Esquerda = Direita

Matéria “A maldição do esquerdo-direitismo”, da Revista Super Interessante, comentada no final. 

====================================================Título: A maldição do esquerdo-direitismo
Autor: DENIS RUSSO BURGIERMAN
Publicado Originalmente em: Blog Mundo Novo da Super Interessante – 15/04/2013
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 O esquerdo-direitismo é uma crença semi-religiosa que se tornou a ideologia dominante do mundo no último século. Esquerdo-direitistas são pessoas que acreditam que todo o bem que existe no mundo provém de apenas uma fonte. Há dois tipos de esquerdo-direitistas – aqueles que acham que a fonte de todo o bem é o mercado e aqueles que acham que é o estado. A estes chamamos esquerdistas, aqueles são os direitistas.

No fundo, esquerdistas e direitistas são dois lados de uma mesma coisa. Ambos vêm o mundo em apenas duas dimensões, sem profundidade, dividido entre bons e maus. Não admira que esquerdistas transformem-se em direitistas e vice-versa com tanta facilidade – alguns dos analistas mais ferrenhos da direita passaram a juventude militando nas facções mais radicais da esquerda.

Nos últimos dois meses, dois dos maiores ícones desse jeito simplista de ver o mundo morreram: Hugo Chávez (esquerda) e Margareth Thatcher (direita). Difícil imaginar dois personagens tão representativos desse modo oitocentista de ver o mundo. Todos os esquerdo-direitistas concordam que, entre os mortos, havia um santo e um demônio. Eles discordam apenas em relação a qual é qual.

A realidade é que nem Chávez nem Thatcher merecem a canonização. Ambos tiveram seus inegáveis méritos como líderes carismáticos, mas as duas biografias estão cheias de erros crassos. É que, ao contrário do que eles acreditavam, o esquerdo-direitismo está errado. A crença compartilhada por esquerdistas e direitistas de que o mundo está dividido ao meio, entre virtuosos e cretinos simplesmente não tem lastro na realidade. Há virtudes e cretinices em cada um de nós e o mundo é muito mais cheio de sutilezas do que imaginavam nossos manuais ideológicos publicados nos séculos 18 e 19.

Prova disso está numa reportagem de capa recente publicada pela tradicional revista The Economist, a Bíblia liberal inglesa, que já foi um ícone esquerdo-direitista na época que essas coisas faziam sentido. A matéria de Economist declara que o novo modelo para o planeta são os países nórdicos. “Se você tivesse que renascer em algum lugar do mundo com talentos e renda médios, você ia querer ser um viking”, diz a revista.

Os países escandinavos, que nas décadas de 1970 e 1980 eram estados inchados, com impostos altíssimos, baixa competitividade e serviços públicos de estado socialista, quem diria, viraram exemplo para a revista que os liberais sempre adoraram. Isso porque, nos últimos anos, Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia fizeram várias reformas e se tornaram países incríveis para se viver.

Para começar, o estado racionalizou seus gastos e criou as mais fantásticas políticas de transparência do mundo, permitindo à população fiscalizar seus governantes e reduzir a gastança. Na Suécia, políticos de alto escalão moram em quitinetes, lavam a própria louça e usam transporte público ou bicicleta. Além disso, a burocracia caiu quase a zero e esses países viraram paraísos do empreendedorismo, de fazer inveja ao Vale do Silício com suas histórias de sucesso (Skype, Angry Birds, Spotify).

Mas isso foi feito sem sucatear o estado nem prejudicar a população. As reformas do estado foram feitas com um objetivo claro: manter a qualidade do serviço público, ou, se possível, aumentá-la. Essa lógica ajuda a entender o que aconteceu com a saúde e a educação pública nesses países. O governo continua atuando, provendo serviços de qualidade, mas empresas privadas também podem entrar na competição. Os cidadãos recebem do governo vouchers de saúde e educação e podem decidir usá-los em escolas e hospitais públicos ou privados. Na Escandinávia, o estado continua grande, mas uma coisa fundamental mudou: ele agora funciona.

O sucesso nórdico expõe a grande falácia do esquerdo-direitismo: a crença de que só há um caminho certo. Para os esquerdistas, criar mais empresas estatais e ter impostos altos é sempre bom. Para os direitistas, é sempre ruim. A verdade, como costuma ser o caso, está no meio: é possível, ao mesmo tempo, melhorar os serviços e aumentar a eficiência. Basta para isso focar no cidadão, que é muito mais importante do que empresas e estado.

Essa é a mágica que os países nórdicos operaram nos últimos anos. Enquanto isso, o Brasil faz o contrário: por aqui conseguimos combinar impostos altos com serviços ruins. E, em vez de focar em reduzir uns e melhorar outros, continuamos desperdiçando tempo com Thatcher e Chávez.

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Denis Russo Burgierman
Diretor de redação da Superinteressante. Escreveu o livro O Fim da Guerra, sobre o futuro das políticas de drogas, participa da comunidade TED, dá aulas na Eise (Escola de Inovação em Serviços) e é membro da Rede Pense Livre – Por Uma Política de Drogas que Funcione. Pedala entre uma coisa e outra.

Comentários do Groucho Marx:

O que achei mais interessante foi a caixa de comentários do blog que publicou esse texto. Teve muita gente acusando o texto de ser esquerdista e outros dizendo que os escandinavos eram esquerdistas mesmo tendo uma carga tributária maior que a ”socialista” Venezuela. Eu não acredito que os termos de direita e esquerda vão se tornar ultrapassados, afinal eles existem desde a revolução francesa. O que pode e deve se tornar ultrapassado são as visões radicais que dão as costas para o pragmatismo. Direita e esquerda sempre irão existir, o que não irá existir são governos 100% de direita ou 100% de esquerda. Quanto mais cedo os militantes políticos perceberem isso, mais cedo poderão discutir o que tem de bom em cada sistema e o que deve ser descartado. Na Suécia isso já é realidade, mas no Brasil acho que vai demorar uns 20 anos no mínimo.

Comentários do Mensalão:

No meu ponto de vista, o trecho que destaquei em negrito no texto resume o raciocínio do autor e carrega uma mensagem muito importante para todos nós: não importa se um sistema político tem foco no estado ou se tem foco no mercado, o que importa é se ele tem foco no cidadão. Quando vejo esse pessoal discutindo qual o tamanho certo do estado, minha vontade é de entrar no meio e dizer bem alto: FODA-SE! Não devemos discutir o tamanho do estado, devemos discutir como construir uma sociedade que possa ser a melhor possível dentro de nossas limitações. Se nessa busca descobrirmos que o estado deve ser pequeno e o mercado age com liberdade, ótimo!, façamos isso. Se descobrirmos que o estado deve ser grande e gastador, bom também. Na verdade, não interessa, desde que a sociedade funcione da melhor forma que somos capazes de fazê-la funcionar.

Provavelmente, nenhum dos lados atuais estão certos e o melhor caminho provavelmente está em um meio termo costurado aí no meio. Contudo, isso só será alcançado caso deixemos de discutir ideologias e comecemos a discutir soluções. Pena que no Brasil, o que impera é a ignorância e o atraso, o debate político está repleto de baixarias, que se perpetuam ciclicamente. Alguns ainda tentam misturar religião com política econômica, o que contribui para manter o debate num estado de atraso ainda maior (digo isso porque a religião não tem nada a dizer sobre o tamanho do estado).

Infelizmente, o pessoal não acorda. Prefere brincar de “briguinha política”

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11 opiniões sobre “Esquerda = Direita”

  1. “Há dois tipos de esquerdo-direitistas – aqueles que acham que a fonte de todo o bem é o mercado e aqueles que acham que é o estado. A estes chamamos esquerdistas, aqueles são os direitistas.”
    Pela falta de profundidade eu diria que foi um miguxo quem escreveu isso. Mas pode ser que não, pode ser um direitista enganador querendo dizer que a direita não existe.
    Peraí, de quem é essa revista mesmo? Ah sim, da Abril, então está explicado.

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    1. Rapaz… existe um episódio de Law & Order em que o juíz, ao saber que suas decisões estavam deixando tanto a promotoria quanto a defesa do réu putos, disse que sabia que estava fazendo um bom trabalho quando nenhum dos lados ficava satisfeito. rs

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    2. O Luciano Henrique, do blog Luciano Ayan, jura que o autor desse texto é esquerdista até borrar as calças. Você jura que o cara é anarcoliberal. Aiai! Quanta confusão! Se decidam!!!

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  2. Ao Mensalão:
    Mas como seria um cidadão egoísta miguxo?
    Ele tem dinheiro, mas ele pode caçar, comes rua própria caça, isso sem depender da sociedade, e ainda por cima ficar com dinheiro! Coitados dos pombos, ratos, gatos, hamsters, etc…

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  3. O ”investigador” de humanistas voltou Marcus vamos nos divertir com as pelolas do ”neo-iluminista”

    ”O engraçado é quando ele pega a The Economist e diz que “The Economist falou,tá falado”. Lixeira.”

    Em que momento o Denis usou o apelo a autoridade?

    ”As tais “histórias maravihosas” da Suécia não são sustentadas com evidências ou estatísticas, mas truques cheerleaders. De novo, nível de puteiro.”

    O que seriam as historias maravilhosas da Suecia? A qualidade de vida? O baixo grau de corrupcão?. Em qualquer Ranking sobre isso a Suecia sempre esta em boa colocacão.

    ”Outra contradição do texto: “O sucesso nórdico expõe a grande falácia do esquerdo-direitismo: a crença de que só há um caminho certo.” Ué, mas o esquerdismo sueco não é uma proposta que os esquerdistas sempre trazem para debate? O autor não trata essa questão.”

    A Suecia usou proposta tanto da esquerda quanto da direita isso é um fato, se esquerdistas usam a Suecia como exemplo isso não muda esse fato.

    As criticas do Lulu (junto com minhas respostas) ao texto ”cada um no seu quadrado” foram publicados no topico do texto em questão fiz isso para ficar mais organizado.

    Enviado em 21/04/2013 as 00:04

    ”Em alguns textos sobre o estupro não-estupro Sueco, demonstrarei que a Suécia cresceu apesar do esquerdismo, e não por causa dele.”

    As causas podem ser debatidas, mas o fato que a suecia tem uma boa qualidade de vida não pode ser negado.

    ”O índice de baixo grau de corrupção é inválido, pois o índice usado na propaganda de esquerda é sempre baseado em “percepção de corrupção”, o que não significa absolutamente nada.”

    Certo e um dia vão inventar um ranking da corrupcão que não percebida.

    A “qualidade de vida” também é refutada pelo fato de que descendentes de suecos que vivem nos Estados Unidos tem mais qualidade de vida do que os que ficaram lá.

    Deixa eu adivinhar você tirou esse dado de uma pesquisa de Nima Sanandaji não é? O cara é um ardoso defensor do liberarismo economico, quer que eu acredite que uma pesquisa feita por ele é impacial?

    ”Bobagem. Suriani mente ao dizer que existiu um comitê de esquerdistas e direitistas que fizeram um acordo dizendo “faremos um governo que supere a direita a esquerda”. Quem acredita nisso ou é desonesto ou retardado. Mas essa é a impressão que Suriani tenta passar.
    O que ocorreu foi o oposto. O esquerdismo chegou a um nível tão alto na Suéciam, que precisou reduzir o inchaço estatal. Ou seja, ser um esquerdismo mais moderado, que NÃO TEM NADA A VER COM DIREITA.
    É por isso que Suécia virou a propaganda preferida de esquerdistas.
    Das duas uma: ou Suriani é retardado ou é safado. Acho que é melhor ele optar pelo segundo rótulo…”

    Mas eu disse mais cedo que a dicotomia de esquerda-direita não poderia ser superada esse foi o ponto que eu discordei do Denis, no maximo o radicalismo de ambos os grupos podem diminuir.

    Enviado em 21/04/2013 as 13:04

    ”E quem disse que a boa “qualidade de vida” deriva do esquerdismo.”

    A qualidade de vida depende das politicas adotadas por cada governo sejam eles de esquerda ou direita.

    ”Quem estudou ceticismo sabe como percepção é manipulável, especialmente por estados inchados, e mais ainda em países onde todas as escolas são públicas, ou seja, o governo pode doutrinar as crianças em sua ideologia.”

    Achei que você ia dizer tranparencia internacional era um orgão esquerdista e por isso manipulava dados. O Ayan é um mestre em criar respostas piores das que eu imagino.

    ”A pesquisa não foi feita por ele hahahahahaha,,, ela foi CITADA por ele no estudo. O esquerdista teria que refutar os dados com uma outra pesquisa, e não dizer “tudo que Nima Sanandaji disse não vale”. Essa falácia ad hominem é bobinha e infantil.”

    Certo e quais são as fontes então? Se for de um instituto liberal da no mesmo.

    ”Vamos ver a noção do Suriani de radicalismo. A mulher não quer ser estuprada, e então é radical pelo não-estupro, e o estuprador que bate é o radical pró-estupro. O meio termo é ele estuprar mas não bater muito nela. heheheheheh.
    É este tipo de pirueta que o Suriani tem que fazer para salvar sua propaganda. Tudo é tão patético que podemos dar vários exemplos.
    Enfim, não há conflitos na Suécia entre radicais de esquerda e radicais de direita, mas sim conflitos entre esquerdistas radicais e esquerdistas moderados, assim como em uma cultura em que todas as mulheres devem ser estupradas semanalmente, há pró-estupro radicais (que defendem estupro com agressão) e pró-estupro moderados (que defendem que o estupro seja menos violento).”

    O que uma compacão pifia entre estupro e imposto tem haver com a minha alegacão de que a docotomia entre Direita e esquerda não podem ser superada, mas que o radicalismo de ambas as doutrinas pode ser contido?

    Enviado em 22/04/2013 as 00:24

    ”Achou errado. O fato é que o índice é de percepção. Onde será que o Suriani aprendeu sobre validação? Achei que ele defendesse ceticismo..”

    Certo, vamos partir do principio que a Suecia doutrine suas criancas como criancas, em que isso iria influenciar na analise de uma ONG internacional?

    ”Foi Suriani quem disse que as fontes são inválidas. Ele é que tem que provar que são…”

    Não disse que eram invalidas e sim que poderiam ser parciais ja que foram citadas por um defensor ardoso do liberalismo economico que não citou fontes( ao menos nos artigos que eu li)

    ”A comparação é válida, e não foi refutada. Há uma dicotomia entre esquerda e direita tanto quanto há entre estupro e não-estupro, ou entre crer em Deus e não crer em Deus. Claro que o radicalismo em qualquer uma pode ser contido, mas a Suécia hoje em dia discute entre esquerdismo radical e esquerdismo moderado.”

    Pelo seus criterios até um partido monarquista pode ser considerado esquerdista por não aplicar o liberarismo economico em sua forma pura..

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    1. Títulos devem ser chamativos rs

      O Dênis nunca disse que são iguais, mas que são iguais em praticamente tudo tirando a questão foco no estado ou no mercado, especialmente no que diz respeito a sua idiossincrasias, limitações, atuações, hipocrisias, erros e virtudes. O título foi só uma provocação àqueles que se enxergam dentro de uma ideologia e rejeitam veementemente a ideologia contrária, um convite para que eles repensem seu extremismo.

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