Estamos à beira de uma teocracia?

Líderes religiosos ditando regras em todas as esferas da administração pública brasileira. Projetos de lei que visam limitar, ou manter limitadas, diversas liberdades individuais. Frentes parlamentares que se dizem defensoras da moral e dos bons costumes, mas que são compostas majoritariamente por políticos com processos criminais.

A laicidade do Estado Brasileiro tem se encontrado sob constante ataque dos teocratas, e eles são cada vez mais influentes. Se você ainda não parou para pensar sobre o assunto, é melhor prestar atenção no perigo que isso representa!

A parcela secularizada da população brasileira tem se mostrado bastante preocupada com o avanço de ideais religiosos dentro da política nacional, sendo que os mais exaltados acham que estamos prestes e sermos engolidos por uma teocracia. Faço este post para analisar a preocupação deles e mostrar que estão fazendo tempestade em copo d’água.

Vamos estudar o caso do casamento entre pessoas do mesmo sexo. É notável o avanço dos direitos dos homossexuais brasileiros nos últimos anos, e não o retrocesso. E tal avanço prova que, no fim das contas, a bancada evangélica perdeu espaço. Contudo, muita gente diz que a bancada tem crescido. Crescido como, cara pálida, se uma de suas maiores lutas está sendo perdida? Acontece que pessoas na política que se opõem ao casamento gay sempre existiram e não são novidade alguma, eles não surgiram ontem. Eles apenas estão mais barulhentos ultimamente, justamente porque estão vendo os seus objetivos cada vez mais próximos de serem frustrados.

Parece contraditório, mas não é.

Posso dar como exemplo o psicólogo Steven Pinker, que acredita que o mundo está cada vez menos violento, mas que temos a ilusão de que o contrário é verdadeiro por causa da cobertura da mídia. Resumidamente, ele argumenta que quanto maior a exposição, mais achamos que o evento é comum. Pensando por analogia, fica fácil perceber que quanto mais barulho a bancada cristã faz, maior a impressão que temos que eles estão avançando politicamente. Na verdade, trata-se apenas de outra ilusão.

Os religiosos têm perdido em outras frentes de atuação também. Depois que perderam a briga contra o divórcio, perderam a briga contra inseminação artificial, estão prestes a perder contra casamento homossexual, a batata deles está esquentando na questão do aborto e já se vislumbra a legalização da maconha no horizonte. A ampliação da lei contra o preconceito por cor e religião para que englobe também idosos e homossexuais tem sido segurada, mas não sei por quanto tempo mais irão conseguir. A questão da cura gay está tão longe de ser readmitida pelos psicólogos que nem me preocupo com a possibilidade. Enfim, eles estão perdendo espaço há muito tempo mas, como são escandalosos, ficamos na ilusão de que estão ganhando espaço.

Vamos ver o caso da cura gay. É amplamente sabido que o que eles desejam é, de fato, cura gay, apesar de negarem isso com inúteis jogos semânticos (ver observação no rodapé). O que Marco Feliciano fez para conseguir a aprovação disso foi simplesmente dar um parecer positivo da CDHM usando de artifícios políticos e de abusos de poder, sendo que o projeto de lei ainda tem um longo caminho pela frente até ser aprovado. E provavelmente não será. Uma atitude de puro desespero como a de Feliciano – dar de forma autoritária um parecer até certo ponto inútil – trai uma bancada que está crescendo ou uma que está diminuindo?

Leis cívicas de moral e bons costumes são outro grande exemplo. Estão sempre tentando passar leis que visam restaurar a moral da família mas faz anos que não conseguem passar nenhuma em âmbito nacional. Pelo contrário, a noção rígida de família formada por pai, mãe e filhos está dando lugar a noções mais modernas de famílias. Se os parlamentares estão fazendo alvoroço com isso e veiculando ataques aos diversos tipos de família em horários eleitorais gratuitos é porque a coisa está ficando feia. Analogamente, professores que promovem orações de qualquer tipo durante o horário de aula estão sofrendo punições, de modo que quem deseja orar na escola deve se reunir em grupos próprios em horários adequados. Não vejo avanço nenhum de políticas cristãs aqui também, só retrocesso.

Se as políticas públicas apontam na direção contrária do imaginário popular da parcela secularizada de nosso povo, os resultados eleitorais parecem concordar com eles: é notável o crescimento da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) nas últimas eleições. A este respeito, seria difícil apresentar números que comprovem o aumento (ou a queda ou mesmo a estagnação) de parlamentares que foram eleitos especificamente graças às religiões, então infelizmente devemos partir para uma análise um pouco subjetiva aqui. Digo isso porque um pequeno aumento no número de pessoas que votam em candidatos cristãos pode ter levado a uma adesão em massa de parlamentares que não foram eleitos pelo “voto cristão” mas que estão de olho nele para as próximas eleições. Enfim, difícil saber até que ponto o aumento da FPE foi causado pelo aumento do número de pessoas votando em padres/pastores.

E mesmo assim, o crescimento da FPE me parece um tanto irrelevante. Em primeiro lugar porque os jogos políticos alí dentro são muito turbulentos, a denominação que tem força hoje já está fraca amanhã, pastores mudando de igreja, enfim, muita baderna, o que dificulta a manutenção de uma equipe forte e unida em seus ideais. Além disso, a maioria deles é despreparada e só consegue votos na base do grito. Quem aparece mais fazendo o discurso mais chamativo vence. Isso cria um verdadeiro exército de incompetentes esforçados e, como sabemos, pessoas assim possuem um verdadeiro ímã para o fracasso total em praticamente tudo que fazem (conseguir apoio dos igualmente incompetentes é a mais notável exceção). Visto isso tudo e o próprio fato de estarem falhando na conquista de seus objetivos, não vejo como o crescimento da FPF possa ser indicativo de seu sucesso.

Se os cristãos estão fracassando, como falar que “eles são cada vez mais influentes”, como afirma o Canal Papo de Primata (vídeo que abre o post)? Eles estão cada vez mais barulhentos e desagradáveis, não cada vez mais influentes. E sem influência, como os que são ainda mais exagerados podem afirmar que estamos próximos de uma teocracia? Felizmente, estamos cada vez mais longe!

É verdade que precisamos de um discurso que alerte as pessoas contra os males da influência de qualquer tipo de ponto de vista religioso nas decisões do estado (inclusive do ateísmo), mas isso não significa que podemos criar uma tempestade em copo d’água. No meu ponto de vista, tal atitude soa como uma mentira que visa forçar as pessoas a odiarem as religiões. Mas a sociedade não precisa odiar as religiões, apenas entender o que são e o que representam os ideais seculares. Então, por favor, paremos com esse papo mole, ok? Vamos alinhar o discurso em torno de argumentos e não de dramas baseados na barulheira histérica promovida pelos pastores desesperados.

Observação:

Aqui fujo um pouco do assunto para tratar da cura gay sem quebrar a linha de raciocínio do texto principal. Desejo aqui demonstrar a minha alegação de que quando os religiosos declaram lutar pelo direito das pessoas de escolherem sua sexualidade estão meramente promovendo jogos semânticos. Uma pergunta simples nos ajuda a esclarecer a questão: Será que algum religioso aprovaria um psicólogo dando tratamento para um heterossexual frustrado que quer virar gay? Se não aprovariam, seja qual for o motivo, cai por terra o discurso de que lutam pela liberdade de escolha e não pela cura gay.

E não se enganem, a busca pela cura gay não é somente ideológica. Não se esqueçam que muitos pastores poderiam explorar comercialmente a situação. Ao que parece, certos pastores vislumbram um mercado no qual temos um preconceito sendo disseminado para causar sofrimento psicológico nas pessoas, as forçando a buscar tratamento especializado. E isso é simplesmente desumano.

Anúncios

Quer fazer um comentário?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s