Blasfêmia!

Muitos cristãos mundo a fora reclamam que ateus blasfemam contra sua crença. Alguns fazem essa “acusação” tendo como base imagens e frases ofensivos feitos por ateus de internet, enquanto que alguns chegam ao extremo de dizer que a própria não crença na existência do Todo-Poderoso já é, em si, uma blasfêmia.

Mas paremos um pouco para pensar… O que seria uma blasfêmia?

A resposta padrão que muitas pessoas dariam é que blasfêmia significa ofender um ser sagrado cultuado por uma dada religião. Em outras palavras, blasfemar contra uma divindade é atribuir a ela características que seus seguidores acham reprováveis dentro de seu modo de pensamento. Chamemos isso de definição da característica internamente depreciativa, pois depende da forma como os religiosos separam o santo do profano dentro de seu próprio conjunto de dogmas e de sua própria visão de mundo.

Deste modo, se os cristãos acreditam que seu Deus é perfeitamente moral, que Jesus é Deus através da Santíssima Trindade e que ser homossexual (ou que a prática homossexual) é algo pecaminoso e imoral, então dizer que Jesus é gay se caracterizaria como blasfêmia. Oras, como pode Jesus, que é UM com o Pai perfeito, cometer o erro de ser gay? Da mesma maneira, chamar Deus de psicopata por matar pessoas ao longo da história seria uma blasfêmia. Enfim, exemplos não faltam.

Mas os cristãos se esquecem de um detalhe importante: o de que eles mesmos são blasfemadores por definição. No caso, blasfemam o Deus Judaico, pois dizem que ele se encarnou em um corpo humano ordinário – Jesus – uma atitude inadmissível para o Pai perfeito no qual acreditam. A mera crença de que o Criador se fez homem – que é a crença básica do cristianismo – já poderia ser considerada uma blasfêmia contra os judeus! A crença em uma divindade única também pode ser vista como uma blasfêmia por religiões politeístas, da mesma forma que a crença em santos pode ser vista como uma blasfêmia por Protestantes.

O blogueiro Carlos Orsi, em Feliz Dia da Blasfêmia!, resumiu este ponto de maneira bastante feliz:

… o Novo Testamento é blasfemo do ponto de vista dos judeus (ao dizer que Deus tem um filho), o Alcorão é blasfemo para os cristãos (ao dizer que a crucificação de Jesus foi uma farsa), o cristianismo e o judaísmo são blasfemos para o islã (ao negar o papel de Maomé como profeta), o judaísmo é blasfemo para os cristãos (ao negar a divindade de Jesus) e o Livro de Mórmon provavelmente é blasfemo para todo mundo.

Uma opção que resta ao cristão é admitir que blasfemar não pode ser considerado um ato imoral e parar de se escandalizar toda vez que notar que sua divindade foi acusada de fazer ou ser algo que ele reprova, algo que pode ser considerado a definição não-imoral. Mas é óbvio que quase ninguém fará isso, preferindo mudar o conceito de blasfêmia para o ato de caracterizar uma divindade com alguma característica universalmente aceita como depreciativa. Chamemos isso de definição da característica externamente depreciativa.

Como se pode notar, dentro dessa perspectiva o cristão não mais blasfema contra os judeus pois, apesar da manifestação do Criador como um mero ser humano possa ser considerada uma falha pelos judeus, isso não é visto como uma falha em um sentido universal. “É um especificidade do pensamento deles, oras, não podemos tratar todas discordâncias teológicas como blasfêmias!”

Entretanto vejo isso apenas como um jogo de palavras. Vejamos, o cristão deste exemplo, ao acreditar na moralidade perfeita e universal dos atos de Deus, simplesmente acredita que todas as demais divindades possuem falhas universalmente e objetivamente depreciativas. O próprio judeu poderá também alegar que a aceitação da premissa de que a encarnação de Deus é universalmente e objetivamente depreciativa e que para ele pouco importa se os cristãos discordam. Ou seja, todas as conversas ficariam presas no conceito de universal ou não e vários argumentos se esconderiam em formas vagas de tal conceito.

E mesmo que ele sobreviva a isso, terá que enfrentar um problema pior ainda: dizer que Jesus é gay simplesmente deixaria de ser uma blasfêmia, pois ser homossexual não é uma característica universalmente entendida como depreciativa, tendo em vista especialmente o posicionamento de várias correntes internas dentro da religião afirmando o contrário.

É importante notar também que segundo as definições de características depreciativas, quebrar uma imagem de santo não pode ser considerado uma blasfêmia. Para superar isso, o cristão pode partir para uma definição mais ampla, a de que qualquer forma de desrespeito envolvendo divindades ou símbolos religiosos é blasfêmia. Esta seria uma definição do ato desrespeitoso. O cristão poderia alegar que ele mesmo não sai destruindo símbolos de outras religiões por aí (mesmo isso não sendo exatamente verdade para todo mundo que siga essa linha…)

Contudo, tanto essa definição ainda assim é problemática. Essa saída falha ao tentar fazer com que atos desrespeitosos normalmente toleráveis se tornem magicamente imorais. Não existe motivo para que a Pixar declare imoral uma charge desrespeitando o Buzz Lightyear, mas aparentemente uma religião pode fazer tal declaração quando o objeto de desrespeito faz parte de seus símbolos sacros. Isso simplesmente não faz sentido, são dois pesos e duas medidas. Não existe nada que torne nenhum ato desrespeitoso contra símbolos praticado por uma pessoa qualquer em algo imoral. Um desrespeito pode ser condenado de várias maneiras, mas não através da blasfêmia.

Já a versão externa é simples e seus problemas são os mesmos dos já colocados: 1) definir uma atitude como universalmente desrespeitosa cairia inevitavelmente em jogos de palavras e dissimulações que tornaria qualquer debate em uma disputa de retórica e 2) não resolve o problema da exceção às regras da moralidade do desrespeito em favor das religiões.

Então os cristãos ficam presos em uma encruzilhada:

  • se disserem que a afirmação de que Jesus foi gay deve ser tratada como blasfêmia e, portanto, como ato imoral, então devem reconhecer que sua própria afirmação de que o Criador se manifestou como homem deve ser tratada como blasfêmia e, portanto, como ato imoral;
  • se disserem que a blasfêmia deles contra os judeus não é imoral, devem reconhecer que a blasfêmia do Jesus gay também não é;
  • se disserem que a encarnação divina não é blasfêmia pois isso não é uma depreciação universalmente aceita, devem reconhecer que a afirmação de que Jesus foi gay não é blasfêmia.
  • se disserem que blasfêmia é qualquer ato desrespeitoso, devem explicar porque se deve tolerar desrespeitos em praticamente todas as situações, exceto naquelas que envolvem religiões.

Para onde correr? Talvez possam recorrer a uma definição do seguidor desrespeitoso, afirmando que não tem problema uma pessoa externa afirmar algo depreciativo, mas que é uma falta grave um seguidor da religião dizer ou mesmo crer naquele algo depreciativo. A blasfêmia não estaria mais no mero ato de atribuir uma característica depreciativa, mas no ato do fiel que desrespeitou a própria religião e a própria divindade. Considero essa a melhor definição de blasfêmia, ou a menos problemática, e um religioso que apela a ela estaria buscando uma posição menos problemática.

O religioso que usa tal definição poderia também afirmar que se sente pessoalmente ofendido por certas afirmações e que considera imaturo e contraproducente fazê-las só para ofender e irritar. Neste caso, ele estaria buscando uma posição na qual, apesar de não poder condenar moralmente o “blasfemador”, poderá pelo menos colocá-lo como uma pessoa que está fazendo agressões gratuitas e infantis. Tal posição também o deixaria imune de ser acusado de blasfemador por conta de discordâncias teológicas. Em outras palavras, uma excelente saída.

Por fim, deixo um recado para ateus que chamam Jesus de veado ou que gostam de fazer provocações religiosas gratuitas: de fato, ninguém pode os acusar de estar fazendo algo moralmente errado. Entretanto, vocês podem ser acusados de serem babacas infantis que perdem tempo com provocações completamente irrelevantes e contraproducentes. Por favor, parem com isso.

Glossário. As definições possíveis para blasfêmia que listei foram:

  1. Definição da característica internamente depreciativa: dar a alguma divindade uma característica que ela (seus seguidores) consideram depreciativa. Problema: transforma automaticamente qualquer discordância teológica em uma blasfêmia.
  2. Definição da característica externamente depreciativa: dar a alguma divindade uma característica universalmente tida como depreciativa. Problema: quais são as características  universalmente depreciativas?
  3. Definição não-imoral: define blasfêmia como sendo um ato moralmente tolerável. Ponto forte: o religioso fica imune a críticas. Problema: também fica incapacitado de fazer críticas e dificilmente seria aceita pelos religiosos.
  4. Definição do ato internamente desrespeitoso: realizar ato considerado desrespeitoso pelos seguidores de uma religião. Ponto forte: resolve o problema das discordâncias teológicas. Problema: certos atos não são imorais quando praticados contra algo que não é uma religião e não há nada que faça as religiões serem exceção.
  5. Definição do ato externamente desrespeitoso: realizar atos universalmente aceitos como desrespeitosos. Problemas: mesmos das duas definições 2 e 4.
  6. Definição do seguidor desrespeitoso: seguidor de uma religião que realiza atos considerados desrespeitosos por ela. Ponto forte: visão não se expande para fora dos meios sociais de uma religião e que não necessariamente envolve punições injustas ou cruéis, não sendo então passível de críticas externas. Problema: não se aplica a terceiros.
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