A Falácia Genética e o Ateísmo – Parte 2: O Erro de Parsons

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Título Original: Theism, Atheism and the Genetic Fallacy
Autor: Luke Muehlhauser
Publicado Originalmente em: Common Sense Atheism (13/04/2009)
Tradução: Marco Aurélio Suriani (Mr. Monk)
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Eu defendo que não há razão para confiar em nossos sentimentos morais. Por quê? Porque não há nenhuma razão para pensar que nós desenvolvemos uma “consciência” que “enxerga” os valores morais com precisão.

Mark Linville argumenta que porque não temos razão para confiar em nossos sentimentos morais, segundo o ateísmo, então os valores morais não existem segundo o ateísmo. Mas este raciocínio comete a falácia genética. [1] Como eu expliquei:

As origens de uma crença são irrelevantes para determinar se ela é verdadeira ou não. Vamos imaginar que eu seja uma criança Bakuba no século 18, e eu fui ensinado pelos xamãs ignorantes que as estrelas não são infinitamente velhas, porque eles foram criados quando o branco gigante Mbombo teve uma dor de estômago e as vomitou pelo céu. Minha crença em estrelas com idades finitas vem de uma fonte extremamente não confiável, mas como se vê esta é uma crença verdadeira, e podemos saber que é uma crença verdadeira por outros meios – ainda que o meio chegue muito mais tarde: a evidência científica.

Como John Loftus e eu ambos notamos, a acusação de “falácia genética” é uma faca de dois gumes. Os ateus muitas vezes querem dizer que o cristianismo é provavelmente falso porque sabemos como ele se formou: de politeísmo semítico antigo para a monolatria para um monoteísmo antropomórfico para um monoteísmo neo-platônico. Temos também algumas teorias plausíveis sobre como ideias religiosas evoluíram e se originaram no cérebro humano [2]. Mas este argumento, também, comete a falácia genética. As causas da crença religiosa podem não ser confiáveis, mas ainda pode ser o caso de algumas crenças religiosas serem verdadeiras, assim como no caso da criança Bakuba e sua crença em estrelas de idade finita.

Mas o filósofo ateu Keith Parsons acha que a acusação de “falácia genética” não se aplica ao argumento ateísta contra a crença religiosa. Ele escreve:

Eu poderia ser “programado” a pensar que Deus existe, mas, no entanto, ele pode realmente existir, como argumentos e provas poderiam mostrar. Como diz o ditado, só porque você é paranoico não significa que as pessoas não estão mesmo atrás de você; do mesmo modo, só porque você está “programado” a acreditar em Deus não significa que Deus não existe (Talvez, na verdade, foi Deus que programou você para acreditar nele!).

No entanto, a acusação de que os ateus cometem a falácia genética é um tanto equivocada e hipócrita…

Equivocada?

Primeiro, por que Parsons pensa que acusar o ateu de cometer a falácia genética neste caso é equivocada?

… Às vezes, de fato, a história causal de uma crença não tem qualquer influência sobre a sua credibilidade: … Se um amigo, conhecido por ser de confiança, nos disse que ele só viu Bill Clinton andando na rua, e nós acreditamos que suas funções cognitivas e sensoriais estavam normais, provavelmente aceitaremos que Bill Clinton estava na área. Mas se nós sabemos que o nosso amigo sofre uma condição psicológica peculiar que o torna propenso a ter alucinações com o Bill Clinton, nós iremos rejeitar veementemente a alegação de que Bill Clinton estava na vizinhança. Da mesma forma, se nós identificamos na psique humana um poderoso mecanismo que inclina as pessoas a acreditar em deuses – quer eles realmente existam ou não – então nós devemos, salvo quando houverem razões fortes para o contrário, rejeitar a crença em deuses.

Mas obviamente, as pessoas têm muitas crenças verdadeiras por más razões: o seu guru-feiticeiro ou pastor disse isso, ou ele “sente” que é certo, ou o que seja. Eles não estão justificados em manter a sua crença, mas, no entanto, a sua crença pode ser verdadeira. Isto é o que a acusação de “falácia genética” tenta apontar.

E o que dizer do contra-exemplo de Parsons?

Vamos chamar o rapaz com alucinações de Clinton de “George”, e considerar dois cenários diferentes para ele. Em ambos os cenários, nós sabemos que George tem alucinações frequentes com Bill Clinton. Em nosso primeiro cenário, George não tem nenhuma razão especial que ter visto Bill Clinton (em pessoa) recentemente. Em nosso segundo cenário, George é um jornalista do The Washington Post. No primeiro cenário, nós não damos crédito às reivindicações de George ter visto Bill Clinton recentemente. No segundo cenário, podemos não desacreditá-lo com tanta confiança. E ainda assim a confiabilidade da faculdade mental que causou sua crença de estar vendo Bill Clinton é a mesma em ambos os casos.

Portanto, não é a falta de confiabilidade da causa da crença de George que nos faz acreditar nele. Como este exemplo mostra mais uma vez, a causa da crença de alguém não tem nada a ver com o fato de ser ou não verdade. Pelo contrário, é a ausência de boas razões para pensar que a crença de George é verdadeira que nos faz desacreditar nele no primeiro cenário. E assim, a falácia genética continua a ser uma réplica válida a argumentos como:

(1) Como nossas intuições morais são produtos da evolução biológica e cultural, nossas intuições morais estão incorretas.

ou

(2) Como nossas intuições religiosas são produtos da evolução biológica e cultural, nossas intuições religiosas estão incorretas.

Ambos os argumentos são inválidos porque eles cometem a falácia genética. No entanto, os argumentos abaixo não cometem a falácia genética:

(1 *) Como não temos boas razões para pensar que nossas intuições morais estão corretas, as chances são de que elas provavelmente estão erradas.

ou

(2 *) Como não temos boas razões para pensar nossas intuições religiosas estão corretas, as chances são de que elas provavelmente estão erradas.

É claro, haverá muita discussão sobre se a afirmação “não há boas razões” é verdade em cada um dos casos. Mas eu estou apenas preocupado em mostrar que a falácia genética ainda deve ser evitada, mesmo que Linville e Parsons gostariam de implantá-la em seus argumentos de estimação.

Hipócrita?

Parsons também diz que acusar um argumento de cometer a falácia genética é hipócrita. Ele escreve:

Todo mundo ignora todos os tipos de ideias por nenhuma outra razão além do fato de sabermos como essas ideias surgiram. Suponha que hajam alguns fãs fanáticos de J.R.R. Tolkien por aí que acham que Hobbits realmente existem e que ainda por cima afirmam isso de maneira agressiva. Nós temos a responsabilidade de levar as reivindicação dos crentes nos Hobbits a sério? Você pode refutar a existência de Hobbits? Acho que não. A razão por que ninguém, ou quase ninguém, leva a existência real dos Hobbits a sério é que todos nós sabemos de onde a ideia de Hobbits veio. Tolkien inventou tais ideias. Se os crentes nos Hobbits nos acusam de cometer a falácia genética, misturando a questão de onde a ideia de Hobbits veio com a questão de sua existência real, nós apenas riríamos deles.

Mas, novamente, eu acho que Parsons confundiu as coisas. Nós todos sabemos que, por exemplo, a ficção científica regularmente se torna fato científico. Se eu falar sobre um videogame jogado com um joystick, você não irá responder: “Isso é um absurdo. HG Wells inventou essa ideia na história The Land Ironclads, de 1903!” Ou se eu contar sobre o meu cortador de grama robô, você não vai responder: “O que é uma ideia boba. Isso foi inventado por Clifford Simak em sua história City, de 1944!”

Então, nós não ignoramos “todos os tipos de ideias por nenhuma outra razão além do fato de sabermos como essas ideias surgiram.” Muito especificamente, há uma outra razão, e isso é mais importante do que de onde a ideia veio. A razão pela qual ignoramos certas coisas é que não temos boas razões para pensar que eles são verdadeiras.

A falácia genética continua a ser uma falácia, seja quando implantada por teístas contra a moralidade secular, seja quando implantada por ateus contra crenças religiosas.

Ver a série completa aqui:
A Falácia Genética e o Ateísmo – Parte 2: O Erro de Parsons

Notas e Referências:

  1. Na verdade, apenas uma das conclusões Linville comete a falácia genética, embora nenhuma delas seja válida. Considere a primeira conclusão Linville: que se o nosso senso moral evoluiu, então não há fatos morais. Isso comete sim a falácia genética. Mas sua segunda conclusão – a de que se o nosso senso moral evoluiu, então não podemos conhecer fatos morais – tecnicamente não comete o que é chamado de “falácia genética.” No entanto, ela também não se segue. Só porque não podemos confiar em nossos sentimentos de origem evolucionária sobre astronomia, não significa que não podemos desenvolver o conhecimento sobre astronomia através de outros meios. Da mesma forma, só porque não podemos confiar em nossos sentimentos morais de origem evolucionária não significa que não podemos desenvolver o conhecimento moral através de outros meios.
  2. Veja os artigos The God Part of the Brain de Alper, Faces in the Clouds de Guthrie, Darwin’s Cathedral de Wilson, In Gods We Trust de Atran, The Evolution of Morality and Religion de Broom, e Religion Explained de Boyer . Veja também esta palestra de uma hora, de Jared Diamond.
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2 opiniões sobre “A Falácia Genética e o Ateísmo – Parte 2: O Erro de Parsons”

  1. Uma pequena correção na tradução: “Mas obviamente, as pessoas têm muitas crenças verdadeiras POR más razões…”

    Quanto ao tema do post, parece-me que não apenas a acusação de falácia genética como tb a maioria das acusações de falácia contra o adversário num debate decorrem da falta de aplicação do princípio de caridade. Na maioria dos casos a falácia desaparece se interpretarmos ou reconstruírmos o argumento do adversário numa forma indutiva ou probabilística em vez de dedutiva.

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    1. Corrigido.

      Sobre o comentário, não creio que seja o caso. O Princípio da Caridade faz referência a situações em que temos que formatar um argumento mal apresentado. Certas pessoas são extremamente prolixas e outras possuem dificuldades em organizar suas ideias, e ambas acabam não argumentando de uma maneira muito evidente. Mas quando você pega um argumento dedutivo de uma pessoa e o passa para uma forma probabilística ou indutiva, você está enfraquecendo o “poder de convencimento” do argumento e, portanto, modificando o argumento completamente. Quando digo “poder de convencimento” estou me referindo ao seguinte tipo de situação: digamos que uma alegação A seja defendida por dois argumentos diferentes: B e C, sendo o primeiro dedutivo e o segundo probabilístico. Considerando que ambos sejam sólidos, qual dos dois contribui mais para a veracidade de A? O argumento B, evidentemente, já que C é apenas probabilístico. Os argumentos B e C são distintos, sendo que o C é mais fácil de ser refutado, então se você reconstrói um dedutivo como probabilístico, pode ser acusado de tentar diminuir seu próprio ônus de maneira ilegal. O que eu acho correto é que a pessoa seja acusada de falácia e, caso ela prefira, ela pode recuar e propor uma nova versão probabilística, mas por conta própria.

      Eu já coloquei o Princípio da Relevância aqui? É que não acho que seja um ato de Caridade reconstruir o argumento adversário de uma forma menos relevante. Seria caridade se eu reconstruísse de maneira mais relevante!, ou seja, transformasse um probabilístico num dedutivo.

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