A Moralidade Sobre a Areia – Parte 1: A Violência Contra as Mulheres

Há alguns meses, um contato de um contato meu no Facebook postou a reportagem Vítima de crime, garota afegã não pode voltar para casa, publicada pela Folha de São Paulo no dia 28/01/2013. A reportagem conta a história de Gul Meena que foi agredida pelo próprio irmão com um machado, chegou ao hospital com o cérebro saindo para fora e que mesmo assim sobreviveu e passa bem. Segundo o irmão, o crime foi cometido porque… ela havia “desonrado a família”. O rapaz que postou tal notícia no Facebook se mostrou indignado e colocou junto o seguinte comentário:

Até que ponto devemos aceitar e tolerar a diferença entre culturas? Será que os direitos humanos não passam de um devaneio francês com pretensão ingênuo-universalista? Eu insisto em pensar diferente. Prefiro me posicionar; prefiro defender a ideia de que, em alguns casos, sim a intervenção de uma cultura sobre a outra se faz necessária a fim de evitar certas atitudes que ouso neste momento classificar como bárbaras ( não encontro palavra melhor). Não vou ficar em cima do muro. Segundo minha crença, nascerei várias vezes neste mundo e é de meu interesse ( haja visto que penso em meu próprio bem-estar) defender que ele melhore. Não quero acordar daqui a mil anos em algum canto da terra para levar – de graça – um machado na testa.

Antes de mais nada, deixemos uma coisa clara: o autor desse texto  fala sobre duas coisas aqui, a intervenção de uma cultura sobre a outra e sobre o espiritismo como justificativa. Algo previsível, as pessoas que se manifestaram na caixa de comentários dele falaram somente sobre a questão da intervenção (acusaram-no de ser “imperialista”) mas ninguém prestou atenção ao espiritismo – o que prova que entendem muito pouco de secularismo ainda. Ao contrário deles, vamos nos focar no trecho final, nas duas últimas frases do texto. A questão da intervenção de culturas é diferente porém praticamente indissociável e por isso ficará em segundo plano.

E para que fique bem claro: não, eu não concordo que devemos aceitar a cultura de países onde a Lei Islâmica está operante e onde atrocidades são cometidas contra as pessoas diariamente. Muito menos acho que o ocidente não deveria interferir de alguma forma ou de outra. O que me escandaliza é a justificativa dele para isso.

Para começo de conversa, destaco um dos pontos mais chocantes no posicionamento dele: como assim ele não quer sofrer o mesmo que essa garota em vidas futuras? Que espécie de ser sem empatia é ele? Por acaso tudo que importa é ele não correr risco de sofrer na sua próxima vida? E o sofrimento dela? E o dos amigos dela? Sinceramente, até parece que ele não se importa com o sofrimento das mulheres que sofrem com a violência machista em seus próprios corpos, e que se tudo isso parar até ele reencarnar por aquelas bandas, está ótimo! Está uma pinoia! Eu acho que aquilo lá tem que parar é agora, independente da chance de algum dia eu poder nascer como uma delas e ter que passar por isso.

Mas não estou aqui para discutir isso também. Estou aqui para dizer que quando ele coloca a justificativa como algo derivado de sua crença, ele comete de cara, e sem avaliar a crença em si, três erros: a falta de respeito, o equívoco estratégico e a desinformação sobre o status atual do desenvolvimento da discussão secular.

Falta de respeito porque ele presume que suas crenças são melhores do que a dos muçulmanos, o que é uma grande de uma baboseira. A cultura islâmica, assim como qualquer outra, apresenta muitas riquezas filosóficas e acrescenta vieses interessantes à noção que o homem tem de si mesmo. Suas tradições e hábitos são a identidade de seu povo e um dos motivos que os tornam diferentes e distintos, servindo como base para estabelecimento de suas próprias nações. Não que seja perfeito, pelo contrário. Existem aspectos que realmente são bárbaros na cultura deles (como em qualquer outra), não preciso nem de dizer quais, mas corrigi-los não é uma questão de impor uma cultura sobre a outra, mas de esclarecer o que é inaceitável em questão de direitos humanos e se restringir a isso.

Exatamente por isso, também é um erro estratégico, pois se os muçulmanos devem adequar toda a cultura deles à do nosso amigo, então eles irão resistir bem mais. Ninguém precisa deixar de ser muçulmano para deixar de violentar mulheres! Se a eles for esclarecido que apoiamos quase integralmente sua cultura mas que reprovamos apenas certos comportamentos e expliquemos racionalmente os motivos para isso, a resistência será incomparavelmente menor. E no fim das contas, só isso importa.

O que leva também ao seu descompasso com o secularismo em voga nos meios acadêmicos. O secularismo propõe uma abordagem sobre assuntos como a moralidade que independe da verdade a cerca de qualquer alegação imaterial ou transcedental, sendo perfeitamente conciliável com qualquer sistema de crenças. Ela não pressupõe nenhuma existência e nenhuma inexistência, pressupõe apenas o esforço e a capacidade humana de determinar o que é melhor para si, servindo assim como um fundamento sólido que funcionará como zona neutra entre todas as culturas, possibilitando que estas conversem entre si e determinem aquilo que deve ser universalmente aceito (como os direitos humanos) e aquilo que cada um cuida por si. (Veja uma breve explicação sobre os princípios de uma moral secular e sobre como ela se fundamenta na empatia na tradução que fiz do texto A Ilusão de que os Ateus são Imorais.)

Em um argumento por analogia, eu poderia dizer que devo impor a ele (e a quem concorda com ideias semelhantes) uma cultura ateísta já que a cultura ocidental com seu viés predominantemente cristão, baseada num sistema tosco e ultrapassado de recompensa/punição, é ingênua e fracassada uma vez que apoia sistemas morais potencialmente falsos e que são epistemologicamente infalseáveis (ver o artigo O Fracasso da Moralidade Cristã no blog Rebeldia Metafísica, que é um artigo bem curto). Além de potencialmente psicopata (agora um texto de minha autoria: Craig e o Massacre de Newtown, também curto e com uma continuação igualmente relevante). Eu poderia dizer que é inaceitável que pessoas baseiem suas ideias nessas ilusões bobas, que todo religioso deveria virar ateu e que só uma ética ateísta pode funcionar neste mundo. Contudo, isso seria meramente uma imposição cultural desrespeitosa, ineficaz e anti-secular. Um artigo do Journal of Applied Philosophy, também traduzido ao português pelo blog Rebeldia Metafísica, chamado Ateísmo Militante Contemporâneo (este sim, um texto bem grande) concorda que isso seria absurdo, discutindo sobre o erros da imposição do materialismo dos ateus sobre os religiosos e sobre como a atitude secular é bem mais sensata.

Agora vou entrar especificamente na crença dele, a de que almas/mentes/espíritos que se reencarnam. Ao que parece, ele parte de um dualismo corpo/mente que é praticamente indefensável em qualquer instância da Filosofia da Mente e da Neurofilosofia atual. Sabemos que lesões no cérebro podem tornar um homem sistemático em uma pessoa vulgar e sem pudor (Phineas Gage que o diga). A temperatura do copo que você está segurando agora determinará seu comportamento daqui há alguns instantes (vejam o artigo Experiencing Physical Warmth Promotes Interpersonal Warmth, em inglês). Seus posicionamentos políticos são influenciados pelo cheiro do ambiente ao seu redor! (Veja o artigo All Politics Is Olfactory, também em inglês, do psicólogo David Pizarro para o NYTimes.) Nosso cérebro pode se tornar incapaz de registrar novas memórias caso o hipocampo seja removido (vejam o verbete Hipocampo na PsiqWeb.) Como defender então alguma forma de independência entre corpo e mente dada a sua relação tão estreita? Não estou nem dizendo que os dualismos devem ser abandonados necessariamente em prol de um materialismo cru e mal-esclarecido! Existem também propostas monistas como a do Neurofilósofo Antônio Damazio (ver O Resgaste do Monismo de Espinoza, um artigo da Unesp que sintetiza o pensamento de Damazio.)

Dadas as dificuldades em se estabelecer a verdade da crença em outras vidas, basear a moralidade em cima disso é como construir um edifício sobre areia. Um sistema moral consistente não precisa supor a falsidade das crenças de ninguém, mas também não pode se dar ao luxo de depender da veracidade de nenhuma. Especialmente quando se trata de uma crença tão frágil academicamente como a do espiritismo.

Ao construir uma moralidade baseada em sua religião, nosso amigo acabou construindo um sistema moral em cima de um banco de areia. Se a vida após a morte já é algo altamente questionável, o retorno então nem se fala. Só isso já torna o solo embaixo da moralidade dele perigoso o suficiente para que qualquer pessoa possa simplesmente o rejeitar, caso não haja nenhuma imposição. E sejamos práticos, se for para impor algo, que se imponha a proibição efetiva de agressões e não a religião dele. Mas a melhor saída, com certeza, é propor um diálogo que independe das religiões e que pode ser aceito tanto por um judeu, cristão, muçulmano, espírita etc quanto por um ateu.

Continua em breve…

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2 opiniões sobre “A Moralidade Sobre a Areia – Parte 1: A Violência Contra as Mulheres”

  1. Sou o autor do texto que você mal interpretou, mas não a culpo por isso, já dizia Platão que as palavras escritas não são “um bom veículo para as ideias”. Ele dizia isto, principalmente porque o autor do texto escrito nunca está ali para responder os enganos deixados por ele. De onde surge toda aquela teoria das doutrinas não-escritas… Se animar conversar, que seja por email, por telefone, me procure no contato rebertborges@hotmail.com. Agora é minha chance de ver se você possui mesmo alguma boa intenção por trás de seus discurso humanista, Pel oque vejo, defendo exatamente a mesma coisa que você, pois estou dizendo, apenas, que a violência é condenável. Sou eu quem faço dança árabe por a achar belíssima e não você, e sou eu quem afirma com frequência aos meus amigos que a música e a arquitetura deste povo são imbatíveis… Sou eu quem acha a burca belíssima. O que eu condeno neste povo é o fato de uma mulher que se recuse a usar a burca ser violentada por seus parentes próximos segundo uma legitimidade nefasta… o que é bem diferente… Mas está tudo bem, quantas vezes eu mesmo fui apressado em minha vida e procurei sofregamente por um deslize de alguém para cair em cima…

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    1. Cara, nós nos conhecemos! Acho que você não lembra de mim, mas eu definitivamente lembro. Ficamos conversando um tempão sobre mass effect 3 (você contando mais ou menos o enredo e eu adivinhando o final heheheh). Sou o engenheiro que formou na mesma turma do Michel. Mas você sumiu do MSN, ué! De qualquer forma, acabei de te adicionar no facebook.

      Antes de mais nada: assinei o texto como BrunO Almeida, sou homem!!

      Aliás, eu vi este texto seu porque o Dênis e a Daniela Guarato (contatos nossos em comum no Face) comentaram, então apareceu em minha timeline. Fiz esse texto para enviar para você por lá, mas só poderia postar se fôssemos contato. Daí tentei te adicionar, mas você não aceitou (espero que aceite desta vez!) e como vi que ficaria legal publicar no meu blog, publiquei.

      Como eu deixei muito claro no meu texto, a cultura árabe é bastante rica e a violência é um ponto que merece intervenção externa. Concordamos quanto a isso. O que eu critiquei no seu texto foram os motivos que te levaram a condenar a violência, que foram baseados na sua religião. Basicamente, se você condena eles por causa da sua religião, como você espera obter algum resultado? Eles não acreditam no mesmo que você então não irão aceitar a sua alegação de que devem abandonar a violência.

      Em momento algum eu visei criticar o espiritismo. Quando eu apontei algumas objeções científicas à ideia de alma distinta do corpo físico, de serem substâncias distintas (defino substância como aquilo que é por si só), foi apenas para mostrar que uma condenação à violência baseada nele perde força por causa das relativamente fortes objeções que podem ser feitas à própria base da religião.

      Não sou capaz de defender de maneira adequada a falsidade de nenhuma religião, quem dera, mas sempre posso apontar falhas e levantar objeções sérias. Não faço isso por ódio ou por raiva, como você pensou (e falou numa conversa com o Dênis). Desculpe se deixei parecer isso. Por fim, creio ter havido alguns mal entendidos no seu entendimento do meu texto. Estou 100% disposto a discutir o que você quiser, responder tudo que perguntar e esclarecer qualquer ponto, mas espero que tal disposição seja recíproca.

      Os comentários aqui são livres (exceto o primeiro, que já está feito), então sinta-se livre para escolher o canal. Meu email está no Contato, caso deseje usá-lo.

      Grande abraço!

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