O rap do peixinho doido

Aiai… tem certas coisas por aí que desafiam nossa paciência e nossa persistência: como pode um mero vídeo no Youtube conter tantos erros sucessivos e como posso esclarecê-los um a um? É frustrante… O vídeo ao qual me refiro é este que se segue, assistam:

Pelos deuses!

O vídeo já começa mal: atribuindo a Einstein a velha e batida fábula de autoajuda do peixinho julgado como estúpido porque tentaram, sem sucesso, lhe ensinar a subir em árvore. Einstein nunca disse isso!! Se quem fez esse texto repleto de rimas, pronunciado como um rap pelo advogado das causas sublimes e celestiais, fosse mesmo um entusiasta da educação, já teria aprendido a checar a veracidade das citações antes de fazê-las. Aliás, nota-se que o vídeo não precisou nem de 2 segundos para mostrar a que veio: desinformar.

Ele prossegue astuto em uma contradição que desafia a lógica elementar: mostra que nas últimas décadas, telefones viraram IPhones, charretes viraram super carros, mas que a escola continuou a mesma. Mas oras, não foi justamente nas escolas onde os engenheiros aprenderam a fazer circuitos eletrônicos e sistemas computacionais compactos que, mesmo cabendo na palma da nossas mãos, operam comunicadores multiuso espetaculares? Não foi justamente nas escolas que os engenheiros aprenderam tudo sobre ciclo térmico de motores e dinâmica veicular? Não foi lá na escola que aprenderam como montar verdadeiros exércitos de máquinas automáticas e sincronizadas, capazes de produzir tais aparatos em série e disponibilizá-los a preços acessíveis para virtualmente toda a América, toda a Europa e quase toda a Ásia e a Oceania e parte da África?

Ora bolas!

Estamos na verdade diante um enorme caso de sucesso, não é mesmo? Apesar de quase não terem mudado, as escolas formaram indivíduos que transformaram o mundo com tecnologias cada vez mais impressionantes! Então o rap do peixinho alpinista de árvore queria provar que era um absurdo a escola não ter mudado, mas só provou que mesmo não mudando, continua atendendo às demandas da sociedade contemporânea, ou seja, provando que as escolas não precisam mudar muita coisa.

E que se registre: além de contraditório, o argumento se baseia em fatos falsos. As escolas hoje são bem diferentes daquelas retraradas, por exemplo, em Another Brick in the Wall to Pink Floyd. A escola mudou e evoluiu, sim senhor.

Propósito

Aliás, eu me pergunto onde os autores do vídeo aprenderam a fazer rap. Com certeza não foi em uma escola, pelo menos não em uma escola de segundo e terceiro graus. Quem quer aprender cantar, ou procura escolas particulares ou aprende com instrututores particulares. O mesmo ocorre com as práticas esportivas. As escolas de ensino fundamental e médio podem até incentivar arte e esporte e exigir que os alunos pratiquem um pouco, mas se elas começassem a ensinar absolutamente tudo que as escolas particulares de artes e esportes ensinam, elas perderiam seu propósito.

E propósito é a palavra chave aqui.

O propósito de uma escola de ensino fundamental e médio (e seus equivalentes mundo a fora) não é ensinar criatividade: é munir o indivíduo com conhecimentos sobre línguas, matemática, ciências naturais, ciências exatas e ciências humanas. Estas ferramentas estão na base daquilo que um indivíduo precisa para entender o mundo ao seu redor e para ser capaz de começar um curso superior. E o propósito de um curso superior é a formação profissional, é ensinar uma profissão.

Ensino de criatividade

Também não cabe a nenhuma escola, nem às profissionais e nem às artísticas, ensinar criatividade. Não que elas tenham permissão para coibir a criatividade, pois não têm mesmo. Mas simplesmente não é o papel delas ensinar a criatividade, e digo isso por dois motivos: um porque criatividade não se ensina, e dois porque criatividade sem conteúdo não possui valor. A escola, portanto, dá o conteúdo, e cabe ao seu futuro portador usá-la para criar.

Todo mundo já sabe que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Mas o rap do peixinho doido desafia esta lei duas vezes: primeiro ele almeja fazer se perder tudo que se sabe sobre ensino, como se a mera destruição fosse possível (ou desejável) para dar espaço ao vácuo da geração espontânea que fará surgir o modelo escolar perfeito. E depois diz que o modelo educacional que ele vislumbra sem dizer qual é forma indivíduos prioritariamente criativos, sem espaço para o conteúdo, como se fosse possível para nós criar algo do nada. A criatividade é força transformadora, e não podemos transformar a ausência de conteúdo em novas tecnologias.

Talvez a escola perfeita do peixinho doido seja mesmo capaz de “formar” indivíduos cheios de ideias maravilhosas e descoladas: máquinas no tempo que nos permitem  conhecer nossos pais quando jovens, super naves espaciais que nos levariam a outros planetas ou mesmo à superfície do Sol e das estrelas, o remédio que cura tudo e tem gosto de amora (ou de nutella, se você preferir), a poção que faz as pessoas amar sempre e odiar nunca. Lindo e tocante! Super criativo! Mas sem conteúdo, não seriam capazes nem de desconfiar que são devaneios irrealizáveis.

Desacelerando a mente

Mais para frente, o rap do peixinho que sofria bullying por não saber subir em árvore reivindica: queremos indivíduos criativos, inovadores, críticos e independentes, capazes de se conectar. Oras!, criar e inovar sem conteúdo, já sabemos que não é possível. E para que uma pessoa seja crítica e independente ela precisa, antes de mais nada, de treinar sua mente.

A psicologia moderna tem convergido para a teoria dos dois sistemas: o rápido e “intuitivo” contra o lento e “deliberado”. O sistema rápido não avalia nada criticamente: apenas fornece respostas automáticas. É fácil imaginar porque seríamos seres mais dependentes se nos fiássemos mais nele do que nos fiamos. Esse sistema nos ajuda muito a sobreviver, resolve a maioria dos problemas simples gastando pouca energia e é mais sofisticado do que parece, mas para sermos capazes de pensar logicamente, de investigar fenômenos com profundidade, de abstrair funções para desenvolver tecnologias e de desafiar o senso comum para vencer as ideias equivocadas, precisamos do sistema lento.

Ocorre que o sistema lento, como qualquer sistema, se atrofia com pouco uso, mas fica forte e musculoso quando o exercitamos muito. O que os estudos linguísticos, as longas listas de matemática e física e as investigações em ciência nos fornecem é justamente tal treino. Se queremos ter um bíceps maior, fazemos três séries de dez supinos a cada três dias. E se quisermos um cérebro mais “lento”, precisamos de longas séries de gramática, cálculo e ciências diários.

Com um sistema lento fraco, usamos mais o rápido, que não questiona nada, que não aponta soluções, que não inova, que não cria, que não cuida de si direito e que depende dos outros demais.

Fico me perguntando como o sistema de ensino que não foca no conteúdo e no treino pode desenvolver criatividade, espírito crítico e desenvolvimento.

Aliás, também não se ensina a ser crítico. Não existe manual de independência intelectual, assim como não existe curso de criatividade. O que se ensina é conteúdo, e só ele pode ser ensinado. Ser criativo, inovador, crítico e independente é consequência de saber fazer o básico e de ter um cérebro “lento e deliberado”, bem treinado. O Ronaldinho Gaúcho só conseguia fazer jogadas geniais porque treinava o domínio da bola e o executava com maestria (podia não treinar marcação, recomposição etc, mas treinava faltas, domínio e coisas do tipo). Michel Jordan era o jogador que mais treinava arremessos nos times que jogava. Ambos dominavam a bola com tanta maestria, que conseguiam criar lances mágicos. Caso não possuíssem domínio tão grande da bola, não conseguiriam sequer imaginar o que fazer com ela. E é por isso que eles não treinavam criatividade, mas sim fundamentos. Mesmo que treinassem criatividade, se possível fosse, seria inútil: imaginariam lances inovadores, mas seriam incapazes de executá-los. Em breve, faço um post para explicar um pouco sobre aprendizagem motora e como podemos tirar lições dela sobre ensino e educação.

Eu tenho método

Notem como meu texto deixa claro aquilo que estou defendendo e que apresenta argumentos para defendê-los, ao contrário do vídeo. Alguém aí conseguiu descobrir, por exemplo, qual a solução que ele propõe para a escola, dados os supostos problemas apontados? Na verdade, o rap do santo advogado pós-moderno tentou desconstruir a escola, como se na natureza as coisas simplesmente se perdessem, e ainda por cima não propôs nada em seu lugar. Ele reivindicou mais criatividade e menos conteúdo, mas não disse como e nem provou que traria melhores resultados.

Não dá para levar a sério…

Prestem atenção! Eu, ao contrário do rapper, provo o que defendo, e estou provando que o conteúdo é fundamental e é o foco do ensino de qualidade. Em primeiro lugar porque o conteúdo é a matéria-prima sem a qual a criatividade não consegue criar, e em depois porque ao adquirir conteúdo, exercitamos nossos cérebros para se tornarem mais sábios, mais críticos e mais independentes.

ANALogias

Mais para frente, o rapper-réptil, que saiu da água para rimar, traz uma analogia que provou de vez que ele não passa de peixe fora d’água quando o assunto é ensino: a de que se todo médico receitasse aos pacientes o mesmo remédio da mesma forma que as escolas ensinam a todos os alunos o mesmo conteúdo, o mundo acabaria (oh!). Acontece que a analogia falha no exato ponto onde não deveria: medicamentos são tratamentos para condições anormais e patológicas excepcionais, mas o ensino lida com conhecimentos que ninguém tem e todos precisam. Ou estaria nosso rapper sugerindo que para uns alunos, o remédio é ensinar que 2+2=4, mas que outros só vão se tornar felizes, inovadores e conectados se aprenderem que 2+2=5?

Flexibilização

É lógico que é maldade minha supor que ele se referia à flexibilização do conteúdo, mas também não tenho culpa se o dr. acrítico não estudou o suficiente para compreender a diferença entre flexibilizar o conteúdo e flexibilizar o currículo. Por bondade, eu deveria supor que ele quis defender esta segunda flexibilização (na prática, arrisco dizer que ele não tem a mínima noção do que diz.) Mas isso não melhora muito a situação dele, pois o ensino já é bastante flexível no currículo, e a tendência é se flexibilizar cada vez mais. O ensino universitário permite que cada faculdade decida como ensinar as profissões de médico, engenheiro, linguista etc. E o ensino médio no Brasil e no mundo (o Brasil atrasou, mas chegou lá) permite que os alunos privilegiem certas disciplinas em detrimento de outras, de acordo com sua aptidões. Há flexibilidade: o peixinho pode focar nas aulas de nado e o macaquinho nas de pular de galho em galho.

Não podemos deixar de notar como ele também confunde alhos com bugalhos ao começar o vídeo questionando a estrutura da sala de aula e, sem mais ou menos, passar a criticar a já quase extinta rigidez curricular. Em primeiro lugar, são coisas diferentes. Mas ocorre que ambas se flexibilizaram bastante. Coitadinho do roteirista do vídeo, está boiando no assunto feito peixe morto.

Encerrando

Mas chega! Só analisei 2’40” do vídeo e olhem o tanto que já falei! Reconheço que não sou paciente e persistente o bastante para ir até o fim neste post (quem sabe faço uma continuação para exauri-lo?)

Por hora, encerro reconhecendo que muitas vezes o ensino e as escolas apresentam o conteúdo pelo conteúdo, sem vínculos com a prática. Todos os professores, eu incluso, são tentados a ministrar aulas nas quais ensinam a usar o martelo através de longas palestras, mas sem nenhuma prática. É verdade, e era de se esperar: não somos perfeitos. Mas o caminho certo é o do aperfeiçoamento das práticas pedagógicas, e não a completa desconstrução do modelo atual. Afinal, como dizia Lavoisier…

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