A Imprensa e o PT

Transcrevo aqui dois artigos de Eugênio Bucci para a Revista Época sobre o mesmo assunto: as relações entre o PT de Lula e a Imprensa.

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Título Original: A lógica desastrosa de Lula sobre a imprensa
Autor: Eugênio Bucci
Publicado Originalmente em: Revista Época (23/12/2012)
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O julgamento do ex-presidente está baseado em quatro mentiras que só desinformam

Há coisa de dez dias, em Paris, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamou dos jornais. De novo. “Quando político é denunciado, a cara dele sai noite e dia nos jornais”, disse ele. Na sequência, lançou uma acusação baixa contra a imprensa: “Vocês já viram banqueiro nos jornais? São eles que pagam as publicidades da mídia”. Segundo Lula, os anunciantes estão a salvo das reportagens investigativas, pois os repórteres e os editores não têm a dignidade de apurar os fatos e de publicá-los com um grau mínimo de independência crítica.

Claro: os jornalistas de brio, honrados, foram ultrajados por ele. O interessante é que quase ninguém se deu ao trabalho de responder à ofensa. Por que será?

Existe uma explicação. Essa história de político falando mal dos jornais e das revistas já se banalizou. Virou uma epidemia. Lula não é o único, embora seja dos mais reincidentes. Há cerca de dois meses, no final da campanha municipal, em São Paulo, o então candidato a prefeito José Serra (PSDB) deu de acusar os repórteres que formulavam perguntas incômodas (na opinião dele) de ser agentes de “pautas petistas”. Ao desqualificar os profissionais que cumpriam seu dever de perguntar, procurava se esquivar das indagações e, em parte, foi bem-sucedido na manobra. Lula, outra vez, lança mão do mesmo truque. Quando lhe cobram explicações sobre os escândalos de seu partido, investe contra a reportagem. Como ele fala isso a toda hora, seus vitupérios já não chamam a atenção. Deixaram de ser notícia. Daí que os próprios jornalistas não se dão ao trabalho de responder.

Desta vez, porém, uma resposta não pode faltar. O julgamento de Lula está baseado em quatro grandes mentiras, que desinformam a sociedade e podem induzir a enganos desastrosos. Por isso, tratemos de pôr as coisas a limpo.

Primeira mentira. Não é verdade que a imprensa não publica reportagens que incomodam banqueiros. Você, leitor, há de se lembrar. Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos; Luís Octávio Indio da Costa, do Banco Cruzeiro do Sul; Salvatore Cacciola, do Banco Marca; Silvio Santos, do Banco Panamericano; Katia Rabello, do Banco Rural; Ricardo Guimarães, do Banco BMG; entre outros, muitos outros, também se lembram muito bem.

Segunda mentira. Não é verdade que os bancos privados são os maiores anunciantes do Brasil. Segundo um levantamento do anuário Mídia Dados, o Bradesco investiu, em 2011, R$ 905 milhões em publicidade. É muito dinheiro. Mas atenção: a Caixa, que pertence ao governo federal, investiu mais que o Bradesco: R$ 1,092 bilhão. E os dois maiores anunciantes privados do país em 2011 não têm nada a ver com bancos: Casas Bahia (R$ 3,3 bilhões) e Unilever (R$ 2,6 bilhões).

Terceira mentira. Não é verdade que qualquer acusação contra político vira manchete assim sem mais nem menos. A imprensa erra, claro que erra, deve ser criticada com rigor – mas a imprensa não é uma instituição corrupta, vendida. Nos escândalos recentes (mensalão etc.), acertou muito e ajudou a flagrar os bandidos de colarinho branco.

Quarta mentira. Não é verdade que os anunciantes saem sempre bem na foto. Se assim fosse, nenhuma revista, nenhum jornal, ninguém falaria mal dos governos (federal e estaduais), que anunciam bem mais que os banqueiros privados. Já vimos que a Caixa é um anunciante mastodôntico, assim como o Banco do Brasil (R$ 587 milhões em 2011), e, não obstante, alguns de seus dirigentes andaram frequentando o noticiário. Somente o Ministério da Educação, segundo estimativas do mesmo Mídia Dados, veiculou anúncios no valor de R$ 298 milhões em 2011 – e nem por isso está a salvo de críticas.

Essas quatro grandes mentiras põem em marcha uma lógica desastrosa. Nos dois governos de Lula, os gastos de dinheiro público em publicidade se mantiveram em crescimento. Hoje, o governo federal, com suas estatais, é um dos maiores anunciantes do mercado. Agora que sabemos que, na opinião de Lula, os jornalistas são comprados pelos anunciantes, é o caso de perguntar: com que propósito o governo gasta fortunas em comunicação? Será que pretende comprar jornalistas? Será que os anúncios governamentais são uma tentativa de suborno?

Cuidado. Não caia em embromação. A imprensa pode perfeitamente brigar com os anunciantes, sejam eles estatais, governamentais ou privados. Ela pode até perdê-los. O que ela não pode perder é a confiança do leitor, a sua confiança, que vale mais que banco, mais que ouro. A boa imprensa, aquela que realmente conta, é refém apenas da verdade. Não cede ao dinheiro do anunciante nem aos gritos dos políticos.

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Título Original:Esses “jornais de oposição”…
Autor: Eugênio Bucci
Publicado Originalmente em: Revista Época (13/01/2013)
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A ditadura se retirou, mas a teoria da “campanha articulada” contra o governo continua na ativa

A Folha de S.Paulo é “a vanguarda entre os veículos da imprensa empenhados em isolar o governo da opinião pública”. Num país em que a oposição não tem peito nem engenho para fazer oposição, as redações jornalísticas se encarregam de jogar as autoridades no descrédito. É assim, ao menos, que pensam os entusiastas do governo federal. Para eles, os jornais cumprem o papel que deveria ser dos partidos de oposição. Inconformados, os representantes do Palácio do Planalto contra-atacam, como fez o líder do partido do governo na Câmara dos Deputados, diante de mais uma reportagem crítica lida em plenário por algum adversário mal-agradecido. “Sinceramente, não encontramos aqui um pensamento inédito”, disse o parlamentar governista. Segundo ele, a imprensa apenas requenta fatos velhos para agredir quem trabalha sem descanso para melhorar a vida dos brasileiros. Os governantes, segundo essa visão, não passam de vítimas da maledicência, padecem sob o bombardeio de uma campanha articulada para desacreditá-los. O líder do partido do governo, no mesmo pronunciamento em que reclamou das notícias requentadas, foi severo e categórico em seu diagnóstico: os órgãos de imprensa “são o grande veículo dessa campanha articulada”.

Antes de qualquer interpretação apressada, vamos esclarecer. As declarações transcritas no parágrafo acima não reproduzem falas de integrantes do governo Dilma Rousseff. São anteriores. Também não trazem recortes dos inflamados discursos de entusiastas do primeiro ou do segundo governos de Luiz Inácio Lula da Silva. Nem de beneficiários das duas gestões de Fernando Henrique Cardoso, ou do breve mandato de Itamar Franco, ou de Collor, ou mesmo de José Sarney. Elas vêm de um período ainda mais antigo, vêm dos tempos da ditadura militar.

Quem disse que a Folha é “a vanguarda entre os veículos da imprensa empenhados em isolar o governo da opinião pública” foi João Baptista Figueiredo, o mesmo que chegou a ocupar a Presidência da República entre 1979 e 1985. Ele disse ou, mais exatamente, ele escreveu isso um pouco antes de ser empossado ditador, num relatório que entregou, em 1977, ao então ministro da Justiça, Armando Falcão. Naquela temporada, Figueiredo era o chefe do temido SNI, o Serviço Nacional de Informações, e enxergava no diário paulistano um criadouro de oposicionistas ou, nas palavras dele, “o esquema de infiltração mais bem montado da chamada grande imprensa”. Se as coisas não iam bem, a culpa deveria ser das redações. O episódio pode ser lido com mais detalhes no livro Folha (páginas 67 e 68), escrito pela jornalista Ana Estela de Sousa Pinto, que chegou em dezembro às livrarias com o selo da Publifolha.

Quanto ao governista que reclamou das “campanhas articuladas” contra o governo, de nome Cantídio Sampaio, ele foi líder da Arena, a Aliança Renovadora Nacional, o partido que apoiava a ditadura militar. O arenista enunciou seu juízo sobre a imprensa também em 1977, ao protestar, na Câmara dos Deputados, contra a extensa cobertura que os jornais tinham dedicado ao lançamento da Carta aos Brasileiros, do professor e jurista Goffredo Telles Júnior, no dia 8 de agosto, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Em sua Carta, hoje célebre, Goffredo conclamou os compatriotas a exigir com ele o fim do regime de exceção, numa guinada decisiva para a conquista da democracia no Brasil. O deputado governista, acuado, sem outros argumentos, pôs a culpa no noticiário, como relata Cássio Schubsky em Estado de direito já! – Os trinta anos da Carta aos Brasileiros (a partir da página 219), lançado em 2007 pela editora Lettera.doc.

Tudo isso é passado, claro. A ditadura acabou e, com ela, caiu em desuso a doutrina de segurança nacional que consistia em pôr toda a responsabilidade pelos males nacionais nos “inimigos infiltrados” dentro dos meios de comunicação. Espantosamente, porém, tudo isso ainda é presente. A velha doutrina se retirou, é fato, mas as teorias de que ela se serviu, como a da “notícia requentada”, ou a da “campanha articulada” para “isolar o governo da opinião pública”, continuam na ativa. Toda semana, a gente dá de cara com tentativas de demonizar jornalistas para inocentar governantes, num furibundo fanatismo anti-imprensa. Presentemente, essas tentativas gostam de se declarar “de esquerda”, mas são apenas obscurantistas, como eram nos tempos da ditadura. São apenas autoritárias, intolerantes e mal-intencionadas. Nesse ponto, só o que mudou no Brasil foi a cor da gravata.

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EUGÊNIO BUCCI é jornalista e professor da ECA-USP.

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7 opiniões sobre “A Imprensa e o PT”

  1. Não é espantoso que o Sr. Suriani agora seja um delinquente espiritual e defensor mor do mensalão, junto com o Sr. Marx? Natural que esses símios analfabetos e vendidos ao governo mais corrupto da história do país agora bajulem um jornalista tão chapa branca como o Sr. Eugênio Bucci.

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  2. “A boa imprensa, aquela que realmente conta, é refém apenas da verdade.”
    Ele deve estar se referindo à Carta Capital, de certo.
    A Globo é Globo desde os tempos dos faraós, época na qual só se dizia aquilo que o faraó queria que todos ouvissem.

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    1. Não conheço a Carta Capital, nunca tive a oportunidade de folhear sequer um exemplar dela, mas não acredito que ela seja menos comprometida com as ideologias de seus donos do que a média geral.

      De toda forma, existem jornalistas e jornalistas. Alguns escrevem sob encomenda e/ou aceitam revisões que mais parecem reescritas. Eu tenho percebido que devemos prestar mais atenção ao jornalista do que ao título do veículo que publicou sua reportagem.

      Por fim, essa passagem também me chamou atenção, mas porque a achei um tanto platônica. Não sei se Bucci acredita que seja possível haver jornalistas que separam completamente suas opiniões de suas reportagens (tudo indica ser impossível), mas penso que ele estava se referindo à conduta que todo jornalista deve buscar.

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  3. Tem certas coisas que você vai aprendendo com a vida. Por exemplo, essa história de que toda vida tem um propósito nunca me caiu bem, mas eu tive recentemente uma comprovação de que é de fato verdade.
    Acontece que o Condetta – que encabeça sua lista WatchGod – que eu achava ter menos utilidade que um peso de papel, é na verdade um fantástico argumentador falacioso. Ele soltou tantas nos dois últimos vídeos dele que sequer dá para acompanhar.
    Aí eu pergunto: não seria de seu interesse começar um “Curso de Falácias com Silas Malafaia e Leonardo Bruno”? Vaja só, em vez de ser aquele texto enfadonho, cheio de exemplos elaborados pelo autor, seria um curso aplicado de argumentação falaciosa, com mais de 300 exemplos aplicados na vida real, com direito a aulas em vídeo vindas direto da fonte, isso sem nenhum custo adicional.
    E para iniciar os trabalhos, deixo dois links sobre a argumentação do Malafaia, além de recomendar uma visita no “vrogue” de nosso clone marajoara do PSY.
    http://www.enfu.com.br/mentiras-de-silas-malafaia/
    http://stummevogel.wordpress.com/2013/02/07/falsa-oratoria/

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