Lutero, o esquerdopata

A última moda entre os conservadores de galinheiro, apelidados de reacionários ou de neo-cons, é assumir uma postura simultaneamente conservadora e religiosa do ponto de vista sócio-cultural e libertária do ponto de vista econômico.

Os motivos que levam uma pessoa muito religiosa a ser conservadora são fáceis de se entender e não preciso gastar dedos nisso. Os motivos que levam tal pessoa a uma postura economicamente liberal, ou até mesmo ultra-liberal como no caso dos neo-cons, já não são tão claros assim. (Desconfio que o ultra-liberalismo econômico venha de um raciocínio do tipo “ateus são comunistas, logo tenho a missão divina de ser livre-mercado, uhul!!1!!” mas espero profundamente que não existam pessoas neste mundo que realmente pensem assim.) Entretanto, eles não assumem uma visão 100% libertária por motivos óbvios: acabariam tendo que ser a favor de casamento gay e legalização do aborto e das drogas. Sendo assim, ficam somente com o discurso do estado microscópico.

Uma das estratégias do discurso neo-cons moderno é a análise retrospectiva da história. Ao redefinirem a direita como uma ideologia de estado mínimo, podem colocar no saco da esquerda governos como o de Hitler, que era nacionalista. Quem inventou isso foram os americanos (o pessoal do Tea Party adora falar isso), mas os brasileiros absor

veram a mensagem e a complementaram, dizendo que a ditadura brasileira era esquerdista pelos mesmos motivos. Esse discurso apresenta falhas evidentes, a começar pelo fato de que o conceito de direita não o conceito que os reacionários acham que é. Além disso, não podemos fazer uma visão retrospectiva da história pois senão teríamos que redefinir toda ela toda vez que um conceito mudar. Evidentemente, cada fato histórico é classificado de acordo com seu contexto.

Contudo, resolvi deixar de ser o chato que fica no seu canto maldizendo os idiotas que não sabem brincar e entrar no jogo. Sim, vou promover uma visão retrospectiva da história e mostrar que Lutero, um dos pais do Protestantismo, era um esquerdista roxo e doente que faria Olavo ter calafrios. Atenção: Não faço isso para defender a esquerda, mas para mostrar o quanto os reacionários são ignorantes.

Segundo Lutero, os governantes devem ser obedecidos a qualquer custo, afinal de contas para que o estado possa ficar o mais inchado possível é necessário que as pessoas sejam como cordeirinhos que veneram seus líderes. Mesmo se tal governo for corrupto, ou seja, mesmo se os governantes incharem o estado para poderem roubar mais, devemos obedece-los mesmo assim, sem criar qualquer tipo de levante popular. Como esquerdistas são safados…

“Do mesmo modo, devemos nos submeter à autoridade do príncipe. Se ele abusa ou faz mal uso dela, não devemos odiá-lo, buscar vingança ou punição. A obediência é devida em nome de Deus, pois a autoridade é o representante de Deus.” – Tributo a César

E para piorar, Lutero diz que devemos pagar todos os impostos sem reclamar. Ou seja, os governantes podem inchar o estado à vontade através da criação de novos impostos que está tudo bem! Paguemos os impostos, sejamos coagidos a dar nosso dinheiro de trabalhador honesto a governantes que só querem inchar o estado. E façamos isso obedientemente e sem reclamar! Ah, mas esses esquerdistas são neuróticos e psicóticos mesmo!

“Por mais que eles tributem e exijam, devemos obedecer e suportar com paciência” – Tributo a César

Lutero era tão obcecado com a questão dos impostos que em seu livro “Against the Murderous, Thieving Hordes of Peasants”, no qual ele aponta a urgência de se silenciar um levante popular contra a autoridade do governo inchado durante a Guerra dos Camponeses de 1525 na Alemanha, ele chegou a defender uma passagem da Bíblia deturpada por esquerdistas iluministas escribas do século IV aC, a saber Romanos 13:1-7.

Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus.
Por isso quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação.
Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a potestade? Faze o bem, e terás louvor dela.
Porque ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador para castigar o que faz o mal.
Portanto é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente pelo castigo, mas também pela consciência.
Por esta razão também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo sempre a isto mesmo.
Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra.

Vejam a cara de pau dos esquerdistas usando uma passagem adulterada da Bíblia para defender o pagamento de impostos e o inchamento dos estados! Lutero tenta nos convencer de que dar a César o que é de César significa pagar os impostos em dia e sustentar sem reclamar o estado inchado, mas na verdade significa que as pessoas deveriam devolver a ele as moedas romanas e usar somente as moedas cristãs da Palestina, ou seja, ele promove uma simulação de falso entendimento da Bíblia para promover o estado inchado com traduções falsas. Como eu sempre digo, não há limites para a psicopatia dos esquerdistas, e eles irão apelar a todo tipo de rotina de manipulação para conquistar seus objetivos e inchar o estado com impostos e coerções. Ah, esquerdistas, só eles mesmo!

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3 comentários em “Lutero, o esquerdopata”

  1. A última moda entre os reacionários é assumir uma postura simultaneamente conservadora e religiosa do ponto de vista sócio-cultural e libertária do ponto de vista econômico.

    E como você define uma pessoa que é ateia, defende o Estado mínimo e opta por um conservadorismo sócio-cultural que preserve os valores ético-morais que viabilizam a vida em sociedade, ao mesmo tempo que defende o direito de homossexuais se unirem civilmente e adotarem crianças abandonadas, mas é radicalmente contra a atribuição irrestrita de inimputabilidade a criminosos abaixo dos 18 anos, para ficar em dois exemplos. Querer enfiar num mesmo saco todos que discordam de determinados pontos de vista não seria uma estratégia de anulação da discordância?
    E estou me perguntando como você inferiu que a defesa de Lutero da obediência cega e irrestrita aos príncipes implica necessariamente um “Estado inchado”? Não que eu defenda Lutero, não defendo em absolutamente nada, mas me parece uma forma questionável de se apresentar um argumento.
    Por que veja, é perfeitamente possível defender a obediência cega e irrestrita a um Estado mínimo.

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    1. Quando defendemos um modelo, não estamos dizendo que todos os indivíduos que ele contemplam possuem pensamento idêntico. O reacionário comum possui as características acima citadas, o que não impede de ser ateu, por exemplo.

      Sobre a obediência cega a um Estado Mínimo. Não vejo o poder de sua conjectura fantasiosa. Um Estado Mínimo só seria cegamente obedecido caso todas as pessoas decidissem isso voluntariamente, já que este estado teria um poder muito limitado. Mas supor que a grande maioria da população tomasse essa decisão voluntariamente é utópico. Esta ideia também iria contra o próprio princípio de Estado Mínimo, que prega a liberdade de escolha nas decisões políticas e não a obediência cega. Só poderíamos pensar em uma obediência cega a um estado gigante e monopolizador de poderes.

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