Por que o conservadorismo não decola no Brasil?

Recentemente, alguns leitores andaram reclamando que o blog possui um viés demasiadamente esquerdista e anti-liberalista. Isso me deixou, por um lado, um pouco chateado e, por outro lado, muito chateado. Um pouco chateado por eu ter percebido que falhei em deixar claro que a distância que eu, dono do blog, tenho dos ideais econômicos da direita é a mesma que possuo dos da esquerda. Mas isso é fácil resolver: a partir de agora vou procurar contrapor mais (ou às vezes de maneira mais explícita) críticas à direita/elogios à esquerda com críticas à esquerda/elogios à direita. E assim caminhamos.

Mas o que me deixou muito chateado, por outro lado, foi o fato de que as pessoas que notaram isso não se manifestaram na minha caixa de comentários. Fiquei sabendo das críticas por contatos em comum. Desculpem-me, mas acho isso imperdoável! Não estou aqui para impôr conteúdos, especialmente aqueles que envolvem política, porque acredito no debate e portanto estou sempre buscando incentivar as pessoas a questionar (ao contrário de certos blogs que fornecem “questionamentos” prontos e que não podem ser questionados sob a pena do crítico ser classificado como inimigo da humanidade…)

E dou espaço para quem pedir aqui. Qualquer pessoa pode usar a caixa de comentários para reivindicar espaço até mesmo em textos meus ou me procurar via email (que forneço na página de Contatos) ou até me procurar no Facebook. Agora, ficar calado e esperar que contatos em comum tragam as críticas faz parecer que ou as críticas ou os críticos não tão sérios assim.

Isso sem contar que eu mesmo, vez ou outra, ataco certas políticas consideradas de esquerda (como as cotas para negros em universidades nos posts Preconceituoso é você! e E ainda o preconceituoso sou eu!) ou defendo uma atuação um pouco mais liberal nas políticas do governo (como em Vida de professor é fácil?). Só que isso ninguém vê, não é?

Mas voltemos ao trabalho.

Hoje, posto um texto enaltecendo Margaret Thatcher publicado na última quarta-feira na Folha de São Paulo. Não é pra fazer média não: eu gosto da Thatcher e gostei da matéria sobre ela.

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Título: A falta que faz ao Brasil uma Thatcher
Autor: ELIO GASPARI
Publicado Originalmente em: Folha de S. Paulo – 10/04/2013 ====================================================

Margaret Thatcher foi criada atrás do balcão do armazém de seu pai. Tinha horror a consenso, deficit, inflação, sindicatos, empresas estatais, socialismo e desordem. Em 1975, ela conquistou a liderança do Partido Conservador, quatro anos depois tornou-se primeira-ministra e derrotou-os todos.

O Brasil vivia a mais longa ditadura de sua história e nenhum dos cinco generais que governavam o país, bem como os políticos e empresários que os apoiavam, assumiram-se como conservadores. No máximo diziam-se centristas. Era a jabuticabeira plantada em 1964: uma ditadura em nome da democracia.

Na origem da baronesa Thatcher esteve a figura esquecida de Keith Joseph (1918-1994), um agitador de ideias que encerrou o conservadorismo moderado de seu partido. Em 1974, criou um foro de debates, o Centre for Policy Studies, com uma plataforma simples: a direita tinha que ir para a direita, sem flertes. Quando tivesse votos, prevaleceria. Cinco anos depois, teve-os. Em Washington, intelectuais e empresários haviam criado uma instituição parecida, a Heritage Foundation. No seu elenco estava o ex-ator de cinema Ronald Reagan. Juntas, as duas instituições trabalhavam com um orçamento anual de 563 mil dólares.

Em 1975, noves fora as dezenas de visitas do embaixador da Federação das Indústrias de São Paulo ao DOPS, o governo e a plutocracia nacional organizavam eventos. Torraram pelo menos cinco milhões de dólares organizando um seminário internacional que reuniu magnatas em Salzburgo. O maestro Herbert von Karajan cancelou os ensaios da Filarmônica de Viena para liberar a sala da Konzerthaus. Baixaram na pequena cidade dois mil banqueiros e empresários americanos, europeus e brasileiros. A comitiva nacional teve três ministros e trezentas pessoas. O Banco do Brasil mandou nove representantes. (O Wikileaks acaba de mostrar que a Câmara de Comércio Americana só patrocinou a festa porque pretendia alavancar pleitos em Brasília.) A festa foi concebida e organizada pelo empresário Mário Garnero, presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos. Ele diria: “Nem Mozart deve ter levado, num só dia, tanta gente à Konzertaus”. Vinte e oito anos depois, Garnero organizaria, com sucesso, o discreto evento da aproximação do comissariado do Partido dos Trabalhadores com a Casa Branca de George W. Bush.

De evento em evento, a plutocracia brasileira safou-se da bancarrota econômica e política da ditadura. No ano da festa de Salzburgo, o Citibank, desprezando as próprias regras, dobrou sua carteira de empréstimos ao Brasil. Em 1984 um de seus diretores tornou-se chefe do cartel que cobrava o calote.

Thatcher e Keith Joseph foram o que foram porque chutaram o conservadorismo fingido e foram atrás do voto popular. Deus negou a Pindorama esse tipo de direita. Quando seu andar de cima organizou a festa de Salzburgo, não convidou para o evento um morador da cidade, o economista Friedrich von Hayek. Ele vivia no andar de baixo, numa casa que pertencera a um bombeiro, comprada com a venda de sua biblioteca. O autor de “O Caminho da Servidão”, monumental manifesto liberal, poderia ensinar-lhes algumas coisas, mas talvez achassem que economista pobre é economista burro.

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Elio Gaspari, nascido na Itália, veio ainda criança para o Brasil, onde fez sua carreira jornalística. Recebeu o prêmio de melhor ensaio da ABL em 2003 por “As Ilusões Armadas”. Escreve às quartas-feiras e domingos na versão impressa de “Poder”.

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