Medo do Conhecimento – Parte 1b: O Embuste de Sokal

Fala galerinha do mal!

Este é mais um post da série sobre o relativismo e o construtivismo pós-modernos que trago a vocês tendo como base o excelente material do filósofo Paul Boghossian. E quando o assunto é pós-modernismo, o Embuste de Sokal é um caso que quase sempre estará presente nas argumentações e que por isso não pode faltar numa série sobre o assunto.

Sokal é um físico anti-relativista e anti-construtivista que submeteu ao periódico pós-modernista Social Text um artigo falso, com ideias totalmente absurdas, mas que mesmo assim foi aceito. Quando revelou a fraude, Sokal levou seus adversários à loucura, num evento que foi considerado um escândalo.

Na primeira parte da série – Medo do Conhecimento – Parte 1: Introdução ao Relativismo Pós-Moderno – eu já havia feito referência ao livro no qual Sokal explica o que aconteceu, chamado Imposturas Intelectuais. Quem quiser ver um resumo dele pode ver um artigo brasileiro chamado Pós-modernismo em Xeque: Alan Sokal e Jean Bricmont em Imposturas Intelectuais que pode ser acessado por este link. Paul Boghossian também fez sua análise da história, em um artigo chamado What the Sokal Hoax Ought to Teach Us publicado na revista Disputatio em 1997. Felizmente, tal artigo foi traduzido ao português pelo filósofo Desidério Murcho (acessem seu site aqui).

Este artigo começa com uma discussão sobre o que levou a revista Social Text publicar um texto tão ininteligível como o de Sokal e depois avança para uma tentativa simplória de refutar os principais argumentos pós-modernos. Esta segunda parte, no entanto, está em um nível bem abaixo do apresentado em seu livro Medo do Conhecimento, provavelmente por se tratar de argumentos preliminares de Boghossian. Quem se interessar em ler o artigo completo, fique à vontade, mas vou disponibilizar aqui um pequeno resumo da tradução de Desidério sobre a história do artigo de Sokal. Quanto à refutação em si do pós-modernismo, o restante desta série o faz de maneira bem mais adequada então não tenho porque perder tempo.

Have fun!

O QUE O EMBUSTE DE SOKAL NOS DEVE ENSINAR
As consequências perniciosas e as contradições internas
do relativismo “pós-moderno”

No Outono de 1994 um físico teórico da Universidade de Nova Iorque, Alan Sokal, submeteu um ensaio à Social Text, a principal revista de estudos culturais. Intitulado “Transgressing the boundaries: Toward a transformative hermeneutics of quantum gravity” (“Transgredir fronteiras: para uma hermenêutica transformativa da gravidade quântica”), pretendia ser um artigo erudito sobre as implicações filosóficas e políticas “pós-modernas” das teorias da física do século XX. Contudo, como o próprio autor revelou mais tarde na revista Lingua Franca, o seu ensaio não passava de uma trapalhada de incongruências deliberadas, disparates e non-sequiturs (raciocínios errados), alinhavados de forma a ter boa aparência e a lisonjear os preconceitos ideológicos dos diretores da revista. Depois de ser avaliada por cinco membros do conselho editorial da Social Text, a paródia de Sokal foi aceite para publicação como se fosse um ensaio acadêmico sério. Foi publicado em Abril de 1996 num número especial da revista inteiramente dedicado à refutação dos que acusam as críticas dos estudos culturais à ciência de estarem em geral repletas de incompetência.

[…] Mas que mostra exatamente o embuste de Sokal? Acho que mostra três coisas importantes. Em primeiro lugar, que as perspectivas relativistas duvidosamente coerentes sobre a verdade e a evidência ganharam de fato uma larga aceitação na academia contemporânea, tal como realmente parecia. Em segundo lugar, que este fenômeno teve precisamente o tipo de consequências perniciosas sobre os padrões de qualidade acadêmica e responsabilidade intelectual que era de esperar. Por último, que nenhuma das duas afirmações anteriores reflete necessariamente um ponto de vista político particular, e muito menos um ponto de vista conservador.

[…] Sokal lança-se então em força em direção à sua tese central, segundo a qual desenvolvimentos recentes na gravidade quântica — uma teoria física recente e ainda especulativa — vão muito mais longe, substanciando não apenas a negação pós-moderna da objetividade da verdade, mas também o princípio de um tipo de física que seria verdadeiramente “libertadora” e que estaria genuinamente ao serviço das causas políticas progressistas. Neste ponto, o seu “raciocínio” torna-se verdadeiramente arrojado, à medida que procura gerar conclusões políticas e culturais da física do muito, muito pequeno. As suas inferências são mediadas por nada menos do que uma miscelânea lamacenta de jogos de palavras (especialmente com as palavras “linear” e “descontínuo”), analogias forçadas, afirmações infundadas e o que só pode ser descrito como non-sequiturs (raciocínios errados) de uma grosseria anestesiante. Por exemplo, Sokal passa diretamente da observação de Bohr de que na mecânica quântica “uma completa elucidação de um certo objeto determinado pode exigir diversos pontos de vista” para:

Em tal situação, como pode um sacerdócio secular auto-perpetuante de “cientistas” credenciados pretender manter um monopólio na produção de conhecimento científico? […] O conteúdo e a metodologia da ciência pós-moderna fornece assim um apoio importante ao projeto político progressista, entendido no seu sentido mais lato: a transgressão de fronteiras, o derrubar de barreiras, a democratização radical de todos os aspectos da vida social, econômica, política e cultural.

[…] Como se tudo isto não fosse suficiente, Sokal condimenta o seu ensaio, em passant, com o maior número possível de pequenos fragmentos de disparates evidentes que cabiam numa página. Alguns destes disparates são de natureza puramente matemática ou científica — como, por exemplo, a afirmação de que a conhecida constante pi é uma variável, ou a de que a teoria dos números complexos, que data do século XIX e é ensinada às crianças nas escolas, é um novo ramo especulativo da física matemática, ou ainda a de que […] a teoria de campo quântica confirma as especulações psicanalíticas sobre a natureza do sujeito neurótico, [… e também] apoia uma alegada conexão entre a mecânica quântica e a “disciplina industrial do início da época burguesa”.

[…] Os comentadores têm insistido muito na iliteracia científica, matemática e filosófica que a aceitação da algaraviada engenhosamente forjada por Sokal parece trair. Mas falar de iliteracia esconde uma distinção importante entre duas explicações diferentes das razões que terão conduzido a direção da revista a decidir-se pela publicação do artigo de Sokal. A primeira é que, apesar de a direção perceber perfeitamente bem o que as várias frases do seu ensaio diziam de fato, acharam que eram plausíveis, ao passo que o autor, como quase toda a gente, não acha tal coisa. […] A outra hipótese é a de que os membros da direção não faziam ideia do que significavam muitas daquelas frases, não estando assim logo à partida em posição de avaliá-las quanto à sua plausibilidade. […] Penso ser evidente, e também muito importante notar, que a segunda hipótese é a verdadeira. Para ver porquê, considere-se, por exemplo, a seguinte passagem do ensaio de Sokal:

Tal como as feministas liberais se limitam frequentemente a um programa mínimo para a igualdade legal e social das mulheres, sendo “pró-escolha”, também os matemáticos liberais (e até alguns socialistas) se limitam frequentemente a trabalhar no hegemônico quadro conceitual de Zermelo-Fraenkel (que, refletindo as suas origens oitocentistas, já incorpora o axioma da igualdade), complementado unicamente com o axioma da escolha. Mas este quadro conceitual é extraordinariamente insuficiente para uma matemática libertadora, tal como foi demonstrado há muito tempo por Cohen 1966.

É muito difícil de acreditar que um membro da direção que soubesse o que os vários termos usados significam realmente não tivesse erguido um sobrolho ao ler esta passagem, pois o axioma da igualdade da teoria dos conjuntos fornece unicamente uma definição que permite saber quando dois conjuntos são idênticos — nomeadamente, quando têm os mesmos elementos. É óbvio que isto nada tem a ver com o liberalismo, ou, na verdade, com qualquer filosofia política de qualquer tipo. De forma semelhante, o axioma da escolha afirma unicamente que, dada qualquer coleção de conjuntos mutuamente exclusivos, existe sempre um conjunto que contém exatamente um membro de cada um desses conjuntos. Uma vez mais, é evidente que isto nada tem a ver com o tópico da escolha no debate sobre o aborto. […] A publicação de 1966 de Paul Cohen demonstra que a questão de saber se existe ou não um número entre dois outros números (transfinitos cardinais) particulares não é resolvida pelos axiomas da teoria dos conjuntos de Zermelo-Fraenkel. Como pode conceber-se que isto conte como uma demonstração de que a teoria dos conjuntos de Zermelo-Fraenkel é inadequada para os propósitos de uma “matemática libertadora”, seja lá o que for que isso quer exatamente dizer? [… A] conclusão inescapável é esta: a direção de Social Text não sabia o que queriam realmente dizer muitas das frases do ensaio de Sokal, mas não se importaram com isso. Como pode um grupo de acadêmicos que dirigem o que é supostamente uma das mais importantes revistas de uma dada área permitir-se tal sublime indiferença ao conteúdo, verdade e plausibilidade de uma submissão acadêmica aceite para publicação?

[…] A perspectiva de poder apresentar nas suas páginas um cientista — nada mais nada menos do que um físico —, emprestando todo o peso da sua autoridade à sua causa, foi suficientemente compulsivo para em função disso [os diretores da revista Social Text] terem desprezado o fato de não fazerem ideia sobre que tipo de apoio estavam exatamente a receber. E isto parece-me ser o que está no âmago da discussão levantada pelo embuste de Sokal: não se trata da mera existência de incompetência na academia, mas antes daquela sua forma específica que surge quando se permite que critérios ideológicos tomem completamente o lugar de padrões acadêmicos, de tal forma que nem mesmo simples considerações quanto à sua inteligibilidade são encaradas como relevantes para a aceitabilidade de um argumento. Como é possível, dada a história recente e deplorável das concepções ideologicamente motivadas do conhecimento — o lysenkoismo na União Soviética de Estaline, por exemplo, ou as críticas Nazis à “ciência judia” —, que este tipo de comportamento se tenha tornado outra vez aceitável?

A resposta histórica completa é muito longa, mas não restam muitas dúvidas de que um dos seus componentes cruciais foi o alastrar instantâneo, em vastos setores das humanidades e das ciências sociais, de um conjunto de perspectivas relativistas simplórias sobre a verdade e a evidência, geralmente identificadas como “pós-modernistas”. Estas perspectivas autorizam a, e na verdade costumam insistir na necessidade da, introdução de critérios políticos em substituição da avaliação historicamente mais familiar em termos de verdade, evidência e argumentos.

A maioria dos filósofos aceita que um investigador completamente desinteressado é coisa que não existe, isto é, um investigador que enfrente o seu tópico sem quaisquer assunções, valores ou preconceitos prévios. Mas o pós-modernismo vai muito para além desta observação historicista.

[… O] historicismo, por mais lato que seja, não implica que a verdade objetiva seja coisa que não exista. Conceder que ninguém acredita em algo somente por ser verdade não é negar a existência da verdade objetiva. Além disso, conceder que nenhum investigador nem nenhuma investigação são completamente imparciais não implica que não possam ser mais ou menos imparciais, ou que os seus preconceitos não possam ser mais ou menos prejudiciais. Conceder que a verdade nunca é a única coisa que alguém procura não é negar que algumas pessoas ou métodos sejam melhores do que outros nessa procura.

[…] Na verdade, de acordo com o pós-modernismo, o próprio desenvolvimento e uso da retórica da objetividade, longe de incorporar uma metafísica e epistemologia sérias da verdade e da evidência, representa apenas uma maneira de procurar o poder, silenciando essas “outras formas de conhecer”. Dado este ponto de partida, segue-se que a luta contra a retórica da objetividade não é primariamente uma questão intelectual, mas política: a retórica tem de ser derrotada e não apenas refutada. Contra este pano de fundo, torna-se muito fácil explicar o comportamento da direção de Social Text.

[…] Seja qual for a explicação correta para a atual malaise, o embuste de Alan Sokal constituiu o momento crítico para o que tem sido o princípio de uma tempestade de protestos contra o colapso nos padrões acadêmicos e de responsabilidade intelectual de que sofrem atualmente vastos setores das humanidades e das ciências sociais. Algumas das críticas mais penetrantes têm vindo, significativamente, de distintas vozes da esquerda, mostrando assim que quando se trata de transgressões tão básicas quanto estas, as alianças políticas não oferecem proteção. Quem estiver ainda inclinado a duvidar da seriedade do problema só tem de ler a paródia de Sokal.

Paul Boghossian
(Tradução de Desidério Murcho)

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