vou fazer aqui. É simplesmente uma experiência de pensamento. Vou assumir como verdadeiro o caráter essencialmente histórico dos “eventos” que precederam a ressurreição. A única diferença é a seguinte: eu não acho que alguém tem que ir muito longe para chegar a uma explicação completamente natural para a suposta ressurreição. Tenha paciência comigo enquanto eu me aventuro na defesa da Teoria do Desmaio, da Teoria do Reenterro, da Teoria da Identidade Trocada, e da Teoria da Dissonância Cognitiva (“Transformação dos Discípulos”). 

(2) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 2: Jesus não morreu: O que sugere a Teoria do Desmaio? Logo acima eu a retratei como um produto de pressupostos Racionalistas: como uma explicação, é tudo o que restou a eles. Mas agora vou comprovar que há muito mais do que isso. Eu acho que os próprios textos sugerem isso, e na verdade sugerem com tanta força, que me parece que o modelo de Scheintod foi o ensinamento real dos Evangelhos, em algum estágio anterior. Desde então, tal ensinamento foi editado no curso da evolução da crença cristã.

(3) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 3: A Tumba Provisória: Ao ler o relato de Páscoa em João 20:11-15, eu não preciso impor algum tipo de ódio de Jesus ao ceticismo para que ele pudesse “escapar” das implicações do texto. Não, eu me vejo lendo o texto com reverência, valorizando sua atmosfera sobrenaturalmente refrescante nessa história maravilhosa e, de repente, sou surpreendido com Maria Madalena não encontrando ninguém no túmulo: Ó Deus! Haverá um fim para os horrores desse fim de semana? E agora?

(4) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 4: Os Sósias: Vamos dar aos apologistas o benefício da dúvida e agir como se essas histórias evangélicas da Páscoa fossem, como eles insistem, narrativas genuínas de encontros. Todo esse negócio de não reconhecimento, que nós jamais esperaríamos, inevitavelmente convida à suspeita de que os encontros de Páscoa eram realmente avistamentos de encontros com figuras só mais tarde identificadas como Jesus, e depois como um meio de escapar da tristeza e do desespero.

(5) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Parte 4b: Mudanças de aparência: Agora me digam: o que é mais provável? Que pessoas tenham visto homens parecidos com Jesus e, dado o enorme burburinho de ressurreição, os tomaram pelo Cristo ressurreto e depois contornaram alegando que ele mudava de aparência ou será que Jesus ressuscitou e ficou trocando de forma física, sendo que já mostrei que tal mudança é teologicamente problemática? Como podem ver, não preciso supor nenhum milagre para explicar nada.

(6) Explicando a Ressurreição sem Recorrer a Milagres – Conclusão: A Dissonância Cognitiva (ou: Não é preciso nenhum milagre aqui!): Eis o que acho dos discípulos de Jesus: eles tinham abandonado todos os trabalhos e atividades mundanas, até mesmo a família, a fim de juntar-se a Jesus e sentar-se à sua direita e à sua esquerda em sua glória que estava se aproximando. Agora ele é vergonhosamente morto, e só se pode imaginar as piadinhas que guardavam, por exemplo, para os dois discípulos assim que voltassem para a casa em Emaús. Talvez eles tenham programado de chegar em casa na calada da noite!

Além disso, forneço uma visão geral do debate com foco nas estratégias dos dois debatedores. Esses posts não somaram muito à questão da ressurreição, sendo mais interessante para aqueles que se interessam pela prática do debate em si. Destaque para a parte 5: “Por que Craig venceu o debate antes mesmo dele começar?”

(1) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 2: Uma visão geral do debate
(2) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 3: Estratégias dos debatedores
(3) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 4: Guarnecendo o Plano B
(4) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 5: Por que Craig venceu o debate antes mesmo dele começar?
(5) Craig x Ehrman – Uma Análise, Parte 6: Craig, o Mr. C do Power Point

Por fim, uma discussão teológica da ressurreição de Jesus. Em um debate contra um rabino, Craig apanha feito criança ao não ser capaz de explicar diversos detalhes exigidos pelo judeu. Na verdade, a crença na ressurreição de Jesus, segundo os judeus, se parece com uma má interpretação histórica da vida desse homem comum. Além disso, adentrando na teologia de maneira mais profunda, vemos que a ressurreição de Jesus é um evento desprovido de significado real objetivo. Ambas objeções teológicas formaram a última série que fiz sobre o assunto:

(1) Teologia da Ressurreição de Jesus – Parte 1: A Trindade Cristã contradiz o Monoteísmo?: Ver Craig dizendo que o cristianismo está certo porque a Trindade é verdade não tem preço. Só faltou ele dizer que é porque é e pronto. E em saber que ele é ovacionado por certos grupos de cristãos… é, uma hora a máscara cai.

(2) Teologia da Ressurreição de Jesus – Parte 2: Afinal, qual a finalidade da morte de Jesus?: Aqui analiso as principais respostas para a pergunta: “Qual o propósito da morte de Jesus?”. Demonstro que mesmo dentro da teologia, isso não faz muito sentido. No máximo é algo que as pessoas usam para sentirem que existe alguém que se importa com elas.

A conclusão pode ser tirada por qualquer um que ler o material que disponibilizei aqui no blog. A crença na ressurreição de Jesus pode ser defendida racionalmente ou deve ficar apenas nos domínios da fé? Como mostrei, a crença na ressurreição é discutível não somente na história, mas também na teologia, sendo que isso a torna ainda mais distante de qualquer defesa racional. Além disso, adotar a segunda posição não é adotar um ponto de vista ateu, pois é algo compatível com o cristianismo. Talvez até mesmo o próprio Jesus preferisse a segunda opção caso ele tenha realmente ressuscitado.

Um ateu como eu não crê, evidentemente, na ressurreição de Jesus. Mas eu não tenho porque condenar aqueles que acreditam nisso porque se sentem de certa forma amparados: “Um homem deu sua vida por mim! Eu tenho algum valor e os deuses me amam e querem meu bem!” Eu já argumentei que isso não faz muito sentido, mas nem por isso tal pensamento é condenável. Condenável seria dizer algo como “Jesus ressuscitou, provando ser ele mesmo Deus, e eu como seu seguidor tenho a obrigação de fazer com que todas as pessoas acreditem nisso e sigam a sua palavra, custe o que custar.” Isso se chama ignorância, é perigoso para a sociedade e deve ser combatido. Todo mundo tem direito de evangelizar, mas ninguém tem o direito de impôr seu ponto de vista. É por isso que peço para que não acreditem em difamadores da fé como Craig, que querem tirar da religião aquilo que ela sabe fazer de melhor e transformá-la, mesmo que de maneira inocente, em um instrumento político e de alienação intelectual.

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Preconceituoso é você!

Pessoalmente, compartilho de alguns ideais expostos na teoria clássica do conservadorismo, principalmente quando ele diz, em grossas palavras, que as mudanças devem ser graduais [1]. Contudo, a grande maioria dos conservadores atuais estabelecem critérios tão absurdos para essas mudanças que acabaram sendo reclassificados como reacionários: pessoas que sentem verdadeira fobia a qualquer tipo de mudança que não reforce seus bolsos ou seus preciosos status quo. O reacionarismo é a utilização do conservadorismo a serviço do egoísmo – este último disfarçado de individualismo ou até mesmo de liberdade. [2]

Liberdade individual é um direito tão importante quanto qualquer outro, e cabe a nós sabermos dosar seus limites. [3] Eu não posso vir no meu blog e dizer “matem os racistas”, mesmo que eu realmente achasse que devem morrer, pois isso seria um exemplo patente de abuso da liberdade de expressão. Mas os reacionários, amparados pelas elucubrações mirabolantes dos libertários e que beiram a pseudociência, insistem que não existem limites à liberdade individual (deles mesmos, obviamente). E mais, deturpam o conceito de liberdade para se adequar às próprias opiniões. [4]

Reacionários são a face do retrocesso. Acuados pelo fato de estarem sendo deixados para trás pelo mundo, tentam desesperadamente criar uma realidade paralela, nos moldes conspiracionistas. Quando os veículos não se posicionam da maneira que lhes agrada, não é o caso de começarem a repensar suas opiniões, mas sim de acusar a mídia de querer derrotá-los. Criam até seu canal próprio, isolado do mundo e da realidade, onde as notícias são dadas de acordo com os interesses pessoais e com as ideologias em curso. Não que isso seja errado, só é ridículo. [5]

E nem assim eles conseguem muita repercussão, já que carecem de lideranças políticas e intelectuais capazes de levar seu pobre movimento para frente. Na política, os dois grupos mais relevantes que temos hoje é um que está aderido ao populismo barato do PT e outro aderido ao evangelismo, ambos quase que completamente alheios aos reacionários – que votam nesses últimos de trouxas que são. No campo intelectual, o supra-sumo brasileiro são naipes como Olavo de Carvalho [6] e Leonardo Bruno [7], duas figuras que de tão desconhecidas, arrancaram um sonoro “quem???” de todas pessoas às quais citei o nome até hoje.

(Não que eu seja muito melhor do que isso, reconheço. Mas meu trabalho é muito mais restrito.)

De todos os comportamentos típicos de pessoas que prezam mais pela criação de uma falsa fachada de erudição e intelectualidade, um dos piores é o chamado “é você.” Eu costumo dizer que tal estratégia é a prova máxima de que uma pessoa não tem a mínima ideia do que está falando. É um atestado de perdedor. Quando eu estava na quinta série, adorava fazer isso: “Marco, você é burro.” “Burro é você.” Ou senão: “Pedro, comi sua mãe.” “Eu comi a sua duas vezes.” e por aí vai. Mas naquela época isso era perdoável – e divertido. Agora, ver os reacionários fazendo isso não é divertido, muito menos perdoável.

Digo os reacionários porque suas principais lideranças são justamente um bando de pessoas que se encaixam como uma luva no perfil dos charlatões intelectuais que usam o “é você.”

Um exemplo comum são os cristãos frustrados dizendo que para ser ateu é necessário ter mais fé do que para ser cristão. [8] Que para ser ateu tem que ser mais anticientífico do que para ser cristão. [9] Que para ser ateu tem que ser até – pasmem! – mais supersticioso do que para ser cristão. [10] É a baixaria do “é você” se manifestando da forma mais patética possível. Até parece que eles acham que excesso de fé é algo condenável. Até parece que eles acham que dominam muito bem o naturalismo metodológico. [11] Até parece que acham que ser supersticioso é algo ruim.

Peguemos Leonardo Bruno. Agora a criatura deu para falar que preconceituosos são os próprios defensores das cotas para negros. [12] “Preconceituoso é você, que acha que negro precisa de cota para entrar na universidade.” resume o pensamento do autointitulado Conde-de-qualquer-lugar-por-aí. Então eles precisam de quê? Vergonha na cara? Nascer brancos? Largar de ser vagabundos? Parar de se fazer de coitados e aceitarem sua condição? Ou será que devem estudar mais ao invés de pedir para estudarem junto com os brancos?

Olhemos hoje a proporção de negros na sociedade e comparemos com a proporção nas universidades. Segundo o Portal Brasil, “Entre os jovens brancos com mais de 16 anos, 5,6% frequentavam o ensino superior em 2007, enquanto entre os negros esse percentual era 2,8%.” [13] Alguém acha isso certo? Os defensores do egoísmo travestido de individualismo dizem que sim! Mas onde fica o direito ao individualismo, quando ele funciona como um limite para a plenitude dele mesmo?

Não que eu concorde plenamente com as políticas do Governo Federal, que se preocupa mais com eleições e com políticas populistas do que com a própria eficácia de suas medidas. [14] A Lei das Cotas está errada por falhar naquilo que defendo que toda lei de cunho social deve ter: metas. A lei que estabelece o Ciência sem Fronteiras possui metas definidas e claras, e por isso é uma grande política do Governo Federal. [15] Mas onde estão as metas e os objetivos da Lei das Cotas? Qual a sociedade que ela vislumbra? Quando ela pretende se tornar uma lei inútil? Sim, pois políticas que visam corrigir distorções devem corrigir distorções e depois se tornar obsoletas, ao invés de empurrá-las com a barriga com resultados pequenos.

Muitos podem dizer que sim, a Lei das Cotas trará benefícios cedo ou tarde. [16] E que é melhor uma lei meia-boca do que nenhuma. Não concordo nem um pouco. Uma política fraca é uma desculpa forte para não fazer mais nada. Ou alguém acha que algum político vai se dar ao trabalho de melhorá-la nos próximos dez ou vinte anos? Duvido. Talvez possa ser fácil para mim pensar assim, mas acredito que era melhor esperar mais um tempo e ter uma solução eficaz do que ter uma solução meia-boca agora.

Não estou dizendo que as cotas são erradas, mas que a política de cotas do Governo Federal passa longe de ser uma solução eficaz na forma que foi proposta.

Contudo, nada se compara à atitude “preconceituoso é você” adotada por pessoas como o Leonardo Bruno e sua crítica completamente furada às cotas. (Talvez o movimento negro também erre ao tachar de preconceituosos os que são contrários a seus ideais, mas não vou entrar nesse assunto para não perder o foco.) Quando uma pessoa fica cega pelo egoísmo, ela passa a ver a bondade com “os olhos do demônio.” A ideologia egoísta o faz esquecer até mesmo os ensinamentos de sua religião, cujo líder pregou o amor e a igualdade e que se sacrificou pelo bem de todos. Mas não, os difamadores da fé acham que fé e luta pela igualdade são ambas coisas de ateus.

Ok.

Se brincar, eles estão até certos mesmo: os ateus estão se mostrando menos egoístas e mais preocupados com o próximo do que aqueles que seguem o profeta que deu esses ensinamentos. Os ateus estão se mostrando melhores cristãos do que muito “cristão exemplar” por aí, enquanto que pessoas como Leonardo Bruno, ao ser duramente acusadas de agir como pessoas que abrem mão do orgulho para colaborar por uma sociedade mais justa e igualitária, respondem na lata: “justo e igualitário é você.” Pelo menos nesse “é você” ele está certo.

Notas e Referências:

1. Não me considero conservador, mas me dou ao direito a ver dentro de cada linha de raciocínio aquilo que presta e aquilo que não presta. No meu ponto de vista, o ideal conservador de se opôr à “mudança por mudança” e às mudanças bruscas provocadas por um grupo muito restrito é admirável. Entretanto, não pensem que aprovo sequer 10% de baboseiras como a deste link.

2. “Me engana que eu gosto.” Os reacionário adoram dizer têm respaldo de documentários e teses libertárias como feito neste link, mas a verdade é que o libertarianismo deles é puro interesse: quando a coisa aperta, a liberdade não presta para mais nada. No fundo, eles se vêem como certos e os trabalhos alheiros só são certos se concordarem com eles. Para mais, leia este artigo aqui do blog, em especial o que foi postado pelo comentarista vivaorock.

3. É justamente neste ponto que vejo a falha do libertarianismo: uma visão excessivamente utópica de um mundo livre, como podem ver neste link.

4. Vejam um excelente exemplo neste link de reacionários deturpando o libertarianismo aos próprios ideais: “liberdade individual é o governo impondo restrições à autonomia do cidadão.”

5. O melhor exemplo que posso dar é o site Mídia sem Máscara. Vejam aqui seu “Quem somos” e confiram por si só o clima conspiaracionalista.

6. Líder do Mídia sem Máscara e o principal articulista da direita cristã reacionária brasileira.

7. Autor do blog Cavaleiro Conde e dono do canal Conde Loppeaux no youtube, além de ser colaborador do Mídia sem Máscara. Conhecido por ser pedante, por se expressar extremamente mal e por seu linguajar folclórico, é duramente criticado neste blog.

8. Que o diga Norman Geisler e seu célebre livro “Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu” Editora Vida.

9. Conforme afirmado por Logan Gage em seu artigo “Which Secular Superstition do you Believe?”

10. “Nada é mais anticientífico do que ser ateu”, Francis Collins.

11.  O naturalismo como metodologia científica é algo criticado duramente pelos defensores do Design Inteligente, como Dembski (Dembski, W.A., 1999. Intelligent Design, the Bridge Between Science & Theology. InterVarsity Press, Downers Grove, Illinois. 312 pp.) Acredito que quem defende Dembski acaba tendo que reconhecer que está tentando fazer a ciência retroceder, retirando dela seu maior pilar: o empirismo. Como fazer experimentos que provam Deus? Caso concordem com o naturalismo metodológico, devem reconhecer que a crença do Design Inteligente não tem sustentação científica, mas que é somente baseada em fé.

12. Ver o artigo Uma turba de estúpidos militantes do Leonardo Bruno.

13. Ver o artigo Percentual de negros no ensino superior é metade do de brancos do Portal Brasil.

14. Ver o excelente artigo O brasileiro não é racista deste blog, republicação de um texto da Revista Época.

15. Tudo fica bem melhor quando tem objetivos claros e metas definidas.

16. Na verdade, dizem que já estão trazendo.  Ver o artigo Pesquisa revela aumento na proporção de negros nas universidades federais da Fundação Palmares. Contudo, penso que este resultado hoje é insustentável e se reverteria em poucos anos se a lei fosse revogada. No fundo, fico com a triste impressão que estão a comemorar os resultados de políticas paliativas.

Luciano Ayan: uma breve biografia – de troll no orkut a “líder” conservador fake

If you feel rage
To strike me with revenge
I’ll be standing right here
Waiting without fear
For you

[Atualizado em 13/08/2016]

Continuar lendo Luciano Ayan: uma breve biografia – de troll no orkut a “líder” conservador fake