Um Código para a Conduta Intelectual – Parte 13: O Princípio da Resolução

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Título Original: Attacking Faulty Reasoning: A Practical Guide to Fallacy-Free Arguments Autor: T. Edward Damer Tradução:  Suriani
Publicação: Wadsworth Publishing; 6ª ed.

O PRINCÍPIO DA RESOLUÇÃO

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Uma questão deve ser considerada resolvida se o argumento para uma das posições alternativas for estruturalmente sólido e se usa razões relevantes e aceitáveis que, juntos, fornecem motivos suficientes para justificar a conclusão e que também inclui uma réplica eficaz de todas as críticas sérias ao argumento e/ou à posição que ele suporta. A menos que alguém possa demonstrar que o argumento não cumpriu essas condições com mais sucesso do que qualquer argumento apresentado para posições alternativas, esse alguém é obrigado a aceitar tal conclusão e considerar a questão como resolvida. Se o argumento for posteriormente demonstrado falho por qualquer participante de uma maneira que levanta novas dúvidas sobre o mérito da posição que ele suporta, esse alguém é obrigado a reabrir a questão para consideração e deliberação.

Se em última instância o objetivo da discussão racional é decidir o que fazer ou no que acreditar, então seu encerramento deveria acontecer mais vezes do que ele acontece. Há muitos bons argumentos por aí, e se bons argumentos resolvem problemas, então por que não se resolvem mais problemas? Questões como os direitos dos homossexuais, o aquecimento global, o debate criacionismo/evolução, e as questões de preconceito de gênero já deveriam ter sido resolvidas. Os argumentos foram feitos, e eles são bons, mas os debates continuam. Quanto mais discussão é necessária, só porque alguns se recusam a reconhecer a força de um bom argumento?

Infelizmente, muito poucas questões controversas nunca chegam a uma resolução racional. Se você tem dúvidas sobre isso, então pergunte a si mesmo quando foi a última vez que você permitiu que a força do argumento mudasse sua ideia sobre um assunto importante—apesar disso, mudar de ideia quando colocado de frente a um bom argumento não deveria ser uma coisa difícil de se fazer para um verdadeiro caçador da verdade.

Então por que isso não acontece? Por que os problemas não são resolvidos? Existe um certo número de razões. Pode ser que uma das partes em litígio tem um ponto cego, isto é, que ele ou ela simplesmente não consegue ser objetivo sobre a questão específica na mão. Ou talvez ele ou ela foi convencido racionalmente pela discussão, mas não psicologicamente. Outra explicação possível é que uma ou mais das partes na disputa foi racionalmente descuidada ou até mesmo culpada de não pensar tão claramente como deveriam. É até possível que uma das partes tenha uma agenda escondida—uma questão para defender além da declarada. Ou talvez as partes envolvidas simplesmente não estão sendo honestas com elas mesmas, pois elas podem querer ganhar o argumento mais do que elas querem encontrar uma solução para o problema. Finalmente, talvez as partes podem estar no que pode ser chamado de desacordo profundo. Em outras palavras, eles estão divididos sobre a questão por causa de pressupostos fundamentais que ainda não foram explorados. Infelizmente, a maioria dessas explicações não apresentam uma justificativa adequada para não resolver os nossos conflitos, e pode ser demonstrado nesse caso que cada explicação se baseia na violação identificável de pelo menos um dos princípios do Código de Conduta Intelectual.

É possível, é claro, que algumas questões sejam deixadas por resolver por razões respeitáveis. Talvez a evidência disponível é considerada atualmente muito acanhada para conduzir a uma conclusão, ou, talvez, uma das partes ainda está à procura de um contra-argumento eficaz que ele ou ela realmente acha que existe. Estas podem ser razões que nos fazem menos confiantes em trazer uma disputa para o fechamento e em adotar a conclusão de um dos argumentos. Mas onde é que isto nos deixa? A plena confiança é uma possibilidade real? Na maioria dos casos, não. Poucos argumentos satisfazem plenamente todos os cinco critérios de um bom argumento. No entanto, nas questões mais importantes que encontramos temos poucas opções senão decidir em algum momento o que fazer ou no que acreditar. Por razões lógicas e práticas, nós somos obrigados a aceitar a posição defendida pelo argumento que satisfaz as condições de um bom argumento com mais sucesso. Caso contrário, como quase sempre se pode alegar que nenhuma prova absoluta foi encontrada, praticamente qualquer questão poderia ser deixada sem solução. Nós temos tentado mostrar que critérios objetivos estão disponíveis para determinar quando se está na presença de um bom argumento, por isso é claramente possível resolver uma questão em disputa pela força do argumento. Juízes e júris fazem isso rotineiramente, e não há nenhuma razão para que o resto de nós não possa fazer isso também. Quando o seu oponente apresenta um argumento melhor que o seu, aceite sua conclusão e considere a questão resolvida.

Nenhum argumento, no entanto, pode ser considerado como permanentemente bem sucedido. Há sempre a possibilidade de que novas evidências venham à luz e levantem novas dúvidas sobre uma posição estabelecida com base naquilo que se acreditava que eram bons fundamentos. Sob estas condições, uma análise mais aprofundada sempre é apropriada. Orgulho em manter uma posição defendida por um bom argumento no passado não deve se tornar um obstáculo para a reabertura da questão no presente. Os princípios da falibilidade e da verdade busca pela verdade são tão importantes neste momento como eram inicialmente.

As novas dúvidas, entretanto, não devem ser as mesmas dúvidas antigas de roupa nova. A reabertura da questão deve vir somente como consequência da descoberta de novas provas ou da reinterpretação não considerada no tratamento da questão anterior. Caso contrário, o reexame da questão é a pior forma de violação do princípio da resolução, simplesmente um dispositivo para evitar andar para a frente.

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