Medo do Conhecimento – Parte 2: O Fato-Construtivismo

Fala galerinha do mal!

Na primeira parte desta série apresentei uma Introdução ao Relativismo Pós-Moderno, onde, além de fornecer os conceitos básicos, defini as três formas do construtivismo: a dos fatos, a das justificações e a das motivações pragmáticas. Na continuação da primeira parte eu contei a história do Embuste de Sokal e os principais motivos que levam uma pessoa ao pós-modernismo. Na segunda parte irei tratar da primeira das três formas de construtivismo: a dos fatos, também chamada de fato-construtivismo, sendo conhecida como a mais radical e a mais contra-intuitiva. Paul Boghossian, cujo livro Medo do Conhecimento está sendo usado como base para esta série, propôs a seguinte definição:

Segundo o fato-contrutivismo, é uma verdade necessária acerca de qualquer fato que ele só prevalece porque nós humanos o construímos de um modo que ele reflete nossas necessidade e interesses contingentes.  Essa visão se ergue em oposição ao fato-objetivismo, segundo o qual muitos fatos sobre o mundo prevalecem inteiramente independente dos seres humanos. pg. 47, ed. brasileira

Um fato-objetivista irá afirmar que  fatos como “existem montanhas” e “átomos possuem elétrons” são independentes de mentes. O fato-objetivismo, entretanto, não está comprometido com nenhum conjunto de fatos independentes de qualquer mente e nem com a obrigação de apontar todos eles, apenas com a tese de que eles existem.

A primeira grande objeção ao fato-construtivismo é que o universo existe desde antes de nós humanos. Como podemos construir fatos cuja ocorrência precedeu a nossa? Tal objeção é conhecida como Problema da Causação. Ela faz bastante sentido quando vemos o exemplo dado pelo sociólogo construtivista Bruno Latour que, ao analisar a notícia de que cientistas desconfiavam que Ramsés II (que morreu em 1213 aC) havia morrido de tuberculose, respondeu não ser possível uma pessoa morrer de tuberculose naquela época já que o bacilo só foi descoberto em 1882 dC por Robert Koch. Segundo Latour, afirmar que Ramsés morreu de tuberculose é como afirmar que morreu com tiros de uma metralhadora! Latour chega a firmar que: “Antes de Koch, o bacilo não tinha existência real.” Na verdade, o bacilo já existia há muito tempo e não foi porque Koch o descobriu que ele ganhou existência real. A doença e a forma como construimos a figura do doente em uma sociedade são coisas completamente distintas, de modo que não teria como Ramsés ter vivido seus últimos dias como um tuberculoso dos tempos modernos, mas existe uma diferença enorme entre isso e dizer que ele não teve tuberculose de forma alguma. Além do mais, metralhadoras não poderiam existir factualmente naquela época, mas bacilos da tuberculose sim, então como afirmar que Ramsés morrer metralhado é tão absurdo quanto morrer de tuberculose?

Uma outra objeção envolve uma teoria que suporta o fato-construtivismo chamada Dependência de descrição dos fatos, defendida por autores como Nelson Goodman e Richard Rorty, e que pode ser definida assim:

Necessariamente, todos os fatos dependem de descrição: não pode haver um fato quanto ao modo como as coisas são no mundo independentemente de nossa propensão a descrever o mundo como sendo de um certo modo. Uma vez que adotamos um esquema específico para descrever o mundo, então passa a haver fatos sobre o mundo. – pg. 51, ed. brasileira

Um argumento à Dependência de descrição dos fatos é oferecido por Rorty: a Relatividade social das descrições, que diz o seguinte:

[…] descrevemos as girafas como fazemos, como girafas, por causa de nossas necessidades e interesses. Falamos uma língua que inclui a palavra “girafa” porque convém aos nossos propósitos fazer isso. […] Todas as descrições que damos das coisas são convenientes aos nossos propósitos. […] A linha entre uma girafa e o ar circundante é clara o bastante se somos seres humanos interessados em caçar para comer carne. Se você é uma formiga ou uma ameba dotada de linguagem, ou um viajante espacial descrevendo-nos de cima, essa linha não é tão clara, e não é tão claro que você precisaria ou teria uma palavra para “girafa” em sua língua. – Richard Rorty, Philosophy and Social Hope.

A tese da Relatividade social das descrições é bem difundida porque basicamente está correta em partes. Realmente as nossas descrições mantém uma forte relação de dependência com nossas mentes e com nossos interesses práticos. Mas isso não quer dizer que 1) dependem apenas disso e que independem das coisas como elas são e que 2) não existe nenhum fato real no mundo que corresponda à descrição. Em outras palavras, não é porque as descrições são influenciadas pelo indivíduo que a adota que a descrição não se refira a um fato real, não é por isso que os fatos só são fatos quando descritos por uma mente. Desta forma, Boghossian afirma que a Relatividade social das descrições não é capaz de amparar a Dependência de descrição dos fatos.

Mas os fato-construtivistas não se dão por vencidos. Nelson Goodman tentou uma cartada ao refletir sobre o conceito de constelação. Segundo ele, não podemos dizer que uma dada constelação, digamos o Grande Carro, sempre existiu e que estava ali só esperando para ser descoberta. Se é assim, qualquer subconjunto de estrelas deveria ser considerado uma constelação, o que é absurdo. Segundo ele, o mesmo vale para qualquer outro conceito. Chamemos isso de Analogia da Constelação.

Entretanto, constelação é definido como formações arbitrárias de estrelas, sendo assim pertencente a uma classe de conceitos que sempre dependerão da existência de mentes. Vejam bem, as estrelas que formam o Grande Carro existem independentemente de nós e não possuem nenhuma ligação especial entre si, salvo a coincidência de parecerem uma forma comum para nós humanos quando vistas de onde nós humanos estamos. As constelações só existem, portanto, enquanto mentes forem capazes de abrigar tal conceito dentro de si. Isso vale para objetos como dinheiro, presidente etc. A matéria que os compõem existem de forma independente de nossas mentes mas a sua percepção como tais só faz sentido quando pudermos reconhecê-los como tais. Montanhas, átomos e girafas definitivamente não são análogos a constelações, dinheiro e presidentes, portanto a argumentação de Goodman falha.

Nelson Goodman apresenta outro argumento, o Argumento do Cortador de Biscoitos, a favor de sua tese. Segundo ele, recortamos a realidade como recortamos biscoitos, escolhendo a maneira mais conveniente de traçar linhas que delimitam o que desejamos. Mas este argumento acaba advogando contra o fato-construtivismo. Vejamos: nós pegamos um monte de moléculas, traçamos uma linha ao redor e dizemos que é um planeta. Pegamos um monte de átomos, traçamos uma linha ao redor e dizemos que é uma molécula. Pegamos um monte de partículas, traçamos uma linha ao redor e dizemos que é um átomo. Mas ora, quando levarmos mais adiante estas iterações chegaremos a algo que exista por si mesmo e que não pode ser tratado como o recorte de mais nada. Algo que de fato existe e que, na visão construtivista, daria existência a tudo o mais quando recortarmos. Em outras palavras, o universo existe independente de nós para que sejamos capazes de recortá-lo e o argumento de Goodman falhou.

Uma outra objeção ao fato-construtivismo é chamada por Boghossian de Problema da Discordância. Segundo este argumento, o fato-construtivismo acarretaria em uma inevitável quebra do Princípio da Não-Contradição, que diz não ser possível P e Não-P serem simultaneamente verdadeiros. Como é possível que os primeiros americanos tenham se originado da Ásia (fato “construído” por arqueólogos e antropólogos) e que ao mesmo tempo tenham se originado de um povo subterrâneo (fato “construído” pela tribo dos Zunis)? Como é possível que a Terra gire em torno do Sol (fato “construído” por Galileu) e que ao mesmo tempo o Sol que gire em torno da Terra (fato “construído” pelo povo antes dele)? Não é possível que duas proposições contraditórias entre si do mundo sejam verdadeiras simultaneamente, mas o fato-construtivismo parece não ligar para isso.

Contudo, Richard Rorty apresenta uma visão bem mais robusta, que foge dos dois problemas propostos por Boghossian (o da causação e o da discordância) e que não busca basear Dependência da descrição de fatos nem na ingênua ideia do Cortador de Biscoitos nem na inútil Relatividade social das descrições. Para tanto, ele acrescenta um viés relativista ao fato-construtivismo, alegando que cada afirmação feita pelo homem é verdadeira segundo um dado ponto de vista. A verdade seria apenas relativa ao nosso modo particular de falar, algo pode ser verdadeiro para um e falso para outro porque cada um tem seu próprio Jogo de Linguagem.

Já que
é verdadeiro, segundo a teoria T1 de C1, que existem Xs
não contradiz de modo algum que
é verdadeiro, segundo a teoria T2 de C2, que não existem Xs
as visões não estão em competição entre si e o problema da discordância simplesmente desaparece. – pg. 75, ed. brasileira

Chamemos isso de Relativismo Global dos Fatos, formulado de maneira análoga ao Relativismo Moral e que pode ser apresentado de maneira formal assim:

  1. Não existe nenhum fato absoluto da forma p.
  2. Se é para nossos juízos factuais terem qualquer perspectiva de serem verdadeiros, não devemos interpretar sentenças da forma
    “p”
    como expressando a asserção
    p,
    mas sim como expressando a asserção
    Segundo uma teoria T que nós aceitamos, p.
  3. Existem muitas teorias diferentes para descrever o mundo, mas nenhum fato em virtude do qual uma seja mais fiel ao modo como as coisas são em si e por si mesmas do que qualquer uma das outras.

Thomas Nagel apresenta uma refutação conhecida como Argumento Tradicional contra o Relativismo dos Fatos, muito bem conhecido, e que diz o seguinte:

[…] a asserção “Tudo é subjetivo” tem de ser absurda, pois ela mesma teria de ser ou subjetiva ou objetiva. Mas não pode ser objetiva, já que nesse caso ela seria falsa se verdadeira. E não pode ser subjetiva , porque então não eliminaria nenhuma asserção objetiva, incluindo a asserção de que é objetivamente falsa. – Thomas Nagel, The Last Word

Boghossian, entretanto, argumenta que é possível que seja o caso de valer a pena que todos nós aceitemos o relativismo independente dele se autorrefutar ou não. Ou seja, o argumento tradicional pode não ser a melhor saída, e por isso ele apresenta outra, que chamo de Problema das Proposições Infinitas. Prestem atenção: quando dizemos que a asserção

Segundo uma teoria T que nós aceitamos, p.

é verdadeira, estamos admitindo implicitamente que existem fatos absolutos, justamente os fatos que se referem a quais fatos cada pessoa acredita e aceita. Ou seja, p pode não ser um fato absoluto, mas é fato absoluto que acredito em p segundo uma teoria T. Isto é um problema sério, já que o Relativismo Global dos Fatos é taxativo ao afirmar que nenhum fato absoluto existe. A escapatória para este problema seria negar que a asserção acima seja verdadeira, alegando que:

Segundo uma teoria T2 que nós aceitamos, existe uma teoria T1 que aceitamos segundo a qual p.

Mas se isso for verdade, então também é um fato absoluto e para se livrar dele o relativista teria que admitir que asserções do tipo:

Segundo uma teoria Tn que aceitamos, existe uma teoria T[n-1] que aceitamos, segundo a qual existe uma teoria T[n-2] que aceitamos […] segundo a qual existe uma teoria T1 que aceitamos, segundo a qual p.

Contudo, tal seria uma proposição infinita que não pode ser expressa nem entendida, o que coloca um problema quase intransponível ao fato-contrutivismo relativista de Rorty. A conclusão à qual chegamos é a de que ou ficamos com o fato-construtivismo cortador de biscoitos, que não sobrevive aos problemas da causação e da discordância, ou ficamos com o fato-construtivismo relativista de Rorty, que não sobrevive ao problema das proposições infinitas, de modo que ou não é inteligível ou não é relativismo. Acho que podemos descartar este ponto de vista.

Na parte 3 da série, falaremos sobre o Construtivismo acerca da Justificação. Esta é a forma mais robusta das três, portanto a que exigirá maiores esforços para ser apresentada, ou seja, demandará tempo.

Glossário por Argumentos:

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Conceitos Básicos
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Fato-Construtivismo: Todos os fatos são construções sociais, nenhum fato é objetivo ou é objetivamente (ou absolutamente) verdadeiro.

Fato-Objetivismo: Pelo menos alguns fatos não são construções sociais, sendo objetivamente (ou absolutamente) verdadeiros.

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Argumento 01:
Relatividade Social das Descrições
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Dependência de descrição dos fatos: Um fato só é um fato se descrito por uma mente. Fatos não existem por si mesmos, mas dependem de mentes para existir.

Relatividade social das descrições: As descrições não são aceitas por corresponderem ao modo como as coisas são, mas por convir aos nossos interesses práticos. Uma girafa a dois quilômetros do imperador Nero pode ser definida como uma girafa ou como um objeto a dois quilômetros do imperador, cabe a nós decidir qual a descrição mais satisfatória para nossos atuais interesses.

Ao contrário do que os fato-construtivistas dizem, essa teoria não suporta a Dependência de descrição dos fatos.

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Argumento 02:
Construtivismo Cortador de Biscoitos
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Analogia da Constelação: Assim como constelações são escolhas arbitrárias de estrelas no céu, qualquer outro conceito também é a escolha arbitrária de objetos do mundo. Deste modo, como todo conceito depende da escolha arbitrária de objetos que não necessariamente possuem uma relação entre si, nenhum deles possui existência real.

Argumento do Cortador de Biscoitos: Escolhemos na realidade aquilo que nos interessa, criamos um limite arbitrário ao seu redor, e definimos aquilo como algo. Tal processo se assemelha a cortar biscoitos com formas de diversos formatos. Isto implicaria que todos os fatos e objetos são meramente questão de escolhas pessoais, dependendo assim de mentes para existirem.

Problema da Causação: É impossível dizer que fatos anteriores a nós foram construídos por nós.

Problema da Discordância: Se os fatos são criados por mentes, então é possível que dois fatos auto-excludentes sejam verdadeiros simultaneamente, numa clara violação ao Princípio da Não-Contradição.

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Argumento 03:
Construtivismo Relativista de Rorty
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Relativismo Global dos Fatos: Afirmações do tipo “p” só podem ter alguma chance de serem verdadeiras caso signifiquem “Segundo uma teoria T que nós aceitamos, p.” Em outras palavras, uma proposição p só é verdadeira para as pessoas que a aceitam uma teoria T, ou seja, a verdade seria relativa e não existem fatos objetivos/absolutos.

Argumento Tradicional contra o Relativismo dos Fatos: Dizer que não existem fatos objetivos/absolutos seria, de certa forma, admitir que este é o único fato objetivo que existe, o que seria uma contradição.

Problema das Proposições Infinitas: A própria afirmação se que “p é verdadeiro dada a teoria T” seria objetivamente verdadeira a não ser que fosse verdadeira apenas em relação a uma teoria T2, mas tal afirmação seria objetivamente verdadeira a não ser que fosse verdadeira apenas em relação a uma teoria T3 e assim sucessivamente. A falta de sentido desse raciocínio invalida o Relativismo Global dos Fatos.

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