Estagnação Econômica durante o Feudalismo

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Título : Feudalism and Economic Stagnation
Autor: DAVID DEMING Tradução: Suriani
Publicação: Science and Technology in World History, Vol. 2

FEUDALISMO E ESTAGNAÇÃO ECONÔMICA
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As repetidas invasões da Itália por tribos germânicas e a queda do Império Romano no Ocidente não acabaram com a unidade econômica do Mediterrâneo. “O objetivo dos invasores não era destruir o Império Romano, mas ocupar e se divertir.” [1] O que  parou o comércio e sufocou a atividade econômica na região do Mediterrâneo pode ter sido a expansão islâmica do século VIII. “De uma atividade regular e comercial normal … nenhum vestígio pode ser encontrado após o fechamento do Mediterrâneo pela expansão islâmica.” [2] Mas a atribuição disso à expansão islâmica é incerta. [3] Qualquer que seja a causa, por volta do século IX, a Europa Ocidental foi em grande parte uma “economia de ausência de mercados.” [4]

À medida que o Império Romano se desintegrava no Ocidente, o poder, a riqueza, e a influência da Igreja Católica aumentava. Qualquer terreno que passava para as mãos da Igreja permanecia com ela. Por volta de 700 dC, a Igreja possuía um terço da França. Bispos e abades regiam vastas propriedades e governavam como senhores feudais. O dinheiro era recolhido dos leigos na forma de dízimos, e os sacerdotes cobravam taxas para administrar os sacramentos. Fundos fluíam para cima, dos padres para os bispos, dos bispos para Roma. [5]

Com o colapso da autoridade secular central, o feudalismo surgiu. Bens imobiliários passaram para as mãos de alguns poucos senhores que conseguiram vastas propriedades. “As instituições municipais romanas abriram espaço para a regra dos bispos ou dos senhores feudais, e as pessoas tinham em grande parte perdido até mesmo a liberdade pessoal.” [6] “A necessidade de proteção contra ataques, o abuso de poder por aqueles que o exerciam e a fraqueza dos reis combinaram-se para subjugar política e economicamente muitos agricultores livres.” [7] O ápice do feudalismo ocorreu no final do século IX, uma época na Europa distinguida por uma anarquia virtual.

Em geral, existiam três classes seculares na Europa feudal: senhores, cavaleiros e servos. Senhores possuiam poder pela propriedade de uma ou mais grandes propriedades. Estas terras eram subdivididos em feudos. Um feudo era literalmente uma renda ou um pagamento concedido em troca de serviço militar. [8] “O feudo normal era uma propriedade de terra grande o suficiente para suportar, através do trabalho de seus camponeses, pelo menos um cavaleiro armado e seu cavalo de guerra.” [9] Um feudo era uma concessão hereditária de terra, passada de pai para filho mais velho sob a lei de primogenitura. Se um cavaleiro não tinha herdeiro do sexo masculino, a terra voltava à propriedade do senhor.

Um cavaleiro que possuia um feudo era obrigado a prestar o serviço militar em nome de seu senhor, “e 40 dias no ano era freqüentemente a quantidade de serviço exigido. Além de lutar por seu senhor em campo e de montar guarda em seus castelos, era geralmente exigido em épocas estabelecidas que o vassalo comparecesse na corte do seu senhor, onde a sua presença contribuia para o prestígio social do senhor e o ajudava na construção de algo como poder político.” [10]

A terceira classe secular consistia de servos. “Os servos eram camponeses que eram vendidos ou transferidos junto com as terras que cultivavam, como se fossem arados ou vacas.” [11] Os servos não eram escravos. Um senhor não poderia romper a família de um servo, ou vendê-lo como escravo. Mas o servo era necessário “para cultivar parte da propriedade para seu mestre, para o trabalho em sua casa, para cortar madeira para seu fogo, para carregar seu trigo e seu vinho e seu feno, [e] para reparar as estradas e pontes em sua propriedade.” [12] Todos trabalhavam, incluindo crianças. [13]

Em teoria, a relação entre servo e senhor era de reciprocidade. Em troca de seu trabalho, o senhor era obrigado a fornecer segurança para o servo e sua família. Servos “precisavam de proteção em um mundo onde policiais eram escassos e piratas eram abundantes.” [14] Nos séculos IX e X, Vikings regularmente invadiam “as ilhas britânicas, os Países Baixos e a França.” [15] Mas esse era um negócio feito entre partes de poder desigual. Um senhor “tinha uma inclinação natural a espremer para fora de seus servos tudo o que ele poderia obter.” [16]

A escravidão ainda existia, mas não era tão difundida como durante o auge da civilização romana. [17] A instituição da escravidão foi sendo substituída pela servidão. O cristianismo minou a escravidão com suas doutrinas de caridade e fraternidade humana universal. Os escravos eram “admitidos no sacerdócio, e seu valor moral era elevado.” [18] A Igreja Cristã fez da emancipação dos escravos um “bom trabalho por excelência.” [19] Por outro lado, os céticos apontam que a própria Igreja era dona de escravos e que não tinha nenhuma doutrina proibindo a escravidão. [20] Os fatores econômicos e políticos também trabalharam para a eliminação da grande escravidão. Na Europa feudal, não havia nenhum governo central forte para perseguir e punir escravos fugitivos. Senhores visavam a auto-suficiência, e servos exigiam menos supervisão do que escravos. [21]

 A caracterização anterior do feudalismo é uma simplificação. O feudalismo era “um emaranhado complexo e quase sem esperança”, [22] e “haviam diferentes classes e diferentes gradações de sujeição pessoal ou de liberdade.” [23] Nem as pequenas propriedades foram extintas. Na Inglaterra de 1279 dC, apenas 60% da terra era ocupada pelos imóveis senhoriais. [24] O levantamento The Domesday feito por William, o Conquistador, realizado no ano 1086, constatou que a população agrícola da Inglaterra consistia de 70% de homens das vilas (servos feudais ou operários de uma classe ou de outra), 9% de escravos, e 12% de homens livres.

Propriedades feudais eram quase totalmente auto-suficientes, produzindo quase tudo que era necessário para sustentar os senhores, cavaleiros e servos. Um inventário de uma das propriedades de Carlos Magno (742-814 dC) contia listas de utensílios, alimentos, animais, ervas e árvores de fruto. Alimentos incluindo espelta, trigo, centeio, cevada, aveia e ervilhas. A pecuária consistia de gado, vacas, porcos, ovelhas, cabras, gansos, patos, galinhas e pavões. A propriedade produzia “pêras, maçãs, nêsperas, pêssegos, avelãs, nozes, amoras, [e] marmelos”, e uma variedade de ervas, que incluia hortelã, salsa, aipo, sálvia, segurelha, zimbro, alho, coentro, cebola, repolho , e outros. [25]

Carlos Magno instruiu que cada administrador de suas 160 propriedades [26] “deve ter em seu distrito bons trabalhadores, nomeadamente, ferreiros, ourives, prateiros, sapateiros, carpinteiros, torneiros, fabricantes de espada, pescadores, laminadores, [27] fabricantes de sabão, homens que sabem como fazer cerveja, sidra, baga, e todos os tipos de bebidas, padeiros para fazer massa para nossa mesa, tecedores de redes que sabem como fazer redes para caça e pesca, e os outros que são numerosos demais para serem designados.” [28]

Qualquer coisa que não poderia ser produzida na propriedade era comprada dos ambulantes. Apesar da completa auto-suficiência ser o ideal, materiais como sal, ferro, pergaminho, tinta, cânhamo (para cordas) [NdE: maconha], linho e especiarias, tinham que ser importados. [29]

A produção agrícola era ineficaz e limitada. “Ervilha, beterraba, batata, e muitos outros produtos agrícolas eram desconhecidos. Agricultura científica, irrigação, e adubação eram pouco conhecidas ou praticadas.” [30] Com a rotação de culturas e a fertilização limitadas, os campos tinham de repousar a cada dois ou três anos, reduzindo drasticamente a produtividade da terra. “Apenas metade ou dois terços da terra arável estava sob cultivo em qualquer temporada.” [31] Os métodos agrícolas “eram sempre brutos, e frequentemente eram muito pesados e causavam muito desperdício … parte do rebanho tinha de ser morta antes do inverno, pois não havia forragem adequada para mantê-la.” [32] A única forragem de inverno disponível era o feno cortado nas pradarias. [33] Como a maioria do rebanho tinha de ser abatida no outono , nunca havia muito estrume disponível para fertilizar os campos.

O comércio agrícola era limitado pelo simples fato de que havia pouco ou nenhum excedente para o comércio. Se havia um excedente de produção em um ano agrícola, ele era desperdiçado, enquanto que o mau tempo do ano seguinte poderia muito bem levar à fome. Mesmo quando um excedente estava disponível, era difícil transportá-lo por uma grande distância. As estradas eram inseguras e sua condição “era tão ruim que elas pareciam ser meras faixas, utilizáveis para passageiros a pé ou a cavalo, mas de pouca utilidade para o tráfego de carroça.” [34] “As estradas romanas ainda estavam em uso, mas elas estavam muito desgastadas e muito poucas em número para elevar o nível geral de transporte.” [35] O estado geral das estradas era tão ruim que no ano de 1499 um homem a cavalo caiu em um buraco no meio de uma estrada e se afogou. Pontes sobre córregos eram raras. [36]

Viajar não era apenas difícil, mas perigoso. “Assaltos e violência eram ocorrências regulares e normais … estudantes indo estudar na Inglaterra eram encorajados a portar armas na viagem.” [37] O comércio era ainda mais prejudicado pela falta de unidade política nacional e de uniformidade da tributação. Cada senhor feudal tentava tirar proveito dos mercadores e comerciantes que passavam por sua propriedade. Se o senhor não estava aliado com bandos de salteadores e engajado numa total roubalheira, ele impunha um pedágio ou o imposto sobre qualquer um que passasse por seu domínio. “A variedade de pedágios feudais é quase inconcebível … pedágios eram cobrados em toda parte e sobre tudo.” [38] “No século XIV, haviam 74 pedágios em Loire, de Roanne para Nantes; 12 em Allier, 10 em Sarth; 60 em Ródano e Saône, 70 em Garonne ou nas rotas entre Réole e Narbonne; 9 em Sena, entre a Ponte Grande de Paris e Roche-Guyon. Haviam 13 estações de pedágio no Reno entre Mainz e Colônia. Em uma caminhada de algumas horas em torno de uma Nuremberg passava-se por 10 estações.” [39] “O comerciante não recebia nada em troca” [40] por pagar um pedágio. Ele “podia pagar um senhor por um salvo-conduto … e em seguida ser roubado pelo próprio senhor.” [41]

Notas e Referências:

1. Pirenne, H., 1948, Medieval Cities, Their Origins and the Revival of Trade, translated by Frank D. Halsey. Princeton University Press, Princeton, p. 8.

2. Ibid., p. 35.

3. Heaton, H., 1936, Economic History of Europe. Harper & Brothers, New York, p. 85–86.

4. Pirenne, H., 1948, Medieval Cities, Their Origins and the Revival of Trade, translated by Frank D. Halsey. Princeton University Press, Princeton, p. 46.

5. Heaton, H., 1936, Economic History of Europe. Harper & Brothers, New York, p. 88–89.

6. Thorndike, L., 1917, The History of Medieval Europe. Houghton Mifflin Company, Boston, p. 327.

7. Heaton, H., 1936, Economic History of Europe. Harper & Brothers, New York, p. 76.

8. Reynolds, R. L., 1961, Europe Emerges. University of Wisconsin Press, Madison, p. 164.

9. Thorndike, L., 1917, The History of Medieval Europe. Houghton Mifflin Company, Boston, p. 243.

10. Ibid., p. 242.

11. Ibid., p,. 233.

12. Ibid., p. 234.

13. Heaton, H., 1936, Economic History of Europe. Harper & Brothers, New York, p. 108.

14. Thorndike, L., 1917, The History of Medieval Europe. Houghton Mifflin Company, Boston, p. 238.

15. Heaton, H., 1936, Economic History of Europe. Harper & Brothers, New York, p. 79.

16. Thorndike, L., 1917, The History of Medieval Europe. Houghton Mifflin Company, Boston, p. 235.

17. Gies, F., and Gies, J., 1994, Cathedral, Forge, and Waterwheel. HarperCollins, New York, p. 44.

18. Boissonnade, P., 2002, Life and Work in Medieval Europe (first published in 1927 by A. A. Knopf, New York). Dover, New York, p. 94.

19. Ibid., p. 95.

20. Phillips, W. D., 1985, Slavery from Roman Times to the Early Transatlantic Trade. University of Minnesota Press, Minneapolis, p. 51.

21. Ibid., p. 55.

22. Thorndike, L., 1917, The History of Medieval Europe. Houghton Mifflin Company, Boston, p. 253.

23. Ibid., p. 237.

24. Heaton, H., 1936, Economic History of Europe. Harper & Brothers, New York, p. 91.

25. Ogg, F. A. (editor), 1908, A Source Book of Mediaeval History. American Book Company, New York, p. 129.

26. Heaton, H., 1936, Economic History of Europe. Harper & Brothers, New York, p. 93.

27. Evidently, a “foiler” was “one who foils,” where “foil” means “to spread over with a thin sheet of metal or other substance,” Oxford English Dictionary, 1989, Second Edition, Online Version. (NdE: Traduzido aqui como laminador.)

28. Ogg, F. A. (editor), 1908, A Source Book of Mediaeval History. American Book Company, New York, p. 127.

29. Heaton, H., 1936, Economic History of Europe. Harper & Brothers, New York, p. 113.

30. Thorndike, L., 1917, The History of Medieval Europe. Houghton Mifflin Company, Boston, p. 236.

31. Heaton, H., 1936, Economic History of Europe. Harper & Brothers, New York, p. 72.

32. Day, C., 1922, A History of Commerce. Longmans, Green, and Co., New York, p. 35.

33. Heaton, H., 1936, Economic History of Europe. Harper & Brothers, New York, p. 106–107.

34. Day, C., 1922, A History of Commerce. Longmans, Green, and Co., New York, p. 33.

35. Ibid., p. 54.

36. Ibid., p. 55.

37. Ibid., p. 56.

38. Ibid., p. 57.

39. Ibid., p. 58.

40. Ibid., p. 59.

41. Ibid.

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