O Evangelho, o Gênesis e a Hamster

Para quem gosta de animes japoneses, ou mesmo para quem não gosta porque acha que são todos iguais, eu dou uma excelente dica: Evangelion. Desde seu lançamento, em 1995 (quase 20 anos!), a curta série de 24 episódios tem conseguido figurar em praticamente toda lista de melhores animes japoneses de todos os tempos. Não é à toa, e possivelmente é ela mesma a melhor.

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O que mais chama a atenção na série é o desenvolvimento psicológico dos personagens. Ela segue na contramão da arte popular que vigora há muito tempo, que foca a trama em acontecimentos que se resolvem quase que por si mesmos e presenteando com bons finais as pessoas consideradas justas e merecedoras.

Evangelion, por sua vez, não foca sua trama nessas besteiras. Não que cenas nas quais o herói é salvo por sorte não aconteçam em nenhum momento (algo que em pequenas doses dá sim um tom mais interessante à trama), mas que o foco está no desenvolvimento dos personagens. Todos os protagonistas são analisados a partir de um ponto de vista freudiano, frequentemente buscando explicações para seus comportamentos e atitudes nas suas vidas sexuais e nos seus relacionamentos com os pais.

Shinji, o protagonista, não conhece a mãe, que morreu quando ele ainda era muito novo. Foi criado por um pai relapso por uns tempos, que depois desistiu de criá-lo e o mandou para morar com um professor. Com 14 anos, ele era um adolescente inseguro, retraído, extremamente tímido, incapaz de fazer valer sua opinião ou até mesmo de apresentá-la quando não era pedida. Tem raiva do pai, apesar de achar que isso é errado, mas também o ama, apesar de achar que ele não merece. Há quem diga que sua incompetência como herói e seu excesso de sensibilidade tenham causado mais mortes que os inimigos contra os quais lutava, e isso tem lá seu fundo de verdade.

Ele levava uma vida absolutamente pacata e sem graça até o dia em que é chamado até Tóquio III por seu pai (Tóquio I havia sido devastada 14 anos antes por uma inundação global acarretada pelo derretimento da Antártica, este por sua vez causado pela queda de um meteoro – evento conhecido como Segundo Impacto). Chegando lá ele encontra uma cidade totalmente vazia e quando menos espera se vê no caminho de um monstro de 50 metros em combate com inúteis helicópteros de guerra que sequer o arranhavam.

Ele então é resgatado e levado às pressas para uma base subterrânea onde fica o QG de um órgão paramilitar chamado NERV (carne ou corpo, em alemão), presidida por ninguém menos que seu pai. Ele recebe a missão de entrar num robô gigante de 50 metros também (os Evangelions) para combater o monstro lá fora, agora identificado como sendo um Anjo, um emissário de Deus que pretende destruir a humanidade. Shinji então se torna piloto do robô gigante, passa a morar com Katsuragi, a major da NERV e responsável por suas missões militares (matar os Anjos), e com a terceiro piloto, uma alemã chamada Asuka e da mesma idade que ele. Além disso, passa a frequentar uma escola na qual é cobrado pelas suas falhas como piloto, passa a ter que conviver com os inúmeros funcionários da empresa e a ter que enfrentar seu pai. Passa a ter que encarar de frente sua puberdade em meio às lindas e atrevidas meninas japonesas também, rs. Tudo isso vai fazendo com que ele deixe de ser um pamonha e comece a ser mais homem (não necessariamente no sentido hetero da palavra :P)

Protagonistas. Em sentido horário, começando pela garota mais em cima: Asuka, Gendo (Pai do Shinji), Akagi Ritsuko, Rei, Shinji e Misato Katsuragi. No fundo, EVA01.

A alemã Asuka, por sua vez, sofre do mal contrário. Arrogante, metida, prepotente e gosta de chamar a atenção. Parece não gostar de ninguém e quer sempre se exibir. Ao longo da série, entretanto, acaba tendo que suportar a humilhação de ver Shinji se tornar um piloto melhor do que ela até o dia em que enfrenta um Anjo que invade sua mente e trás à tona todos os traumas que ela teve na infância relacionados à doença mental e ao posterior suicídio de sua mãe. A personalidade da Asuka é dissecada no episódio 22 da série, disparado um dos melhores episódios de qualquer série que eu já vi.

A terceira protagonista é Rei, uma adolescente albina e um pouco autista, praticamente sem personalidade. E o que falta de personalidade sobra em seios, motivo pelo qual ela é venerada por 11 em 10 fãs de garotas de animes (vulgos punheteiros rs). Rei se dá melhor com o pai de Shinji do que o próprio Shinji, o que a princípio a torna motivo de ciúmes, evoluindo para uma disputa velada de quem ela prefere. Disputa essa que ganha contornos bem freudianos quando enfim deixam “implícito nas entrelinhas” qual a verdadeira identidade da menina de 14 anos cujo passado ninguém conhece. Ao longo da série, Rei também vai se descobrindo como humana, até chegar ao clássico episódio 23 em que ela começa a chorar e fica espantada por estar fazendo isso pela primeira vez na vida.

Os demais personagens também são analisados durante a série. A Major Katsuragi detestava o pai, mas ele acabou por dar sua vida para salvá-la do ataque de um Anjo quando ela ainda era criança, o que a fez estabelecer sentimentos ambivalentes em relação a ele, uma personalidade “levemente” vulgar e um ódio quase irracional contra Anjos. A cientista Ritsuko é praticamente esmagada ao longo da série. Viu sua mãe se matando por causa de uma paixão não correspondida com o pai de Shinji, mas acabou ela mesma se tornando amante dele quando adulta. A rejeição sofrida por ele a faz se sentir velha e inútil ao longo do tempo. E por aí vai.

A série começa num clima leve, quase um shoujo, mas vai preparando terreno para um fim deprimente, onde quase todos os personagens se entregam a comportamentos auto-destrutivos, depressivos e suicidas. Um terreno fértil para psicólogos e psiquiatras, bem como para os que apenas se interessam.

Rei e Asuka (e um pouco de fan-service)

E a mistureba não para por aí. Além de elementos de séries de ação japonesa, de ficção científica, de dramas adolescentes, de leve pornografia e violência e de psicanálise freudiana, Evangelion também possui elementos de cabala e de mitologia cristã. A mais óbvia está no nome da série, que faz referência ao livro de Gênesis.

Gênesis?

Sim. A série na verdade se chama Neon Genesis Evangelion. Os Evangelions representam a nova Gênesis, a construção de uma raça humana superior, sendo dessa forma criaturas vivas (e não robôs como se acredita inicialmente) produzidos a partir de clones de Adão, por isso sendo chamados de Eva ou Evangelions. Isso sem contar com as referências ao Anjos, à lança de Longinus e a diversos outros detalhes que remetem ao cristianismo.

EVA Unidade 02 destruída em combate. (Filme)

E tudo isto mergulhado num ambiente conspiracionista, repleto de segredos que nem sempre são revelados de forma explícita (ou que não são revelados de forma alguma). Enfim, uma série cheia de elementos e que se destaca por ser uma das precursoras das perspectivas freudianas dos personagens como um dos focos principais da narrativa. Um verdadeiro clássico da história das séries de ficção, obrigatório para qualquer pessoa que se interesse por material de qualidade. (Para quem acha que dei muito spoiler aqui, só digo uma coisa: não revelei nem um décimo do importante).

Agora mudando de assunto, os bons observadores irão notar que a cerveja que a Major Katsuragi toma todo dia no café da manhã (sim, no café) se chama Ebichu. Mas quem diabos é Ebichu?

Ebichu é o nome de uma linda hamster que protagoniza uma série de mangá japonesa na qual Hideki Anno, autor de Evangelion, é apaixonado. Por isso ele resolveu incluir o nome da pequena hamster (não a confundir com o infantil Hantaro!) de alguma forma na trama de Evangelion. Em 1999, contudo, ele resolveu chamar os mesmos dublês de Evangelion e adaptar Ebichu para a TV, o que resultou em outra série dele estupidamente foda.

Nossa pequena hamster com cérebro de três gramas foi comprada a preço de banana por uma jovem comum que trabalha num escritório comum em Tóquio e que ficou surpresa com o fato dela conseguir conversar como humanos. Empolgada com a novidade, ela resolve obrigar a pobre ratinha a ser sua escrava doméstica, lavando roupas, limpando a casa e fazendo a faxina. É por isso que a série se chama Oruchuban Ebichu, ou Ebichu Cuida da Casa.

A pobre ratinha acaba se vendo obrigada a obedecer sua dona, a quem ela chama carinhosamente de Mestra (seu nome não é dito em momento algum), apesar de ser violentamente espancada toda vez que comete algum erro ou toda vez que age de maneira inconveniente (ou seja, apanha o tempo todo). Ela perde mais sangue durante os 24 episódios da série do que eu tenho no meu corpo agora, pobre coitada.

Ela adora sorvete e queijo camembert, mas é obrigada a se contentar com sobras de arroz. Mas a Mestra também tem suas tristezas: tem 25 anos e não conseguiu êxito profissional, não conseguiu casar e seu namorado é um vagabundo inútil que vive traindo ela. Seus vizinhos são um casal recém-casado de 24 anos que esnobam felicidade conjugal por onde quer que vão, fazendo sua vida se tornar ainda mais miserável.

Mas não se enganem. Essa não é uma série sobre uma ratinha pobre e inocente sofrendo nas mãos de uma mulher mal-resolvida e fracassada. Ebichu não é recomendado para menos de 18 anos por ser uma série com forte conteúdo sexual. Cenas de nudez são o de menos, quase todo episódio possui cenas de sexo explícito e todos eles possuem palavrões chovendo.

‘Boceta’ é dito pela Ebichu pelo menos umas 10 vezes por episódio.

O melhor amigo do namorado da Mestra é um zoófilo que começa a ignorar a namorada depois que ela se recusa a ajudá-lo a realizar suas fantasias sexuais envolvendo a hamster.

E tudo isso culmina em cenas filosóficas, nas quais a hamster tenta entender como funciona a complexa sexualidade dos humanos. “Por que vocês dizem ‘Não’ se querem fazer sexo? Por que vocês dizem ‘Pare’ se continuam fazendo sexo?” pergunta a ratinha enquanto sua dona faz sexo com o namorado, resultando numa broxada do casal e numa sessão de espancamento. E todo o conhecimento adquirido pela hamster ao ver seus donos fazendo sexo a fez se tornar uma consultora em sexo, que vaga pelas noites de Tóquio salvando a vida sexual daqueles que não conseguem atingir seu orgasmo.

Sim, Hideki Anno é meio psicopata. Tudo que ele faz tem bastante sangue, sexo e comportamento maníaco-depressivo.

Essa série está completamente fora da realidade. Ultrapassa qualquer conceito que podemos dar à palavra engraçado. Ebichu é uma série que continua engraçada mesmo depois de ter sido vista umas dez vezes. Ver as aventuras domésticas da hamster torna qualquer dia morno e sem graça em um dia especial. Ebichu tem esse poder. Entregue-se a ela. Aqui. Agora. Pelo Youtube ou baixando pela internet. JÁ.

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