Medo do Conhecimento – Parte 1: Introdução ao Relativismo Pós-Moderno

Fala galerinha do mal!

Este texto abre uma série sobre relativismo e construtivismo pós-modernos, um tema muito importante dentro da Filosofia do Conhecimento e da Ciência.

Ver também: [Parte 1b] [Parte 2]

O Relativismo é uma corrente filosófica que afirma a não existência de absolutos. Por exemplo, para um relativista epistêmico não existem verdades absolutas e para um relativista moral não existem ações absolutamente boas ou más. Em contrapartida, existem correntes filosóficas que negam o relativismo como um todo ou apenas uma de suas formas. Por exemplo, uma pessoa que aceita a existência de verdades absolutas pode achar que não existe o certo nem o errado absolutos. Também podemos citar os religiosos em geral, que acreditam que existe pelo menos uma verdade universal (as divindades nas quais acreditam) e normalmente rejeitam o relativismo moral ao acreditar que as divindades determinam o que é absolutamente moral.

Outro conceito filosófico bastante comum é o Construtivismo. Pode-se dizer que ele é uma forma de relativismo. Seus proponentes defendem que os conhecimentos de uma sociedade não possuem validade objetiva por si mesmos, sendo antes de mais nada frutos da construção social. Em outras palavras, aquilo que chamamos de conhecimento nada mais é do que discursos criados pela sociedade para satisfazer seus desejos e egos. Neste sentido, uma grande parte dos religiosos são construtivistas, mesmo sem saber.

Entretanto, não é entre os religiosos que a tese do construtivismo possui mais força. Seus defensores mais conhecidos e influentes estão nas ciências humanas e sociais, onde existe um amplo consenso que já dura quase três décadas. Tamanha aceitação, entretanto, não acontece dentro das ciências exatas e nem, estranhamente, dentro da Filosofia. Sim, existem filósofos construtivistas, mas eles estão longe de representarem a maioria dentro dos departamentos de filosofia mundo a fora.

Esta forma de pensar que tende a rejeitar radicalmente conhecimentos objetivos acerca do mundo natural ou a colocar as diversas formas de se explicá-lo como sendo equivalentes em validade é chamada de pós-moderna. Um autor considerado pós-moderno normalmente é um relativista ou construtivista radical.

A longa série que começo hoje deseja discutir justamente esses dois conceitos acima: o relativismo e o construtivismo no âmbito epistêmico. Em outras palavras, será defendido aqui que a ciência não é somente uma forma conveniente de se formular conhecimentos relevantes sobre o mundo natural que nos cerca criada segundo os desejos das sociedades ocidentais. Mais claramente ainda, defenderei que não é verdade que a ciência seja só um modo de pensar construido socialmente por um grupo de pessoas com pensamentos, ideologias e agendas similares e que produza conhecimentos tão verdadeiros e relevantes quanto o conhecimento gerado por qualquer outro grupo de pessoas com pensamentos, ideologias e agendas similares.

Esta série será baseada no livro “Medo do Conhecimento: Contra o Relativismo e o Construtivismo” de Paul Boghossian, que tem sua versão traduzida ao português pela editora do Senac (vocês podem consultar os preços aqui). Recomendo fortemente a leitura do livro, mesmo que vocês leiam o resumo que será publicado aqui, já que não vou abordar tudo, nem todos os detalhes. Contudo, também recomendo que leiam a minha série, pois irei complementá-la com exemplos e ideias que não estão no livro e com a tradução de artigos do próprio Boghossian complementando os argumentos presentas na publicação.

Segundo Boghossian, os motivos que levam os acadêmicos das ciências sociais a preferir uma visão pós-moderna do mundo são, além de intelectuais, ideológicos. Segundo ele,

Os acadêmicos simpáticos ao pós-modernismo se queixam de que a necessidade de revisar as concepções tradicionais de conhecimento já se tornou incontestavelmente clara há bastante tempo e que nada senão a usual intransigência da ortodoxia estabelecida pode explicar a resistência com que essas ideias novas têm sido recebidas. Os tradicionalistas, por outro lado, têm descartado com impaciência seus colegas de mente filosófica nas humanidades e ciências sociais como motivados mais por considerações de correção política do que por genuína reflexão ideológica. – pág. 24, ed. brasileira

Mas por que tal linha de pensamento atrai tanta gente? Em dos motivos que Boghossian cita é o poder que tal ideia confere aos indivíduos. Segundo ele,

Se pudermos dizer que sabemos desde o início que qualquer item de conhecimento só tem esse status porque recebe o aval de nossos valores sociais contingentes, então qualquer afirmação de conhecimento pode ser descartada se ocorrer de não compartilharmos os valores dos quais ela supostamente depende. – pág. 182, ed. brasileira

Em outras palavras, é cômodo acreditar que conhecimentos são construções sociais quando o que desejamos é ter certeza de que os certos somos nós. A possibilidade de descartar o inconveniente com tamanha facilidade é um poder ao qual muitos não resistem. Evidentemente que nem todos construtivistas seguem tal linha por esse motivo, alguns por exemplo a seguem por causa de ideologias esquerdistas pois podem usar ela para afirmar que os mais ricos não podem dizer aos mais pobres o que é certo (e a maioria esquece que isso implica que os mais pobres não podem seguir o caminho contrário).

Há de se destacar também que fatos construídos socialmente existem e ninguém está aqui para negar isso. Como nas ciências sociais tais fatos são abundantes, eles acabam sendo mais populares entre os acadêmicos dessa área do que nas exatas, onde costumamos excluir o fator social. O problema acontece, contudo, quando se tenta dizer que todos os fatos são construídos socialmente, até aqueles provenientes de áreas do conhecimento como a física.

Alguns exemplos de pós-modernos podem ser encontrados no artigo do filósofo brasileiro André Assi Barreto chamado PÓS-MODERNISMO EM XEQUE: ALAN SOKAL E JEAN BRICMONT EM IMPOSTURAS INTELECTUAIS (link), cuja leitura é bastante recomendada. O artigo trás uma série de comentários do livro Imposturas Intelectuais de Sokal e Bricmont, dois combatentes do pós-modernismo, citando por exemplo a análise psicanalítica de Lacan ao número i (raiz de -1), que chega ao cúmulo de dizer que tal número representa, pasmem!, o pênis ereto, e não uma constante matemática objetiva e relevante como achávamos.

Para a filósofa e feminista belga Luce Irigaray, uma notável pós-moderna, a Mecânica dos Sólidos é mais bem desenvolvida que a Mecânica dos Fluidos porque a sociedade é machista. Ok… A sociedade pode até ser machista, não interessa aqui, mas não é por isso que a Mecânica dos Sólidos obteve mais êxito.

[Irigaray] atribui à associação de fluidez com feminilidade o privilégio outorgado à mecânica dos sólidos sobre a dos fluidos e a incapacidade da ciência para tratar dos fluxos turbulentos em geral. Enquanto que o homem tem órgãos sexuais protuberantes e rígidos, a mulher os tem abertos e por eles se filtra o sangue menstrual e os fluídos vaginais. Ainda que o homem, em certas ocasiões, também libere fluídos, por exemplo, quando ejacula o sêmen, este aspecto de sua sexualidade não se tem muito em conta. O que conta é a rigidez dos órgãos masculinos, não sua cumplicidade no fluxo de fluídos. Estas idealizações são reinscritas na matemática, que concebem os fluidos como planos laminados e outras formas sólidas modificadas. Do mesmo modo que as mulheres ficam apagadas nas teorias e na linguagem masculina e existem apenas como não-homens, os fluidos também foram apagados da ciência e existem apenas como não-sólidos. Dada esta perspectiva, não é surpreendente que a ciência não tenha conseguido traçar um modelo válido da turbulência. O problema do fluxo turbulento não pode ser resolvido porque as concepções acerca dos fluidos (e da mulher) foram formulados para deixar necessariamente resíduos inarticulados (SOKAL; BRICMONT apud HAYLES, 1999, p. 117, tradução de André Barreto).

Fluidos possuem comportamento viscoso a baixas velocidades, pressões e temperaturas, o que já os torna incomparavelmente mais complexos que os sólidos que só possuem comportamento elástico e plástico (alguns sólidos são viscoelásticos, mas isso é outra história). A altas velocidades, pressões e temperaturas os fluidos começam a se comportar de maneira turbulenta e seu comportamento se torna quase imprevisível. Daí vem uma filósofa e diz que sólido lembra o pênis e turbulência lembra vagina e fluxo menstrual e como a sociedade é machista então damos mais valor a um do que ao outro e, consequentemente um se desenvolveu mais. Não. Não é isso que acontece.

Boghossian cita um caso ainda mais extremo, onde afirmam que até os mitos criacionistas de uma tribo indígena no meio do nada possuem tanto valor quanto a teoria da evolução. Vejam por exemplo a declaração de Sebastian LeBeau da tribo Zuni para depois ver os comentários pós-modernos sobre ela:

Sabemos de onde viemos. Somos descendentes do povo Búfalo. Ele veio do interior da Terra depois que espíritos sobrenaturais preparam este mundo para a humanidade viver nele. Se os não índios escolhem acreditar que evoluíram de um macaco, que assim seja. Até hoje não encontrei cinco Lakotas que acreditem na ciência e na evolução.

Roger Anyon, um arqueólogo que trabalhou com o povo Zuni teria comentado:

A ciência é apenas uma das várias maneiras de se conhecer o mundo. [A visão de mundo dos Zunis é] tão válida quanto o ponto de vista arqueológico sobre o que é a pré-história.

É assim que os construtivistas costumam negar a superioridade da ciência sobre qualquer outro sistema de conhecimento. Eles alegam que fatos construídos socialmente existem, como que todos os fatos são assim construídos. Veremos adiante que certas alegações são justificáveis diante aquilo que podemos observar no mundo enquanto outras não e que a justificabilidade é um excelente critério para classificá-las.

A partir desse contexto é que Boghossian faz sua análise do relativismo, se propondo a apresentar os principais argumentos pós-modernos a favor do construtivismo em seu livro e verificar se são sólidos como seus proponentes dizem ou não. Baseado no livro dele, minha série se desenvolverá da seguinte forma:

  1. Introdução e Conceitos Básicos
  2. Relativismo Acerca dos Fatos
  3. Relativismo Acerca da Justificação
  4. Conhecimento Pragmático

A introdução já está feita; então a seguir apresento alguns conceitos chave apresentados em forma de glossário antes de partirmos para a análise dos argumentos centrais dos pós-modernos. Eles serão importantes ao longo do caminho, visto que a nomenclatura comum desta área pode não ser clara para todas as pessoas, mesmo aquelas estudiosas em filosofia.

Relativismo: a crença na inexistência de absolutos em relação a um tema específico ou mesmo de maneira universal.

Fatos Construídos Socialmente: fatos que só possuem valor de verdade entre os membros de uma sociedade ou de um grupo social, estabelecidos como tal por razões geralmente pragmáticas, políticas, ideológicas ou mesmo interesseiras.

Construtivismo: a crença de que todos os conhecimentos existentes são fatos construídos socialmente. Richard Rorty é um dos pensadores mais influentes dentro desta linha de pensamento, seguido por Ludwig Wittgenstein.

Pós-modernismo: corrente filosófica que propõe uma relativização radical do conhecimento científico e que possui tendências construtivistas.

Igual Validade: a crença de que existem várias maneiras igualmente válidas de se conhecer o mundo, sendo a ciência apenas uma delas.

Crença: é um tipo de estado mental (assim como o medo, a alegria etc.) Acreditar em algo é assumir que este algo seja correspondente com aquilo que de fato ocorre no mundo real. Se eu acredito que o Sol é quente então eu acredito que no mundo real existe algo chamado Sol que tem a propriedade que eu chamo de ser quente.

Uma crença deve necessariamente possuir um conteúdo proposicional, deve possuir a possibilidade de ser classificada como verdadeira ou falsa e deve possuir a possibilidade de ser avaliada como justificada ou injustificada.

Crença verdadeira: A crença de uma pessoa P em uma ideia x é verdadeira se, e somente se, x.

Fatos independentes da mente: são fatos que não necessitam (ou mesmo não admitem) de uma avaliação subjetiva para serem avaliados como verdadeiros. A quantidade de luas que Júpiter possui independe da minha subjetividade, contudo a grosseria de chupar o macarrão é meramente subjetivo.

Crença justificada/racional: crença que encontra em observações do mundo real feitas até o presente momento e na lógica um motivo que as torne mais atraentes do que qualquer outra crença já previamente considerada.

Tais crenças são, portanto, revogáveis, já que “alguém pode ter boas razões para crer em algo em dada época e então, em consequência de mais informações, deixar de ter boas razões para crer na mesma proposição algum tempo depois.” – pág. 33, ed. brasileira.

Conhecimento: é amplamente aceito que conhecimento é uma crença verdadeira e justificável, apesar de existir quem afirme que basta ser justificável para ser conhecimento, ou mesmo que não é possível haver conhecimento. O presente blog trabalha com a ideia de que basta ser justificável para ser considerado conhecimento.

Motivação epistêmica vs pragmática: as razões que levam as pessoas a adotar uma crença podem estar relacionadas de maneira predominante ao interesse que ela tem em descobrir a verdade, seja ela qual for, ou de maneira predominante ao interesse que ela tem em alcançar uma conclusão conveniente aos seus desejos pessoais, excluindo a mera curiosidade. O primeiro caso se refere às motivações epistêmicas e o segundo às motivações pragmáticas.

Fatos Construídos Socialmente (2): crenças obtidas por razões meramente pragmáticas e não epistêmicas.

Por fim, faço um esclarecimento sobre os três aspectos do objetivismo e do construtivismo clássicos. Tais crenças podem ser colocadas de três diferentes formas, dependendo do ponto de vista no qual elas visam se estabelecer. São eles:

1. Objetivismo/Construtivismo sobre os fatos: o mundo independe/depende de nossa observação.

2. Objetivismo/Construtivismo sobre a justificação: fatos do tipo “informação E justifica crença C” independem/dependem da sociedade.

3. Objetivismo/Construtivismo sobre a explicação racional: é possível/não é possível explicar por que cremos no que cremos tendo como base apenas nossa exposição às evidências.

Com essa introdução, estamos prontos para desbravar o universo construtivista. Podemos ver agora quais os argumentos que eles apresentam a favor de sua ideologia. Na próxima semana, começaremos com uma exposição e uma análise do relativismo em relação aos fatos.

Até mais!

Ver também: [Parte 1b] [Parte 2]

==================

Mais artigos sobre Ciência aqui no blog:

Anúncios

4 opiniões sobre “Medo do Conhecimento – Parte 1: Introdução ao Relativismo Pós-Moderno”

    1. Eu só achei estranho você iniciar uma série crítica sobre o pós-modernismo adotando uma posição que, tenho a impressão, abre as portas para as correntes pós-modernistas. Se para estar de posse de conhecimento basta ser capaz de satisfazer as regras de justificação para suas crenças, e dado que 1. A obediência às regras em vigor não garante a posse da verdade; e 2. Tais regras de fato variam historica e culturalmente; falta explicar em que sua concepção difere da dos pós-modernistas e é mais robusta que a deles.

      Eu vi que ao longo da série vc vai tratar da noção de relativismo nos três domínios pertinentes (dos fatos, do conhecimento e da ação), então, desculpa aí se estou me precipitando na cobrança.

      Curtir

    2. Ah sim, vamos com calma rs Eu vou apresentar toda a tese pós-moderna antes de apresentar o meu pensamento e a forma como ele se difere deles. De fato, essa sua observação deve sim ser respondida, e eu não tinha pensado nisso.

      Por hora, só digo que a posição pós-moderna mais forte e influente é bem clara ao propor que alegações como “a evidência E justifica a proposição p” devem ser interpretadas como “para a pessoa H, que segue o sistema epistêmico S, a evidência E justifica a proposição p, portanto p é um conhecimento somente para aqueles H que aceitam S” e que sistemas S diferentes equivalem entre si pois nenhum pode se mostrar superior ao outro já seria uma petição de princípio usar eles para justificarem eles mesmos. A minha proposta definitivamente não é esta. Acredito sim que determinadas proposições p podem deixar de ser conhecimento e dar lugar a proposições q, mas somente quando q substitui p dentro de um mesmo sistema epistêmico; jamais direi que não faz diferença acreditar em p ou em q, em casos nos quais não existe um evidência E determinante para que se escolha entre uma outra. Não existe nada de pós-moderno nisso, apesar de que, reconheço, se tratar de uma posição até certo ponto relativista, mas nada que se compare ao radicalismo construtivista.

      No fundo essa questão é um pouco linguística também. A definição de “conhecimento” não é uma que você pega um microscópio e observa ou que você faz um teste que pode refutá-la ou confirmá-la. Costumamos definir algo segundo o uso mais comum do termo. Penso que se definirmos conhecimento como uma crença justificada em algo verdadeiro então proposições como “E = mc²”, ou as Leis da Termodinâmica não podem ser consideradas conhecimento pois não podemos considerar que sejam verdadeiras, apenas que são as explicações mais satisfatórias frente as evidências que possuimos hoje. Em outras palavras, penso que se conhecimento se referir apenas a proposições verdadeiras, então só poderemos considerar verdadeiro alegações como “triângulos possuem três lados.”

      Para simplificar, exclui aqui a possibilidade de mudanças no sistema de justificação de crenças, deixo para quando for tratar do assunto mais a fundo, mas também não creio que a substituição de um sistema S por um sistema T irá me tornar alguém parecido com um construtivista que acha que S e T são igualmente válidos ao mesmo tempo.

      Curtir

Quer fazer um comentário?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s