Um Código para a Conduta Intelectual – Parte 11: O Princípio da Refutação

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Título Original: Attacking Faulty Reasoning: A Practical Guide to Fallacy-Free Arguments Autor: T. Edward Damer Tradução:  Suriani
Publicação: Wadsworth Publishing; 6ª ed.

O PRINCÍPIO DA REFUTAÇÃO

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Aquele que apresenta um argumento a favor ou contra uma posição deve incluir no argumento uma refutação eficaz antecipando todas as críticas graves ao argumento que podem ser movidas contra ele ou contra a posição que ele suporta.

O último princípio usado para determinar se um argumento é bom é o Princípio da Refutação. Atender as demandas deste princípio é, talvez, a mais difícil de todas as tarefas argumentativas. É a parte mais fraca de meus próprios argumentos e dos argumentos dos meus alunos, filhos, esposa, amigos, parentes e colegas. Como um argumento normalmente é apresentado contra o pano de fundo que há um outro lado da questão, um bom argumento deve lidar com o outro lado de cabeça erguida. Um argumento não pode ser bom se não antecipar e efetivamente refutar ou atenuar a força das críticas mais graves contra ele e a posição que ele suporta. Um argumento completo pode até refutar os argumentos reunidos em favor de posições alternativas sobre o assunto em questão.

Muitas pessoas razoavelmente inteligentes podem conceber o que parece ser um bom argumento para aquilo que elas acreditam ou que desejam que nós acreditemos. Por exemplo, praticamente todos os jurados em um julgamento criminal ficam impressionados com a qualidade do argumento do procurador. Se esse fosse o único argumento ouvido, quase todos os júris condenariam o acusado. É a refutação do advogado de defesa e a resposta da promotoria para a refutação que dão ao júri toda a imagem e base apropriadas para tomar uma decisão.

Se você olhar para a maioria das questões controversas e para os argumentos em seu favor, você vai notar frequentemente que tanto elas quanto seus argumentos contrários parecem atender os quatro primeiros critérios de um bom argumento. Eles são estruturalmente sólidos, e cada um possui premissas relevantes, aceitáveis e que parecem ser suficientes em número, tipo e peso para apoiar a conclusão. Isto sugere que dois argumentadores defendendo posições opostas ou contraditórias podem ter argumentos igualmente bons ou fortes. Mas isso não pode acontecer. Se os dois argumentos chegam a conclusões opostas ou contraditórias, apenas um deles pode ter uma conclusão verdadeira, e cabe a nós determinar qual é. E o único meio que temos disponível é descobrir qual conclusão é apoiada pelo melhor argumento. Se isto não puder ser determinado pela aplicação cuidadosa dos quatro primeiros critérios nos dois argumentos, então a resposta provavelmente envolve a aplicação do princípio da refutação. Um ou ambos os argumentadores ignoraram ou não souberam como responder aos principais desafios contra seu próprio argumento, ou um ou ambos os argumentadores ignoraram ou não reconheceram a fraqueza do argumento de seu oponente, ou não souberam como formular um desafio a ele.

Portanto, não é provável que possam haver bons argumentos de apoio a ambos os lados de posições opostas ou contraditórias porque pelo menos um dos argumentos apresentados não será capaz de satisfazer plenamente o princípio da refutação. Apenas um deles será capaz de efetivamente rebater as críticas apresentadas pelo outro. Caso contrário, poderíamos nos encontrar em uma situação em que cada uma das duas posições contraditórias mereceria nossa aceitação. Mas não podemos logicamente ou praticamente tolerar uma situação irracional como essa. Simplesmente não pode ser o caso, por exemplo, de um determinado aborto ser errado e não errado. A solução para este dilema de “dupla verdade” deve, portanto, ser encontrada determinando qual dos argumentos pode lidar de modo mais eficaz com os desafios mais graves de sua própria posição, qual pode danificar mais seriamente os argumentos mais fortes para a outra posição, ou ambos.

Um argumento não pode ser bom se não antecipar e efetivamente refutar ou atenuar a força das críticas mais graves contra ele e a posição que ele suporta.

O que deve ser considerado como um desafio sério? É aquele em que uma pessoa razoável, seguindo todas as orientações sugeridas no Código de Conduta Intelectual, consideraria como parecendo prejudicial a ponto de exigir alguma resposta. Mesmo se o argumentador pensar que há uma resposta eficaz às críticas, ele ou ela deve tratá-la como um desafio sério afim de que possa convencer seu defensor e as outras pessoas de sua fraqueza. De fato, um bom argumento deve antecipar os desafios mais sérios e usar uma premissa de contraprova para neutralizar a sua força. Isto não só mostra que o argumentador fez o seu dever de casa, mas desarma o crítico de antemão. As supostas “grandes armas” do oponente são tornadas ineficazes antes mesmo de ser disparadas.

O que seria uma resposta eficaz? É aquela que uma pessoa razoável, seguindo todas as orientações sugeridas no Código de Conduta Intelectual, aceitaria como sendo uma que destrói ou que pelo menos danifica gravemente o vigor da crítica ou do contra-argumento. Em outras palavras, uma resposta eficaz a um desafio sério faz com que uma pessoa madura e racional deixe de considerar seu desafio como sério.

A refutação deve ser a principal força motriz por trás da formação de todos os argumentos. Um bom argumentador deve estar constantemente atento ao fato de que um argumento não está terminado até que se tenha “exterminado” as críticas e os contra-argumentos. Lamentavelmente, porém, premissas de refutação são as mais frequentemente negligenciadas em argumentos. Existem várias razões pelas quais talvez esse elemento esteja ausente na maioria dos nossos argumentos. Primeiro, nós não conseguimos pensar em quaisquer respostas eficazes para os desafios a nossa posição, de modo que apenas mantemos o silêncio sobre eles. Segundo, nós não queremos mencionar a evidência contrária por medo de que a nossa posição seja enfraquecida, trazendo a atenção de nossos oponentes. Finalmente, nós estamos tão convencidos de nossa própria posição que realmente não acreditamos que exista um outro lado da questão. Seja qual for a razão, um argumento que não possui esse elemento não pode ser um bom argumento, pois para que possamos ser devidamente convencidos de qualquer coisa, devemos primeiro olhar para todas as provas. E nós não olhamos para todas as provas até vermos a evidência contrária.

Os argumentos podem deixar de atender o princípio refutação de diversas maneiras. Várias táticas diversionistas são comumente usadas por aqueles que desejam evitar a responsabilidade de refutação. Por exemplo, argumentos que deturpam a crítica, que trazem objeções triviais ou não-correlacionadas, ou que recorrem ao humor ou ao ridículo estão usando dispositivos que claramente não conseguem dar respostas eficazes. O mesmo pode ser dito dos argumentos que ignoram ou negam a contraprova contra a posição defendida. Finalmente, alguns argumentadores tentar evitam responder a uma crítica atacando o crítico em vez da crítica. Todas essas abordagens são claras violações da nossa obrigação de responder honestamente aos argumentos de nossos oponentes.

Um argumentador deve perguntar e responder várias questões na aplicação do princípio refutação a uma discussão. Primeiro, quais são os argumentos mais fortes contra a posição sendo defendida? Segundo, o argumento lidam com os contra-argumentos de forma efetiva? Terceiro, quais as fraquezas potencialmente graves do argumento para sua posição podem ser reconhecidas por um adversário? Quarto, o próprio argumento reconhece e lidar com os possíveis pontos fracos? Finalmente, o argumento mostra porque argumentos para posições alternativas sobre o tema são falhos ou mal sucedidos?

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