Obama, as armas e o chá

Responda sem pensar: as políticas de Obama têm restringido ou facilitado a posse de armas por civis bem-intencionados nos EUA?

Se você respondeu restringido, me desculpe, mas você acabou de ser vítima de uma campanha comercial que usa pessoas com sérios problemas intelectuais como garotos propaganda.

A verdade é que as políticas de Obama com relação ao armamento de civis tem sido, pasmem, mais facilitadoras do que as políticas de seu antecessor, George W. Bush! Apesar de Bush ter sido um ferrenho combatente das liberdades individuais, o imaginário popular insiste em dizer que Obama sim é o verdadeiro inimigo delas. “Como pode isso ser possível” pergunta meu leitor, “se Obama é um esquerdista democrata contra a liberdade e Bush um caipira republicano a favor dos direitos individuais em especial o de portar armas?”

Simples, a cada vez que alguém sai com destaque nos jornais para anunciar que Obama, agora eleito, ou agora reeleito, ou que caso Obama consiga maioria no Congresso, irá criar leis que restringem a posse de armas, o povão sai às polvorosas às ruas para… comprar armas! Sim, meus caros, meramente golpe publicitário que não tem nada a ver com política. Propaganda comercial mesmo, como as que vemos na Globo.

Importante: não sou um defensor do governo Obama. O defendo agora porque acho o justo a se fazer, mas o ataco quando acho justo também (como no recente escândalo de espionagem).

Vamos direto aos fatos. Em primeiro lugar, as pessoas realmente acreditam que Obama é favorável ao desarmamento, como podemos ver em um artigo escrito em Novembro de 2008, na época da eleição que Obama venceu, para a sessão de Direitos Civis do About.com. Segundo o autor, Obama é claramente favorável ao controle de armas e ele provavelmente não vetaria uma lei banindo as armas para os civis. O artigo ainda faz “terrorismo” no final, antevendo um cenário apocalíptico de privação de direitos civis caso Obama passe adiante suas políticas. Segundo outro artigo do mesmo site, a Associação Nacional do Rifle (National Rifle Association, NRA), através de seu diretor executivo Wayne LaPierre disse antes das eleições de 2008 que “nunca na história da NRA nós lidamos com um candidato à presidência – e centenas de candidatos concorrendo a outros cargos – com um ódio tão profundo às liberdades de armamento.”

E qual o efeito prático de declarações como esta? O FBI responde. Sim, o FBI. Acontece que seria praticamente impossível determinar o número de armas vendidas anualmente nos EUA, conforme pode ser visto no Business Insider, mas como naquele país é preciso que você seja checado (background check) ao comprar uma arma (legalmente), pode-se fazer uma estimativa com base nelas. O número de checagens por ano nos dá um indício do aquecimento do mercado interno americano de armas, informação esta que está no site do FBI. Em 2001, quando Bush assumiu, foram realizadas quase 8,9 milhões de checagens. Em 2007, penúltimo ano de seu mandato, esse número era de 11,2 milhões, um incremento de 2,3 milhões. Em 2008, esse número pulou para 12,7 milhões e em 2009 já eram 14 milhões. Em 2012 foram feitas 19,6 milhões checagens. Ninguém precisa ser muito inteligente para perceber que a paranoia anti-Obama tem rendido aos fabricantes e vendedores de armas bastante lucro! A NRA, com certeza, deve estar amando o governo Obama, nunca faturou tanto!

Mas será que as pessoas que estão lucrando deram sorte de ganhar um presidente desarmamentista ou tudo não passa de um golpe publicitário como afirmei antes? A verdade é que Obama nunca foi favorável a uma proibição do porte de armas nos EUA. Em 2010, quando já era presidente, ele chegou a receber F em TODOS os quesitos de avaliação de seu governo no que diz respeito ao controle de armas pelo grupo Brady Campaign to Prevent Gun Violence, conforme noticia o The Hill. O presidente do grupo ainda acusou Obama de ter suspendido duas leis contra o armamento que ele considerava boas. Nem o governo anterior havia sido tão duramente criticado. Em 2006, quando ainda senador, Obama votou a favor de uma lei que proibia confiscação de armas de civis, mesmo em tempos de crise, segundo a CNN. A mesma matéria diz que Obama acredita “que a Constituição confere ao indivíduo o direito de possuir armas. Mas possuir um direito individual não significa que o governo não pode legislar sobre o exercício deste direito.”

Em outras palavras, Obama, desde a época de senador, já mostrava qual era sua ideia: cidadãos devem possuir o direito de portarem armas, mas isso não significa que qualquer cidadão possa ter as armas e a munição que quiser. Ele nunca sinalizou com o banimento de armas, nem durante a crise da escola de Sandy Hood, em Newtown.

Quando a notícia desse massacre correu o mundo, Obama anunciou uma série de medidas para evitar casos semelhantes no futuro. Essas medidas previam o aumento de rigor na checagem e o combate ao tráfico (pessoas que passam na checagem mas que depois vendem as armas para pessoas que não passaram), medida que visa dificultar que as armas cheguem nas mão de mal-intencionados, mas que apenas onera com uma leve burocracia extra aquelas pessoas bem-intencionadas. Um sacrifício para lá de aceitável, não? A medida também previa criar uma lista de armas proibidas e uma forma de impedir que a indústria usasse artifícios para burlar tais proibições. As armas proibidas seriam aquelas capazes de facilitar massacres, como automáticas, metralhadoras etc. Ora, nenhum cidadão comum precisa ter uma arma que cospe 10 tiros por segundo para se proteger de assaltos! Por fim, Obama também visava restringir a quantidade de balas nas armas e os tipos de munição disponíveis. A não ser que você precise proteger sua família de grupos criminosos semi-militarizados que invadem casas com pequenas tropas de 10 homens para roubar Iphones, ou que você queira invadir uma escola para matar o máximo de pessoas que conseguir, você não irá precisar de uma metralhadora semiautomática com 50 balas no pente para absolutamente nada. Essas informações podem ser checadas no Huffington Post e no Daily Caller.

A  submetralhadora MP5 é fabricada pela empresa alemã Heckler & Koch desde a década de 1960. Ela dispara em três tipo de regime: em regime automático (rajadas), semi-automático (um tiro a cada vez que o gatilho é pressionado), bursts (pequenas rajadas de 2 e 3 tiros a cada vez que o gatilho é pressionado). Calibre 9 x 19 mm Luger. Sistema de suprimento carregadores de 15 ou 30 munições.

Contudo, não é isso que a oposição disse que a proposta de Obama almejava. A oposição saiu como louca afirmando que Lanza desobedeceu a no mínimo quatro leis quando executou seu plano, e que portanto banir as armas ou aumentar o número de leis restringindo não resolve – tais leis seriam simplesmente ignoradas no futuro assim com as atuais foram! Mas o plano de Obama não visava criar leis que tornariam o massacre um ato “ainda mais criminoso.” O plano dele era dificultar ainda mais a aquisição de armas adequadas para massacres como o que aconteceu. O plano de Obama visava deixar pessoas mal-intencionadas o mais longe possível de armas poderosas.

Como parte da estratégia, foi lançada na mídia uma verdadeira tsunami de contra-informação. Quem se beneficiou com isso? Os vendedores de armas, óbvio, que ganharam 1) em aumento de vendas e 2) em conservação da lei atual, que não tem impedido que pessoas mal-intencionadas consigam armas. O que eles querem é vender armas, não importa a quem. Nunca se esqueçam que violência é um excelente negócio para quem fabrica armas, e se duvidam podem ver esse vídeo do excelente canal do Leandro Zayd:

As fabricantes de armas estão claramente inventando fatos falsos para criar um inimigo comum inexistente capaz de unir várias pessoas em sua causa. E o pior é que quem as propaga não são eles, mas pessoas que acham que estão lutando por um país livre. Não preciso nem dizer que a mentira surtiu efeito e o plano de Obama foi vetado. Oficialmente, nada foi feito para evitar novos massacres. A mentira surtiu tanto efeito que até idiotas aqui no Brasil deram repercussão a ela, ingenuamente é claro. Eles nem sonham com o que está realmente acontecendo.

Muito se diz que essa campanha contra o Obama vem do partido rival, que vem dos Republicanos. Isso é parcialmente falso. Se eu tivesse que escolher entre verdade ou mentira, eu diria que se trata de uma mentira. Quem tem dois neurônios e é minimamente honesto com os fatos deve reconhecer que o plano de Obama deveria sim ter sido aprovado e é impossível que não hajam políticos republicanos que pensem assim. Os reais garotos propaganda dessa campanha caluniosa são os membros do Tea Party, verdadeiros ignorantes que tomaram conta do partido desde o final da década passada.

O Tea Party é um grupo predominantemente cristão que flerta com o fundamentalismo. Pregam um ódio quase irracional aos democratas e destroem carreiras de republicanos que votam junto com qualquer democrata. São completamente ignorantes, não entendem nada de política, economia etc mas acham que devem fazer sua opinião valer, mesmo que na marra. Acreditam que tudo que a América precisa para voltar a ser grande é desaparecer com o governo, torná-lo o menor possível até que possa caber no bolso deles. Dizem que amam a América mas odeiam o próprio governo! Eles são a própria face do reacionarismo. Eles só conseguem crescer na carreira política graças à sua explosiva mistura de escassez de inteligência com excesso de atitude, num efeito similar ao Princípio de Dilbert.

Quadrinho Dilbert de 05/FEV/1995 (link)

Quem entende inglês também pode (tentar) ver essa garota falando sobre o que está lutando. Basicamente ela está lutando para restabelecer a honra. “Que honra?”, pergunta o repóter, e ela responde que é algo relacionado à interpretação original da constituição dos fundadores e que Obama vem lutando contra os direitos das pessoas. “Quais direitos você perdeu com o Obama?”, retorna ele, e ela diz que… hmmm… Obama vem lutando contra eles e… hummm… ele não coloca a bandeira americana atrás dele quando fala! Desculpem, mas não consegui assistir mais do que isso para contar para vocês.

O nível de argumentação de um membro do Tea Party mediano chega a níveis como os mostrados nas citações a seguir:

“God may choose to heal someone from cancer, yet that person still has a great deal of medical bills. The outstanding bills do not determine whether or not the patient has been healed by God.” — Christine O’Donnell

“American scientific companies are cross-breeding humans and animals and coming up with mice with fully functioning human brains.”— Christine O’Donnell

“Do you know, where does this phrase ‘separation of church and state’ come from? It was not in Jefferson’s letter to the Danbury Baptists. … The exact phrase ‘separation of Church and State’ came out of Adolph Hitler’s mouth, that’s where it comes from. So the next time your liberal friends talk about the separation of Church and State, ask them why they’re Nazis.” — Glen Urquhart; evidentemente, Hitler veio ANTES de Thomas Jerfferson, como todos sabem muito bem (que não).

“I absolutely do not believe in the science of man-caused climate change. It’s not proven by any stretch of the imagination…It’s far more likely that it’s just sunspot activity or just something in the geologic eons of time. Excess carbon dioxide in the atmosphere ‘gets sucked down by trees and helps the trees grow.'” — Ron Johnson

“We used to hustle over the border for health care we received in Canada. And I think now, isn’t that ironic?” — Sarah Palin, ex-governadora do Alaska, admitindo que usava os serviços médicos gratuitos dos canadenses, mas que agora luta para que os EUA não disponibilizem um sistema médico similar.

”I love that smell of the emissions!” — Sarah Palin

Vocês podem ver mais aqui e aqui. Este é o nível intelectual dos membros do Tea Party.

O Tea Party não é, entretanto, o que parece ser, nem o que seus membros acham que são. Eles se dizem um grupo aberto de pessoas e que não forma um partido, e que representam a opinião de 30% dos americanos. Mas eles não passam de uma massa de ingênuos que atacam o governo e visam enfraquece-lo em nome das grandes corporações que os financiam sem que saibam. Como Paul Krugman escreveu para o NYTimes, o movimento Tea Party não passa de algo chamado Astroturfing (grama sintética), uma prática que, segunda a wikipedia, se refere a “ações políticas ou publicitárias que tentam criar a impressão de que são movimentos espontâneos e populares.” De fato, o Tea Party recebe patrocínios milionários de grandes empresários. Empresários como Murdoch (um anjinho) e os irmãos Koch (dois anjinhos), que obviamente não têm nada a lucrar com idiotas ferrando o Obama. (Ver aqui e aqui.)

Então o que acontece hoje nos EUA é o seguinte: você tem dinheiro, você patrocina o Tea Party e os membros do Tea Party atuam politicamente a favor de sua empresa sem saber disso. Vejam: pensionistas e aposentados americanos estão sendo levados a votar em pessoas que lutam contra suas pensões e aposentadorias, mas os únicos beneficiados são os empresários no ramo da previdência privada. Há também aqueles que acham que lutam pelo direito de ter arma, mas na verdade lutam é pela total irresponsabilidade do governo no controle de quem pode ou não ter uma e pelos lucros de empresas dos quais eles nunca vão compartilhar.

E como lidar com essas pessoas?

Da próxima vez que você ver alguém dizendo que o Obama luta contra as liberdades individuais, se pergunte quantas liberdades os americanos perderam nos últimos cinco anos. Também se pergunte quantas ele propôs extinguir formalmente mas que não foram extintas por causa da heroica oposição. Se pesquisar um pouquinho, verá que a resposta para ambas é ‘nenhuma’.

Da próxima vez que ver alguém falando de estado mínimo, se pergunte quem se beneficia com isso. Verá que a resposta é: empresas gigantes que não querem ser amoladas pelo governo ou cidadãos comuns. Todos queremos um estado que cobre poucos impostos e o use de forma correta, honesta e eficiente, mas isto não é estado mínimo, é meramente estado. Não existe essa de ou lutamos pelo estado mínimo ou queremos um estado cada vez mais inchado como os patrocinadores do Tea Party querem que acreditemos.

Voltando a atenção para o cenário doméstico, é com pesar que vejo parte da direita reacionária brasileira adotando os princípios libertários (no que diz respeito apenas à economia, pois continuam sendo conservadores sociais, conforme eu disse ontem) sem saber que estão lutando contra si mesmos da mesma forma que os pensionistas que votam em políticos que na verdade pretendem acabar com sua pensão e te explorar depois. Eles acham que estão lutando por eles, mas estão lutando por pessoas ricas, que querem ficar mais ricas, sem dividir o dinheiro com quem ajudou elas.

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3 opiniões sobre “Obama, as armas e o chá”

  1. Ei marco o investigador de humanistas deu uma de garota de recardos de novo dentre as varias pelolas uma me chamou a atenção:

    ”Inclusive a medida de restrição de armas, ou mesmo a espionagem de conteúdo individual (em eras de paz, como agora, enquanto Bush o fez em épocas de guerra).”

    Ue mas o argurmento tanto do Bush quanto do Obama era proteger os cidadões contra o terrorismo que existe tanto em tempos de paz quanto em tempos de guerra. Notou que quando é o Bush que anda fazendo espionagem ele fica bem mais ingenuo?

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  2. outra pelora do sujeito:”O médico de um hospital particular não tem a obrigação de salvar a vida de ninguém. Ele deve tentar. Se ele fizer o seu melhor, já temos um ato moralmente aceitável.”

    É claro que tem se ele esta recebendo salario seja publico ou particular ele tem quer fazer o possivel para salvar a vida do paciente, e ele não esta fazendo um ”ato moralmente aceitavel” e sim a sua obrigação como medico.

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    1. Discutir moralidade com a equipe de fakes daquele blog é como discutir relatividade com a carla perez. Na verdade, só leva a sério o que ali é dito quem está realmente interessado em defender um ponto de vista indefensável, até porque o negócio dele é isso: auto-ajuda para reacionários frustados.

      Vc esqueceu de destacar a maior de todas: que o tea party é um movimento secular. Quase cai da cadeira aqui. Os próprios congressistas e candidatos se definem TODOS como cristãos, exceto a anta brasileira que os vê como seculares. Me pergunto porque a equipe de fakes daquele blog tem tanta vergonha de se declarar cristã.

      By the way, o que achou do post? Eu acompanho a discussão sobre tais assuntos de mais longe que vc, então não tenho mta noção se falei mais do mesmo ou se trouxe coisa nova.

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