Grito preso

A vinda do Papa Francisco no Brasil para a Jornada Mundial da Juventude foi alvo de críticas de diversos grupos, dentre eles grupos de evangélicos (que alegaram se tratar de um evento “idólatra”), grupos de ateus (que reclamaram injustificadamente dos gastos públicos de 118 milhões e que aproveitaram para fazer o irreverente desbatismo com secador de cabelo) e de minorias que protestavam contra preconceitos que a Igreja Católica alegadamente permite, pratica ou até mesmo incentiva. Dentre esses últimos, quem mais conseguiu chamar atenção foi um casal semi-nu de participantes da Marcha das Vadias quebrando imagens de santas depois de usá-las como objetos sexuais.

Como falei no meu post anterior sobre Blasfêmia, não creio que blasfemar seja algo imoral. Bem, crime não é, pelo menos não no Brasil, mas muitos acham que a atitude deles foi condenável. Creio que não é, pois caso qualquer ofensa a uma religião seja considerada um ato imoral então os próprio católicos não poderão apontar o dedo para ninguém sem antes apontar quatro de volta para eles mesmos. Tampouco terão sucesso caso tentem alegar que atos tomados como ofensas sejam blasfêmia, já que não há nada de ofensivo em quebrar cerâmica… ou será que a Duralex se sente ofendida quando alguém quebra um prato? Caso os dois sejam católicos, a Igreja teria razão em expulsá-los por blasfêmia, mas em nenhum outro sentido vejo como os atos delas possam ser considerados imorais.

Contudo, não acho que eles fizeram bem.

Na opinião de algumas pessoas, o ato foi como um grito de desabafo, um gesto de fúria colocado para fora na tentativa de se libertarem de tudo de ruim que receberam da Igreja e que ficou entalado durante anos. Não estou aqui para julgar isso, se eles dizem que se sentem assim, eu não posso fazer nada a não ser conceder.

Contudo, não creio que isso seja desculpa para nenhum gesto de hostilidade. Existem maneiras muito melhores de se livrar do rancor que temos guardado dentro de nós: os psicólogos. Mais do que isso, algumas pessoas possuem problemas mentais que se agravam situações de estresse, tais como ansiedade ou transtorno bipolar, e ficar quebrando santas na rua não é um tratamento com eficácia comprovada. Não sei se algum dos dois envolvidos no incidente porta problemas mentais, mas acredito que se o problema era desabafar, deveriam ser incentivados a buscar ajuda profissional na psicologia ao invés de incentivados a gestos de vandalismo e de hostilidade.

Enfim, já foi muito discutido sobre questões como desrespeito às religiões, à contraprodutividade política e até mesmo ao ranço anti-secular do evento (que em partes nos remete ao início da Idade Média, quando questões religiosas eram influenciadas por resultados de guerras.) Nada disso é novidade e não preciso ficar repetindo. O que me surpreende é ver que existem pessoas que concordam que o rancor possa servir como catalisador para atos públicos de nível tão baixo.

Afinal se a causa que eles defendem fosse boa mesmo, não precisaria de descer o nível, e traria coisas melhores que meros desabafos raivosos, certo?

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