Apologistas cristãos mentem sobre o Dr. Avalos novamente

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Autor: Gilmar Pereira dos Santos do blog Rebeldia Metafísica
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Em janeiro deste ano, o site Logos Apologética publicou um texto pequeno, porém ambicioso em seus objetivos, intitulado Refutando Hector Avalos e sua interpretação de Lc. 14,26, assinado por um tal de Carlos Spitzweg. Pelo título e pelas credenciais do autor, que alega possuir três graduações (filosofia, teologia e ciências sociais), esperaríamos encontrar, no mínimo, objeções sérias, honestas e construídas segundo critérios mínimos de qualidade argumentativa, contra um ponto de vista defendido pelo Dr. Hector Avalos em um de seus livros. Como logo deixarei claro, entretanto, o autor, além de fracassar, seja por uma autoconfiante incompetência, seja por desonestidade deliberada, na tarefa principal a que se propôs, não chegando sequer a articular com fidelidade os argumentos com que o Dr. Avalos embasa seu ponto de vista, ainda atulhou seu texto com diversas informações errôneas sobre o Dr. Avalos, sua produção acadêmica e a repercussão de seu trabalho. Começarei pela correção de tais deslizes.

Antes de mais nada, mais do que apenas historiador, o Dr. Avalos é um acadêmico no campo dos ‘biblical studies’, ou seja, um profissional que realiza estudos interdisciplinares teóricos e empíricos sobre a Bíblia, empregando em seu trabalho recursos, técnicas e ferramentas de diversos domínios das ciências humanas e sociais aplicadas. A inadequação do rótulo de historiador também pode ser atestada pelo escopo da produção bibliográfica do Dr. Avalos, cujos títulos mais significativos são listados aqui.

Entre seus livros de maior repercussão estão “The End Of Biblical Studies”, cujo resumo feito por John W. Loftus para sua coletânea “The End Of Christianity” eu traduzi e publiquei no Rebeldia Metafísica, bem como “Fighting Words: The Origin Of Religious Violence”, do qual também publiquei a tradução de um capítulo no Rebeldia Metafísica. Ao contrário do que Carlos Spitzweig afirma, em nenhuma passagem sequer do Fighting Words a Bíblia é “equiparada” ao Mein Kampf de Hitler. O Mein Kampf é mencionado apenas nove vezes ao longo das 382 páginas do livro. A primeira menção ocorre no capítulo dedicado à discussão das defesas acadêmicas da violência islâmica, apontando para a ingenuidade dos que compram o discurso de luta anticolonial e antiimperialista dos radicais islâmicos (e de seus simpatizantes na inteligentsia ocidental) por seu valor de face, sem atentar para o fato de que a maior parte dos impérios veem-se como agindo meramente em autodefesa contra vizinhos belicosos. Avalos recorre ao Mein Kampf para ilustrar essa ideia, mostrando como Hitler racionalizara seus planos de expansão imperialista como uma luta contra o “colonialismo da elite financeira judaica” e contra uma imaginária aliança de nações devotada à destruição da Alemanha e controlada pelos judeus internacionais. De passagem, Avalos aponta também que a comparação de judeus com macacos está presente tanto no nazismo como no Islã.

As duas menções seguintes do Mein Kampf ocorrem, respectivamente, numa discussão sobre o empenho de apologistas cristãos em convencer seu público de que as doutrinas nazistas foram consequências lógicas naturais do darwinismo ateu, e numa investigação das palavras do próprio Hitler a fim de explicitar qual era sua ideologia racial. Aqui encontramos, naturalmente, citações de frases em que Hitler manifesta sua religiosidade, e em que trai as origens bíblicas de suas crenças. Mais detalhes sobre isso podem ser encontrados no artigo “O ateísmo não foi a causa do Holocausto”.

As demais menções, por fim, ocorrem num experimento mental que o Dr. Avalos propõe a fim de ilustrar seu argumento pelo banimento da vida religiosa de quaisquer escrituras que contenham violência religiosamente motivada. Ele pede que imaginemos o surgimento de uma nova seita autodenominada “Igreja Hitleriana” cujo texto sagrado seria o Mein Kampf, e em seguida nos pergunta se a defesa e a promoção de atos genocidas encontradas no livro seria uma razão suficiente para o repúdio enfático da adoção do livro como texto sagrado. E a primeira comparação é feita não com o Cristianismo, mas com o Islã, ao nos pedir para imaginar que os atos genocidas tivessem por alvo apenas algumas centenas de pessoas, como é dito que Maomé fez em Qurayza. Ao desenvolver seu argumento, o Dr. Avalos faz analogias com as estratégias apologéticas empregadas por monoteístas e religionistas em geral, não somente cristãos, como ao lembrar que alguém poderia objetar que o Mein Kampf também possui pontos positivos, como a promoção de valores familiares (Hitler considerava o casamento precoce uma solução para os problemas da sífilis e da prostituição). Ou seja, os alvos da comparação são, na pior das hipóteses, os textos sagrados de todos os três monoteísmos, não somente a Bíblia. E estou seguro de que nosso dublê de apologista não se indigna nem vê nada de extremo numa comparação entre o Mein Kampf e o Alcorão.

E não, o livro não é vangloriado apenas em “círculos antiteístas”; ele é positiva e criticamente avaliado (ou seja, tem suas méritos reconhecidos e suas falhas apontadas) por várias pessoas, acadêmicas ou leigas, engajadas no debate sobre o papel desempenhado pela religião na configuração do mundo contemporâneo, neoateus incluídos.

No que concerne às incorreções factuais, resta apenas dizer que o ponto de vista que o Carlos alegou ter refutado foi apresentado não no The End Of The Biblical Studies, mas no Fighting Words, no capítulo dedicado a discutir as defesas acadêmicas do Cristianismo contra as acusações de que atos violentos podem ser acarretados pelas crenças promovidas por seus textos sagrados.

Passemos agora ao ponto central do texto. Apresentarei resumidamente a tese do Dr. Avalos e os argumentos que a respaldam, e sem seguida discutirei brevemente a suposta refutação do Carlos.

O contexto da discussão é um capítulo dedicado a desconstruir o lugar-comum, impregnado na mentalidade ocidental por séculos de doutrinação apologética, segundo o qual o Cristianismo seria em sua essência uma religião de paz, amor e perdão. Avalos começa sua investida atacando a ideia de que o Novo Testamento exorta exclusiva ou essencialmente ao amor. Um desafio que tem se revelado insuperável para esta visão é colocado pelo versículo 26 do capítulo 14 do Evangelho de Lucas, onde as seguintes palavras são atribuídas a Jesus:

“Quem quer que venha até mim e não odeia seu pai e sua mãe, sua esposa e seus filhos, seus irmãos e irmãs; sim, até mesmo a própria vida, não pode ser meu discípulo.”

O tratamento usual dispensado pelos apologistas a esta passagem consiste no que o Dr. Avalos chama de “interpretação comparativa”: aqui, “odiar X” significa “amar Y mais do que X”. Contrariando o consenso apologético, Avalos monta um caso cumulativo em favor da tese de que não há nenhuma base textual, linguística, semântica, gramatical ou moral para rejeitarmos uma interpretação literal em favor da interpretação comparativa das palavras de Jesus registradas no versículo 26 do capítulo 14 do Evangelho de Lucas.

O argumento começa pela exposição dos procedimentos básicos empregados para se estabelecer o significado de uma palavra em qualquer língua antiga. Estes procedimentos consistem em a. procurar, para fins de comparação, outras expressões em que a palavra em questão ocorre; e b. consultar traduções para outras línguas.

A aplicação do primeiro procedimento revela  que em nenhuma de suas outras ocorrências na Bíblia o vocábulo grego ‘miseo’ possui este significado comparativo. Antes, seu significado como o exato oposto de amor, a ausência de qualquer amor acompanhada até mesmo de hostilidade para com seu objeto é inequívoco nas passagens abaixo:

Então a mulher de Sansão implorou-lhe aos prantos: “Você me odeia! Você não me ama! Você deu ao meu povo um enigma, mas não me contou a resposta!” Juízes 14:16

Odiai o mal, e amai o bem, e estabelecei na porta o juízo. Talvez o Senhor Deus dos Exércitos tenha piedade do remanescente de José. Amós 5:15

Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom. Lucas 16:13-14

Estas passagens servem também para testar a adequação da interpretação comparativa; tente substituir o verbo “odiar” por “amar… mais do que…” em qualquer delas e veja como o resultado soa bizarro. E a última passagem, retirada também do Evangelho de Lucas, depõe enfaticamente contra a interpretação comparativa, visto ter sido escrita pelo mesmo autor do versículo problemático.

A partir destas considerações o seguinte argumento linguístico e semântico pode ser formulado:

  1. Uma vez que ‘miseo’ é interpretado literalmente como o oposto de amor (= ódio) em todos os trechos da Bíblia em que ocorre;
  2. e como não há nenhuma outra indicação de que ‘miseo’ não deve ser tomada em seu sentido literal em Lucas 14:26;
  3. ‘miseo’ muito provavelmente significa o contrário de amor em Lucas 14:26.

Há também o fato de que a língua grega possui modos bastante específicos para a construção de expressões comparativas, e não há o menor indício gramatical destes modos no versículo em questão.

Outra maneira de evidenciar a arbitrariedade desta interpretação consiste em sugerir que, se Jesus empregou ‘amor’ e ‘ódio’ significando as intensidades relativas de um mesmo sentimento em relação a objetos distintos, poderíamos igualmente interpretar ‘amar x’ como ‘odiar x menos do que y’. “Amar a Deus sobre todas as coisas” seria, então, equivalente a “Odiar mais todas as demais coisas do que a Deus”; mas certamente nenhum apologista está disposto a arcar com esta consequência.

Alguns defendem a interpretação comparativa dizendo que os leitores de Lucas compreenderiam o versículo em questão a partir da leitura de Mateus 10:37, onde lemos:

“Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.”

Há duas maneiras igualmente efetivas de objetar contra explicação. Numas delas mostramos que não é razoável assumir que o autor do evangelho de Lucas esperasse que seus leitores conhecessem o Evangelho de Mateus e tivessem em mente Mateus 10:37 a fim de interpretar Lucas 14:26 à luz daquele versículo. Antes, é mais razoável assumir que um autor empregue as palavras no sentido em que são compreendidas por seu público-alvo, e o termo ‘miseo’ possui um sentido robusto e consistente, pouco flexível e não sujeito a grandes variações. Lembremos ainda que Lucas 13:16, em que a palavra ódio também é empregada, satisfaz perfeitamente esta expectativa.

Na verdade, tendo-se em mente que os estudiosos do NT reconhecem que as fontes utilizadas pelos autores dos evangelhos de Mateus e Lucas coincidem parcialmente, e que Mateus costumava altera-las retirando, acrescentando ou substituindo palavras, o mais provável é que o autor de Mateus tenha suavizado o tom ríspido e agressivo presente na fonte original que serviu de inspiração tanto para Lucas 14:26 como para Mateus 10:37.

Outra maneira possível de minar esta explicação é citar outros versículos dos evangelhos em que são atribuídos a Jesus ditos e feitos facilmente interpretáveis como corrosivos dos valores familiares em voga em sua época, e que, assim como Mateus 10:37, por tratarem da relação adequada entre a atitude para com questões de fé a atitude para com os familiares, também poderiam servir de base para a interpretação de Lucas 14:26. A Jesus são atribuídas as palavras de que ele veio para trazer uma “espada” que dividirá as famílias (Mat. 10:34-39). Quando informado de que sua mãe e irmãos aguardavam por ele do lado de fora, Jesus rejeita seu privilégio como membros de sua família “natural”, afirmando em vez disso que aqueles que fazem a palavra de Deus são sua família (Mat. 12:46-49; Lucas 8:19-21; Marcos 3:31-35). A mulher que brada para Jesus “Abençoadas as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!” é corrigida pela resposta de Jesus: “Abençoados, antes, os que ouvem a palavra de Deus e a observam!” (Lucas 11:27-28). Mais importante de todas são duas passagens nos Evangelhos: os versos elogiando os seguidores de Jesus que se tornaram “eunucos por amor ao Reino dos Céus” (Mat. 19:10-12).

Acredito que os parágrafos acima não deixam dúvidas de que uma interpretação não-literal de Lucas 14:16 não possui a menor plausibilidade, seja sob o aspecto semântico, seja gramatical, seja textual, e que qualquer das estratégias utilizadas em defesa da interpretação não-literal, ao contrário da aceitação da interpretação literal pura e simples, possui efeitos colaterais indesejados e insolúveis. Isto considerado, qual seria a razão para a insistências dos apologistas neste ponto? A resposta parece estar em nossa reação moral à interpretação literal; consideramos moralmente inaceitável o ódio aos pais, mesmo quando comandado por um deus encarnado. Mas significados linguísticos não podem ser estabelecidos com base em critérios morais; não podemos projetar nossa moralidade sobre o autor do texto (ainda que os partidários desta solução insistam, argumentando em círculo, que nossa moralidade é derivada das palavras do autor). Se a moralidade do leitor fosse um critério válido para o estabelecimento do significado de textos antigos, poderíamos alterar o significado de praticamente qualquer texto antigo, não somente da Bíblia.

Para finalizar o caso, acredito que o seguinte desafio seja suficiente para fazer ver aos inflexíveis a irracionalidade de sua recusa em aceitar a interpretação literal: poderiam nos dizer que palavras Jesus teria empregado se quisesse dar a entender de forma inequívoca que seus seguidores deveriam odiar suas famílias para ser seus discípulos? Também acredito que a equipe do Logos Apologética não terá dificuldades em responder a esse desafio, visto que pelo menos um de seus integrantes possui conhecimentos do grego antigo amplos o suficiente para comparar os pontos positivos e negativos de diferentes traduções da Bíblia.

Terminada a exposição do argumento do Dr. Avalos, não há muito o que comentar sobre os parágrafos confusos e indignados (confusos, porque indignados, provavelmente) que o dublê de apologista pretende empurrar goela abaixo de seus leitores como uma refutação. A demonstração de que nas três outras ocorrências de ‘miseo’ na Bíblia a palavra deve ser entendida literalmente como ódio é dada pelo resultado bizarro do emprego a interpretação alternativa nestas ocorrências. Nosso dublê de apologista ainda bufa e espuma ao atribuir ao “fundamentalismo” de Avalos sua afirmação de que a palavra miseo, diferentemente de outros termos gregos, não é semanticamente flexível ao ponto de poder ser interpretada como convém aos apologistas. De minha parte, prefiro atribuir esta afirmação do Dr. Avalos à sua ampla experiência adquirida com o contato direto com textos gregos antigos de diversos corpora, não somente do corpus bíblico. Mas como preferências expressam, obviamente, apenas preferências, e temos aqui uma questão factual, deixo a cargo de nosso dublê de apologista a tarefa de consultar um dicionário de grego antigo e constatar com seus próprios olhos a veracidade da afirmação do Dr. Avalos.

Gostaria de terminar este texto, que acabou saindo maior do que eu esperava a princípio, como sói quando se combatem mentiras, calúnias e desonestidades, expressando meus mais sinceros desejos de que algum dia os indivíduos responsáveis pelo Logos Apologética hajam de fato para com aqueles de cujas ideias discordam e combatem em conformidade com uma leitura literal do ensinamento expresso em Mateus 7:12:

Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas.

Ou eu estaria sendo fundamentalista, ingenuamente utópico e desconsiderando a “orientação dramática” do texto ao esperar isso?

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