A Falácia Genética e o Ateísmo – Parte 3: Parsons errou, Dawkins não

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Título Original: Intro to Logic: The Genetic Fallacy
Autor: Luke Muehlhauser
Publicado Originalmente em: Common Sense Atheism (06/10/2009)
Tradução: Marco Aurélio Suriani (Mr. Monk)
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Bem vindos ao meu curso de Introdução à Lógica (índice). Aqui, nós aprendemos as habilidades básicas do bom pensamento e de seus benefícios na vida real.

Hora de outra falácia! Hoje nós discutiremos a falácia genética, sobre a qual há um surpreendente grau de debate e confusão.

Olhando assim, a falácia genética é bastante simples. Ela é cometida quando se diz que:

X é acreditado por razões não justificadas.
Logo, X é falso.

Isto é obviamente falacioso. A justificação epistêmica para a crença e sua veracidade não são relacionados. Por exemplo, uma criança Bakuba pode acreditar que as estrelas possuem idade finita porque ela acredita que elas foram criados por Mbombo. Sua crença de que as estrelas são finitas é verdade, mas não se justifica.

Mas não precisamos chegar para um exemplo tão exótico. Na verdade, pode ser que as crenças mais verdadeiras não sejam justificadas. Nós todos acreditamos em milhares de coisas sobre assuntos científicos ou filosóficos que acabam sendo verdadeiros, mesmo que não os estudemos sequer minimamente e não estejamos justificados em acreditar eles. [1]

Exemplo UM: Tentando esquivar da falácia

Mesmo um filósofo profissional como Keith Parsons pode cometer a falácia genética. Parsons afirma que, porque sabemos como a crença em Deus se originou (e não era justificada), isso prejudica o teísmo. Este argumento é uma falácia genética, mas Parsons tenta se defender:

… Às vezes, de fato, a história causal de uma crença não tem qualquer influência sobre a sua credibilidade: … Se um amigo, conhecido por ser de confiança, nos disse que ele só viu Bill Clinton andando na rua, e nós acreditamos que suas funções cognitivas e sensoriais estavam normais, provavelmente aceitaremos que Bill Clinton estava na área. Mas se nós sabemos que o nosso amigo sofre uma condição psicológica peculiar que o torna propenso a ter alucinações com o Bill Clinton, nós iremos rejeitar veementemente a alegação de que Bill Clinton estava na vizinhança. Da mesma forma, se nós identificamos na psique humana um poderoso mecanismo que inclina as pessoas a acreditar em deuses – quer eles realmente existam ou não – então nós devemos, salvo quando houverem razões fortes para o contrário, rejeitar a crença em deuses.

Mas, como eu respondi antes:

Vamos chamar o rapaz com alucinações de Clinton de “George”, e considerar dois cenários diferentes para ele. Em ambos os cenários, nós sabemos que George tem alucinações frequentes com Bill Clinton. Em nosso primeiro cenário, George não tem nenhuma razão especial que ter visto Bill Clinton (em pessoa) recentemente. Em nosso segundo cenário, George é um jornalista do The Washington Post. No primeiro cenário, nós não damos crédito às reivindicações de George ter visto Bill Clinton recentemente. No segundo cenário, podemos não desacreditá-lo com tanta confiança. E ainda assim a confiabilidade da faculdade mental que causou sua crença de estar vendo Bill Clinton é a mesma em ambos os casos.

Portanto, não é a falta de confiabilidade da causa da crença de George que nos faz acreditar nele. Como este exemplo mostra mais uma vez, a causa da crença de alguém não tem nada a ver com o fato de ser ou não verdade. Pelo contrário, é a ausência de boas razões para pensar que a crença de George é verdadeira que nos faz desacreditar nele no primeiro cenário. E assim, a falácia genética continua a ser uma réplica válida a argumentos como:

(1) Como nossas intuições morais são produtos da evolução biológica e cultural, nossas intuições morais estão incorretas.

ou

(2) Como nossas intuições religiosas são produtos da evolução biológica e cultural, nossas intuições religiosas estão incorretas.

Contudo, Parsons alega:

Todo mundo ignora todos os tipos de ideias por nenhuma outra razão além do fato de sabermos como essas ideias surgiram. Suponha que hajam alguns fãs fanáticos de J.R.R. Tolkien por aí que acham que Hobbits realmente existem e que ainda por cima afirmam isso de maneira agressiva. Nós temos a responsabilidade de levar as reivindicação dos crentes nos Hobbits a sério? Você pode refutar a existência de Hobbits? Acho que não. A razão por que ninguém, ou quase ninguém, leva a existência real dos Hobbits a sério é que todos nós sabemos de onde a ideia de Hobbits veio. Tolkien inventou tais ideias. Se os crentes nos Hobbits nos acusam de cometer a falácia genética, misturando a questão de onde a ideia de Hobbits veio com a questão de sua existência real, nós apenas riríamos deles.

E eu respondi:

Mas, novamente, eu acho que Parsons confundiu as coisas. Nós todos sabemos que, por exemplo, a ficção científica regularmente se torna fato científico. Se eu falar sobre um videogame jogado com um joystick, você não irá responder: “Isso é um absurdo. HG Wells inventou essa ideia na história The Land Ironclads, de 1903!” Ou se eu contar sobre o meu cortador de grama robô, você não vai responder: “O que é uma ideia boba. Isso foi inventado por Clifford Simak em sua história City, de 1944!”

Então, nós não ignoramos “todos os tipos de ideias por nenhuma outra razão além do fato de sabermos como essas ideias surgiram.” Muito especificamente, há uma outra razão, e isso é mais importante do que de onde a ideia veio. A razão pela qual ignoramos certas coisas é que não temos boas razões para pensar que eles são verdadeiras.

A falácia genética continua a ser uma falácia, seja quando implantada por teístas contra a moralidade secular, seja quando implantada por ateus contra crenças religiosas.

Exemplo Dois: Mau uso da acusação de falácia

A acusação “Falácia Genética! Falácia Genética!” é muitas vezes mal aplicada. Alguém muitas vezes grita “falácia genética!” mesmo quando a causa de uma crença é sequer mencionada. Mas lembre-se, uma falácia genética deve tomar esta forma:

X é acreditado por razões não justificadas.
Logo, X é falso.

Este erro é cometido no seguinte vídeo no YouTube, em que o usuário cristão do Youtube meaningfulscience1 tenta mostrar que Dawkins cometeu a falácia genética:

É claro, muitos cristãos aceitaram essa acusação sobre Dawkins, sem pensar nisso. Mas Dawkins não cometeu a falácia genética aqui.

Um membro da platéia perguntou Dawkins, “E se você estiver errado?” Dawkins mostrou a irrelevância da questão, apontando que todos nós poderíamos muito bem estar errados sobre a não-existência de Zeus ou Wotan ou Shiva. Mas não ando por aí preocupados, “E se eu estiver errado sobre Wotan?”

O vídeo do YouTube diz: “Dawkins está cometendo a falácia genética”, e corta para um clipe de William Lane Craig explicando que uma falácia genética tenta “ao explicar como uma crença se originou, mostrar a crença é falsa.”

Mas em nenhum lugar nesse video Dawkins diz que “A crença em Deus se origina de uma doutrinação cultural, portanto, a crença em Deus é falsa.” Ele nunca disse nada disso! (NdoT.: Pelo menos não neste vídeo, imagino que seja isso que Luke quis dizer.) Ele estava fazendo um ponto completamente diferente. Então, Dawkins não cometeu a falácia genética.

A falácia genética é frequentemente cometida, mas há muita confusão sobre isso. Espero que meus exemplos acabem com mal-entendidos comuns sobre o assunto.

Ver a série completa aqui:
A Falácia Genética e o Ateísmo – Parte 2: O Erro de Parsons


[1] Evidentemente, nós todos também possuímos uma grande quantidade de crenças falsas também.

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