Surgimento das Universidades

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Título Original: Rise of the Universities
Autor: DAVID DEMING Tradução:  Suriani
Publicação: Science and Technology in World History, Vol. 2

SURGIMENTO DAS UNIVERSIDADES

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Escolas Monásticas e Catedrais

Um dos eventos mais significativos da Alta Idade Média européia foi a fundação das universidades. Essas instituições se tornaram os antecessores diretos das universidades modernas da Europa e da América. As universidades europeias não eram as descendentes diretas da Academia de Platão, mas originaram-se como conseqüências das escolas monásticas e catedrais do século XII dC. [1] “A universidade é claramente uma instituição medieval.” [2]

De cerca de 550 dC até 1100 na Europa, “as escolas religiosas tornaram-se o único meio pelo qual a cultura podia ser adquirida e transmitida.” [3] Até o Renascimento Carolíngio do final dos séculos VIII e IX, “a aprendizagem era principalmente uma questão para o clero.” [4] Qualquer criança que fosse educada em uma escola-mosteiro estava destinada ao clero. “O clero era praticamente a única classe que possuía ou desejava possuir pelo menos os conhecimentos rudimentares.” [5]

No monasticismo* Oriental, o analfabetismo era comum. Mas no Ocidente, “a leitura da Sagrada Escritura … parecia essencial para qualquer vida monástica completa.” [6] São Bento de Núrsia (480-547 dC), o fundador do monasticismo ocidental, na seu Regra, estabeleceu alfabetização e leitura como obrigações indispensáveis a um monge. “Em dias de Quaresma eles [os monges] devem receber livros separados da biblioteca, que eles devem ler inteiramente … Além disso, no domingo, todos devem se dedicar à leitura.” [7]

(*NdE: Uma outra possível tradução para ‘monasticism’, além de ‘monasticismo’, é ‘monaquismo’.)

No entanto, o estudo foi confinado principalmente a materiais religiosos. “Se um bispo tivesse muita dificuldade no ensino da gramática ele estava prestes a causar um pequeno escândalo.” [8] Os únicos trabalhos sobre filosofia natural que foram traduzidos para o latim foi a primeira metade do Timeu de Platão. [9] O que era científico era representado pelos materiais das Etimologias de Isidoro.

O currículo secular consistia das sete artes liberais. Eslas foram subdivididos no Trivium formado por gramática (literatura), retórica e dialética (lógica), e no Quadrivium formado por geometria, aritmética, astronomia e música. Estas disciplinas se materializaram como o currículo base nos tempos clássicos, sendo finalizadas “em meados do século I aC.” [10]

As disciplinas do Quadrivium recebiam pouca atenção. “Aritmética e astronomia entraram para o currículo educacional principalmente porque elas ensinavam os meios de se calcular a Páscoa … a verdadeira educação secular da Idade das Trevas foi o Trivium.” [11] Ao contrário de sua rejeição em última instância no Islã, o estudo da lógica encontrou uma casa acolhedora na Europa cristã. Embora o estudo dos clássicos latinos, como Virgílio ou Ovídio, fosse por vezes controverso, “não havia nada pagão em silogismos.” [12] “A lógica era o único tesouro arrancado dos destroços intelectuais de uma civilização passada que ele [o estudante cristão] era incentivado a se apropriar.” [13] Os europeus possuíam cinco livros do Organon de Aristóteles que tinham sido traduzidos por Boécio (c. 480-525 dC). [14] Assim, o renascimento da lógica nos séculos XI e XII foi o resultado de um longo período de incubação.

O método geral de ensino praticado nas escolas monásticas “foi o de pergunta e resposta.” [15] Os alunos memorizavam respostas rotineiras a perguntas padronizadas. No estudo da gramática, depois de aprender as regras básicas, os alunos liam “em primeiro lugar, a Eneida de Virgílio, e então um pouco de Terêncio, Horácio, Estácio, Lucan, Pérsio e Juvenal.” [16]

Os Francos eram “uma confederação de tribos germânicas que, sozinhas, tinham conseguido estabelecer um reino permanente” na Europa. [17] A família mais poderosa entre os Francos, os Carolíngios, ganharam o trono em 751 dC. [18] No dia de Natal do ano 800 dC, Carlos Magno (742-814), rei dos Francos, foi coroado “Imperador dos Romanos” pelo Papa. [19] A coroação de Carlos Magno prenunciava o fim da Idade das Trevas na Europa e do surgimento da Alta Idade Média. “A partir desse momento começa a história moderna.” [20]

Carlos Magno era praticamente analfabeto (“ele também tentou escrever”). [21] Mas ele era esperto o suficiente para conceber que “uma unidade genuína do seu povo poderia ser obtida somente através da vida interior, por meio de uma linguagem, uma cultura, e um conjunto de idéias comuns.” [22] Assim, a educação era necessária.

O impulso dado à educação pelos decretos de Carlos Magno ficaram conhecidos como o Renascimento Carolíngio do final dos séculos VIII e IX. Pela primeira vez, não apenas os monges, mas o público em geral seriam educados. “Um sistema regular de ensino foi planejado, começando com a escola da aldeia, a cargo do pároco, para os estudos mais elementares, e levando-se através das escolas monásticas e catedrais para a Escola do Palácio.” [23] Carlos Magno confiou à Igreja o dever de ensinar “aqueles que pelo dom de Deus são capazes de aprender, cada um de acordo como sua capacidade.” [24]

Com um sistema de educação elementar em vigor, os melhores e mais brilhantes estudantes desejavam mais do que poderiam obter em uma escola da aldeia. Como a economia da Europa prosperou no século XI, os alunos se multiplicaram. Eles viajaram, buscando os melhores professores nas escolas catedrais. Os professores mais bem-sucedidos, como Pedro Abelardo, tornavam-se ricos e famosos.

Escola de Medicina de Salerno

A mais antiga universidade européia foi a escola de medicina de Salerno, Itália. “A origem da Escola de Salerno está velada em uma obscuridade impenetrável,” [25], mas parece ter começado a partir de um hospital dirigido por monges beneditinos. O hospital beneditino em Salerno era “famoso já desde o primeiro quarto do século IX.” [26] Outro fator importante foi a reputação de Salerno como um “resort de saúde.” [27] A presença dos beneditinos “transmitiu o ambiente acadêmico para a cidade, e tornou possível reunir os elementos para a universidade, que gradualmente passou a existir em torno da escola médica.” [28]

O estudo e o ensino de medicina em Salerno foi totalmente revivido por volta do século XI. Um produto da escola médica de Salerno que foi popular durante séculos na Europa foi o livro Regimen Sanitatis Salernitanum. O Regimen era composto de versos rimados que davam receitas para a saúde. [29] O regime prescrito para uma vida longa e saudável recomendava ar fresco, moderação na dieta e na bebida, e evitar o estresse.

Se tu queres a saúde e vigor obter, / If thou to health and vigor wouldst attain,
Evite grandes preocupações—toda ira é profana, / Shun weighty cares—all anger deem profane,
De refeições pesadas e muito vinho se abster. / From heavy suppers and much wine abstain.
Nem preciso dizer, depois de um suntuoso jantar, / Nor trivial count it, after pompous fare,
Melhor levantar da mesa e tomar um ar. / To rise from table and to take the air.
Evite o ócio, sono do meio-dia, e nem protele / Shun idle, noonday slumber, nor delay
As chamadas urgentes que a natureza nos impele. / The urgent calls of nature to obey.
Estas regras se até o fim quiseres seguir, / These rules if thou wilt follow to the end,
Mais longe na vida tu conseguirás ir. [30] / Thy life to greater length thou mayst extend.

A abadia de Monte Cassino fica a 80 milhas (129 quilômetros) de Salerno, [31] e foi lá que Constantino, o Africano (fl. 1065-1085) traduziu as obras de Hipócrates (c. 460-370 aC), Hunain ibn Ishaq (809-873 dC), Galeno (129-200 dC), e outros escritores médicos. [32] Constantino foi “a primeira figura importante na transmissão da ciência greco-árabe para o Ocidente,” [33], mas ele não poderia ter sido o único responsável pelo renascimento do financiamento do estudo da medicina em Salerno, no século XI. Escritores em Salerno estavam produzindo trabalhos médicos durante a primeira parte do século XI, bem antes de Constantino, o Africano fazer o seu trabalho. [34]

Durante os séculos XI e XII, Salerno foi a principal instituição de ensino médico na Europa. Mas ela não teve descendência. Salerno “permaneceu sem influência no desenvolvimento de instituições acadêmicas.” [35] “Até o início do século XIV, o declínio de Salerno foi completo.” [36]

Estudos Jurídicos em Bolonha

As duas primeiras instituições a se tornar arquétipos para as universidades modernas foram a Universidade de Bolonha e a Universidade de Paris. Estudiosos do norte da Europa (por exemplo, França) estavam preocupados com a lógica e com a teologia. Mas, na Itália, a ênfase era na gramática e na retórica. “Estas artes foram estudadas como auxiliares para a composição de documentos legais.” [37]

No início do século XI, houve um “grande reavivamento dos estudos jurídicos” em Bolonha. [38] O objeto principal do estudo jurídico era o corpo do Direito Romano que tinha sido condensado e arquivado (528-533 dC) por Justiniano I (483-565 dC), imperador do Império Romano do Oriente.

Quando Justiniano ascendeu ao trono em 528 dC, ele achou a massa existente do direito romano altamente confusa. Haviam dois problemas principais. Mil anos de prática tinham deixado um corpo de leis imenso, e portanto simplesmente demasiado grande para ser acessível. A lei também continha muitas disposições contraditórias. Justiniano resolveu, portanto, consolidar a grande massa de material existente em uma forma coerente e consistente e que poderia ser uma ferramenta prática. Ele “fez extrações da lei existente, preservando as velhas palavras, apenas cortando repetições, removendo contradições, diminuindo superfluidades, de modo a reduzir imensamente o volume do todo.” [39] O trabalho resultante tornou-se conhecido como o Corpus Juris.

Bolonha foi a casa natural dos estudos jurídicos, porque por volta do ano de 1000, ela já era conhecida como uma escola de artes liberais para o estudo da literatura. Nestes tempos, havia uma estreita ligação entre a literatura e o direito. “Em uma época em que a leitura e a escrita eram realizadas por poucos, enquanto todas as transações comerciais de qualquer solenidade ou importância eram exercidas em uma língua morta, é óbvio que a ligação entre a gramática e a lei era indefinidamente mais próxima do que aquilo que está de acordo com a idéias modernas.” [40]

O professor mais proeminente da lei em Bolonha foi Irnerius (c. 1050-1130). Irnerius foi “o fundador do estudo sistemático do direito romano.” [41] As obras primárias de Irnerius foram uma série de interpretações sobre o Corpus Juris, um glossário composto de um comentário, uma explicação ou uma interpretação de uma obra acadêmica já existente. “Uma nova escola surgiu chamada de glossaristas, dos quais Irnerius sempre foi com justiça considerado o fundador … ele também foi o primeiro dos medievalistas a tratar da lei de uma forma científica.” [42]

No final do século XI, Bolonha estava atraindo estudantes de direito de toda a Europa. “Desde os dias de Irnerius até o fim do século XIII …. Bolonha foi geralmente reconhecida como a principal escola tanto do direito civil quanto do direito canônico.” [43]

Paris, Oxford e Cambridge

No norte, universidades como Paris surgiram quando escolas catedrais tornaram-se Studium Generale. “Studium Generale significa, não um lugar onde todos os assuntos são estudados, mas um lugar onde os estudantes de todas as partes são recebidos.” [44] William de Champeaux atraiu centenas de estudantes para a escola de Notre Dame, e Pedro Abelardo atraiu milhares. [45]

Tanto alunos quanto professores formaram espontaneamente associações voluntárias, modeladas como as guildas comerciais. “Esses estudantes, turbulentos o suficiente por si só, e morando em uma cidade estrangeira turbulenta, precisavam de filiação lá, e proteção e apoio. Organização era uma necessidade óbvia.” [46] Assim, os estudantes formaram universidades, onde “a palavra ‘universidade’ significa apenas um número, uma pluralidade, um agregado de pessoas … a palavra usada para designar a instituição acadêmica—as Escolas ou as cidades que as mantinham—era Studium em vez de Universitas.” [47]

Os estudantes estrangeiros tiveram que se unir. Cidadania em uma cidade medieval tal como Bolonha era “uma posse hereditária de valor inestimável. Os cidadãos de uma cidade não tinham, na ausência de acordo expresso, nenhum direito civil em outra. Havia uma lei para o cidadão; outra, e um muito mais rigorosa, para o estrangeiro.” [48] “Constatar o fato de que a universidade era em sua origem nada mais do que uma guilda de estudantes estrangeiros é a chave para a verdadeira origem e natureza da instituição.” [49]

A universidade, em sua primeira fase de desenvolvimento, parece ter sido simplesmente uma guilda escolar—uma combinação espontânea, por assim dizer, de professores ou estudantes, ou de ambos combinados, e formada provavelmente na analogia com as guildas comerciais e as corporações de estrangeiros em cidades estrangeiras, que, no decorrer dos séculos XIII e XIV, se encontram surgindo na maioria dos grandes centros europeus … e por isso a universidade, como era composta em grande parte de estudantes de países estrangeiros, foi uma combinação formada para a proteção de seus membros da extorsão do munícipio e dos outros aborrecimentos incidentes à residência num país estrangeiro nos tempos medievais. [50]

As universidades mais antigas, como as de Paris, Bolonha e Oxford, cresceram de forma espontânea e quase imperceptivelmente fora das andanças de alunos e das instruções dadas por professores individuais nos séculos XI e XII. O caráter informal desta primeira forma de  ensino demorou a desaparecer, e por um longo tempo muitos estudantes não recebiam nem diplomas e nem exames e participavam ou ausentavam-se das aulas como queriam. Demorou ainda mais antes que as universidades viessem a possuir caros edifícios permanentes. Mas gradualmente os professores se uniram em faculdades, estatutos universitários vieram à existência, e os alunos se organizaram por “nações” ou em outras uniões. [51]

A Universidade de Paris “foi uma conseqüência da Escola Catedral de Paris [Notre Dame].” [52] No século XI, a Escola de Paris era inferior em reputação às escolas catedrais de Bec, Tours, Chartres, ou Reims. Mas isso mudou. Paris tornou-se proeminente, superando seus rivais, a começar com as aulas de William de Champeaux, e depois com as de seu aluno, Pedro Abelardo (NdE: à esquerda). Abelardo “atraiu estudantes de todas as partes da Europa e lançou as bases do prestígio único que as Escolas de Paris mantiveram durante todo o período medieval.” [53] “Paris se tornou uma cidade de professores … aqui então estavam os materiais para a formação de uma universidade.” [54]

“A Universidade [de Paris] não foi feita mas surgiu espontaneamente.” [55] Por volta de 1127 dC, os professores da escola de Notre Dame eram “demasiado numerosos para serem acomodados dentro do claustro.” [56] Os mestres, ou professores, organizaram-se em uma guilda ou universidade por volta de 1175 dC. [57] O nascimento da Universidade de Paris [58] pode, assim, ser datado aproximadamente no ano 1170 dC.

Em 1200 dC, a Universidade obteve uma “carta de privilégios” do rei da França, Filipe II (1165-1223 dC). [59] Os primeiros estatutos escritos que regem a Universidade de Paris datam de 1210 dC. [60] “Por volta da mesma data, a Universidade adquiriu um reconhecimento definitivo de sua existência como uma corporação legal.” [61]

As autoridades locais da Igreja esforçaram-se para manter o controle sobre a instituição emergente, mas não conseguiram. “Para a mente de um Canon de Paris a própria existência da Universidade não era nada mais, nada menos do que uma conspiração—uma sociedade secreta ilegal formada por uma certa classe de eclesiásticos inferiores com o objetivo de resistir a seus superiores canônicos.” [62] Mas o Papa se alinhou com a Universidade, e a libertou do controle da autoridade local. [63]

A primeira universidade britânica foi Oxford. Ao contrário de Paris, Oxford não tinha escola catedral. Mas a localização de Oxford tornou um ponto de encontro conveniente para os conselhos eclesiásticos. [64] Ela tinha instalações para acolher os viajantes. Oxford assim provavelmente se tornou o local de uma universidade como “um acidente de sua importância comercial.” [65]

Hastings Rashdall (1858-1924) especulou que Oxford surgiu diretamente de uma migração da Universidade de Paris por volta do ano 1167. [66] Esta teoria irá ressoar com “o aluno familiarizado com os hábitos migratórios do estudioso medieval e familiarizado com o início da história das constituições acadêmicas.” [67]

A Universidade de Cambridge foi fundada em 1209 dC, quando cerca de 3.000 estudantes deixaram Oxford após uma disputa com pessoas da cidade. [68] A primeira carta de privilégios de Oxford foi concedida em 1214, [69] e em 1252 o primeiro estatuto da Universidade foi promulgado, exigindo “um Instrutor em Teologia que já tenha lecionado como um bacharel.” [70] Em outras palavras, ninguém podia se tornar um doutor em teologia sem se graduar primeiro como um mestre de artes.

Estudantes e Mestres

As universidades existiam em um equilíbrio perpétuo e desconfortável entre estado e igreja. Elas procuravam o apoio da Igreja Católica, de modo a libertar-se das disciplinas de autoridades locais. Por outro lado, elas apoiavam a autoridade secular sempre que isso as livrasse de seguir os mandamentos da Igreja.

O curso usual de estudo nas universidades eram as sete artes liberais. Mas as ciências receberam pouca ou nenhuma atenção. No século XIII, o corpo docente da Universidade de Paris era dividido em “teologia, direito e artes.” [71]

Os alunos estudavam durante quatro ou cinco anos para obter um diploma de bacharel, um diploma de mestrado demandava três ou quatro anos adicionais de trabalho de pós-graduação. [72] O estudo das artes liberais era considerado a preparação para o  estudo da teologia. O grau de doutor em Teologia exigia oito anos de estudo, e o aluno tinha que ter pelo menos 35 anos de idade. “Os principais assuntos eram Escritura e as Sentenças de Pedro Lombardo.” [73]

O aluno típico em uma das grandes universidades medievais de Paris, Bolonha, ou Oxford, era independente em espírito e de uma família rica. Isso era especialmente verdadeiro em Bolonha, onde “as pessoas que vieram para a instrução legal não eram meninos recebendo sua primeira educação nas Artes. Eles eram homens estudando uma profissão, e entre eles estavam muitos indivíduos ricos.” [74]

A guilda de estudantes de Bolonha tornou-se tão poderosa que deixou os professores a seus pés. Bolonha era “uma universidade de estudantes”, e os alunos eventualmente tiveram sucesso “na redução dos Mestres a uma servidão quase inacreditável.” [75] O poder dos estudantes vinha de seu dinheiro e de sua associação em guildas. Se os professores ou a cidade não atendiam às suas demandas, o corpo discente inteiro poderia simplesmente se arrumar e sair, privando ambos os mestres e os habitantes da cidade da renda derivada de sua presença. “Tão grande se tornou o poder do corpo discente, que forçou os professores à sujeição, pagando seus salários, regulando o tempo e o modo das palestras, e obrigando-os a jurar obediência aos Reitores. Os professores protestaram, mas aceitaram.” [76]

O caráter turbulento das universidades medievais pode ser inferido do regulamento da Universidade de Paris que proibia os estudantes de atirar pedras ou esterco durante as aulas. [77]

Paris, nos primeiros dias, deve ter presenciado um espetáculo de grande desordem pública, libertinagem e crime. Os professores, em grande parte, eram imprudentes aventureiros—uma espécie de cavaleiros andantes selvagens, que vasculhavam o país em busca de excitação para a mente, e dinheiro para o bolso. Os alunos eram, em geral, jovens desordeiros, vivendo no centro da corrupção, sem controle, amando uma vida barulhenta e dispersa na cidade. Alguns eram indigentes, discutindo com prostitutas e varlets, e enchiam os tribunais com seus escândalos e litígios …. À tarde, e ao anoitecer, as tabernas nessas ruas estreitas e tortuosas eram preenchidas com a fumaça de seus licores, e as ruas ecoavam com a sua alegria ruidosa …. À medida que a bebida rodava na mesa, a alegria se tornava mais acentuada. Palavras eram distribuídas, intercaladas com batidas e golpes: a taberna se tornava uma cena de tumulto e confusão indescritível … até a massa deles sair para fora como um enxame irregular, entupindo as estreitas ruas—gritando e berrando, e brandindo suas adagas …. Derramamento de sangue era freqüente nessas brigas; a morte não era incomum. [78]

Os alunos tendiam a se organizar em grupos com base na nacionalidaide. A Universidade de Paris tinha quatro Nationes: franceses, normandos, picardianos e ingleses. [79] As relações entre as nações não eram sempre sem atrito. Jacques de Vitry (c. 1160-1240 dC), um dos primeiros alunos da Universidade de Paris, escreveu comentários cínicos sobre os alunos e professores em Paris. Os estudantes, observou ele, tinham pouco amor pela aprendizagem, e levavam consigo os preconceitos amargos da nacionalidade. “Muito poucos [dos alunos] estudavam para sua própria edificação, ou a dos outros. Eles discutiam e disputavam não apenas sobre as diversas seitas ou sobre algumas discussões; mas as diferenças entre os países também causavam dissensões, ódios e nimosidades virulentos entre eles e impudentemente pronunciavam todos os tipos de ofensas e insultos uns contra os outros. Eles afirmaram que os ingleses eram bêbados e tinham caudas; os filhos da França orgulhosos, efeminados e cuidadosamente decorados como as mulheres … após tais insultos com palavras eles muitas vezes partiam para os socos.” [80]

Os professores não eram melhores. De acordo com de Vitry, todos eles eram hipócritas, homens ignorantes cujo único interesse era avançar com a sua própria estação na vida.

Notas e Referências:

  1. Haskins, C. H., 1957, The Renaissance of the 12th Century (first published in 1927 by Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts). Meridian Books, New York, p.368.
  2. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 1. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p.5.
  3. Marrou, H. I., 1964, A History of Education in Antiquity, translated by George Lamb. Mentor, New York, p. 447.
  4. Ibid., p. 448.
  5. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 1. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p. 27.
  6. Marrou, H. I., 1964, A History of Education in Antiquity, translated by George Lamb. Mentor, New York, p. 443.
  7. Ogg, F. A. (editor), 1908, A Source Book of Mediaeval History. American Book Company, New York, p. 88–89.
  8. Marrou, H. I., 1964, A History of Education in Antiquity, translated by George Lamb. Mentor, New York, p. 449.
  9. Lindberg, D. C., 1978, The Transmission of Greek and Arabic Learning to the West, in Science in the Middle Ages, edited by David C. Lindberg. University of Chicago Press, Chicago, p. 53.
  10. Marrou, H. I., 1964, A History of Education in Antiquity, translated by George Lamb. Mentor, New York, p. 244.
  11. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 1. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p. 35.
  12. Ibid., p. 36.
  13. Ibid., p. 38.
  14. Lindberg, D. C., 1978, The Transmission of Greek and Arabic Learning to the West, in Science in the Middle Ages, edited by David C. Lindberg. University of Chicago Press, Chicago, p. 53.
  15. Graves, F. P., 1914, A History of Education. Macmillan, New York, p. 19.
  16. Ibid., p. 18.
  17. Ibid., p. 25.
  18. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1910, Carolingians, vol. 5. Cambridge University Press, Cambridge, p. 381.
  19. Graves, F. P., 1914, A History of Education. Macmillan, New York, p. 26.
  20. Bryce, J., 1920, The Holy Roman Empire. Macmillan, London, p. 49.
  21. Ogg, F. A. (editor), 1908, A Source Book of Mediaeval History. American Book Company, New York, p. 113.
  22. Graves, F. P., 1914, A History of Education. Macmillan, New York, p. 27.
  23. Ogg, F. A. (editor), 1908, A Source Book of Mediaeval History. American Book Company, New York, p. 145.
  24. Ibid., p. 146.
  25. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 1. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p. 76.
  26. Walsh, J. J., 1920, Medieval Medicine. A. & C. Black, Ltd., London, p. 42.
  27. Ibid., p. 40.
  28. Ibid., p. 39.
  29. Ibid., p. 48–49.
  30. Ibid., p. 50.
  31. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 1. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p. 80.
  32. Lindberg, D. C., 1978, The Transmission of Greek and Arabic Learning to the West, in Science in the Middle Ages, edited by David C. Lindberg. University of Chicago Press, Chicago, p. 61–62.
  33. McVaugh, M., 2008, Constantine the Africa, in Complete Dictionary of Scientific Biography, edited by Charles Gillispie, vol. 3. Cengage Learning, New York, p. 393.
  34. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 1. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p. 78.
  35. Ibid., p. 83.
  36. Ibid., p. 85.
  37. Ibid., p. 94.
  38. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1911, Universities, vol. 27. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 750.
  39. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1911, Justinian I. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 598.
  40. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 1. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p. 111.
  41. Taylor, H. O., 1914, The Mediaeval Mind, Second Edition, vol. 2. Macmillan, London, p. 410.
  42. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1911, Roman Law, vol. 23. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 576.
  43. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1911, Universities, vol. 27. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 750.
  44. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 1. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p. 8.
  45. Taylor, H. O., 1914, The Mediaeval Mind, Second Edition, vol. 2. Macmillan, London, p. 413.
  46. Ibid., p. 410.
  47. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 1. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p. 7.
  48. Ibid., p. 152.
  49. Ibid., p. 163.
  50. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1911, Universities, vol. 27. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 748.
  51. Thorndike, L., 1917, The History of Medieval Europe. Houghton Mifflin, Boston, p. 389.
  52. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 1. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p. 277.
  53. Ibid., p. 278.
  54. Ibid., p. 289.
  55. Ibid., p. 290.
  56. Ibid.
  57. Ibid., p. 294.
  58. Ibid.
  59. Taylor, H. O., 1914, The Mediaeval Mind, Second Edition, vol. 2. Macmillan, London, p. 415.
  60. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 1. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p. 300.
  61. Ibid., p. 302.
  62. Ibid., p. 312.
  63. Ibid., p. 309.
  64. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 2, part 2. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p. 324.
  65. Ibid., p. 326.
  66. Ibid., p. 345.
  67. Ibid., p. 329.
  68. Ibid., p. 349.
  69. Ibid.
  70. Ibid., p. 378.
  71. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 1. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p. 324.
  72. Taylor, H. O., 1914, The Mediaeval Mind, Second Edition, vol. 2. Macmillan, London, p. 417.
  73. Ibid., p. 418.
  74. Ibid., p. 412.
  75. Rashdall, H., 1895, The Universities of Europe in the Middle Ages, vol. 1. Oxford at the Clarendon Press, Oxford, p. 150.
  76. Taylor, H. O., 1914, The Mediaeval Mind, Second Edition, vol. 2. Macmillan, London, p. 413.
  77. Pachter, H. M., 1951, Magic into Science. the Story of Paracelsus. Henry Schuman, New York, p. 26.
  78. Vaughan, R. G., 1871, The Life & Labours of S. Thomas of Aquin, vol. 1. Longmans & Co., London, p. 374–376.
  79. Taylor, H. O., 1914, The Mediaeval Mind, Second Edition, vol. 2. Macmillan, London, p. 414.
  80. Thatcher, O. J. (editor), 1907, The Library of Original Sources, vol. 4. University Research Extension, New York, p. 357.
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