Não se Pode Confundir Pastor com Parlamentar

“Não se Pode Confundir Pastor com Parlamentar.”
– Rachel Sheherazade

Você vem dizer isso pra MIM, Rachel?

Rachel Sheherazade falou, em resposta a todos aqueles que protestam ou mesmo que apenas se opõem à eleição do deputado Marco Feliciano à Comissão de Direitos Humanos na Câmera, que “Não se Pode Confundir Pastor com Parlamentar.” Segundo ela, e podemos conferir no curto vídeo abaixo, Marco Feliciano tem todo direito de ter suas opiniões pessoais e ninguém pode criticá-lo porque ele é deputado eleito democraticamente.

Mas calma lá!

Em primeiro lugar, será que divulgar a própria opinião é um direito tão sagrado assim? Não podemos criticar uma opinião, pois opinião é algo sagrado? Oras, onde já se viu? Não estou dizendo que Feliciano deva deixar de omitir sua opinião, mas sim que ele deve se responsabilizar todas as consequências de emiti-la. Se as pessoas não gostam da opinião dele, elas têm tanto direito de expressar isso quanto ele teve de começar a discussão.

Aliás, creio que se Marco Feliciano estivesse dizendo aos quatro ventos que loiras não servem para apresentar noticiários e sim para cuidar da casa caladas, Rachel não teria o defendido desse modo.

O que a Rachel não pode é usar o direito de expressão contra ele mesmo. Não faz sentido tentar blindar alguém contra críticas dizendo que todo mundo tem direito de criticar!

Em segundo lugar, a democracia não pressupõe uma mordaça sobre os eleitores depois que o candidato foi eleito. Se o político está no meio de seu mandato e começa a falar ou a fazer coisas que a sociedade reprova, os eleitores têm todo o direito do mundo de descer a lenha no infeliz. Isso sim é democracia, Rachel! O povo coloca, mas se o cara faz besteira, o povo bate sem dó. Talvez a Rachel é quem não esteja preparada para a democracia, achando que políticos não podem ser criticados só porque foram agraciados com o dom divino do mandato de quatro anos.

Além do mais, as pessoas não querem deslegitimar a eleição de Marco Feliciano, mas sim criticar a sua postura anti-secular e não-laica como deputado. Então, ninguém aqui está desrespeitando o voto e nem o resultado das eleições, cara Rachel.

Por fim, uma imagem que encontrei no Facebook hoje:

Esta citação é verdadeira e pode ser verificada no Estadão online.

Mas vejam só. O protesto contra Marco Feliciano é promovido tanto por ateus, quanto por agnósticos, deístas, espítitas e diversos grupos cristãos, sem contar com as outras tantas minorias. Todos estes grupos, inclusive os ateus mais instruídos, não desejam o fim de pastores, padres e líderes religiosos em geral em cargos políticos, mas que estes busquem manter suas opiniões religiosas separadas de seu mandato político. Esta é a principal reinvidicação de qualquer organização ou orientação política secular: não confunir religião com política.

Só que mesmo assim, ainda temos que aturar a Sheherazade dizendo que as pessoas que criticam o Feliciano é que confundem o pastor com o deputado! Criticamos ele porque ELE confunde pastor com deputado… mas a distorção corre solta, pra variar.

Aconselho a colunista do SBT a repassar melhor as informações disponíveis e a se inteirar melhor de conceitos como democracia e liberdade de expressão antes de emitir sua opinião em TV aberta ao Brasil todo. Porque “Não se pode confundir Pastor com Parlamentar” é algo que ela deveria dizer ao Feliciano e não a mim e a todos os demais que estão exercendo o direito legítimo de criticá-lo por fazer tal confusão.

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3 opiniões sobre “Não se Pode Confundir Pastor com Parlamentar”

  1. “busquem manter suas opiniões religiosas separadas de seu mandato político”

    Libertários não precisam manter suas opiniões libertárias separadas do mandato, comunistas não precisam, direitistas não precisam, ruralistas não precisam, gays não precisam…. por que diabos religiosos precisam? Sua ideia de laicidade está mais para estado ateu.

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    1. Você acha certo que um governante flamenguista (ou torcedor de um time qualquer) conceda benefícios de qualquer espécie ao seu time do coração usando o poder que possui?

      Você acha certo um presidente vegano tentar te proibir de comer carne e derivados de leite?

      Evidente que não.

      Então não proponha um conflito tão insignificante como esse. A realidade tem nuances e mais nuances e você me faz o favor de passar um rolo compressor por cima e tratar como um problema trivial. E mais do que isso, só usa exemplos favoráveis e ignora aqueles te impediriam de manter seu posicionamento. Crianças até cinco anos brincam de pique esconde fechando os olhos, achando que é o esconderijo perfeito. Você tem o quádruplo disso, MP.

      Sua primeira grande falácia é achar que o que vale para um deve valer para todo o resto. Os libertários possuem uma linha de pensamento voltada para a política especificamente. Suas ideias estão baseadas em preceitos políticos. Eles possuem uma visão daquilo que seria a configuração mais desejável para a sociedade pelos motivos x, y, z e uma proposta para atingir tal configuração usando x, y, z. Toda a sua argumentação é baseada naquilo que eles acreditam ser o que irá gerar uma sociedade que funcione de uma maneira ótima. Funcionamento ótimo, evidentemente, (e considere um insulto eu julgar que você não sabe isso) não significa funcionamento perfeito, utópico, mas o melhor funcionamento possível dentro de um número de limitações. Pode-se imaginar uma sociedade melhor que uma no ponto ótimo mas não se pode atingir uma acima do ponto ótimo. Toda ideologia política vislumbra um ponto ótimo e porpõe formas de atingi-lo, a diferença é que o ponto ótimo de algumas é irrealizável (ou indesejável). Se o povo concorda que se deve tentar o ponto ótimo apresentado por um partido, que vote nele e tente.

      Uma proposta de funcionamento para uma sociedade deve cumprir uma série de requisitos próprios de tal área de conhecimento. Em primeiro lugar, a proposta deve ter como objetivo primário alcançar funcionamentos ótimos. Em segundo lugar, ela deve conhecer os métodos usados para fazer isso. Em terceiro lugar, ela deve considerar as propostas já apresentadas no passado e as que estão sendo apresentadas no presente, não no sentido de acatá-las, mas no sentido de demonstrar que todas elas falham em algum ponto.

      Se uma proposta falha em algum daqueles pontos, ela não é uma proposta válida de governo. Isso pode significar que uma proposta nociva à sociedade ou ao governo ou pode significar que é uma proposta que não tem como objetivo para orientar uma sociedade. Então são duas falhas: conflito ou irrelevância.

      Vejamos o caso das religiões: elas não buscam justificar suas ideias naquilo que pode levar sociedade civil a um funcionamento ótimo. As ideias religiosas buscam coisas como crescimento espiritual, conforto psicológico de qualquer espécie, salvação pós-vida, gratidão pela vida e pela criação etc No que alguma coisa dos objetivos das religiões aqui elencados é capaz de contribuir para o alcance de uma sociedade que funciona de maneira ótima? Elas falham nos 3 requisitos: seus objetivos são outros, sua argumentação não segue uma metodologia adequada e não procura dizer porque as demais propostas falham.

      O discurso meramente religioso não é compatível com o discurso político. Não é apropriado. E se a religião falha como proposta válida de governo, neste caso por irrelevância, por se propor a fazer outras coisas que não administração pública, então ela deve sim ser desconsiderada da vida pública. O socialismo, o libertarianismo, o liberalismo, o monarquismo etc etc, nenhum desses é reprovado no teste.

      Mas isso quer dizer que a religião não pode sequer lutar por seus próprios direitos?

      O que se pode dizer é que existem algumas áreas nas quais as religiões podem atuar para fazer valer seus direitos. Neste caso, o mandatário pode atrelar qualquer ideologia, condição, comportamento e ideia ao seu mandato. Concordo. Contudo, evidentemente, devem haver critérios para a coisa não ficar bagunçada.

      Prestemos atenção: eu já exclui a religião da possibilidade de servir como modelo de administração pública por que ela não possui a finalidade de promover isso. Agora vou explicar quando e como um político eleito pode propor leis atreladas à sua religião.

      Um professor da rede pública do primeiro grau que recebe muito mal e dá aula em condições precárias que usa seu mandato para reivindicar salários melhores já que os salários de outros servidores públicos é incomparavelmente maior: ele luta por um direito que é dele, o de receber mais; todo trabalhador tem o direito de solicitar aumentos e se o estado é quem dá o aumento, ele deve fazer o pedido ao estado. Além disso, o governo dificilmente não terá dinheiro para isso, já que pode pagar salários altos para outros e, no caso do Brasil, com certeza possui autoridade para fazer isso. É, pois, uma reivindicação legítima.

      Agora um professor federal que recebe (bem) acima da média salarial do país que use poder político para aumentar seu salário está evidentemente atrapalhando categorias que recebem salários injustos a alcançarem seu direito a um salário e a condições de trabalhos dignos. Além disso, desrespeitam a capacidade financeira do governo, que não tem dinheiro para bancar salários astronômicos para milhares de servidores. Uma reivindicação que não considero legítima. Note que do primeiro caso para este mudaram apenas alguns detalhes.

      Um madereiro que luta pelo direito de derrubar árvores sem se preocupar com impactos ambientais está desrespeitando o direito dos outros de viver em um clima agradável ao ser humano.

      Um homossexual que luta pela extinção de casamentos heterossexuais descumpre os requisitos implícitos mas um que luta pela implementação do casamento homossexual de maneira independente da existência ou não de outros casamentos age de maneira legítima. Um heterossexual contra o casamento homossexual, da mesma forma, descumpre os requisitos da representação legítima.

      Um religioso que luta pelo direito de ter a memória de sua religião preservada, de ter sua identidade religiosa respeitada e de ter sua liberdade de culto assegurada cumpre os objetivos da mesma forma que uma colônia de alemães no sul que luta pelos direitos de ter a memória de seu povo preservada, de ter sua identidade nacional respeitada e de ter suas tradições, hábitos e culturas assegurados.

      Mas se a colônia alemã lutar contra o direito de tombar casas com arquitetura italiana ele age como um religioso que luta para que terreiros de pai de santo sejam proibidos. São casos flagrantes de representações ilegítimas.

      Como conclusão, a representação evangélica contra os homossexuais deve ser mantida longe dos mandatos, mas representações que buscam assegurar direitos próprios podem sim. Ao contrário de você, não parto da ideia tosca de que se vale para um vale para tudo. Cada caso é um caso, my child.

      Então apresentei dois critérios para pulverizar seu conflito de arque: as religiões devem ser separadas do estado por não possuirem os mesmo objetivos que o estado e não podem fazer representações pontuais que desrespeitem as normas implícitas para tal.

      Vamos para sua segunda falácia: a de que luto por um estado ateu. Desculpe-me mas isso é um argumento patético MP. Sinceramente, você deveria ter vergonha de fazê-lo. De tão batido, ele não passa de chororô evangélico hoje em dia que infelizmente, e sabe-se lá porque, você comrpou sem questionamento. Para começo de conversa, dizer que foi um argumento é bondade minha. Foi apenas uma alegação, pois não houve alí nenhum motivo ou justificativa apresentado de maneira sequer implícita a favor de sua tese.

      Ao que parece, você não sabe qual a diferença entre um estado ateu e um estado secular. Vamos lá…

      1) Um governo ateu deve promover o ateísmo ou governar de acordo com interesses meramente ateus e que não podem ser adotados, por definição, por nenhum outro grupo. Por exemplo, um governo liderado por um vegetariano que tenta proibir o consumo de carne vermelha é um governo vegetariano, porque só vegetarianos concordam com a proibição. Talvez não vegetarianos concordem com reduções no consumo por motivos diversos, mas nenhum não-vegetariano irá concordar com a abolição do consumo de carne com o o argumento de que é algo imoral.

      2) Um estado neutro é um estado neutro, oras. Neutralidade não é sinônimo de oposto. Vamos ver sua alegação de outro lado:

      Fulano propõe um estado laico no qual ateus não podem impor o ensino de Dawkins nas escolas. Sua ideia de laicidade está mais para estado cristão.

      Essa alegação mequetrefe procede? Evidente que não. Um religioso mal-informado e desesperado que diga o que você disse é até “aceitável”, mas vindo de você chega a ser decepcionante!

      Devemos manter o indivíduo separado do parlamentar, pois somente assim a administração pública será eficiente. O parlamentar que, como indivíduo, faz reivindicações pontuais está dentro dos seus legítimos direitos, desde que isso não seja usado como arma para promover seus interesses sobre benefícios objetivos e tangíveis em detrimento do prejuízo de outros indivíduos e do próprio governo. Cristãos usando mandatos para dificultar a vida de umbandistas e de homossexuais, por exemplo, estão fazendo mal uso de seu poder político, mas aqueles que lutam pelo direito de ter policiamento público em eventos religiosos estão usando de forma legítima. Isso não pressupõe um estado ateu, pois não visa nem atender os interesses “intrinsecamente ateístas” – entre aspas! – como ensinar ateísmo nas escolas e impôr restrições à manifestação religiosa, e nem combater meramente os religiosos, mas todas as atuações políticas inadequadas para a sociedade.

      Preste bastante atenção neste último parágrafo acima….

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