As relações inter-excludentes entre Conservadorismo e Liberalismo Econômico

“A natureza, quando formou o homem para a sociedade, dotou-o de um desejo original de agradar e de uma aversão original a ofender os irmãos. Ela lhe ensinou a sentir prazer quando o avaliam de maneira favorável e dor quando o avaliam de maneira desfavorável.”

“O êxito da maioria… quase sempre depende da simpatia e da opinião favorável dos semelhantes; e sem uma conduta toleravelmente regular, é raro obtê-las. O bom e velho provérbio, portanto, segundo o qual a honestidade é sempre a melhor política, se mantém, em tais situações, quase sempre perfeitamente verdadeiro.”

O Conservador mediano atual que acabou de ler essa citação deve estar pensando, com toda a razão, que o trecho acima é esquerdista em sua essência. Afinal, ele está tentando defender que as pessoas tendem a ser honestas sempre que possível e não o contrário. Ou que pelo menos possuem fortes freios morais que não as permitem trapacear e se beneficiar de forma ilícita além de um certo limite. Essa visão vai profundamente contra o pensamento do Conservador mediano que, apesar de se julgar como um poço profundo e abundante de honestidade pura e inocente, julga estar rodeado por um mundo podre onde todas as pessoas trapacearão tão logo tiverem uma oportunidade.

Mas vejam bem, não estou aqui para defender ou atacar a citação que coloquei, apesar de discordar dela. Estou aqui para uma missão mais original um pouco: dizer quem proferiu tamanha “babaquice”. Para surpresa geral da nação, quem disse isso foi ninguém menos do que Adam Smith, pai do Liberalismo Econômico. (Pausa dramática com um música de suspense ao fundo.)

Sim, meus caros. O “tolo ingênuo” que disse isso foi Adam Smith (ver Previsivelmente Irracional, de Dan Ariely, capítulo 11, página 164 na edição brasileira da Campus). Não quero aqui argumentar com apelo à autoridade, como se algum conservador devesse acreditar nisso só porque foi Smith quem falou. Repito para os analfabetos funcionais de plantão que sou inclusive desfavorável a essa citação de Adam Smith. O que impressiona aqui é a doce ironia de os conservadores acharem que o Liberalismo Econômico é plenamente compatível com sua visão do mundo. O que ocorre é justamente o contrário, as ideologias são inter-excludentes.

Na verdade, o Liberalismo Econômico parte do pressuposto de que somos agentes morais propensos à honestidade. Mais do que isso, parte do pressuposto (mais pesado ainda em questão de ônus) de que somos agentes perfeitamente capazes de aplicar o pensamento racional em nossas tomadas de decisão. Se partíssemos do pressuposto que somos um bando de imbecis fraudulentos, jamais daríamos atenção a uma teoria econômica que diz que a liberdade permite a auto-regulação do mercado até que ele atinja um ponto ótimo. Mas a verdade é que apesar de não sermos totalmente imbecis fraudulentos, também estamos longe de ser uma espécie racional e honesta.

Como estou me dirigindo aqui aos Conservadores medianos, irei pular a parte em que forneço estudos científicos que provam tanto que não somos capazes de decisões totalmente racionais, e que na maior parte do tempo nos deixamos levar pelas emoções, quanto que somos induzidos à desonestidade sempre que temos a oportunidade. Não só para poupar tempo, já que tenho certeza de que eles não duvidam disso, mas para me poupar de ser criticado quando descobrirem que o problema é muito pior do que eles supõem.

Na verdade, como bem lembrou o colaborador do blog Groucho Marx, “essa coisa de misturar liberalismo econômico com pessimismo só veio com o Edmund Burke.” O liberalismo econômico original possui alguns traços que lembram o esquerdismo e que são inerentemente otimistas quanto ao homem. (Evidentemente, LE não é um sistema esquerdista.) E é preciso distorcê-lo bastante e agir como um autista que não presta atenção ao mundo ao seu redor para torná-lo pessimista e para compatibilizá-lo com o conservadorismo, pelos motivos já explicados.

E chega a ser engraçado ver figuras conservadoras como Luciano Henrique e Olavo de Carvalho defendendo com tanto fervor o liberalismo econômico. Apesar de serem patentemente ignorados na discussão pública, representam muito bem a classe de tolos que dá atenção a eles, e prova disso é que defendem um sistema otimista como se fosse pessimista. No alto de sua ignorância, são incapazes de perceber que somente uma sociedade onde as pessoas possuem um processo de tomada de decisões livre de emoções e de vieses cognitivos fortemente dependentes de condições ambientais e onde as pessoas procuram ser honestas mesmo quando possuem claras oportunidades de trapacear poderia fazer o Liberalismo Econômico funcionar. Caso contrário, precisaríamos de um governo para proteger os bobos de sua própria ignorância e de ganância alheia. (Não defendo um estado pesado como as ditaduras de direita ou os comunismos chineses, nem “pesado” como o atual governo brasileiro da Dilma e do PT, se é isso que vos aflige.)

O mais engraçado de tudo é que eles são tão meramente “anti-esquerda” que defendem um sistema “semi-esquerdista” como o Liberalismo Econômico só porque a própria esquerda o condena. Fazem isso no melhor estilo: “se eles são contra, então eu sou a favor.” Mas a grande ironia mesmo é que a esquerda atual defende que o Liberalismo não dá certo porque aqueles que detém o poder econômico hoje vão fazer de tudo para dificultar a vida dos demais. Defende que quem nasce em famílias pobres, NA MÉDIA, não será capaz de superar quem nasce em famílias com melhores condições. E isso é irônico porque a propaganda conservadora radical atual se vende como um sistema realista e anti-utópico, mas seus oponentes carregam uma crença tão ingênua como a crença no Liberalismo. Pobres coitados e ignorantes. O Olavo pelo menos pode dar a desculpa de que nem ele mesmo acredita nas besteiras que diz só para ganhar dinheiro, mas o resto…

Como o fiofó de muita gente vai ficar coçando de vontade de me responder, e como eles vão me citar de maneira absolutamente conveniente (leia-se: de maneira que me distorce completamente), aqui vai um pequeno resumo do que está exposto (com alguns extras). Quem for me responder, copie e cole o trecho abaixo e responda ele, se for corajoso o suficiente para me responder sem me distorcer primeiro. Alguém se habilita?

  1. O Liberalismo Econômico pressupõe que somos agentes morais propensos à honestidade e perfeitamente capazes de aplicar o pensamento racional em nossas tomadas de decisão. Chamo isso de pressuposto do Liberalismo Econômico.
  2. Se partíssemos do pressuposto que somos um bando de imbecis fraudulentos, jamais daríamos atenção a uma teoria econômica que diz que a liberdade permite a auto-regulação do mercado até que ele atinja um ponto ótimo.
  3. O pressuposto do LE é falho. Nosso processo de tomada de decisão é governado pela emoção e pela irracionalidade em um grau que não podemos sequer perceber. Tomamos decisões irracionais e nos iludimos que fomos racionais. Além disso, temos uma capacidade surpreendente de racionalizar nossos “deslizes”, o que nos torna verdadeiras máquinas propensas à desonestidade mas que não se vêem como desonestas. Até possuímos alguns sistemas para prevenir a desonestidade, mas estão longe de serem plenamente confiáveis e eficazes.
  4. Logo, a partir de 1 a 3, jamais seríamos capazes de alcançar um ponto ótimo na economia se todos os agentes tiverem total liberdade, pois a irracionalidade e a desonestidade deles não permitiria que se alcançasse tal ponto.
  5. O item 4 nos faz crer que o governo deve sim intervir de forma ativa na economia e na sociedade, servindo como controle à desonestidade e à irracionalidade humanas. O grau de intervenção e o tamanho desse Estado é uma discussão à parte, a única conclusão é que deve haver algum grau de intervenção.
  6. O item 3 nos faz crer que a crença do LE é inerentemente ingênua por pressupor um homem racional e honesto.
  7. O pressuposto do LE é compartilhado com seu próprio pai, Adam Smith, de modo que é possível dizer que tal ideologia é inerentemente otimista e ingênua desde o próprio nascimento.
  8. O LE foi adotado pelos conservadores radicais de hoje como o melhor sistema econômico. A compatibilização entre LE e direita se deu através de Edmund Burke, que o distorceu para fazê-lo parecer pessimista. Um dos motivos para a direita reacionária apoiar o LE possivelmente é porque a esquerda o condena.
  9. Os conservadores-reacionários fazem uma forte e ostensiva propaganda de que são realistas e pessimistas, ao contrário da esquerda, que seria utópica e ingênua.
  10. A esquerda não defende o LE pois acha que as pessoas usarão a sua liberdade para prejudicar as demais pessoas (desonestidade) e para forçar os limites ambientais do planeta (irracionalidade).
  11. Logo, a condenação da esquerda ao LE é realista enquanto que o apoio conservador-reacionário a ele é ingênuo, ao contrário do que a propaganda diz.
  12. Do item 11, não se conclui que a proposta da esquerda para a economia seja certa, mas não se conclui também que seja errada. Tal discussão não é relevante aqui, onde se está discutindo apenas a viabilidade do LE.

Atualizado no dia 12/03/2013 às 01:00 h.

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12 opiniões sobre “As relações inter-excludentes entre Conservadorismo e Liberalismo Econômico”

    1. Sarcasmo… é evidente que LE não é esquerda, pois a esquerda o repudia. A brincadeira é lembrar que se esquerda é sinônimo de utopia, então LE é esquerda.

      E outra coisa. Darwinismo Social é uma grande piada. O comportamento de sistemas puramente biológicos não serve para modelar sistemas sociais, que já não são puramente biológicos. Quem defende o DS deveria ser tão ridicularizado quanto os defensores da terra plana e dos ETs construindo pirâmides.

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  1. Ninguem defende o DS porque a memoria de hitler esta fresquinha mas de vez em quando vejo gente como Ponde defender o Aristrocracismo dizendo que nascem pessoas naturalmente superiores ao ”povão”. Ele deixa isso bem claro na livro guia politicamente incorreto da filosofia eu recomendo(para dar boas risadas).

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    1. Se o Pondé disse que pessoas que nascem mais inteligentes merecem ganhar mais dinheiro, penso que aí sim podemos ter uma discussão produtiva. Mas se ele acha que quem nasce em famílias com melhores condições socio-econômicas, então ele falou merda mesmo, não adianta… Depois dou uma olhada para ver o que exatamente ele quis dizer com isso.
      De qualquer forma, vlw por lembrar a questão do DS, vai ficar excelente no post que vai ao ar amanhã. De quebra, vou atualizar esse aqui.

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  2. O Ayan ja veio postar pelolas em sua caixa de comentarios:

    ”É o oposto. O apoio da direita ao LE é racional, pois se baseia no que o ser humano é, ou seja, capaz de atitudes honestas em um ambiente de mútua cooperação, mas, ao contrário, a esquerda, não entende isso, e diz que o ambiente deve ser gerido por um estado inchado, no qual há poder totalitário. ”

    O que sera que ele quis dizer com Ambiente? Acho que ele esta se referindo a economia. Ele tambem deve achar que qualquer estado que não siga o liberarismo economico não tem mutua cooperacão.

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  3. a mutuo-cooperacão é possivel mas não a ponto de substituir totalmente o estado nas questões sociais. Acho que você esta fazendo uma falsa dicotomia Marcus o que é exatamente o que o ayan quer.

    Quando você diz que não acredita na mutuo-cooperacão deixa a atender que os seres humanos não iriam cooperar caso não existice estado o que esta longe de ser verdade. O problema de certos liberais( não sei se esse é o caso do Ayan) é que eles acreditam que a ausencia do estado nas questões economias e sociais trariam um aumento na mutua cooperacão ja existente numa determinada sociedade.

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    1. Colocando em termos melhores então, eu não creio que a auto-cooperação aumentaria caso não houvesse estado. Talvez o aumento da auto-cooperação possa fazer o estado diminuir, mas não tem porque crer no contrário, não existe base que afirma isso.

      E mesmo que a auto-cooperação aumente, acho que a mente humana não é boa o suficiente para que ela faça o estado ser prescindível. Acredito (pois evidentemente não posso provar, e então arrisco a pior hipótese) que o ápice da auto-cooperação humana não seria suficiente para aposentar os estados.

      Na verdade, eu quis dizer que não é possível a plena auto-cooperação, não que nenhum nível dela é possível, mas de fato me expressei mal. Por isso acredito que o Lulu é um iludido.

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  4. Voce devia deixar isso claro para evitar as depurtacões que o Ayan certamente fara.
    Enves de dizer ”Eu não acredito na auto-cooperacão mutua” você devereria dizer ”Eu não acredito que a cooperacão mutua possa substituir totalmente o estado num contexto em que o estado se ausente totalmente em intevir na economia ou na area social.

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    1. E adianta? Veja que alí em cima eu escrevi que apesar de não sermos idiotas desonestos propriamente ditos, também estamos longe de ser plenamente racionais e honestos, nos situando em um meio termo. E ele me acusa do quê? De formar falsas dicotomias. Ele me acusa de dizer que ou somos um ou somos ou outro. Mas como, se eu disse que estamos no meio do caminho?

      Você acha que tomar cuidado é suficiente para evitar as críticas dele? Ele critica mesmo quando não tem razão, por isso acabo sendo displicente.

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  5. Veja bem Macus o Ayan foca a plateia e não você logo se você não tiver a mesma postura vai se dar mal sempre. Quando for responder o Ayan ou qualquer outro do tipo lembre-se que você esta falando com um militante do liberarismo economico que tentara se passar por pragmatico e realista para vender a sua ideologia.

    Eu espero rotinas do tipo:

    ”Somente os liberais economicos conhecem a natureza humana com ela é, os opositores do liberarismo economico partem do principio que o homem é naturalmente 100% bom ou naturalmente 100% mal por isso sempre estarão dispostos a dar poder totalitario ao estado”

    ”Somente o liberarismo economico sustenta a democracia a longo prazo, todas as outras ideologias levam ao totalitarismo”

    ”Quanto mais impostos menos livre é um povo”

    eu irei falar expecificamente cada rotina em futuros textos.

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