Falácias: Argumentos Irrelevantes

“Estas falácias têm em comum o fato de falharem a prova de que a conclusão é verdadeira.” Essa é a explicação para o termo “Falhar o Alvo” que é encontrada em quase qualquer guia de falácias lusófono na internet. Contudo, eu não gosto muito nem dessa definição para agrupar as falácias sobre as quais vou falar aqui hoje, pois ela é muito genérica e engloba a maioria dos argumentos possíveis.

Os erros apresentados pelos guias de falácias sob tal definição nos levam a uma definição diferente, que é essa que vos apresento: “Falhar o Alvo é usar premissas ou uma conclusão não suportam a ideia que se deseja estabelecer. Esta é uma falácia informal, pois podemos apresentar um argumento sólido em favor de algo que não nos ajudará naquilo que queremos provar. Em outras palavras, esta falácia representa a própria violação do Princípio da Relevância sobre qual já falei aqui no blog (ver link na figura).


E pensando dessa forma, também penso que o termo “Argumentos Irrelevantes” é muito mais adequado do que “Falhar o Alvo”, tal como visto nos manuais de falácias. Pensando nos argumentos usualmente conhecidos como falhas ao alvo como sendo na verdade irrelevantes, fica muito mais fácil entender onde realmente erram. Neste artigo, irei apresentar as quatro formas básicas de ser irrelevante (ou de falhar o alvo):

  1. Conclusão Irrelevante
  2. Red Herring
  3. Espantalho
  4. Petição de Princípio

A Conclusão Irrelevante é conhecida também como Ignoratio Elenchi. Trata-se do caso em que o argumentador chega a uma conclusão diferente da que pretendia. Em outras palavras, a conclusão não tem relevância para o assunto em discussão. É diferente do famoso Non Sequitur porque este é uma falha formal: a conclusão não se segue logicamente das premissas. É diferente também do famoso Red Herring, pois este tenta acertar o alvo usando raciocínios irrelevantes na discussão.

Veja bem, uma pessoa pode argumentar que: “Devemos liberar o uso da maconha porque o tráfico desse entorpecente gera problemas sociais que não podemos mais tolerar.” O erro desse raciocínio é que o argumento não prova que devemos liberar o uso da maconha, mas que devemos mudar a política de entorpecentes de alguma forma. Alguma pessoa pode responder: “Sim, já passamos da hora de nos livrarmos dos problemas sociais causados pela maconha, e acredito que triplicar a verba de segurança pública seria a forma mais eficaz de se alcançar este objetivo.” O argumento inicial “apoia” duas ideias completamente distintas: a de que se deve legalizar o uso da maconha e a de que se deve aumentar gastos com segurança. Ou seja, na verdade ela não apoia nenhuma solução específica, mas sim que alguma solução deve ser encontrada.

Outra pessoa pode argumentar que: “Devemos liberar o uso da maconha porque se trata de um produto natural. Não podemos impedir as pessoas de consumir produtos que podem ser encontrados livremente na natureza!” O problema desse argumento é um tanto quanto óbvio: o fato de um produto ser natural ou sintético não diz absolutamente nada sobre qual a política mais adequada de controle de uso.

A grande dificuldade que encontramos aqui é: ele se trata de um Red Herring ou de um Non Sequitur? Difícil dizer. Por um lado, podemos dizer que a principal falha dele é que a procedência não é fator relevante na discussão sobre políticas de entorpecentes, mas que se fosse relevante, então estaríamos certos em legalizar. Se pensássemos assim, diríamos que isso é um Red Herring. Por outro lado, podemos dizer que não importa se a procedência é relevante ou não, mas que não podemos concluir logicamente qual a política mais adequada do fato de ser natural ou sintética. Se pensássemos assim, diríamos que isso é um Non Sequitur.

Eu fico particularmente inclinado a pensar que o problema de descontinuidade entre premissas e conclusão são decorrência direta do problema de irrelevância, mas podem haver divergências. Traduzindo para uma linguagem mais acessível, penso que existe um Non Sequitur em decorrência do Red Herring.

E é justamente por razões como essa que não aconselho as pessoas a decorar nomes de falácias. O mais importante é entender quais são os erros de um argumento e saber como expô-los, independente de saber exatamente qual o nome de falácia mais adequado para taxá-lo.

Existem textos afirmando que a Falácia Genética é um tipo de Conclusão Irrelevante, entretanto mais uma vez não concordo. Uma Falácia Genética se parece mais com um raciocínio falho do que com um raciocínio que almeja um objetivo diferente do proposto. 

A Falácia do Espantalho é praticamente a mesma coisa: ataca-se uma ideia diferente da que está sendo proposta. A única diferença está na atitude do falacioso: ele ataca algo diferente, mas não faz simplesmente isso. Em resposta a um argumento com o qual foi confrontado, a pessoa primeiro cria uma versão distorcida ou mais leve e só então responde. A resposta, obviamente, será irrelevante, mas a classificação como Falácia do Espantalho é mais adequada. É como alguém que responde ao primeiro exemplo que apresentei: “Você não tolera os problemas sociais porque deseja viver em um mundo perfeito. Nem tudo neste mundo é perfeito e legalizar a maconha é uma ilusão de que podemos resolver todos nossos problemas. Não seja tão ingênuo!” O argumentador lá em cima não queria resolver todos os problemas do mundo, então criticá-lo por tentar fazer isso é irrelevante nesta questão. E o autor do argumento distorceu a ideia original para que tal crítica pudesse surgir efeito. Como o argumento dele, apesar de falacioso, é sólido, se alguém comprar a ideia de que o argumento refutado foi o original, teremos sérios problemas.

A Falácia do Espantalho ocorre quando se ataca uma ideia distorcida e enfraquecida, o que implica necessariamente na apresentação de um argumento irrelevante. Deve-se tomar bastante cuidado, porém, pois a mera reorganização estética de um argumento não implica na “confecção” de um espantalho. Deve-se tomar cuidado também com casos onde a pessoa interpreta mal um argumento e responde baseada no equívoco. A Falácia do Espantalho envolve um esforço deliberado em enfraquecer a ideia original – mesmo que a pessoa não note conscientemente que está fazendo isso. Normalmente é fácil notar quando a pessoa se enganou ou quando ela consciente ou inconscientemente tentou enfraquecer o argumento. Nos demais casos, age-se com parcimônia e concede-se o benefício da dúvida. Por esses motivos, o Espantalho também envolve violações no Princípio da Caridade.

Metaforicamente falando, a Conclusão Irrelevante é como mirar no bandido e acertar no refém. Já a Falácia do Espantalho é como ter o objetivo de balear o bandido mas mirar um elefante, que é mais fácil de acertar. O Red Herring é como mirar o bandido e disparar um tiro de festim, completamente inofensivo, apesar de ter ido na direção certa. A Petição de Princípio, última da lista, segue a mesma metáfora do Red Herring, mas age de maneira diferente.

Esta falácia também é conhecida como Raciocínio Circular… e este nome é bem mais esclarecedor. Ela ocorre quando a premissa pressupõe a conclusão. Um exemplo clássico é a ideia de que a Deus existe porque a Bíblia diz que sim e que Bíblia é verdade porque é a palavra de Deus. Vamos organizar isso de forma silogística para entendermos melhor:

1. Tudo o que Deus diz através da Bíblia é verdade.
2. A Bíblia diz que Deus existe.
3. Logo, Deus existe.

O problema aqui é que a primeira premissa pressupõe que Deus exista de antemão. Ora, se a primeira premissa é verdadeira, então do que adianta a segunda premissa? Ela não soma em mais nada! Se sabemos que tudo que Deus diz é verdade então sabemos que Deus existe: como pode algo que não existe dizer a verdade? Se reescrevêssemos a primeira premissa como “Se Deus existe, tudo que ele diz através da Bíblia é verdade”, o argumento perderia em solidez e ficaria pior ainda.

E todos concordam comigo que é intrigante saber que um erro tão grosseiro seja tão popular. Mas parando para pensar, podemos ver o porquê.

O grande problema aqui é que este argumento tem coerência interna e por isso muitos insistem em não enxergar erro algum. Ele de fato é sólido. Se Deus existe e tudo que ele diz é verdade, então é verdade quando ele diz que existe através da Bíblia. A grande falha é, entretanto, julgar que ele existe por que existe um livro atribuído a ele dizendo que ele existe. A verdade que devemos ter em mente é que se tal livro realmente foi escrito por ele, isso por si só já seria indício suficiente de sua existência mesmo que o livro não dissesse que ele existe. Veja bem, se você acredita firmemente que Deus escreveu a Bíblia, então que diferença faz se está escrito nela que Ele existe ou se não está escrito? Nenhuma! E se não faz diferença, então é irrelevante na investigação sobre sua existência! Se essa informação não acrescenta em nada, então ela não acrescenta em nada, oras!

Saliento que a apresentação deste argumento é meramente ilustrativa: apesar de existirem muitos cristãos que pensam assim, ele não se trata de um argumento padrão nas doutrinas cristãs. Além do mais, a acusação de falácia aqui não implica na inexistência de Deus, apenas que se ele existe não poderemos saber disso porque lemos na Bíblia.

Reiterando, a teimosia se esbaldará no fato de que a Petição de Princípio é capaz de fabricar ideias que possuem coerência interna. Mostrar que o argumento é circular pode não ser convincente o bastante. Uma alternativa que proponho é construir uma paródia do argumento falacioso apresentado e perguntar à pessoa porque o raciocínio dela não é convincente em outros casos mas que é convincente no caso dela. Neste caso, o adversário pode recorrer a algo que chamo de Autismo Retórico, que nada mais é do que simular a existência de uma Falsa Analogia. Mas neste caso, eu desistiria. A completa ignorância é resistente até ao melhor dos argumentos.

Glossário:

  1. Argumento Irrelevante: usar premissas ou uma conclusão não suportam a ideia que se deseja estabelecer.
  2. Conclusão Irrelevante: A conclusão das premissas não é relevante na discussão.
  3. Red Herring: As premissas é que não são relevantes na discussão.
  4. Non sequitur: Ausência de ligação entre premissas e conclusão. Não é um argumento irrelevante, apesar de ser bem parecido, se tratando na verdade de uma falácia formal.
  5. Espantalho: Argumentar contra uma versão enfraquecida da proposta do adversário.
  6. Petição de Princípio: Usar a própria conclusão como premissa dela mesma.

Referências:

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