A Falácia Genética e o Ateísmo – Parte 4: Precisamos mesmo dela?

“A crença em deuses, incluindo o Bíblico, é decorrente da pessoalização de eventos naturais e da antropomorfização de seres místicos realizados por sociedades primitivas. Não devemos dar a crenças como tais, portanto, nenhuma credibilidade além daquela que damos às histórias de ficção.”

Muitos ateus dirão que o raciocínio acima, apesar de parecer uma Falácia Genética, é um argumento sólido, uma vez que se começarmos a ser rigorosos demais na conceituação dessa falácia, acabaríamos por ser forçados a admitir que histórias de ficção também são críveis. Mais do que isso, tal atitude seria uma prova de hipocrisia, pois em nosso cotidiano estamos frequentemente descartando ideias por causa de sua origem.

Pessoas que pensam como nos dois parágrafos acima estão no time do filósofo Keith Parsons do Secular Outpost (vejam Parsons e o Hobbit), enquanto que os discordam disso estão no lado de Luke Muehlhauser do Commom Sense Atheism (vejam O Erro de Parsons). Em qual time estou? No segundo, no de Luke. (Não tomem isso como uma indicação de que não aprecio o trabalho de Parsons, na verdade ocorre o contrário.)

Na verdade, a origem de uma crença é totalmente irrelevante para a sua credibilidade, gostemos ou não (e por este motivo, viola o oitavo princípio do Código para a Conduta Intelectual de Demer: O Princípio da Relevância). Se uma criança acha que o Papai Noel não existe porque o Coelhinho da Páscoa revelou essa verdade a ela em uma conversa imaginária, isto não significa que ela está errada em continuar crendo na não existência do bom velhinho. Na verdade, podemos chegar a conclusões verdadeiras através das formas mais estapafúrdias imagináveis, através de meros exercícios imaginativos, e podemos simplesmente acertar por sorte. Uma informação verdadeira pode chegar ao nosso conhecimento de diversas formas completamente viciadas, tendenciosas, incapacitadas, mentirosas, equivocadas etc, mas nada disso as torna menos verdadeiras.

Se existem ideias verdadeiras que foram tomadas como crenças de maneiras “não-legítimas” e injustificadas (e não são poucas!), então é errado deduzir que uma crença é falsa se veio da imaginação de alguém, ou de um processo de antropomorfização. Não há como fazer um argumento dedutivo se a premissa universal não é universal!

E seria igualmente falacioso falar sobre a credibilidade ou autenticidade da origem de uma crença para colocá-la como verdadeira. O próprio “todo poderoso” método científico às vezes comete equívocos (tecnicamente, de acordo com a epistemologia popperiana, sempre comete). Na verdade, toda ideia deve ser julgada somente por seus méritos, e sua origem não faz parte de tais méritos.

Isso não quer dizer que uma crença está protegida à salvo de qualquer crítica só porque sua origem é inviolável. Quando falamos sobre o cristianismo, existem tantas formas legítimas de colocá-lo em descrédito, que a pergunta que mais grita é: precisamos mesmo apelar para as origens da crença? Isto é realmente necessário? Repito o que já foi dito aqui no blog: Não é porque você acredita que algo é verdadeiro que qualquer argumento a favor também o seja, e não é porque você acredita que algo é falso que qualquer argumento visando demonstrar isso seja sólido. Não adianta acharmos que qualquer argumento contra a existência de deuses é correto e que vale a pena ser defendido até o fim, sob a pena de ver os religiosos triunfando de alegria por verem um ateu reconhecendo um argumento falacioso. Isto é completamente contra-producente, não podemos perder tempo reparando argumentos viciados (sem contar, obviamente, que tal atitude é desonesta).

No meu ponto de vista, o uso de tal argumentação não é desculpável por nenhum motivo. Pode parecer que estou batendo em cachorro morto, mas esse cachorro ainda late bem alto nos meios ateístas brasileiros. Tem muito ateu que resiste a abandonar essa ideia, afinal de contas é tão “evidente” que se Deus é uma antropomorfização então ele não existe. Não nego que pareça ser algo intuitivo e trivial, mas nossas impressões intuitivas estão longe de ser confiáveis. Na verdade, Deus não existe e é uma antropomorfização, mas não é o caso dele não existir porque é uma antropomorfização. Entenderam?

Em conclusão, devemos nos desapegar de raciocínios viciados e inúteis, e nos concentrar naqueles honestos e relevantes. Se paramos para pensar, não precisamos do argumento do primeiro parágrafo para absolutamente nada.

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