Summa Theologica

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Título Original: Summa Theologica
Autor: DAVID DEMING Tradução: Suriani
Publicação: Science and Technology in World History, Vol. 2

SUMMA THEOLOGICA

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Em Roma entre os anos de 1265 e 1267, Tomás começou a trabalhar em sua obra-prima Summa Theologica, a soma de todas as questões e conhecimentos teológicos. [1] A Suma Theologica é uma mistura perfeita de teologia cristã com filosofia aristotélica. Tomás pretendia que ela “fosse a soma de todo o conhecimento aprendido, organizado de acordo com o melhor método, e subordinado aos ditames da Igreja.” [2]

A organização do Summa Theologica seguiu o método típico de ensinamento naquele momento. Uma questão era proposta, e os argumentos de cada lado eram listados exaustivamente. A Summa Theologica contém 518 questões, divididas em 2.652 artigos. “Cada artigo afirma os lados negativos e positivos da proposta em discussão, os argumentos a favor e contra, e em seguida a solução do autor.” [3]

O primeiro tema considerado na Suma Theologica não foi a existência de Deus (foi o segundo), mas a natureza e a extensão da Doutrina Sagrada. Este assunto é subdividido em 10 questões específicas na forma de artigos. O primeiro artigo ou pergunta é, “se, além de filosofia, alguma outra doutrina ainda é necessária?” [4] Depois de apresentar os argumentos de cada lado da questão, Tomás concluiu: “Era necessário para a salvação do homem que certas verdades que excedem a razão humana devessem ser conhecidas por ele através da revelação divina.” [5]

Depois de estabelecer que a revelação era necessária, Tomás em seguida concluiu que a Sagrada Doutrina da Igreja era uma ciência. “A doutrina sagrada é uma ciência, porque provém de princípios estabelecidos pela luz de uma ciência superior, a saber, a ciência de Deus e dos bem-aventurados.” [6]

Tomás então chegou ao ponto. Depois de estabelecer a necessidade e a existência da Doutrina Sagrada, ele atribuída a ela uma primazia que a colocou acima das ciências com base na observação e na razão. “Esta ciência [a Doutrina Sagrada] transcende todas as outras … porque outras ciências derivam sua certeza da luz natural da razão humana, que pode errar, enquanto esta deriva sua certeza a partir da luz do conhecimento divino, que não pode se enganar … esta ciência trata principalmente daquelas coisas que, pela sua sublimidade transcendem a razão humana, enquanto outras ciências consideram apenas as coisas que estão ao alcance da razão.” [7]

Conflitos entre filosofia e doutrinas religiosas seriam simples de ser resolvidos. Se uma conclusão filosófica contradiz uma doutrina baseada na revelação, ela deve ser condenada como falsa. “Tudo o que é encontrado em outras ciências que seja contrário a qualquer verdade desta ciência [a Doutrina Sagrada], deve ser condenado como falso.” [8] Ironicamente, este foi o mesmo método seguido por Siger de Brabante pelos Arrevoístas. Quando suas conclusões filosóficas contradiziam doutrinas da Igreja, eles faziam o anúncio de que a “verdade” filosófica deve ser falsa. [9]

Dante e Beatriz no Paraíso
Siger de Brabante é representado em vermelho no canto
superior direito (MS Thott 411.2, séc. XV)

Ao colocar a fé acima da razão, Tomás estava seguindo Anselmo de Cantuária (1033-1109 dC), “o primeiro filósofo escolástico e teólogo.” [10] Anselmo concluiu que “a fé deve preceder o conhecimento.” [11] Em Proslogium, ele explicou: “Eu não procuro entender que eu posso crer, mas eu creio para entender. Por isso eu também acredito que se eu não acreditasse, eu não entenderia.” [12] “Depois de a fé se estabelece firmemente, o esforço deve ser feito com o objetivo de demonstrar pela razão a verdade do que acreditamos. É errado não fazer isso.” [13]

No compromisso de Tomás, a filosofia e a razão foram adotados, mas eram subjugados à teologia. Sobre tais questões onde a teologia e a filosofia discordavam, foi dada prioridade à teologia. A ciência e a filosofia se tornaram servas da teologia. [14] Esta fórmula familiar da Idade Média originou-se com Agostinho de Hipona (354-430 dC), o mais influente dos Padres da Igreja.

Embora muitos dos Padres da Igreja tivessem sido totalmente hostis à filosofia grega, Agostinho argumentou que deveria ser apropriado ao uso da Igreja quando útil e quando em conflito não com a doutrina.

Se aqueles que são chamados de filósofos, e especialmente os platonistas, disserem alguma coisa que é verdade e em harmonia com a nossa fé, nós não só não podemos a evitar, mas também devemos reivindicá-la para nosso próprio uso sobre quem tem posse ilegal dela … [Pois] todos os ramos de conhecimento pagão possuem não apenas fantasias falsas e supersticiosas … mas contêm também a instrução liberal que se adapta melhor ao uso da verdade, e alguns excelentes preceitos da moralidade; e algumas verdades relacionadas até mesmo à adoração do Deus Único… estes… devemos voltá-los ao uso cristão. [15]

A Igreja foi então capaz de absorver e utilizar a filosofia aristotélica. Mas foi um compromisso que levou as sementes de sua própria destruição. Por ter usado argumentos racionais para provar a superioridade da revelação, Tomás tinha involuntariamente concordado com a superioridade da razão sobre a teologia. “A tentativa de estabelecer por argumento a autoridade da fé é, na realidade, o estabelecimento inconsciente da autoridade da razão. Razão, caso admitida, deve ultimamente reivindicar o homem todo.” [16]

A Escolástica na Europa se estendeu a partir do século IX até o início do século XV, mas seu ápice foi entre os séculos XI e XIV. [17] O típico do raciocínio escolástico era a prova de Tomás para a existência de Deus. Tomás argumentou que a existência de Deus pode ser provada de cinco maneiras. “O primeiro … caminho é o argumento do movimento. É certo, e evidente aos nossos sentidos, que neste mundo algumas coisas estão em movimento. Agora o que está em movimento é colocado em movimento por um outro …. Portanto, tudo o que é movido deve ser movido por um outro. Se aquilo que causa o movimento em algo foi também se move, isso também tem de ser movido por um outro, este por um outro novamente. Mas isso não pode ir ao infinito …. Por isso é necessário que se chegue a um primeiro motor que naõ é movido por nenhum outro. E este, todos entendem como sendo Deus.” [18]

A primeira prova de Tomás veio diretamente de Aristóteles. Na Metafísica, Aristóteles argumentou que “existe algo que se move sem ser movido, sendo eterno, substância, e realidade” [19] O argumento é geométrico em sua lógica, mas repousa sobre axiomas não provados: a de que o movimento perpétuo não pode existir, ou que um primeiro movimento não pode surgir de uma causa natural diferente de movimento, ou de que a sucessão de movimentos não pode se estender ao infinito. Pode-se também tentar argumentar que o número de inteiros é finito (não é), porque cada número deve ser precedido por outro. [20]

Os escolásticos queriam uma resposta para cada pergunta. Em um cosmo orgânico, unificado, e teleológico, tudo tinha um propósito, e cada pergunta pode ser respondida pela lógica e pela fé.

A visão de Tomás, para ser satisfatória, tinha que ser completa. Ela era um conhecimento unido e amalgamado em um esquema de salvação. Mas um esquema de salvação é uma cadeia, que é plena apenas quando completa; quebre um elo, e ela se rompe; deixar um rebite solto, e ela também se rompe. Um esquema de salvação deve responder a todo problema que lhe for colocado; um único problema sem resposta pode o colocar em perigo. Os problemas, por exemplo, da presciência e da predestinação de Deus—que de fato eram um elo solto, Tomás não consegue deixar sem soldadura. Por isso também para nós, homens modernos, cujos pontos de vista do universo são tão descaradamente incompletos, deixando tanta coisa sem resposta e tanta coisa desconhecida, a filosofia de Tomás pode ser reconfortante, e encantadora pela sua completude. [21]

De graves questões teológicas, Tomás avançou rapidamente na Summa Theologica a perguntas que resumem a esterilidade da escolástica medieval. A partir de uma perspectiva moderna, reflexivamente condicionada para obter conhecimento a partir do empirismo, tais perguntas parecem bobagem. (NdE: para ver discussões similares aqui no blog, visite o post Métodos Teológicos e Apologistas Aplicados a Super-Heróis.)

A Summa Theologica contém uma seção inteira dedicada a questões sobre anjos. Entre as questões considerados por Tomás estão:

  • Se um anjo é totalmente incorpóreo? [22]
  • Se um anjo é composto de matéria e forma? [23]
  • Se os anjos existem em grande número? [24]
  • Se os anjos se diferem em espécies? [25]
  • Se os anjos são incorruptíveis? [26]
  • Se vários anjos podem estar ao mesmo tempo no mesmo lugar? [27]
  • Se o movimento de um anjo é instantâneo? [28]
  • Se há livre arbítrio para os anjos? [29]
  • Se existe um apetite irascível e concupiscível nos anjos? [30]
Anjo Resgata São Pedro da Prisão
Bartolomé Esteban Murillo (1618-1682) – De 1667
Óleo sobre tela

O leitor astuto vai notar que o exame de Tomás da pergunta quantos anjos podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo é essencialmente o mesmo de uma questão como quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete.

A pergunta mais infame que Tomás tentou responder envolveu a ressurreição de canibais. [31] Cristãos medievais na Europa acreditavam na ressurreição física do corpo humano. Uma questão então se apresentou: suponha que havia um canibal que viveu sua vida inteira comendo nada além de carne humana e este homem tinha filhos. Os corpos das crianças seriam compostos inteiramente de carne de outras pessoas. “Se alguém que era formado de nada senão carne humana estivesse para gerar filhos, seu filho que deriva dele deve ser da carne de outros homens que formavam seu pai.” [32] Então como poderia o corpo da criança ser ressuscitado se ela foi feita de outros corpos humanos?

Canibais Preparando sua Vítima –Francisco Goya (1746-1828)
Entre 1800 e 1808 – Óleo sobre madeira (32,7 cm x 47 cm)

Pouco antes de sua morte aos 48 anos, Tomás teve uma experiência de êxtase. “Um arrebatamento maravilhoso … tomou conta dele, e abalou toda sua estrutura, enquanto celebrava uma missa.” [33] Thomas perdeu o interesse pela escrita, e “tornou-se totalmente perdido na contemplação.” [34] Ele explicou aos seus amigos, “Eu não posso mais escrever … tudo o que eu escrevi parece-me simplesmente lixo.” [35]

Notas e Referências:

1. Wallace, W. A., 2008, Aquinas, Saint Thomas, in Complete Dictionary of Scientific Biography, edited by Charles Gillispie, vol. 1. Cengage Learning, New York, p. 197.

2. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1910, Aquinas, Thomas, vol. 2. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 251.

3. Schaff, P., and Schaff, D. S., 1907, History of the Christian Church, vol. 5, part 1, The Middle Ages, from Gregory VII, 1049, to Boniface VIII, 1294. Charles Schribner’s Sons, New York, p. 665.

4. Aquinas, T., 1952, Summa Theologica, Treatise on God, Question 1, Article 1, translated by the Fathers of the English Domincan Province, Great Books of the Western World, vol. 19. William Benton, Chicago, p. 3.

5. Ibid.

6. Ibid., Treatise on God, Question 1, Article 2, p. 4.

7. Ibid., Treatise on God, Question 1, Article 5, p. 5.

8. Ibid., Treatise on God, Question 1, Article 6, p. 6.

9. Gilson, E., 1955, History of Christian Philosophy in the Middle Ages. Random House, New York, p. 398.

10. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1910, Anselm, vol. 2. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 82.

11. Ibid.

12. St. Anselm, 1903, Proslogium; Monologium; an Appendix in Behalf of the Fool by Gaunilon; and Cur Deus Homo, translated by Sidney Norton Deane. Open Court, Chicago, p. 7.

13. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1910, Anselm, vol. 2. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 82.

14. Grant, E., 2001, God and Reason in the Middle Ages. Cambridge University Press, Cambridge, p.36–37.

15. St. Augustine, 1887, On Christian Doctrine, Book 2, Chapter 40, Paragraph 60, translated by J. F. Shaw, in A Select Library of Nicene and Post-Nicene Fathers, vol. 2, St. Augustine’s City of God and Christian Doctrine, edited by Philip Schaff. Charles Scribner’s Sons, New York, p. 554.

16. Encyclopædia Britannica, Eleventh Edition, 1911, Scholasticism, vol. 24. Encyclopædia Britannica Company, New York, p. 347.

17. Ibid., p. 346.

18. Aquinas, T., 1952, Summa Theologica, Treatise on God, Question 2, Article 3, translated by the Fathers of the English Domincan Province, Great Books of the Western World, vol. 19. William Benton, Chicago, p. 12–13.

19. Aristotle, 1941, Metaphysics, Book 12, Chapter 7, translated by W. D. Ross, in Basic Works of Aristotle. Random House, New York, p. 879 (1072a).

20. Russell, B., 1945, A History of Western Philosophy. Simon and Schuster, New York, p. 462.

21. Taylor, H. O., 1914, The Mediaeval Mind, Second Edition, vol. 2. Macmillan, London, p. 425.

22. Aquinas, T., 1952, Summa Theologica, Treatise on the Angels, Question 50, Article 1, translated by the Fathers of the English Domincan Province, Great Books of the Western World, vol. 19. William Benton, Chicago, p. 269.

23. Ibid., Treatise on the Angels, Question 50, Article 2, p. 270.

24. Ibid., Treatise on the Angels, Question 50, Article 3, p. 272.

25. Ibid., Treatise on the Angels, Question 50, Article 4, p. 273.

26. Ibid., Treatise on the Angels, Question 50, Article 5, p. 274.

27. Ibid., Treatise on the Angels, Question 52, Article 3, p. 280.

28. Ibid., Treatise on the Angels, Question 53, Article 3, p. 283.

29. Ibid., Treatise on the Angels, Question 59, Article 3, p. 308.

30. Ibid., Treatise on the Angels, Question 59, Article 4, p. 309.

31. Russell, B., 1945, A History of Western Philosophy. Simon and Schuster, New York, p. 461.

32. Aquinas, T., 1952, Summa Theologica, Supplement to the Third Part, Treatise on the Resurrection, Question 80, Article 4, translated by the Fathers of the English Domincan Province, Great Books of the Western World, vol. 20. William Benton, Chicago, p. 959.

33. Vaughan, R. G., 1872, The Life & Labours of S. Thomas of Aquin, vol. 2. Longmans & Co., London, p. 916.

34. Ibid., p. 917.

35. Ibid.

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