Jesus e os Mitologistas

Bart Ehrman lançou em 2012 o livro “Did Jesus Exist?” (Jesus Existiu?), no qual defende que Jesus existiu, mas que não passou de homem normal ao qual foram atribuídos poderes divinos e que teve sua ideias superestimadas ao longo dos dois últimos milênios. Um dos pontos que mais chamam atenção neste livro, e em declarações recentes, é que Ehrman ataca vigorosamente as pessoas que se declaram mitologistas (a melhor tradução que encontrei para mythicists), pessoas que alegam que Jesus nunca foi nada além de um mito e que não existiu sequer como humano comum.

Essa ideia pode ser um pouco chocante para muitos ateus, pois a princípio parece validar de certa forma o cristianismo. Mas se paramos para pensar bem, veremos que a existência real de Jesus como um humano comum e sem nenhuma conexão com o Deus Criador é um fato totalmente irrelevante quando formos avaliar a credibilidade do cristianismo. Tal religião não é simplesmente a crença nas palavras de Jesus, mas também a crença de que ele é o Messias Salvador que os profetas do Antigo Testamento anunciavam.

Segundo Ehrman, muitos ateus, em sua ânsia de tentar desconstruir e difamar o cristianismo a qualquer custo, acabam achando que o caminho mais fácil é argumentar que Jesus nunca sequer existiu. Isso com certeza facilitaria muito a vida deles, se fosse verdade. Mas Ehrman é enfático ao dizer que não é.

O sexto capítulo desse livro é chamado “The Mythicist Case: Weak and Irrelevant Claims” (O caso Mitologista: Alegações Fracas e Irrelevantes) e nele Ehrman apresenta e refuta os principais argumentos apresentados pelos mitologistas. Apesar do padrão aqui do blog é trazer traduções dos textos, dessa vez me restringirei a trazer um resumo em português. Faço isso antes de mais nada porque é um capítulo razoavelmente grande (14.500 palavras) e eu definitivamente não tenho tanto tempo sobrando. Eu teria que sacrificar projetos que julgo mais importantes. Além disso, muitos ateus (quase todos?) se julgam mais abertos aos fatos do que os cristãos. Bem, se é assim acredito que não preciso ter os mesmos cuidados que dispenso nos textos dirigidos aos cristãos nos textos que dirijo aos ateus, correto? Presumo que posso me dar ao luxo de ser mais sucinto e menos enfático.

Não que eu esteja dizendo que todo mundo deve ler e aceitar tudo que é dito sobre Jesus (ou sobre qualquer um), longe disso. Só espero que esse resumo não seja subestimado por ser pequeno e indigesto. De toda forma, estou disponibilizando neste link um pdf com o texto original do capítulo para quem quiser se aprofundar no tema. Ainda essa semana publico uma continuação desse texto, no qual Ehrman defende que o mitologismo, além de ser historicamente insustentável, é incompatível e até mesmo nocivo ao humanismo, e que qualquer mitologista que possua uma agenda humanista secular já começou completamente errado.

Mas por hora, foquemos apenas na argumentação histórica.

Sobre argumentos irrelevantes

A primeira coisa que devemos ter em mente é que certos argumentos são totalmente irrelevantes na defesa das ideias que desejam sustentar. Por exemplo, muitos cristãos alegam que podemos confiar no Novo Testamento porque ele é mais bem atestado do que o Antigo Testamento, o que de fato é verdade. Por melhor atestado, refiro me à legitimidade da autoria e da fidelidade das cópias. Mas se esse argumento fizesse o mínimo de sentido, teríamos que admitir que livros como Das Kapital de Karl Marx e Mein Kampf de Adolf Hitler são livros com conteúdo extremamente confiável e digno de ser levado a sério, já que são incomparavelmente melhor atestados do que qualquer livro da Bíblia. Temos certeza que ambos foram escritos pelas pessoas que estão em suas respectivas capas e que não foram adulterados. Mas é evidente que isso seria uma completa fraude intelectual, bem como o argumento cristão apresentado.

Contudo, Ehrman avisa que os argumentos dos mitologistas não são melhores do que esse apresentado.

Alegação 1: Os Evangelhos são Muito Problemáticos como Fontes Históricas

Assim como é verdade que o Novo Testamento é melhor atestado do que o Antigo, mas que isso não conta muito pontos para a sua credibilidade em si, também é verdade que os evangelhos são escritos bastante problemáticos, mas que isso não chega a ser um problema muito grande ao se discutir a existência de Jesus. Autorias contestadas, trechos ausentes, “falhas” na tradução, contradições, narrativas de eventos históricos que jamais ocorreram… tudo isso está lá, mas é irrelevante. Vejamos os principais deles.

a) Nós não possuímos os textos originais dos evangelhos. Apesar dos evangelhos serem uns dos escritos melhor atestados do mundo antigo, eles possuem diversas falhas. Nós não temos os escritos originais dos evangelhos, assim como os de nenhum dos livros do Novo Testamento. Em geral, as cópias disponíveis hoje foram feitas 1.00o anos depois das cópias originais e todas elas possuem erros claros.

Contudo, o que isso nos diz sobre a real existência de Jesus? Se alguns fatos foram acrescentados posteriormente durante os processos de cópias, Jesus não deixaria de existir. Vejamos o caso de Obama. Suponhamos que sua certidão de nascimento realmente tenha sido adulterada, como seus opositores alegam. Isso significa que Obama não nasceu? A adulteração de um registro não altera a factualidade daquilo que não foi adulterado.

Os trechos perdidos e as passagens com erros claros que poderiam ser sanadas caso dispuséssemos do original também não representam um argumento relevante pelos mesmos motivos. (Ver mais em Ehrman, Misquoting Jesus: The Story Behind Who Changed the Bible and Why, San Francisco: Harper San Francisco, 2005).

b) Nós não conhecemos os autores dos evangelhos. De fato não conhecemos. Dos 27 livros do Antigo Testamento, apenas 8 foram escritos pelas pessoas às quais atribuimos a autoria. Os próprios evangelhos não foram escritos pelos discípulos Mateus e João e pelos amigos dos discípulos Marcos e Lucas, mas por pessoas que viveram bem depois. (Ver Bart Ehrman, Forged: Writing in the Name of God: Why the Bible’s Authors Are Not Who We Think They Are [Forjado: Escrevendo em Nome de Deus: Porque os autores da Bíblia não são quem pensamos que seja], San Francisco: HarperOne, 2010). Os seguidores de Jesus eram indivíduos da baixa-classe rural da Galileia, que falavam aramaico e que provavelmente eram analfabetos. Quem quer que tenha escrito os evangelhos eram intelectuais bem educados que falavam o grego e que provavelmente eram de fora da Palestina. Marcos, Mateus, Lucas e João jamais poderiam ter escrito os evangelhos.

Mais uma vez, isso é irrelevante na questão da existência ou não de Jesus. Quando os Diários de Hitler vieram a público em 1983,r ninguém imaginava que eles eram forjados, mas eles de fato foram escritos por um homem chamado Konrad Kujau. Mas isso não quer dizer que Hitler não existiu. Uma argumentação mais detalhada de como isso não interfere em nada é encontrada nos capítulos anteriores do livro. A verdade é que pode-se assumir como históricos os materiais em circulação antes dos evangelhos foram escritos e que serviram como fontes para as narrativas.

c) Os Evangelhos estão repletos de discrepâncias e contradições. Parece repetitivo, mas Ehrman concorda plenamente com isso também. O autor fornece uma lista de pequenas contradições e lembra de uma que é bastante importante: por que apenas João relata que Jesus se declarou como Deus? Será que os outros autores não acharam importante uma alegação como essa? Isso não faz sentido, pois tal alegação seria definitivamente um dos fatos mais importantes a se relatar sobre Jesus. Mais contradições podem ser vistas em Bart Ehrman, Jesus, Interrupted, chap. 2. Mas essas contradições são um obstáculos apenas para aqueles que desejam saber o que Jesus realmente falou e fez, sendo absolutamente irrelevante na discussão sobre sua existência.

d) Os evangelhos contém materiais não históricos. Narrativas como aquela em Lucas que dizem que João e Maria viajaram para realizar um censo ordenado por Augusto César são patentemente falsas. Tal censo jamais existiu. (Ver mais em Ehrman, Jesus, Interrupted, 29–39.) A histórias de Barrabás também parece ser falsa, e eu ainda acrescentaria a morte de todos primogênitos da região ordenada por Herodes como narrado em Mateus 2. Porém, mais uma vez é precipitado afirmar que se alguns detalhes da história de Jesus são falsos, então todos também são. É um salto lógico injustificável. Existem muitos mitos sobre a vida de George Washington, mas ninguém acha que tudo que é dito sobre ele também seja mito – até mesmo a sua existência.

e) Todos os Evangelhos estão repletos de lendas. A partir de agora, serei um pouco mais sucinto. Neste ponto, Ehrman trata diretamente de duas obras de Robert Price: The Christ-Myth Theory and Its Problems (Cranford, NJ: American Atheist Press, 2011) e The Incredible Shrinking Son of Man (Amherst, NY: Prometheus Books, 2003). Não desejo aqui fazer uma argumentação completa, mas simplesmente expor os principais pontos de Ehrman, uma tarefa que fica mais difícil em trechos mais “técnicos” como este.

Em primeiro lugar, é preciso saber o que é o Critério de Dissimilaridade. Em história, tal critério é usado para separar narrativas mais confiáveis das que provavelmente foram acrescentadas posteriormente por terceiros. Para isso, compara-se os propósitos aparentes das narrativas com a “agenda” do povo da época, ou seja, com seus desejos e expectativas. Ehrman alega que Price faz mal uso desse critério ao dizer que se algo não passa por ele então é falso. Certas passagens evangélicas são provavelmente invenções posteriores realizadas por terceiros para cumprir uma série de objetivos próprios, o que coloca a autenticidade da passagem em dúvida, mas que também não determina que são necessariamente falsas. O Critério da Dissimilaridade é um argumento probabilístico, mas Price o utilizou de forma falaciosamente dedutiva.

Além disso, não se pode esperar que hajam histórias sendo contadas sem nenhum viés e sem nenhum tipo de acréscimo de seu autor. Todas histórias que contamos sobre outras pessoas possuem um pouco de lenda. Algumas histórias são completamente legendárias, sem nenhum núcleo histórico, mas outras são meramente alterações de um núcleo histórico. Portanto, o mero fato de ser legendário não implica necessariamente em ser historicamente falso. E caso exista um núcleo histórico, ele pode ser alcançado, mesmo depois de ser alterado com lendas e com vieses pessoais.

Alegação 2: Nazaré não existiu

Essa alegação poderia ser derrubada com os mesmos argumentos usados quando Ehrman falou sobre as alegações anteriores, mas como esta alegação em específico é mais comum, ele achou melhor aprofundar um pouco mais. Ehrman apresenta a argumentação de Frank Zindler como exemplo (ver Frank Zindler, “Where Jesus Never Walked,” Through Atheist Eyes, vol. 1, Cranford, NJ: American Atheist Press, 2011, 27–55.) Segundo Zindler, Marcos nunca disse que Jesus veio de Nazaré. Ué, mas e a passagem Marcos 1:9? Zindler afirma que foi inserida posteriormente. Agora é fácil se livrar de passagens indesejáveis na Bíblia, basta dizer que foram inseridas por alguém depois! Isso é história sendo feita por conveniência. Além disso, seu argumento de que essa passagem é gramaticalmente diferente de passagens que citam locais (e que portanto foram feitas por outras pessoas) falha, já que Marcos usa tal construção em outros pontos.

Outro argumento de Zindler é que Nazaré provavelmente foi um erro de tradução. Em Isaías 11:1, é profetizado que o Messias seria do ramo de Davi. Bem, ramo é escrito NZR em hebreu. Zindler alega que os tradutores não sabiam o que era isso e acharam que significava Nazareth, e que era a cidade de onde Jesus veio. Para começar, isso é um salto e tanto. Segundo, eles poderiam ter pesquisado um pouco mais e esclarecido a questão facilmente, ao invés de dar um chute e ter achado que era uma cidade mesmo. Terceiro, está escrito que Jesus É um ramo, e não que ele VEIO de um ramo. Essa alegação de Zindler, além de não ter sido provada, é bastante forçada.

O autor George Wells possui alegações igualmente problemáticas. (Ver George A. Wells, Did Jesus Exist?, 2nd ed., Amherst, NY: Prometheus Books, 1986, p. 146.) Ele alega que Marcos fez confusão quando relatou que chamavam Jesus de Nazareno. Ser Nazareno significava ser pertencente a uma seita de judeus, não que era nascido em uma cidade chamada Nazaré (como Wells alega que Marcos achou). Mais uma vez, existe um grande salto lógico, sem contar que Marcos não iria, sem mais nem menos, pressupor que o termo Nazareno se refere a uma cidade que ele não conhece. Além disso, uma pessoa que conhecia as escrituras antigas saberia que a seita era a dos Nazireus e não faria confusão com uma cidade chamada Nazaré.

Outro mitologista criticado por Ehrman é René Salm (ver René Salm, The Myth of Nazareth, Cranford, NJ: American Atheist Press, 2008). Salm usa descobertas arqueológicas para afirmar que Nazaré tinha existido antes dos tempos de Jesus, mas foi abandonada e só voltou a existir depois de Jesus, nunca existindo, assim, durante a época dele. Para suportar essa alegação, Salm usa achados arqueológicos na região onde teria sido Nazaré datados depois da época de Jesus. Ehrman argumenta que isso não quer dizer que na época de Jesus propriamente dita, a cidade estava abandonada. Salm também argumenta que tumbas em pedra não foram achadas na região, contudo essas tumbas são muito caras e só costumam ser achadas em regiões bastante prósperas economicamente. Ehrman também lembra que Salm não é especializado em arqueologia o bastante para argumentar com base em achados arqueológicos e depois apresenta uma série de outros erros no livro de Salm. O historiador por fim fala sobre um review feito por Ken Dark, um arqueologista especializado na Galileia e diretor do Projeto Arquológico de Nazaré, que acredita que Salm cometeu diversos tipos de erros em sua tese e que não está qualificado para falar sobre o assunto. (Ken Dark, “Review of Salm, Myth of Nazareth,” publicado em Bulletin of the Anglo-Israel Archaeological Society 26, 2008.)

Para terminar, Ehrman salienta que um ano depois que o livro de Salm foi publicado, foi encontrada uma casa na região que data os tempos de Jesus. A melhor maneira de explicar os relatos evangélicos e as descobertas arqueológicas, de fato, é tomando como real a existência da cidade de Nazaré no lugar exato onde os evangelistas dizem que ficava. E mesmo que não existisse tal cidade, isso seria de pouca utilidade contra a existência de Jesus como um homem comum.

Alegação 3: Os Evangelhos São Paráfrases Interpretativas do Antigo Testamento

Esta não é uma alegação muito famosa, talvez por ser difícil de entender. Sendo assim, não vou me aprofundar muito aqui.

a) Robert Price e o Haggadic Midrash. Robert Price alegou recentemente que: “a narrativa evangélica como um todo é o produto de haggadic Midrash sobre o Antigo Testamento.” (ver Robert Price, Christ-Myth Theory, 34) Na tradição judaica, a reinterpretação de um texto através da paráfrase, expansão e reaplicação é chamada de Midrash, e se o texto é uma narrativa, essa Midrash é do tipo haggadic (textos jurídicos geram Midrash do tipo halakhic).

Para não contrariar a tradição, a primeira coisa que Ehrman argumenta é que apesar dos erros desse ponto de vista, o maior defeito dele é pressupor que a existência de uma parte falsa implica na inexistência de um núcleo histórico.

Por exemplo, é sabido que Mateus tenta forçar a barra para que a história de Jesus seja a mais parecida possível com a de Moisés, promovendo numerosos paralelos com o livro de Êxodo. Os motivos para isso são, antes de mais nada, teológicos: Mateus queria que Jesus fosse o Novo Moisés. Mas isso não implica que Jesus seja realmente uma total invenção. Seria fácil, por exemplo, forçar a barra para contar a história de Richard Nixon em termos de uma tragédia de Shakespeare, simplesmente ressaltando as semelhanças e deformando ou escondendo as diferenças. Se alguém fizesse isso, o Watergate e o próprio Nixon não deixariam de existir como num passe de mágica.

É fato que existem similaridades como essa em todo evangelho, pelos mesmos motivos. Mas daí até dizer que todo o evangelho não passa de midrash é um grande exagero. Isso não explica diversas passagens que não encontram paralelos (e em algumas dessas passagens, Ehrman mostra como Price forçou a barra para criá-los.) Price fez bem em ver que certas passagens são midrash, mas erra em achar que virtualmente qualquer passagem que tenha a mais ligeira ligação com o Antigo Testamento seja midrash.

b) Thomas Thompson e o Mito do Messias. Esse autor tem um argumento similar ao de Price: ele alega que se as principais figuras do Antigo Testamento como Moisés, Davi e Abraão são legendárias, então Jesus também é (ver Thomas L. Thompson, The Messiah Myth: The Near Eastern Roots of Jesus and David, New York: Basic Books, 2005.) O argumento principal de Thompson não é tão ingênuo quanto parece. Ele mostra como as narrativas evangélicas são escrituras intrinsecamente literárias, e que por isso lê-las como documentos históricos vai contra a própria vontade de seus autores. Sim, os evangelhos são textos literários, o que é irrelevante, pois não significa (pela milésima vez) que não possuem nada de histórico. Ehrman cita um exemplo que vou adaptar aqui à realidade brasileira: vejam o excelente livro 1808: Como uma Rainha Louca, um Príncipe Medroso e uma Corte Corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil, de Laurentino Gomes. Trata-se, antes de mais nada, de um livro literário, o que não quer dizer que não seja histórico. Evidentemente, Ehrman explica isso muito melhor, mas como esse argumento é complexo e pouco famoso, deixo para os mais curiosos procurarem saber mais.

Alegação 4: Jesus é Baseado em Deuses Pagãos

Essa alegação é praticamente a mesma da anterior, com a diferença de que aqui Jesus é baseado não nas tradições do AT, mas em outras tradições “concorrentes“. Por esse motivo, tais alegações sofrem com os mesmos problemas já apresentados na alegação 3. A diferença é que este argumento é bem mais famoso.

a) A Alegação e sua Exposição. Existem diversas semelhanças entre os evangelhos e histórias de outros deuses pagãos, mas os mitologistas enfatizam demais nessas semelhanças, sendo que alguns as exageram e outros ignoram as diferenças.

O primeiro exemplo é Kersey Graves, que em 1875 alegou que existiam 45 deuses cujas histórias foram usadas como base para a construção de Jesus. (ver Kersey Graves, The World’s Sixteen Crucified Saviors: Christianity Before Christ, 1875; repr., New York: Cosimo Classics, 2007) O problema é que alguns dos deuses dessa lista são ilustres como Buddha que, convenhamos, não tem nada a ver com Jesus. Além disso, a maioria de seus argumentos apelam para exageros claros. Se existem algumas semelhanças, ele diz que existem várias. Se algum evento importante na história de Jesus possui um paralelo, então quase todo evento importante encontra paralelo. E pior de tudo, Graves não dá sequer uma fonte para checar as alegações dele, de modo que é impossível checar se é verdade que certas divindades realmente compartilhavam eventos biográficos com o nazareno.

Ehrman se mostra impressionado com o fato de que 140 anos depois de Graves publicar tal livro, ainda exista quem seja influenciado por ele. Um exemplo é Frank Zindler, quem em artigo de 2011 falou sobre o fato do cristianismo ter origem em um culto pagão misterioso baseado no Mitraísmo, mas sem oferecer sequer uma evidência (ver Frank Zindler, “How Jesus Got a Life,” em Through Atheist Eyes: Scenes from a World That Won’t Reason, Cranford, NJ: American Atheist Press, 2011, 1:57–80.) Ehrman argumenta que ainda hoje, não se sabe praticamente nada sobre o Mitraísmo, sobre quais eram suas crenças, e que por isso é difícil dizer quais eram suas práticas e seus feitos – especialmente dizer que eles inventaram Jesus.

b) Outros Problemas com os Paralelos. Vejamos os paralelos entre a Virgem Maria e as histórias pagãs de deuses que tiveram filhos com humanas. Nas histórias pagãs, quase sempre a concepção envolve sexo entre a divindade e a humana, gerando um filho metade deus metade humano. A história de Jesus não envolve sexo e Jesus é o próprio Deus em sua forma de Filho. Não é exatamente a mesma coisa.

Outros paralelos são ainda mais problemáticos. Por exemplo, um deus morrendo para expiar os pecados do mundo é algo completamente novo introduzido pelo cristianismo e que não “aconteceu” em nenhuma mitologia pagã. Qualquer alegação neste sentido é pura invenção de mitologistas. Não que Jesus de fato tenha morrido e assim expiado os pecados do mundo, mas essa história também não foi tirada de outra mitologia. Na verdade, quando os judeus foram contar as histórias sobre Jesus, eles o fizeram tomando como base as histórias e profecias do Antigo Testamento e não de outras mitologias. E se não é relevante que as histórias foram moldadas segundo o AT, o fato de serem moldadas segundo outras mitologias seria igualmente irrelevante.

Conclusão

O capítulo seis do livro “Jesus Existiu?” de Bart Ehrman (ainda sem tradução para o português) trata das principais, e piores, alegações dos mitologistas em defesa de tese de que Jesus eram completamente mitológico. Algumas das respostas de Ehrman chegam a ser massantes de tão repetitivas, já que a grande maioria das alegações mitologistas são irrelevantes: Jesus pode muito bem ter existido e os detalhes duvidosos serem acréscimos à sua história. Muitos podem pensar que falta um caso positivo pela existência de Jesus, mas isso não é feito nesse capítulo, mas nos capítulos anteriores.

De qualquer forma, espero ter deixado claro que a alegação de que Jesus não existiu sequer como ser humano comum é bastante duvidosa. No próximo post, irei mostrar o quanto é irrelevante se ele existiu mesmo ou não (o importante é que ele não realizou milagres, não era filho de nenhum deus, não ressuscitou etc) e o quanto é contraprodutivo pensar assim.

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