Os estagiários e estagiárias brasileiros e brasileiras estão sendo explorados e exploradas por seus patrões e suas patroas

É incrível como certas ideias são tão toscas que nem seus defensores as levam a sério. Militam por causas que, por lá no fundo saberem que são erradas, eles mesmos acabam negligenciando. Deem uma olhada rápida neste artigo sobre estagiários do Jusbrasil, que é um excelente exemplo.

Se você leu este texto, deve ter notado que seu autor procura dobrar as palavras com gênero: os homens e as mulheres que leem o texto devem se sentir todos incluídos e incluídas em seu discurso. Mas a questão que importa aqui é…

Por que será que proponentes desta prática como ele não levam a ferro e fogo as próprias recomendações?

Cá entre nós, desconfio que existem motivos machistas pelos quais só eliminam o machismo de algumas pouquíssimas expressões, ao invés de todas. Isso me faz até perguntar: será que podemos “problematizar” as omissões em neutralizar 100% do gênero em textos como este? Acho que sim, hein. Vamos tentar neste parágrafo abaixo extraído de lá:

Observa-se que, de um lado, existem aqueles interessados em aproveitar o baixo custo de estagiários e estagiárias, utilizando-os em substituição de técnicos e profissionais especializados, principalmente na área administrativa e de “office boy”. Sob o pretexto do “adquirir experiência”, os colocam para realizar tarefas, que, comumente, não mantêm qualquer vínculo com o curso e a prática profissional desejada pelo e pela estudante.

Problematizemos: por acaso só homens que são interesseiros? Mulheres também são, oras! Então que se coloque interessados e interessadas! E por acaso só homens são utilizados em substituição de técnicos? Lógico que não, que machismo é esse? Corrige também: utilizando-os e utilizando-as! E mulheres também podem ser técnicas e especializadas, ou até mesmo “office girls”. E não são só os homens que são colocados para realizar tarefas que não entendem, mulheres também são, sim senhor e sim senhora! Vejam um texto gender-free correto:

Observa-se que, de um lado, existem aqueles interessados e aquelas interessadas em aproveitar o baixo custo de estagiários e estagiárias, utilizando-os e utilizando-as em substituição de técnicos e técnicas e profissionais especializados e espacializadas, principalmente na área administrativa e de “office boy” e “office girl”. Sob o pretexto do “adquirir experiência”, os e as colocam para realizar tarefas, que, comumente, não mantêm qualquer vínculo com o curso e a prática profissional desejada pelo e pela estudante.

Assim ficou verdadeiramente gender-free. Agora ficou bonito de se ver, não? Antes, das 8 expressões com gênero do parágrafo, apenas 2 foram libertadas das garras maléficas do gênero. Mas agora sim, homens e mulheres estão em pé de igualdade, como nunca se viu antes “nessipaís”.

O artigo encerra então com a seguinte nota:

Espero que não incomode ler um texto que inclua palavras no feminino (estagiários e estagiárias), ao referir-se às pessoas. Faz parte de uma avaliação de que os artigos comumente excluem as mulheres (mesmo que sem intenção, mas por força de uma construção social).

Pois bem! Então por que o excelentíssimo não aplica tal recomendação a todo o seu texto? Mas é óbvio!, porque ele sabe que isso tornaria a leitura impraticável. Pessoas como ele vão apelar para desculpas bobas, como alegar que ele é um machista em desconstrução, que ainda não se livrou de todas as garras da cultura anti-mulheres. Outras, um pouco menos irrazoáveis, mas com argumentos tão ineficazes quanto, dirão que basta selecionar as palavras-chave do texto para torná-lo gender-free. Mas oras, desde quando a concepção de mundo desses pós-modernos dá à estética prioridade sobre a luta de classes? Desde quando neutralizar a parte neutraliza o todo? E pior: ao se selecionar os termos gender-free, não estaríamos criando novos supostos preconceitos, como mostrei acima?

Se pararmos para pensar como eles, poderíamos criar racionalizações tolas para afirmar até mesmo que a língua portuguesa é nociva aos homens. Ou, usando o mesmo raciocínio, que seria machista se o gênero feminino fosse o neutro.

Vejam bem, se alguém diz: “as alunas do colégio estavam insatisfeitas com a situação”, interpretaremos como um caso que deixou as mulheres insatisfeitas, mas os homens não, ao passo que se tal pessoa diz: “os alunos do colégio estavam insatisfeitos com a situação”, interpretaremos que todos estavam insatisfeitos, homens e mulheres, e não apenas eles. Para referirmos somente a eles, devemos dizer: “os alunos homens do colégio estavam insatisfeitos com a situação.”

Segundo a galera pós-moderna, isso é prova do machismo da língua portuguesa. Mas a verdade é que se fosse o contrário, se a afirmação no feminino fosse interpretada como se referindo a homens e mulheres e a no masculino como se referindo apenas a homens, essa mesma galerinha diria que a língua é… machista! Racionalizariam que as mulheres são seres invisíveis, sem direito a identidade própria. Tentam apagar a mulher da sociedade transformando falas no feminino em falas neutras, que podem se referir também a homens. Os homens são tão importantes que possuem um gênero só para eles e ainda são inclusos no das mulheres. Para nos referirmos a tais seres tratados como invisíveis e inferiores, temos que deixar claro que é este sacrilégio mesmo que queremos: “as alunas mulheres do colégio estavam insatisfeitas” é a única forma de dar voz às silenciadas.

De qualquer forma, se invertêssemos o gênero neutro no plural do masculino para o feminino, ou continuaríamos tendo desculpas para chamar a língua de machista ou, no pior dos casos, teríamos que reconhecer que a língua se tornou anti-homens. Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega.

Como se nota, é impossível agradar a todos (e todas rs) em uma língua na qual as palavras possuem gênero. Falássemos inglês, na qual pouquíssimas palavras possuem gênero (há exceções à regra geral como brother/sister), neutralizar os textos não provocaria estragos tão profundos à fluência da leitura. Mas falamos português, e ou aceitamos um gênero como o neutro, ou criamos uma nova classe de palavras sem gênero (um esforço que duvido que a as massas topariam) ou tornamos os textos ilegíveis.

Se ao menos as reivindicações de que existe machismo em fazer o plural de qualquer um dos dois gêneros ser o gênero neutro da língua fizessem algum sentido, e não fossem meras racionalizações, poderíamos cogitar em fazer algum esforço pelas opções que listei acima. Mas não é o caso… então vamos parar com a palhaçada?

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