Vamos à escola para nos divertir ou para estudar?

Uma aula super-divertida! Ebaa!!!

Em que fossa a pedagogia moderna resolveu se enfiar, hein?

Tyler DeWitt, um jovem e novato professor de biologia cheio de energia, descobriu que suas aulas não estavam ajudando os alunos em nada. Então, para os alunos ficarem felizes, ele “desenvolveu um método” super-criativo de “lecionar”: contar historinhas. Vejam ele performando um pequeno exemplo de sua aula super divertida e fazendo uma defesa dessa abordagem em uma palestra do TED, a maior plataforma mundial de viralização de ideias de jerico que esse mundo já viu.

Vamos “problematizar”:

  1. Ele fala devagar demais, com muitas pausas, e tende a prolongar as sílabas tônicas, e isso é muito anti-pedagógico (falarei mais sobre isso aqui no blog). Em suma, o ritmo lento nos faz perder o interesse, e o prolongamento das tônicas deixa o tom muito emotivo, fazendo-o perder a credibilidade. Se, assim como eu, você não tem paciência para ouvi-lo, você pode ler aqui a transcrição que o TED também oferece.
  2. Se os alunos estão lendo o livro didático e não estão entendendo nada, significa que o professor falha miseravelmente em fornecer aos alunos um bom vocabulário e boas ferramentas de interpretação. Ler é uma atividade torturante quando não sabemos o que significam aquelas palavras ali na nossa frente. Mas se o aluno fica preso quando se depara com trechos como “vírus injeta ácido nucleico”, significa que o professor não ensinou o que é ácido nucleico direito quando deveria ter feito isso. Ou não orientou os alunos a toda vez que encontrarem uma palavra ou expressão que não conhecessem, que deveriam buscar no livro (índice de palavras), ou mesmo na internet.
  3. Com a historinha da bactéria que estava doentinha quando percebeu que vírus estavam saindo dela, e que essa era a pior coisa que poderia lhe acontecer, o que ele espera que os alunos aprendam? Para começar, eleger as melhores ou piores coisas que podem acontecer não faz sentido algum! Porque ser destruída por um vírus é pior do que ser destruída por um anticorpo humano ou por falta de nutrientes? E esse tipo de informação, além de discutível e potencialmente falsa, é irrelevante. Afinal, quem se importa com o pior pesadelo de uma bactéria?
  4. A historinha para boi dormir também dá a entender que é tudo uma questão de ponto de vista, que não precisamos nos ater aos fatos, mas às versões. Dá a entender que o entendimento dos fatos não é importante, mas sim a existência de uma narrativa legal e “descolada”.
  5. A linguagem pouco técnica faz parecer que os termos científicos não são importantes, e perpetua um ciclo onde o baixo vocabulário é “contornado” diminuindo ainda mais os requisitos de vocabulário. O vocabulário técnico de qualquer área existe para facilitar a comunicação: torná-la mais rápida e mais precisa. Quando o professor decide relaxar neste ponto, está deixando claro para os alunos que vocabulário não é importante, e que eles podem se comunicar de maneira pouco eficiente e pouco clara sem problema algum. E eles levam isso para a vida, e para a sua profissão, e se tornam profissionais incapazes de se comunicar bem com os pares.
  6. O professor claramente subestima a inteligência de alunos de 13 anos. É possível conversar sobre qualquer assunto com uma criança de 8 anos. Eu mesmo já era capaz de entender qualquer coisa que me explicassem aos 13 anos, apesar de ter dificuldades em fazer isso sem ajuda ou em expandir e correlacionar com outros conhecimentos e fatos. Mas entender, eu entendia, e eu não sou nenhuma gênio. Vejam este trecho:

    Agora, outro problema era que a linguagem nos livros dos alunos era incompreensível. Se quiséssemos resumir essa história que contei a vocês há pouco, poderíamos começar dizendo algo como: “Estes vírus fazem cópias de si mesmos introduzindo seu DNA na bactéria.” A maneira como isso apareceu no livro era algo como: “Uma replicação de bacteriófagos é iniciada através da introdução do ácido nucleico viral na bactéria.” Isso é ótimo, perfeito para alunos de 13 anos.

    O vocabulário é compreensível sim senhor! Mesmo para crianças de 13 anos. E se elas estão encontrando dificuldades, que são normais, só existe um culpado: o professor que, como já falei, ou não ensinou o vocabulário direito, ou não orientou os alunos sobre o que fazer ao se deparar com palavras e expressões que não entenderam.

    Notem que a estrutura sintática é trivial: “X inicia através de Y.” Não tem como não entender! Indo mais a fundo, X significa “a replicação de bacteriófagos”. Replicação tem sentido de reprodução, este termo é relativamente fácil, e bacteriófago vem de bactéria + fagia, onde fagia é alimentar, ou seja, um ser que se alimenta de bactérias. E Y significa “introdução de ácido nucleico viral na bactéria”. Qualquer pessoa consegue entender que o ser que se alimenta de bactérias se replica através de um processo que começa com a injeção de ácido nucleico viral nessa bactéria. É simples! E o que significa ácido nucleico viral? DNA! Tragam-me uma criança de 13 anos normal que não é capaz de entender isso que apago o post.

    E o que dizer sobre o sarcasmo no final do parágrafo? Lamentável, mas este é o único argumento que ele apresenta para a ideia de que crianças de 13 anos não vão entender nada.

  7. A explicação dele é lenta demais. No vídeo, ele leva 4 minutos para contar sua historinha (veja na transcrição, que fica mais fácil). Esse raciocínio é muito, mas muito simples, e poderia ser explicado em um minuto. Em sala de aula, tempo é um recurso precioso, e ele propõe aos professores desperdiçá-lo com fábulas do tipo “10 coisas que você não queria que acontecessem com você se você fosse uma bactéria”. Não dá!
  8. Tyler não citou nada sobre o aprendizado efetivo dos alunos? Essa prática melhorou a qualidade do ensino? Em qual porcentagem? O tempo gasto a mais irá compensar a parte do conteúdo que ele não vai conseguir ministrar no fim do ano por ter usado tempo tempo demais com as historinhas? Ou ele não se preocupa em avaliar se seu “método de ensino” é melhor, ou ele omite tais informações por não ter tido bons resultados. Ou, pior ainda, ele acha que avaliações não medem conhecimento, e que a sensação subjetiva dele de que as aulas divertidas trouxeram melhores resultados é a única coisa que conta. De qualquer forma, tivesse ele obtido bons resultados mensuráveis com sua super técnica inovadora, teria sido a primeira coisa que ele diria no início do vídeo (“Imaginem melhorar o desempenho dos alunos em biologia e tornar as aulas mais divertidas ao mesmo tempo? Muitos achavam isso impossível, mas eu duvidei e descobri como, e hoje estou aqui para contar para vocês!” é como eu começaria o vídeo caso tivesse provas de que meu método é eficaz.)
  9. Por fim, Tyler dá sinais claros de ter carência afetiva. Parece um cachorrinho com a barriga para cima esperando que o dono faça cócegas. Own! É o tipo de professor que prefere fazer papel de bobo ou aprovar a turma toda do que ficar mal na fita com a turma. Ele deveria procurar uma profissão mais adequada, como tosador de poodles em pet-shops, pois um professor que se abala como ele porque uma aluna disse que não entendeu o livro texto não serve para lecionar. Simples assim.
Olá! Eu sou Tyler DeWitt, faz carinho em eu? hihihihi

Enfim, muitos me acusarão de que sou contra aulas divertidas, mas não existe nada mais falso. Uma aula pode ser um pouco divertida, desde que este recurso seja usado com sabedoria, seja para dar uma pausa em um raciocínio longo, seja para fazer uma introdução motivadora, seja para não deixar alguns trechos muito enfadonhos. Mas sempre em pequenas doses, não transformando isso em um verdadeiro “método de aula”.

Aliás, é notável como ele usa os termos “divertido” e “engajamento” durante a palestra. Não foi por acaso. Estas palavrinhas fazem parte do vocabulário da nova pedagogia, a pedagogia que se renova a cada dia pelo único prazer de se renovar, e que não nota que está se enterrando em uma fossa cada vez mais funda. A pedagogia que, incapaz de criar critérios objetivos para a avaliação de uma aula, cria critérios desastrados e obscuros como: “a aula foi divertida?”, “gerou engajamento?”, “o aluno foi convidado a refletir?” e outras besteiras do naipe. No próximo post da série sobre esse vídeo, comentarei mais sobre critérios para definir uma boa aula.

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Uma opinião sobre “Vamos à escola para nos divertir ou para estudar?”

  1. Meus deuses, eu já sabia que a educação nos States é um lixo, desde o tempo em que o Paulo Francis ainda era vivo, mas a estupidez humana nunca pára de me surpreender. Em vez de buscar uma fórmula para curar «the ADD generation», o professôr bocó preferiu “se adaptar ao ambiente”… Lamentável mesmo.

    Ainda bem que na minha infância não me apareceu qualquer chato-de-galocha para me convencer de que eu não poderia ler e escrever com fluência aos 5 anos, resolver equações de primeiro grau aos 7 anos, ou estudar Química Orgânica e Química Industrial aos 9 anos… Para mim, os 10 anos de “ensino” compulsório [era pra ser 11, mas a professôra Nilza achou um jeito de me passar da 2ª série primária para a 3ª no meio de 1971] foram, em essência, uma grande perda de tempo…… mas eu não teria como escapar dessa maravilha dos tempos “modernos”, o ensino público “gratuito” e *obrigatório*… Eu era apenas uma criança tímida cercada de crianças invejosas e de adultos estúpidos e ignorantes.

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