Teologia da Ressurreição de Jesus – Parte 2: Afinal, qual a finalidade da morte de Jesus?

Por que Jesus morreu e ressuscitou?

Várias respostas já foram dadas a essa pergunta e hoje vou tentar explicar porque todas que conheço ou que posso imaginar falham de alguma forma. Faço isso partindo principalmente do ponto de vista teológico (não desejo analisar respostas como “Jesus morreu porque foi crucificado”… meu foco é no intuito do evento e não em suas causas, rs), então vou procurar saber se as respostas dadas pelos seguidores do cristianismo fazem sentido dentro das próprias doutrinas.

E estou ciente de que algumas pessoas preferem algumas respostas a outras, ou mesmo que rejeitem algumas delas. Eu sei disso, mas isso é irrelevante aqui, então não precisa dizer. O que eu farei será analisar as respostas mais comuns, o que não pressupõe que todos os cristãos concordem com todas as respostas, ok?

Resposta 1: Jesus morreu para expiar nossos pecados. O grande problema dessa resposta é: qual a relação causal entre “Jesus morrer” e “pecados da humanidade serem expiados”? A verdade é que não existe relação de causalidade nenhuma, ou seja, não tem como extrair logicamente uma expiação dos pecados da morte do filho de Deus assim como se extrai “meu lápis caiu no chão” de “eu larguei meu lápis”. Em outras palavras, o que estou argumentando aqui é que Jesus não precisa morrer para expiar nossos pecados assim como eu preciso largar um lápis para ele cair no chão; os pecados poderiam ser expiados de inúmeras formas diferentes sem recorrer a um sacrifício. Vejamos uma analogia: alguém poderia alegar que a causa da expiação dos pecados fosse um raio de luz cósmica saindo da boca Jesus enquanto ele levitava a 20 metros do solo enquanto uma chuva de meteoros verdes ocorria ao seu redor. Ou que um mero soluço dele serviria como expiação. No que a morte dele difere desses eventos como agente de expiação de pecados?

Mas talvez essa resposta ficasse melhor se colocada de outras maneiras, já que esta aqui está muito simples para resolver o caso.

Resposta 2: Jesus morreu porque perder a vida é a pior coisa que pode acontecer a alguém, sendo assim o ato perfeito para simbolizar a expiação dos pecados. Uma resposta um pouco mais sofisticada que precisa recorrer à teologia para ser analisada. Um dos grandes problemas aqui é que Jesus, sendo ele mesmo parte da Santíssima Trindade, possui vida eterna. A palavra morte, para ele, nada mais é do que a perda do corpo físico. Ora, perder o corpo físico não é nem de longe a pior coisa que poderia acontecer a ele. Sequer poder ser considerado algo ruim propriamente dito, se parecendo mais com um contratempo do que com um incidente altamente indesejável. Afinal, o que é a perda do corpo físico para um ser supostamente perfeito e pleno?

Além disso, Jesus ressuscitou depois! Ele recuperou seu corpo físico três dias depois! Isso anula qualquer mal sofrido em nome de uma expiação. Vejam bem: imaginem que sua mãe, vendo que um ladrão estava prestes a atirar em você, resolve pular na sua frente e ser atingida fatalmente em seu lugar. Um gesto comovente, com certeza. Mas isso considerando que a morte dela seja um evento irreversível. Imagine que sua mãe soubesse que ela simplesmente retornaria depois de três dias morta (enquanto que você não tivesse tal poder)? De grandioso ato de amor por um filho, a atitude dela passaria a não ser nada além de uma obrigação. Passar três dias morta para evitar a morte definitiva de um filho está a anos-luz de poder ser chamado de sacrifício. Passar três dias morto, se fosse possível, seria como passar três dias em coma: não é algo agradável, mas também longe de ser algo terrível. E se Jesus não sabia que reviveria após três dias, ele ainda sabia que era uma situação contornável por ser ele mesmo Deus Filho. Esse meu contra-argumento só pode ser evitado dizendo que Jesus não sabia que tinha poderes divinos, mas os milagres realizados por ele e o terceiro capítulo do evangelho de João (João 3) evaporam essa possibilidade.

Uma outra objeção é que qualquer um poderia ter morrido ali no lugar dele. Por que tem que ser o Jesus, o Filho de Deus em pessoa? Se tudo que precisava é que alguém morresse, poderia ser outra pessoa. Se eu morresse numa cruz, isso poderia funcionar como expiação para os pecados da humanidade?

Isso sem contar que se meus pecados estão expiados, então eu não posso ser punido mais por eles. Ora, pecado expiado é pecado expiado, não posso ser punido por uma transgressão expiada! Assim, duvido que um cristão conservador aceitaria uma resposta como essa.

Em suma, não tem como dizer que a pior coisa que poderia acontecer a um ser infinito e ciente disso é perder seu corpo físico temporariamente e pelo tempo que ele desejar, sendo que qualquer pessoa poderia ter sido sacrificada em seu lugar e de modo que ninguém mais pudesse ser punido por pecado algum que cometesse. Pensando bem, não tem como dizer que isso é um sacrifício terrível capaz de expiar nossos pecados.

Resposta 3: Jesus morreu e ressuscitou para dar a salvação a todo aquele que nisso acreditasse. Em primeiro lugar, isso também carece de relação causal. Considerarei então, para não ficar fácil de mais, que isso simbolizava o início do novo paradigma de salvação e não que isso era a causa propriamente dita de seu início (o que não chega a melhorar consideravelmente a resposta, já que virtualmente qualquer ação realizada por ele poderia simbolizar isso.) Vamos então para as objeções teológicas. A primeira delas é a já conhecida constatação de que só faz sentido Deus mudar o paradigma de salvação se ele achava que o original era ruim, mas dizer isso é o equivalente a dizer que Deus errou. Mas oras, Deus é um ser perfeito, ele jamais poderia errar! Alguém poderia dizer que Deus não estava mudando o paradigma, mas criando um. Mas isto não resolve absolutamente nada. Então quer dizer que grandes homens como o Rei Salomão, o Rei Davi, Moisés e Abraão não foram para o céu? Para onde eles foram então, se antes não havia critério para salvação? Dizer que foram salvos mostra que Deus errou e dizer que não foram salvos não explica para onde foram. Não tem escapatória para essa resposta fraca.

A segunda objeção é que isto torna praticamente inútil a moralidade. Ora, se acreditar em Jesus é o critério, que diferença faz seguir as leis (divinas ou humanas, tanto faz)? No fim, isso acaba não dando motivos para as pessoas serem boas, uma acusação que frequentemente é feita contra o ateísmo. Pode-se remendar dizendo que seguir os mandamentos de Deus e se arrepender das transgressões antes de morrer (tendo sorte de não morrer enquanto dirige o carro até a Igreja para se confessar) também conte como critério. Bem, neste caso a morte de Jesus serviria não para facilitar a salvação, mas para dificultar ainda mais. Não basta ser bom, como bastava antes (parto do princípio de que já havia um critério anterior), também tem que acreditar na morte e na ressurreição. Teologicamente, não faz sentido um Deus que fica dificultando a salvação com o passar do tempo!

A terceira objeção é que isso exclui pessoas que por motivos culturais acreditam em outras religiões. Um muçulmano egípcio, por exemplo, o que no mundo poderia ser forte o suficiente para fazê-lo acreditar que Jesus morreu e ressuscitou por ele? Simplesmente nada! E ele não tem culpa disso, ele foi criado pelos pais e moldado pela sociedade para ser assim. Este homem está fadado a ir para o inferno e sofrer punições eternas só porque deu azar de nascer na família errada? Se Jesus passou pelo que passou para que quem cresse nisso se salvasse, então ele não pensou nas pessoas que não teriam culpa de não acreditar nisso, mesmo aquelas que rejeitassem conscientemente. Será que era isso mesmo que um ser perfeito e todo benevolente deseja?

A quarta objeção é de novo que a morte de qualquer pessoa poderia, teoricamente, ter feito o mesmo efeito. Por que tem que ser a morte de Jesus?

Em suma, Jesus teria morrido e ressuscitado para que aquele que nisso acreditasse fosse salvo porque a lei anterior não era boa, mas ao fazer isso ele excluiu aqueles que por motivos culturais jamais o aceitarem e ou só dificultou a salvação ou prescindiu a realização de atos morais, sendo que ao invés de morrer, bastaria ele estalar os dedos como símbolo da nova lei, e sendo que não precisaria nem ser ele a pessoa que fez isso. Uau, faz todo sentido!

Resposta 4: Jesus queria mostrar à humanidade que não se poderia levar a lei mosaica tão a sério. Esta é uma versão bem mais robusta da resposta anterior. Naquela época, as pessoas infringiam a lei que proibia matar o próximo para punir aqueles que infringiam a lei que proibia roubar os outros. Jesus veio para nos mandar amar e dar a outra face ao invés de ficarmos no olho por olho. Mas… no que exatamente ser morto e ressuscitar ajuda ele nessa tarefa? Ele não morreu por causa do ódio provocado pela atitude que queria combater, mas morreu por razões antes de mais nada políticas. Se fosse o primeiro caso, a sua morte poderia soar como uma lição: “Vocês ficam matando os pecadores e acabaram matando o próprio filho de Deus. Estão vendo como essa atitude acaba punindo quem não merece? Então deixem que EU julgo as pessoas, isso não é tarefa para vocês.” Mas as circunstâncias da morte de Jesus não deixam que ela seja interpretada dessa forma. Suas palavras e atitudes em vida podem ser interpretadas assim, mas sua morte definitivamente não.

Resposta 5: Foi um ato de amor pela humanidade. Essa resposta chega a soar como uma piada. No que permitir que seja morto em uma cruz se parece com um ato de amor? Eu não gostaria que uma garota que se diz apaixonada por mim permitisse que fosse crucificada para provar seu amor por mim (e acredito que toda pessoa normal concorde comigo), já que essa atitude seria mais macabra do que qualquer outra coisa.

Resposta 6: Jesus morreu para que paremos de pecar. Outra piada. Se fosse este o caso, a morte dele teria sido completamente em vão, já que continuamos pecando normalmente. Mesmo que se possa dizer que ela teve algum efeito, o que é melhor do que nenhum (e me pergunto como que a morte de alguém que ressuscitou três dias depois pode levar alguém a não pecar – no máximo a racionalizar melhor seus pecados), eu poderia argumentar que existem formas muito melhores de se fazer isso. O esclarecimento, a razão a serviço da moralidade e a educação em massa teriam sido bem mais úteis. Mas Jesus era um homem pobre e comum de seu tempo e não sabia o que era educação e nem moral e ética, então não teria como ele nos ensinar a agirmos moralmente dessa forma. E se ele era um ser sobrenatural onisciente, por que ele morreu e ressuscitou ao invés de ensinar isso?

Resposta 7: Para trazer vida a todos nós. Como podem ver, deixei as piores respostas por último. Tipo… como assim? Será que as pessoas que viveram antes de Jesus não estavam realmente vivas? E se vida está no sentido figurativo, representando a alegria e a plenitude da vida, eu me pergunto: que tipo de psicopatas os teólogos são para achar que as pessoas vão ter uma vida plena ao saber que alguém morreu por elas? Muitas pessoas mais simples podem até se sentir bem ao pensar que alguém já se importou com elas, respeito isso, mas não seria melhor se os próprios teólogos realmente se importassem com essas pessoas, se dedicassem a fazer a vida de todo mundo ser mais significativa, ao invés de ficar inventando uma história maluca de um cara que não precisava morrer mas que mesmo assim ficou morto três dias por causa de alguém que ele jamais conheceu? Se à primeira vista parece algo reconfortante, no fundo isso não passa de uma pieguice (incrível como pieguices conseguem convencer pela emoção.)

Resposta 8: Jesus morreu para pagar por nossos pecados. Para começar, punir uma pessoa pelos erros de outras é uma injustiça. Mesmo que a pessoa concorde com isso, é injusto na medida em que ação é completamente sem sentido do ponto de vista moral. Um pecado (ou crime) só pode ser pago por seu verdadeiro responsável. Essa resposta vai contra a ideia de que cada pessoa é responsável por seus atos.

Além disso, essa resposta sofre de todos aqueles problemas que já mencionei: 1) qual a relação entre a morte de uma única pessoa e o pagamento pelos milhares de crimes de bilhões de pessoas? 2) por que a morte tem que ser de Jesus? 3) o fato dele saber que perder o corpo físico era um evento contornável para ele não torna o seu ato nulo de significado?

Pensemos bem: se eu merecesse uma chibatada por cada pecado que “cometi” nessa vida, duvido que Jesus toparia levá-las em meu lugar. Não porque doeria demais, mas porque ele saberia que eu não aprenderia nada com isso. E ele também não iria querer levar as chibatadas de toda a humanidade, pois isso levaria à destruição de seu corpo físico. Então, ao invés de fazer isso tudo, ele é pregado numa cruz por algumas horas, morre e volta três dias depois e todos os pecados estão expiados?

Sem contar que um argumento como esse também faria qualquer cristão conservador ter arrepios, pois se Jesus morreu para pagar por nossos pecados, não precisamos mais ser punidos por eles. Se pensarmos que roubar e matar são tão pecado quanto crime, como justificar a prisão para quem comete tais delitos numa óptica cristã de Jesus morrendo para pagar pelos pecados? E se devo pagar pelos meus pecados, então a morte de Jesus foi em vão.

Enfim, os argumentos contra cada resposta estão muito bem apresentados (temo que alguns idiotas dirão que não viram nenhum argumento aqui, mas paciência…) Cabe a cada um um refletir sobre o que está aqui ou apresentar argumentos melhores. Mas duvido muito que alguém possa defender que a morte e a ressurreição de Jesus possui propósitos claros e racionalmente defensáveis. É uma questão de fé que prescinde a razão sem a ferir, nada mais e nada menos. Não existem explicações racionais e as pessoas devem entender isso. Sinceramente, até a explicação do Cyanide and Happiness de que Jesus morreu para que pudesse fazer uma piada faz mais sentido do que qualquer explicação dada aqui.

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Você apoiaria o Mensalão se ele ajudasse a abolir a escravidão?

O que pode parecer um simples pergunta baseada em suposições históricas na verdade é um fato histórico narrado no filme “Lincoln”, de Steven Spielberg, que esteve em cartaz no Brasil: a aprovação da lei que proibia a escravidão nos EUA de fato demandou a compra de parlamentares com cargos. Não que eu particularmente deseje fazer a peripécia de Lula e de seu partido parecer menos condenável – já digo isso antes que essa ideia ridícula possa nascer nas cabeças menos voluntariosas (ou nas mais maquiavélicas). Na verdade, desejo lembrar que em questão de moralidade, nunca há mal que é sempre mal e nunca há bem que é sempre bem. Não existe uma linha que separa o bem do mal, tal como uma folha de papel metade branca e metade preta com uma linha de interface perfeitamente distinta, mas sim uma infinidade de tons de cinza entre as duas extremidades (opa, não me refiro aos livros sobre sexo). E assim como nas ilusões de ótica, o cinza pode parecer quase branco quando ao redor de uma figura preta, e parecer quase preto quando ao redor do branco, numa “ilusão moral” um mesmo ato pode parecer perfeitamente bom em alguns contextos e ruim em outros.

Nossas mentes simplicistas procuram classificar tudo como bom ou mau de maneira dicotômica e por vezes até dogmática – se X é errado, então X não pode ser considerado certo jamais e nem podemos discutir o assunto. Isso sem sombra de dúvidas facilita o debate e dispensa o ato de pensar e refletir, mas definitivamente não é a maneira mais adequada de pensar, pois a realidade não é dicotômica. Sim, sempre haverão aqueles que levarão até o limite e tentarão fazer seus crimes parecerem lindos contos de fada ou até quem sabe o duro desfecho de uma série de fatos que só podia ser concluída de uma única e inevitável maneira. Mas isso não faz que seja menos certo pensar de outra forma, pois estaríamos praticamente alegando que seríamos incapazes de julgar cada caso com sabedoria e de saber distinguir até onde vai a retórica viciada de alguém que quer escapar da punição por seus crimes.

O filme Lincoln, entretanto, não propõe esse debate, já que o Mensalão não é um evento muito conhecido nos EUA (que estão se lixando para nossos problemas políticos). Mas quando um brasileiro assiste ao filme, ele pode perfeitamente aplicá-lo ao nosso contexto e se perguntar se em certos casos o Mensalão seria moralmente aprovável. Afinal de contas, o Mensalão Republicano envolvia a compra de parlamentares com cargos, o que significa literalmente uso de dinheiro público para interesses do partido. Não há diferenças muito significativas, pelo menos não no aspecto técnico, entre a realidade americana e a brasileira. Isso foi literalmente o tal do “emparelhamento do Estado” que tanto se fala por aqui. Mais do que isso, poderíamos nos perguntar se o certo seria punir eles mesmo sua postura não sendo moralmente condenável já que o exemplo poderia ser seguido para praticar o mal.

E quem quiser ver um filme que propõe um debate do tipo, apesar de não muito convincente, é o filme Watchmen (que inspirou meus textos da série WatchGOD). Na tentativa de evitar uma eminente guerra nuclear decorrente de um caminho alternativo no qual se desenrolou a Guerra Fria, o “vilão” do filme destrói algumas das maiores cidades do mundo, dizimando todos seus habitantes, e coloca a culpa sobre um super-herói conhecido em todo o planeta, o Dr. Manhattan. No contexto de Guerra Fria, isso significou uma dissolução instantânea das tensões e uma união dos países em conflito pelo bem comum de eliminar o Dr. Manhattan. Quando questionado porque fizera isso, Veidt responde: “matei milhões para salvar bilhões.” Acho que ninguém comprometido com a razão seria capaz de condená-lo antes de ponderar a questão cuidadosamente.

Enfim, abaixo um pequeno review do filme, para quem se interessou mais sobre esse capítulo da história americana.

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Título: Filme Lincoln faz lembrar compra de votos do mensalão
Autor: João Ozorio de Melo
Publicado Originalmente em: Revista Consultor Jurídico (13/01/2013)
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Lincoln, o filme produzido e dirigido por Steven Spielberg, terá um sabor especial para os brasileiros. As salas de cinemas do Brasil serão tomadas por uma impressão de déjà vu: a principal trama da história é um esquema de “compra” de votos de parlamentares para aprovar a 13ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, a da abolição da escravatura. O filme, para os críticos de cinema americanos e ingleses, descreve as habilidades políticas de um grande presidente americano. Para uma audiência brasileira, será impossível deixar de sentir um cheiro de “mensalão”.

O filme se baseou, em parte, na biografia de Lincoln, escrita por Doris Kearns, Time de Rivais: o Gênio Político de Abraham Lincoln (The Political Genius of Abraham Lincoln). Toda a trama se desenrola nos meses finais do primeiro mandato do 16º presidente dos EUA, Abraham Lincoln, então já reeleito para um segundo mandato. A Guerra Civil americana, que se iniciou com o primeiro mandato de Lincoln, se aproxima do fim, com uma evidente vitória da União, abolicionista, sobre os 11 estados antiabolicionistas e, consequentemente, separatistas. A União já sabe que os confederados, praticamente derrotados, estão prontos para se render e assinar o tratado de paz. Essa visão é comemorada pelos políticos da União, que querem o fim imediato da guerra sangrenta e partir para o segundo projeto do governo, o de reintegrar o país.

Porém, a visão de Lincoln é mais ampla do que a de seus aliados. Ele percebe que o fim da guerra também significa o fim de seu projeto político principal, o de abolir a escravatura no país. Ele entende que sua Proclamação da Emancipação dos escravos, assinada em 1863, só é respeitada pelos estados confederados por força da guerra — ou do poder que lhe confere a guerra. Assinado o tratado de paz, os estados contrários ao abolicionismo podem voltar a explorar a escravatura, porque ele não dispõe de nenhum mecanismo jurídico (nem belicoso) para obrigá-los a aceitar a emancipação dos escravos. O único recurso é aprovar a emenda constitucional, antes da declaração do fim da Guerra Civil.

Mas as dificuldades para conseguir a aprovação da emenda são enormes — impossíveis de serem vencidas na opinião de assessores e políticos mais próximos de Lincoln.

São necessários os votos de dois terços dos parlamentares para aprovar o projeto. E, apesar do Partido Republicano de Lincoln, maioria no Congresso, estar praticamente fechado com ele, faltam 20 votos. Enfim, para aprovar a emenda até o final de janeiro de 1865, antes do final da legislatura, é necessário conseguir esses votos dentro da oposição, o Partido Democrata, que é contrário ao abolicionismo.

Para assegurar todos os votos republicanos e conseguir negociar com democratas, Lincoln conta com um poderoso aliado, o fundador do Partido Republicano, Francis Preston Blair. Porém Blair, só tem uma vontade na vida: iniciar negociações de paz com os confederados e por fim à guerra civil. Em troca do indispensável suporte declarado de Blair à emenda da abolição da escravatura, Lincoln o autoriza a iniciar as negociações de paz.

Mas isso traz duas complicações para o projeto de Lincoln: o tempo passa a urgir; e para os republicanos radicais é um contrassenso terminar a guerra sem abolir a escravatura, porque, afinal, um dos principais motivos da guerra foi a abolição da escravatura. Um anúncio do fim da guerra irá anular os esforços para aprovar a emenda.

A saída é aprovar a emenda, de qualquer maneira, antes que uma iminente assinatura de tratado de paz se torne pública. E isso terá de ser feito com a ajuda de democratas que concordem em votar contra a orientação de seu partido. E um plano é arquitetado: negociar a adesão dos lame ducks, parlamentares (no caso, democratas) que estavam em fim de mandato, porque não foram reeleitos. Afinal, eles não precisam se explicar com seus eleitores, porque, de qualquer forma, já foram excluídos da carreira política, por falta de votos nas eleições parlamentares do ano anterior.

Ainda há resistência de políticos mais próximos a Lincoln, que preferiam voltar a submeter a emenda à próxima Legislatura, mas o presidente dá um murro na mesa e anuncia que a emenda vai à votação. Agora é correr contra o relógio.

O secretário de Estado William Seward, o homem que mais compartilha o dia a dia com o presidente, assume o comando da operação. Lincoln e Seward consideram inapropriado oferecer dinheiro, em moeda corrente, aos parlamentares. Decidem oferecer cargos no governo que vai se instalar com a posse de Lincoln para o segundo mandato (o que significaria renda mensal). O secretário contrata três agentes experimentados em lidar com parlamentares, que passam a fazer todos os tipos de manobras para contatar e negociar favores com os parlamentares, em troca de seus votos. Lincoln também contata parlamentares, mas com estratégias racionais, como a de explicar a importância do abolicionismo para os EUA, e emocionais.

O trabalho dos agentes, sob a supervisão do secretário de estado, é uma das partes mais interessantes — e divertidas — do filme, pela criatividade deles e pelas formas que observam e abordam cada parlamentar na mira do suborno. Eles acompanham os debates no Congresso de olho na reação dos parlamentares-alvo, a cada discurso, a cada aplauso ou protesto. Aos poucos, Lincoln, seu secretário de Estado e os agentes vão fazendo a contagem regressiva. “Só faltam 13 votos”…

Finalmente chega o dia da votação, os votos estão razoavelmente contados, mas ninguém sabe exatamente o que esperar de uns poucos indecisos. Não dá para afirmar se a emenda vai passar ou não.

A minutos do início da votação, outro problema. Chega a notícia de que representantes dos confederados estão em Washington para assinar o tratado de paz. Há um rebuliço no Congresso e a maioria decide suspender a votação. Três colaboradores correm até a Casa Branca levando um bilhete com a notícia a Lincoln. O presidente escreve rapidamente uma carta ao Congresso, dizendo: “Eu não sei da presença de confederados em Washington”. Isso é verdade. Ele sabia que os Confederados estavam chegando para o tratado de paz, mas lhes enviou uma ordem, por teletipo, para que ficassem fora da cidade, até que a emenda fosse votada.

Há gritaria, protestos. Mas a votação se inicia, finalmente, com grande ansiedade dentro do Congresso, no gabinete de Lincoln, nos quarteis militares, que acompanham a votação, e nas ruas. Com todo o suspense que Spielberg tem direito, apesar de a história ser conhecida, Lincoln ganha a votação com dois votos a mais do que o necessário — um dos quais de um deputado que declarou pessoalmente a Lincoln que jamais votaria a favor do abolicionismo.

O filme termina com o discurso de posse de Lincoln para o seu segundo mandato.

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João Ozorio de Melo é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Olhos-Azuis e Olhos-Castanhos, A Experiência de Jane Elliott

Poucos aqui no Brasil sabem o que aconteceu numa pequena escola na cidade de Riceville no interior do estado de Iowa nos EUA no dia 5 de abril de 1968. Talvez muitos saibam o que aconteceu no dia anterior, que foi a ignição para o evento que desejo narrar aqui: o assassinato de Martin Luther King, Jr. Muita gente na época comemorou, outras não se importaram e muita gente se lamentou, mas pouquíssimas reagiram como Jane Elliott. Inconformada com o preconceito e o racismo em nossa sociedade, ela resolveu tomar uma atitude e ensinar os alunos de sua escola o que significa de fato esse comportamento tão abominável.

Munida apenas de suas habilidades como professora de 34 anos, de sua determinação em levar as situações até o limite e de sua conhecida máxima: “Oh, Grande Espírito, não me deixe jamais julgar um homem antes de andar em seus sapatos.”, ela elaborou uma dinâmica para realizar com seus alunos do ensino elementar na manhã seguinte.

Quando os alunos chegaram, ela perguntou aos alunos o que eles achavam dos negros. A turma (que não tinha nenhum aluno negro) respondeu que negros eram burros, não tomavam banho e que tinham dificuldades de se manter nos empregos. (Alunos do ensino elementar! Meramente repetiam o que a família dizia.) Então ela perguntou a eles como seria se fossem negros por um dia. Ao ver que ninguém respondeu, ela comentou “Seria difícil saber, não seria, a menos que nós mesmos realmente experimentássemos a discriminação.” e então pegou um conjunto de braçadeiras e separou a turma em dois grupos: os de olhos azuis e os de olhos castanhos, dando as braçadeiras aos do primeiro grupo.

Assim que as dezessete crianças de olhos azuis colocaram seus braceletes, enquanto que as demais oito de olhos castanhos e as três de olhos verdes ficaram somente olhando, Jane declarou enfaticamente: “As pessoas de olhos castanhos são as melhores pessoas nesta sala. Elas são mais limpas e mais espertas.” E com essas palavras ela desencadeou um processo que nem ela mesma previa o final.

Para deixar as crianças mais impressionadas, ela resolveu escrever a palavra MELANINA no quadro negro e explicar que o pigmento que altera a cor dos olhos estava intimamente ligado à inteligência da pessoa. Ela sabia que agindo dessa forma, impressionaria os estudantes até o ponto de fazê-los acreditar que aquilo era verdade. Para impressioná-los ainda mais, Jane, que tinha olhos azuis, começou a derrubar o material de trabalho para fingir que era desastrada. Os alunos logo lembraram que isso se devia ao fato dela ter olhos azuis e pensaram que se ela tivesse olhos castanhos já seria diretora ou superintendente, ao invés de ser mera professora.

E então, para testar o quanto os alunos haviam assimilado a ideia, Jane perguntou à turma se os alunos de olhos azuis se lembravam da última tarefa, no que foi surpreendida com um sonoro “Não!” vindo dos alunos com olhos castanhos. Em instantes, o grupo que havia sido distinguido com a braçadeira já tinha sido apelidado pejorativamente como os “azuizinhos”. Uma aluna que nunca tivera problemas com multiplicação começou a cometer diversos erros de uma hora para outra. Alunos de olhos marrons juntaram-se sobre um “azulzinho” que estava correndo e exigiu que ele pedisse desculpa porque era inferior (e ele de fato pediu). Os alunos levaram a sério e no mesmo dia começaram uma verdadeira ditadura opressiva dos castanhos contra os azuis. No mesmo dia!

Surpreendente na época, tal reação não espantaria muitos psicólogos hoje em dia. Para quem leu o artigo Suscetibilidade ao Estereótipo: Ênfase na Identidade e Mudanças no Desempenho Quantitativo publicado na revista Psychology Science em 1999 e que traduzi e publiquei aqui, já é sabido que uma estereotipagem ruim afeta diretamente o desempenho quantitativo em testes. A aluna que nunca errava, ao descobrir que fazia parte dos mais burros, começou a cometer erros que normalmente não cometia. Não é somente o desprazer de ser lembrado que é inferior, mas se tornar de fato inferior devido somente ao esteriótipo que torna o preconceito uma prática tão abominável.

Naquela sexta-feira, os alunos com olhos azuis sentiram na pele o que é ser um negro. Foram ofendidos e humilhados. O estigma de pertencerem ao grupo dos burros se refletiu sobre a sua atitude e sobre o seu desempenho. Eles foram negros por um dia. E na segunda-feira, quando voltaram para a escola e descobriram que a professora havia se enganado, e que na verdade os alunos de olhos castanhos que eram mais burros, não houve vingança na mesma moeda. Sabendo eles mesmos como é estar no sapato dos outros, trataram os “castanhozinhos” com mais respeito do que receberam quando a situação ainda não tinha sido invertida. E no final da aula, quando Jane pediu para os alunos de olhos castanhos retirarem suas braçadeiras, a cena que se seguiu a marcou toda a sua vida: os alunos começaram a se abraçar, alguns até mesmo chorando. Todos eles haviam aprendido o que era preconceito com aquela dinâmica aparentemente boba.

Na terça-feira, os alunos resolveram escrever uma carta à esposa de Martin, pois tinham ficado sensibilizados com os quatro filhos que ele deixou órfãos. As cartas foram parar no jornal local de Riceville, e depois publicadas nacionalmente. Em algumas semanas, Jane Elliott foi chamada para uma entrevista na televisão. Ao ser questionada por uma telespectadora que dissera: “Como você ousa tentar esse experimento cruel em crianças brancas? Crianças negras estão acostumadas com tal comportamento, mas crianças brancas, não tem jeito delas entenderem isso. É cruel com as crianças brancas e vai causar grandes danos psicológicos a elas.”, Jane respondeu de prontidão: “Por que nós estamos tão preocupados com os frágeis egos de crianças brancas que experimentaram algumas horas de racismo simulado por um dia enquanto crianças negras experimentam racismo real todos os dias de suas vidas?”

Dois anos depois, Jane Elliott fora chamada para realizar o experimento na Casa Branca. E daí em diante, ela replicou o experimento dezenas de vezes, inclusive para a televisão, e se tornou a cidadã mais famosa de Riceville. Em certa ocasião, ela tirou fotos dos alunos nos dois dias da dinâmica. Podia-se ver claramente como elas sempre estavam mais felizes quando não estavam com o colar que marcava os inferiores. Os efeitos chegam a ser visíveis neste ponto! Sua história se tornou um símbolo de como o racismo, mesmo simulado, pode ter efeitos reais e devastadores em nossas vidas. Pudessem todas as pessoas andar com os sapatos dos outros por um dia que seja, e os pedidos por respeito seriam apenas mais um clichê.

Um relato escrito por Stephen G. Bloom da Universidade de Iowa, em inglês, da história de Jane Elliott, no qual me baseei para escrever este texto, pode ser encontrado neste link. Também podemos saber mais sobre ela na wikipedia. A seguir, alguns vídeos no Youtube com documentários que registraram algumas das dinâmicas performadas por Elliott com grupos de pessoas (adultos e crianças). Apenas o primeiro está com legendas em português que, apesar de longo, vale a pena dar uma olhada.

Suscetibilidade ao Estereótipo: Ênfase na Identidade e Mudanças no Desempenho Quantitativo

O artigo abaixo foi escrito por um conjunto de autores da Harvard para o periódico Psychologival Science em 1999. Bastante famoso na psicologia, este artigo ficou conhecido pelo público geral depois que Dan Ariely publicou um resumo dele em seu excelente livro “Previsivelmente Irracional”. Devido ao seu conteúdo relevante e à sua linguagem nem tão complexa, resolvi fazer a experiência de trazê-lo ao português. Acredito que muitas pessoas irão apreciar fazer a leitura de um artigo científico na área de psicologia, até porque sei que para alguns, essa se tratará da primeira experiência com artigos científicos!

Além do mais, o tema é bastante importante: ao falar de esteriótipos e de seus efeitos medidos de forma quantitativa, fala-se implicitamente sobre o efeito do preconceito na vida de negros, homossexuais e até mesmo das mulheres. Ao provar que um esteriótipo negativo sobre a capacidade de uma pessoa realizar determinada tarefa diminui estatisticamente sua capacidade de realizá-la, pode-se pensar que seja esse mecanismo cerebral de se adequar às expectativas que faça, por exemplo, certas mulheres dirigir mal quando imersas em uma cultura onde está disseminado o esteriótipo de que dirigem mal. Vocês irão se surpreender ao ver como o simples ato de lembrar a uma mulher que ela é mulher diminui perceptivelmente o seu desempenho em testes matemáticos.

O artigo em inglês pode ser encontrado na internet de forma aparentemente legal no Pubget (o link que direciona diretamente ao pdf é este). Antes de mais nada, só gostaria de salientar que o estudo tratou de desempenho quantitativo, ou seja, de desempenhos objetivamente mensuráveis. Não foram feitos testes qualitativos do tipo “quem desenha melhor”, pois isso poderia levantar dúvidas sobre a objetividade da avaliação. Ao invés disso, os testes eram sempre do tipo certo/errado com gabarito.

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Título Original: Stereotype Susceptibility:
Identity Salience and Shifts in Quantitative Performance
Autores: Margaret Shih, Todd L. Pittinsky e Nalini Ambady
Publicação: Revista Psychological Science; 10 (1999)
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani

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Suscetibilidade ao Estereótipo: Ênfase na Identidade
e Mudanças no Desempenho Quantitativo

Resumo—Estudos recentes têm documentado que o desempenho em um domínio é dificultado quando os indivíduos sentem que o grupo sociocultural a que pertencem é negativamente estereotipado naquele domínio. Nós relatamos que a ativação implícita de uma identidade social pode facilitar, bem como impedir o desempenho em uma tarefa quantitativa. Quando foi dada ênfase em um nível implícito a uma identidade social particular, o desempenho foi alterado na direção prevista pelo estereótipo associado com a identidade. Estereótipos culturais comuns sustentam que os asiáticos têm habilidades quantitativas superiores em comparação com outros grupos étnicos e que as mulheres têm habilidades quantitativas inferiores em comparação com os homens. Descobrimos que mulheres americanas asiáticas tiveram melhor desempenho em um teste de matemática quando sua identidade étnica foi ativada, mas pior quando sua identidade de gênero foi ativada, em comparação com um grupo controle que não tinha nenhuma identidade ativada. Uma investigação inter-cultural indica que era o estereótipo, e não a identidade per se, que influenciou o desempenho.

Estudos recentes descobriram que a ativação de um estereótipo implícito sociocultural pode influenciar o desempenho do indivíduo estereotipado. Steele e Aronson (1995) descobriram que estudantes afro-americanos, que são estereotipados como estudantes pobres, tiveram desempenho inferior em relação a estudantes brancos quando foram informados de que o teste era um diagnóstico de suas habilidades. Além disso, Levy (1996) descobriu que os idosos tiveram um desempenho pior em uma tarefa de memória quando previamente preparados com um estereótipo negativo do idoso do que quando preparados com um estereótipo positivo dos idosos.

Neste artigo, vamos expandir o trabalho sobre os efeitos poderosos de ativação automática e inconsciente (ver, por exemplo, Banaji & Greenwald, 1994; Banaji, Hardin, & Rothman, 1993; Bargh, Chen, & Burrows, 1996) e auto-aplicação de estereótipos, examinando se a ativação implícita de identidades particulares podem facilitar, assim como debilitar o desempenho acadêmico. Nós nos concentramos em duas questões nas quais psicólogos sociais têm largamente negligenciado mas que merecem investigação — os efeitos da ativação de diversas identidades que um indivíduo pode ter e os efeitos positivos de alguns estereótipos sobre o desempenho.

Pesquisas anteriores sobre a auto-estereotipagem centraram-se quase exclusivamente em apenas uma dimensão da identidade dos participantes. Por exemplo, tanto os estudos de Levy (1996) quanto os de Steele e Aronson (1995) classificaram os participantes ao longo de apenas uma dimensão da identidade social, idade e raça, respectivamente. No entanto, as pessoas carregam com elas muitas dimensões ricas de identidade social (Hewstone, 1996), e diferentes situações sociais e objetivos desencadeiam diferentes identidades (Richeson & Ambady, 1998). Por exemplo, um contador branco, macho e cristão pode ser identificada como um macho, como um branco, como um cristão, ou como um contador. Porque diferentes identidades sociais estão associadas com diferentes estereótipos, os indivíduos podem ser passíveis de estereótipos diferentes e, em alguns casos, até mesmo conflitantes.

Uma segunda questão negligenciada na pesquisa sobre a auto-estereotipagem é o efeito de estereótipos positivos. Incidir apenas sobre os efeitos negativos dos estereótipos associados a certas categorias sociais significa que dinâmicas de como os estereótipos afetam os indivíduos no mundo real estão sendo ignoradas.

Nos estudos que relatamos aqui, foram considerados estereótipos positivos e negativos associados com diferentes identidades que podem coexistir dentro de um indivíduo. Pode a ativação implícita de diferentes dimensões da identidade levar os indivíduos a acessar e se comportar de acordo com os estereótipos diferentes que podem ajudar ou atrapalhar o seu desempenho acadêmico? Nós examinamos se a ativação sutil de diferentes auto-estereótipos afetaria o desempenho quantitativo de mulheres americanas asiáticas. Um estereótipo cultural comum das mulheres, apoiada por dados sobre o desempenho do teste, é que elas têm habilidades quantitativas inferiores em comparação com os homens (Benbow, 1988; Hedges & Nowell, 1995). Um estereótipo comum sobre os asiáticos, também apoiado por dados sobre o desempenho do teste, é que eles têm habilidades quantitativas superiores em comparação com outros grupos étnicos (Steen, 1987). Esses estereótipos sugerem que o desempenho de mulheres americanas asiáticas em um domínio quantitativo é susceptível a dois estereótipos muito diferentes.

ESTUDO 1

Visão Geral

No Estudo 1, pedimos para alunas asiático-americanas de graduação fazerem um teste quantitativo. Trabalhamos com a hipótese de que seu desempenho seria deprimido quando fosse dada ênfase a sua identidade feminina e reforçada quando dada ênfase a sua identidade asiática, em comparação com um grupo controle de mulheres americanas asiáticas para as quais nenhuma identidade particular foi feita saliente. [1] A ênfase na identidade foi manipulada fazendo com que os participantes completassem diferentes versões de um questionário sobre a vida residencial na sua universidade. Os participantes aleatoriamente designados para a condição de ênfase na identidade feminina tiveram que indicar o seu sexo e responder a perguntas relacionadas com a sua identidade de gênero. Participantes com ênfase na identidade asiática foram solicitadas a indicar sua etnia e de responder a perguntas relacionadas com a sua identidade étnica. Na condição de controle sem ênfase em identidade, os participantes não foram solicitados a indicar seu gênero ou sua etnia, mas foram convidados a responder perguntas não relacionadas a nenhuma das identidades. Os questionários foram construídos para enfatizar a identidade de interesse (étnica ou de gênero) implicitamente, sem diretamente remeter ao estereótipo real (habilidades quantitativas superiores ou inferiores).

Procedimento

Quarenta e seis estudantes asiático-americanas do sexo feminino foram examinadas individualmente em uma sessão de laboratório. Primeiro, um experimentador cego para a manipulação pediu-lhes para preencher o questionário manipulação adequada. Na condição de ênfase na identidade de mulher, as participantes (n = 14) foram perguntadas (a) se viviam dentro ou fora do campus, (b) se elas tinham um companheiro de quarto, (c) se os seus andares eram mistos ou do mesmo sexo, (d) se preferiam pisos mistos ou de um único sexo, (e) listar três razões pelas quais eles prefeririam um piso misto, e (f) listar três razões pelas quais eles prefeririam um piso com sexo único. Na condição de ênfase na identidade asiática, as participantes (n = 16) foram perguntadas (a) se seus pais ou avós falavam outras línguas que não o inglês, (b) quais línguas elas conheciam, (c) quais línguas falavam em casa, (d) quais oportunidades que elas tiveram de falar outras línguas no campus, (e) o percentual dessas oportunidades que ocorreram em suas residências, e (f) quantas gerações de sua família viveram na América. Na condição controle, as participantes (n = 16) foram perguntadas (a) se viviam dentro ou fora do campus, (b) se eles usaram o serviço telefônico da universidade, (c) avaliar em uma escala de 7 pontos o quão satisfeitas estavam com o serviço, (d) se elas considerem assinar TV a cabo, (e) o quanto elas estariam dispostas a pagar por mês para a televisão por cabo, e (f) para listar uma ou duas razões pelas quais elas assinariam ou não televisão por cabo.

Depois do questionário, as participantes receberam um teste quantitativo que consistia em 12 questões de matemática da Competição Canadense de Matemática [2] e foram informadas que teriam 20 minutos para concluir esta tarefa. No final da sessão, as participantes completaram um conjunto final de questões, indicando, entre outras coisas, a sua própria pontuação na parte quantitativa da Scholastic Aptitude Test (SAT), o quanto gostaram de participar da experiência, o talento que elas possuíam em matemática, e os seus pensamentos sobre os objetivos da pesquisa. As participantes foram, então, pagas e dispensadas.

Resultados e Discussão

A principal variável dependente foi a precisão, que corresponde ao número de questões matemáticas que uma participante respondeu corretamente dividido pelo número de questões que a participante tentou responder (Steele & Aronson, 1995). Como mostrado na Tabela 1, as nossas previsões foram suportadas: o desempenho no teste quantitativo era melhor na condição de ênfase na identidade asiática, intermediária na condição de controle, e na pior na condição de ênfase na identidade feminina. O incremento de desempenho associado com a ativação da dimensão asiática da identidade foi semelhante em magnitude ao decréscimo de desempenho associado com a ativação da dimensão feminina da identidade. Estes resultados são particularmente atraentes porque o efeito foi exibido entre estudantes com excelentes habilidades quantitativas (a média quantitativa de pontuação SAT relatada pelas participantes foi de 750,9, DP = 46,53).

Tabela

Participantes na condição de ênfase na identidade asiática responderam corretamente uma média de 54% das perguntas que eles tentaram , participantes na condição de controle responderam corretamente uma média de 49%, e participantes na condição de ênfase na identidade feminina responderam corretamente uma média de 43%. Uma análise de contraste linear testando nossa previsão de que as participantes na condição de ênfase na identidade asiática obtiveram a maior pontuação, as participantes na condição de controle obtiveram pontuação intermediária, e as participantes na condição de ênfase na identidade feminina obtiveram a menor pontuação revelou que este padrão foi significativo , t(43) = 1,86, p <0,05, r = 0,27. Participantes na condição de ênfase na identidade asiática tiveram desempenho significativamente melhor do que aos participantes na condição de ênfase na identidade feminina, t(29) = 2,02, p <0,05, r = 0,35. Quando considerado apenas o número de questões respondidas corretamente, encontramos o mesmo, embora com padrão de resultados estatisticamente menos  significativo. Participantes na condição de ênfase na identidade asiática responderam à maioria das perguntas corretamente (M = 5,37), as participantes na condição de ênfase na identidade feminina responderam o menor número de perguntas corretamente (M = 4,71), e as participantes na condição de controle estavam no meio (M = 5,31), t(43) = 0,89, p = 0,19, r = 0,13. Precisão, no entanto, é uma variável dependente mais significativa do que o número de questões respondidas corretamente, porque leva em conta não apenas o número de questões respondidas corretamente, mas também o número de perguntas tentadas.

Curiosamente, a manipulação não afetou o nível de motivação das participantes, que foi semelhante em todas as condições: uma análise unilateral de variância (ANOVA) não mostrou diferenças significativas entre as condições em que (a) o número de perguntas que as participantes tentaram responder (o esforço que elas exibiram), (b) o número de questões para as quais as participantes relataram adivinhar as respostas, (c) o quanto as participantes gostaram do teste, (d) avaliação pessoal de como elas se saíram no teste, (e) a sua avaliação da dificuldade do teste, e (f) a avaliação de suas habilidades matemáticas.

A descoberta de ausência de diferenças entre as condições dessas variáveis ​​levanta questões importantes para a compreensão dos efeitos de estereótipos sobre o desempenho dos participantes. Parece pouco provável que os efeitos negativos da auto-estereotipagem poderiam ter sido diminuídos simplesmente incentivando as participantes a tentar mais. O desempenho neste estudo foi significativamente menor entre as participantes na condição de ênfase na identidade de mulher, mas em comparação com participantes nas outras condições, as participantes nessa condição tentaram números semelhantes de perguntas e foram igualmente confiantes em seus desempenhos.

Nossos dados também sugerem que as participantes não estavam cientes de que o seu desempenho está sendo afetado. Não houve diferenças entre as condições de como as participantes julgaram seu desempenho. Além disso, as participantes não tinham conhecimento de que havia uma identidade específico sendo enfatizada neste estudo e não foram capazes de adivinhar a hipótese do estudo.

Também não houveram diferenças significativas nas pontuações dos teste quantitativos do SAT entre as condições. A média para a amostra foi de 750,9, com uma pontuação mínima de 600 e uma pontuação máxima de 800, uma gama extremamente restrita de pontuação. A pontuação média para a população em geral na escala quantitativa do SAT em 1996 era de 508, com um desvio padrão de 110 (Educational Testing Service, 1998). A estreita faixa de pontuação e os escores elevados para esta amostra indicam que essas mulheres eram todas muito talentosas. A obtenção de mudanças significativas no desempenho de uma tarefa com ativação de identidade implícita é ainda mais impressionante com uma amostra tão altamente talentosa. Corrigir para a gama restrita torna o efeito mais forte (Snedecor & Cochran, 1980). Usando o desvio padrão relatado pelo Educational Testing Service (1998) para corrigir a restrição de faixa, descobrimos que o efeito é ainda maior e mais significativo para a hipótese principal, t(43) = 2,37, p = 0,01, r = 0,34.

ESTUDO 2

Visão Geral

O Estudo 2 examinou a hipótese de que era o estereótipo associado a uma identidade (ou seja, os asiáticos têm talento para a matemática) e não a própria identidade (ou seja, Asiático) que levou ao diferencial de desempenho que obtivemos. A fim de fazer isso, nós replicamos o estudo em uma segunda cultura na qual diferentes estereótipos são associados com as mesmas identidades. Em Vancouver, Canadá, a maior parte da comunidade asiática imigrou recentemente. Usando um questionário desenvolvido para examinar os estereótipos étnicos e de gênero predominantes, confirmamos que o estereótipo de que os asiáticos são quantitativamente talentosos prevalece mais na América do que no Canadá, t(81) = 2,07, p <0,05, r = 0,22. (3)

Usando o mesmo paradigma do Estudo 1, previmos que o desempenho no teste quantitativo de mulheres asiáticas de Vancouver seria deprimido, em relação ao do grupo de controle, quando fosse dada ênfase na sua identidade de gênero. Nós também previmos que o seu desempenho não poderia ser aumentado em relação ao desempenho de um grupo de controle quando fosse dada ênfase na sua identidade asiática (ao contrário da amostra nos EUA). O procedimento foi o mesmo que o do Estudo 1. As participantes foram 19 estudantes asiático-americanas do sexo feminino no ensino médio.

Resultados e Discussão

Os resultados apoiam a hipótese de que os estereótipos, e não apenas as identidades, influenciam o desempenho. Nessa população, o estereótipo de que os asiáticos possuem habilidades superiores quantitativos não é predominante. Como previsto (ver Tabela 1), as participantes na condição de ênfase na identidade feminina tiveram a pior pontuação (28% de precisão) dos três grupos. Participantes na condição de ênfase na identidade asiática (44% de precisão) também tiveram um desempenho pior do que o grupo controle (59% de precisão), contraste t(16) = 4,55, p <0,0005, r = 0,75.

Ao considerar apenas o número de questões corretas, nós encontramos um padrão semelhante: as participantes na condição de ênfase na identidade feminina responderam o menor número de perguntas corretamente (M = 3,00). Participantes na condição de ênfase na identidade asiática também responderam menos perguntas corretamente (M = 4,50) do que o grupo controle (M = 5,00). Um contraste utilizando pesos lambda de 1, 1 e -2 revelou que o padrão foi significativo, t(16) = 2,43, p = 0,01, r = 0,52.

Combinação das Duas Amostras

Quando combinamos os dois estudos e aplicamos uma ANOVA sobre a precisão percentual, encontramos uma interação país/condição significativa, F (2, 60) = 2,78, p = 0,069, eta = 0,30 (4) indicando que o padrão de desempenho entre as três condições foi significativamente diferente entre os dois países. Isto sugere que a manipulação de identidade teve efeitos diferentes sobre o desempenho dos participantes dos Estados Unidos e do Canadá.

DISCUSSÃO GERAL

Este trabalho demonstra a forte influência de estereótipos socioculturais sobre o desempenho individual. Nos estudos atuais, os participantes não foram explicitamente preparados com a ideia do estereótipo, mas simplesmente tiveram uma categoria sociocultural a que pertencem sendo sutilmente ativada. Talvez a evidência mais significativa que encontramos é a de que quando é dada ênfase a uma identidade em um nível implícito, o desempenho pode ser tanto melhorado quanto piorado. Os trabalhos anteriores mostraram que o desempenho das mulheres em uma tarefa quantitativa é prejudicado quando lhes é dito que a tarefa explicita as diferenças de gênero, mas não é prejudicado quando elas são informadas de que a tarefa não é sensível a diferenças de gênero (Aronson, Quinn, & Spencer, 1998; Steele, 1997). A presente pesquisa indica que o desempenho quantitativo de mulheres pode ser afetado tanto positiva como negativamente sem quaisquer instruções explícitas. Apesar de ainda ser preocupante o fato da ativação implícita da identidade de gênero feminino inibir o desempenho, é encorajador o fato da ativação implícita de certas identidades étnicas poderem ajudar alguns indivíduos a melhorar seu desempenho.

Os nossos resultados conversam com uma série de áreas aplicadas de grande preocupação da comunidade científica, bem como do público em geral, incluindo o desempenho das mulheres nos campos quantitativos como matemática e ciências. Eles sugerem que mais atenção deve ser dada às influências socioculturais sobre o desempenho das mulheres (Barinaga, 1994), particularmente à luz das recentes descobertas sobre as diferenças sexuais em matemática e ciências (Hedges e Nowell, 1995) em um número de diferentes culturas ( Lummis & Stevenson, 1990; Stevenson, Chen, & Lee, 1993).

Os resultados deste estudo também sugerem que quando o fato das pessoas terem múltiplas identidades é analisado, os efeitos de auto-estereotipagem podem ser abordados de forma muito mais estratégica do que anteriormente. Até o momento, os indivíduos foram amplamente colocados como vítimas da auto-estereotipagem. Mas existe a possibilidade de que as intervenções—neste caso, uma manipulação experimental que enfatizou uma dimensão de identidade sobre as outras—podem ser usadas para influenciar estrategicamente o desempenho. A presente descoberta também aponta para questões intrigantes e inexploradas sobre como os indivíduos podem experimentar ênfase em identidade e processos de auto-estereotipagem. A teoria de Brewer (1991) de distintividade ótima afirma que os indivíduos identificam ao longo de dimensões particulares para alcançar um estado de distinção ideal. Parece plausível que os indivíduos também possam identificar a si mesmos ao longo de dimensões a fim de atingir a “adaptação ótima.”

Finalmente, a descoberta de que o desempenho acadêmico pode ser tanto melhorado quanto prejudicado por mudanças implícitas na identificação coloca desafios importantes para as noções de desempenho acadêmico e de inteligência. Embora haja muito debate sobre a natureza da inteligência (Fraser, 1995; Neisser et al,, 1996), fortes defensores de diferenças genéticas sobre o QI assumem que a capacidade é fixada e que pode ser quantificada através de testes (Herrnstein e Murray, 1994). Os resultados aqui apresentados indicam claramente que o desempenho do teste é, além de maleável, surpreendentemente suscetível a pressões socioculturais implícitas.

Notas

1. Pode-se conceber uma quarta condição na qual são enfatizados tanto gênero quanto etnia, a fim de ver se uma identidade predominaria. Esta é uma pergunta provocativa, mas fora do âmbito do presente estudo, em que testamos se pudéssemos alterar o desempenho ao fazer uma identidade mais saliente que a outra.

2. A Competição Canadense de Matemática é uma prestigiada competição anual para alunos do ensino médio patrocinada pela Universidade de Waterloo.

3. Pessoas selecionadas aleatoriamente (n = 50) em Vancouver, British Columbia, e Cambridge, Massachusetts, foram solicitadas a classificar (em uma escala de 1 a 7) o quão comum o estereótipo “asiáticos são bons em matemática” está presente em sua sociedade.

4. Não houve interação país/condição significativa quando considerado apenas o número de questões respondidas corretamente. Isto não é surpreendente, devido à diferença no grau de escolaridade entre as duas amostras. As participantes canadenses eram estudantes do ensino médio, enquanto que as participantes dos americanos eram estudantes universitárias. As participantes americanas responderam às perguntas significativamente mais corretamente (M = 5,12) do que as participantes canadenses (M = 4.11), F (1,60) = 3,84, p = 0,05, eta = 0,25.

Referências

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Banaji, M.R., Hardin, C., & Rothman, A.J. (1993). Implicit stereotyping in person judgment. Journal of Personality and Social Psychology, 65, 272–281.

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Benbow, C.P. (1988). Sex differences in mathematical reasoning ability in intellectually talented preadolescents: Their nature, effects, and possible causes. Behavioral and Brain Sciences, 11, 169–232.

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Educational Testing Service. (1998). Background information: All SAT I test takers [Online]. Available:
http://www.collegeboard.org/sat/cbsenior/yr1998/nat/natbk389.html

Fraser, S. (Ed.). (1995). The bell curve wars. New York: Basic Books.

Hedges, L.V., & Nowell, A. (1995). Sex differences in mental test scores, variability, and numbers of high-scoring individuals. Science, 269, 41–45.

Herrnstein, R.J., & Murray, C. (1994). The bell curve. New York: Free Press.

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Neisser, U., Boodoo, G., Bouchard, T.J., Boykin, A.W., Brody, N., Ceci, S.J., Halpern, D.F., Loehlin, J.C., Perloff, R., Sternberg, R.J., & Urbina, S. (1996). Intelligence: Knowns and unknowns. American Psychologist, 51, 77–101.

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Snedecor, G.W., & Cochran,W.G. (1980). Statistical methods (7th ed.). Ames: Iowa State University Press.

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Sobre o Humanismo e sua relação com o Mitologismo

No último post, eu apresentei um resumo do capítulo 6 do livro Jesus Existiu? de Bart Ehrman apresentando o conceito de Mitologismo e rebatendo as principais críticas a ele como um argumento. Mas ele não é passível de crítica como ideia, mas também como comportamento, uma vez que é contraproducente para o debate. Ehrman lembra que muitos humanistas caem na armadilha do Mitologismo e acabam agindo contra seus próprios interesses ao incluir um argumento tão duvidoso em sua agenda.

Para complementar o que já havia sido dito e explorar essa relação com o humanismo, trago a vocês dois textos de Bart Ehrman traduzidos por mim mesmo. O primeiro é um artigo do historiador para o Huffington Post divulgando o seu livro Jesus Existiu? e o segundo é a conclusão do referido livro.

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Título Original: Did Jesus Exist? (Artigo)
Autor: Bart Ehrman
Publicado Originalmente em: Huffington Post (20/03/2012)
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani (Bruno Almeida)
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Em uma sociedade na qual as pessoas ainda afirmam que o Holocausto não aconteceu, e na qual há reclamações contundentes de que o presidente americano é, na verdade, um muçulmano nascido em solo estrangeiro, não é nenhuma surpresa descobrir que a maior figura da história da civilização ocidental, o homem sobre o qual a mais poderosa e influente instituição social, política, econômica, cultural e religiosa do mundo – a igreja cristã – foi construída, o homem adorado, literalmente, por bilhões de pessoas hoje em dia – é alguma surpresa ouvir que Jesus nunca existiu realmente?

Essa é a afirmação feita por um grupo pequeno mas crescente de escritores (publicados), blogueiros e viciados em Internet que se chamam mitologistas. Este grupo extraordinariamente vociferante de negadores sustenta que Jesus é um mito inventado para propósitos nefastos (ou altruístas) pelos primeiros cristãos que modelaram seu salvador nos moldes dos deuses pagãos que, alega-se, também nasceram de uma virgem em 25 de dezembro, também fizeram milagres, também morreram como expiação pelo pecado e foram, então, ressuscitados dos mortos.

Poucos destes mitologistas são realmente estudiosos formados em história antiga, religião, estudos bíblicos ou qualquer campo cognato, sem falar nas línguas antigas geralmente importantes para aqueles que querem dizer alguma coisa com algum grau de autoridade sobre um professor judeu que (supostamente) viveu na Palestina do primeiro século. Existem algumas exceções: das centenas – milhares? – dos mitologistas, dois (que eu saiba) realmente têm Ph.D. em áreas relevantes do estudo. Mas mesmo tendo isso em conta, não há um único mitologista que ensina o Novo Testamento ou o cristianismo antigo ou mesmo Clássicos em qualquer instituição acreditada de ensino superior no mundo ocidental. E não é de admirar. Estes pontos de vista são tão extremos e tão pouco convincentes a 99,99 por cento dos verdadeiros especialistas que alguém que os defenda possui a mesma probabilidade de conseguir um emprego em um departamento de ensino de religião bem estabelecido que um criacionista dos seis dias tem de aterrizar em um departamento de biologia de boa fé.

Por que então o movimento mitologista está crescendo, com defensores tão confiantes de seus pontos de vista e de sua denúncia da ideia de radical que Jesus não existiu realmente? Isso acontece, em grande parte, porque esses negadores de Jesus são ao mesmo tempo denunciantes da religião – uma raça de humanos agora muito em voga. E que melhor maneira de difamar os pontos de vista religiosos da grande maioria das pessoas religiosas no mundo ocidental que se mantém, apesar de tudo, predominantemente cristãs, que a alegação de que o fundador histórico de sua religião era na verdade o produto da imaginação de seus seguidores?

A visão, no entanto, tropeça nas suas próprias premissas. A realidade – triste ou salutar – é que Jesus era real. E esse é o tema de meu novo livro, “Jesus existiu?”

É verdade que Jesus não é mencionado em nenhuma fonte romana de sua época. No entanto, isso dificilmente deveria contar contra sua existência, uma vez que estas mesmas fontes não mencionam quase ninguém de seu tempo e lugar. Nem mesmo o famoso historiador judeu, Josefo, ou ainda a figura mais notável, mais importante e poderosa de sua época, Pôncio Pilatos.

Também é verdade que as nossas melhores fontes sobre Jesus, os Evangelhos iniciais, estão cheias de problemas. Eles foram escritos décadas após a vida de Jesus por autores tendenciosas que estão em desacordo uns com os outros em detalhes implícitos e explícitos. Mas os historiadores nunca podem descartar fontes simplesmente porque elas são tendenciosas. Você não pode confiar nos relatos de Rush Limbaugh sobre Sandra Fluke, mas eles certamente fornecem evidências de que ela existe.

A pergunta não é se as fontes são tendenciosas, mas se fontes tendenciosas podem ser usadas para produzir informação histórica confiável, uma vez que seu enviesamento é separado do núcleo histórico. E os historiadores têm buscado formas de fazer isso.

Com relação a Jesus, temos numerosos relatos independentes de sua vida nas fontes por trás dos Evangelhos (e nos escritos de Paulo) – fontes escritas na língua nativa de Jesus, o aramaico, e que podem ser datados dentro de apenas um ano ou dois de sua vida (antes da religião começar a converter pagãos em massa). Fontes históricas como essas são bastante surpreendentes para uma antiga figura de qualquer tipo. Além disso, temos escritos relativamente extensos de um autor do primeiro século, Paulo, que adquiriu a sua informação sobre a vida de Jesus e que realmente conhecia, em primeira mão, o discípulo mais próximo de Jesus, Pedro, e seu irmão James. Se Jesus não existiu, é de se esperar que seu irmão soubesse.

Além disso, a afirmação de que Jesus foi simplesmente construído vacila em qualquer terreno. Os paralelos alegados entre Jesus e os deuses-salvadores “pagãos” na maioria dos casos residem no imaginário moderno: Nós não temos relatos de outros deuses que nasceram de mães virgens e que morreram como expiação pelo pecado e, em seguida, foram ressuscitados dos mortos (apesar dos sensacionalistas afirmarem isso ad nauseum em suas versões propagandeadas).

Além disso, aspectos da história de Jesus simplesmente não teriam sido inventados por quem deseja fazer um novo Salvador. Os primeiros seguidores de Jesus declararam que ele era um Messias crucificado. Mas antes do cristianismo, não havia nenhum judeu sequer, de qualquer espécie, que pensava que haveria um futuro messias crucificado. O Messias era para ser uma figura de grandeza e poder que derrubaria o inimigo. Qualquer um que queria fazer-se um messias faria assim. Por que os cristãos não fizeram? Porque acreditavam especificamente que Jesus era o Messias. E eles sabiam muito bem que ele foi crucificado. Os cristãos não inventaram Jesus. Eles inventaram a idéia de que o Messias tinha de ser crucificado.

Pode-se também fazer a escolha de ressoar com as preocupações dos nossos desprezadores culturais modernos e pós-modernos da religião estabelecida (ou não). Mas certamente a melhor maneira de promover qualquer agenda como essa não é negar o que praticamente todo historiador sadio sobre o planeta – cristãos, judeus, muçulmanos, agnósticos, pagãos, ateus – concluiu com base em uma série de evidência histórica convincente.

Quer queiramos ou não, Jesus certamente existiu.

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Título Original: Conclusion (Capítulo de Conclusão)
Autor: Bart Ehrman
Publicado Originalmente em: Did Jesus Exist? (2012)
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani (Bruno Almeida)
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Jesus e os Mitologistas

Em abril passado, fui homenageado no encontro nacional da Associação Humanista Americana, onde recebi o Prêmio de Liberdade Religiosa. Eu estava apenas vagamente consciente da associação antes de participar deste encontro em Cambridge, Massachusetts. Quatrocentos ou quinhentos humanistas se reúnem a cada ano para discutir questões de interesse mútuo, participando de sessões e workshops sobre questões relacionadas com a necessidade de promover os objetivos e ideais humanistas em toda a sociedade. O grupo utiliza o termo humanista com um sentido positivo. Eles celebram o que há de bom em ser humano. Contudo, uma implicação negativa corre abaixo da superfície da auto-descrição mas está sobre a superfície das reuniões da assembleia e de quase todas as conversas acontecendo lá. Esta é uma celebração do ser humano sem Deus. Humanismo é entendido como uma negação ao teísmo. Esta é uma reunião de descrentes que acreditam no poder da humanidade para tornar a sociedade e a vida individual felizes, realizantes, com êxito, e significativas. E o grupo é composto quase exclusivamente de agnósticos e ateus.

Mesmo que anteriormente eu tivesse estado no escuro sobre o grupo e seus objetivos, eu concordo completamente com seus ideais. Eu mesmo sou um agnóstico, e eu certamente acredito que é desejável e possível ter uma vida feliz, plena e significativa sem a fé cristã ou qualquer outro tipo de fé. Acho que eu sou um testemunho vivo para essa possibilidade. Minha vida é absolutamente fantástica, e eu não poderia desejar nada melhor, que não seja mais do mesmo.

Mas o que mais me impressionou sobre o encontro foi precisamente o quão religioso ele era. Todo ano eu participo das reuniões da Sociedade de Literatura Bíblica, conferências sobre primeiros estudos cristãos, e afins. Eu nunca, na minha lembrança, fui a uma reunião que estava tão cheia de conversa sobre religião pessoal como a Associação Humanista Americana, um grupo dedicado à vida sem religião.

Suponho que havia muita conversa sobre a crença religiosa porque é quase impossível na nossa sociedade falar sobre significado e realização sem referência à religião, e humanistas sentem a necessidade de colocarem a si mesmos contra o discurso dominante. E assim em suas reuniões anuais encontram-se workshops e sessões que tratam de questões como a forma de falar com a família quando se abandona a fé, como lidar com a religião nas escolas (oração da escola, o criacionismo, e assim por diante), como exercer a prática da meditação fora das estruturas religiosas (por exemplo, budista), e assim por diante. Tudo isso situa o humanismo em relação a outra coisa, como é evidente, bem como quando humanistas descrevem suas crenças pessoais em termos negativos: “agnosticismo” (aquele que não sabe se há um Deus) ou “ateísmo” (aquele que não acredita em Deus). Mesmo a auto-descrição da associação em seu site envolve um contraste com os outros na sociedade: “O Humanismo é uma filosofia progressiva da vida que, sem o teísmo e outras crenças sobrenaturais, afirma nossa capacidade e responsabilidade de conduzir vidas éticas de realização pessoal que aspiram ao bem maior da humanidade.”

Da mesma forma que fiquei surpreso na reunião de humanistas em ouvir tanto sobre a religião, eu não fiquei surpreso ao saber que um bom número das pessoas de lá — pelo menos aquelas com quem eu conversei — são ou mitologistas ou estão se inclinando para o mitologismo. Seus autores favoritos são figuras como Robert Price, Earl Doherty, e alguns dos outros que mencionei nestas páginas. E muitos deles ficaram completamente surpreendidos quando souberam que eu tenho uma visão diferente, que eu acho que certamente havia um Jesus de Nazaré, que existiu na história, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e de quem se pode dizer que muitas coisas como uma figura histórica.

O Problema com o Jesus Histórico

No meu ponto de vista os mitologistas estão, ironicamente, fazendo um desserviço aos humanistas para quem estão escrevendo. Ao demarcar uma posição que não é aceita por quase ninguém, eles se abrem ao escárnio e a acusações de desonestidade intelectual. Mas para realizar seus objetivos (sobre os quais eu vou dizer mais em breve), isto é completamente desnecessário. Claro que para mitologistas, não posso deixar de dizer, a crença em Jesus é um problema. Mas o problema real com Jesus não é que ele é um mito inventado pelos primeiros cristãos, isto é, que ele nunca apareceu como uma figura real no palco da história. O problema com Jesus é justamente o oposto. Como Albert Schweitzer percebeu há muito tempo, o problema com o Jesus histórico é que ele era muito histórico.

A maioria dos televangelistas, populares ícones pregadores cristãos, e chefes dessas empresas que chamamos de megaigrejas compartilham uma visão moderna irrefletida de Jesus — que ele se traduz de forma fácil e quase que automática em uma linguagem moderna. O fato é, porém, que Jesus não era uma pessoa do século XXI, que falava a linguagem do cristão contemporâneo da América (ou da Inglaterra ou da Alemanha ou de qualquer outro lugar). Jesus era necessária e inevitavelmente um judeu que vivia na Palestina do primeiro século. Ele não era como nós, e se fizermos dele como nós, transformamos o Jesus histórico em uma criatura que nós inventamos para nós mesmos e para nossos próprios fins.

Jesus não se reconheceria na pregação da maioria de seus seguidores hoje. Ele não sabia nada sobre o nosso mundo. Ele não era um capitalista. Ele não acreditava na livre empresa. Ele não apoiava a aquisição de riqueza ou das coisas boas da vida. Ele não acreditava na educação massiva. Ele nunca tinha ouvido falar de democracia. Ele não tinha nada a ver com ir à igreja no domingo. Ele não sabia nada da segurança social, vale-alimentação, bem-estar, excepcionalismo americano, os números do desemprego, ou da imigração. Ele não tinha posição sobre a reforma tributária, sobre planos de saúde (além de querer curar a lepra), ou sobre o estado do bem-estar. Até onde sabemos, ele não expressou nenhuma opinião sobre as questões éticas que nos afligem hoje: aborto e direitos reprodutivos, o casamento gay, eutanásia, ou o bombardeio do Iraque. Seu mundo não era o nosso, suas preocupações não eram as nossos e, acima de tudo, suas crenças não eram as nossas.

Jesus era um judeu do primeiro século, e quando tentamos fazer dele um americano do século XXI, distorcemos tudo o que ele foi e tudo o que ele representava. O próprio Jesus era um sobrenaturalista completo. Ele acreditava no Diabo e em demônios e que as forças do mal operam neste mundo. Ele sabia pouco — possivelmente, quase nada — sobre o funcionamento do Império Romano. Mas o pouco que sabia, ele considerou mal. Ele pode ter considerado todos os governos injustos a menos que fosse uma (futura) teocracia a ser comandada pelo próprio Deus através de seu messias. Ele certamente não era defensor de nossos pontos de vista políticos, quaisquer que eles estejam.

Essas forças do mal estavam exercendo seu controle sobre o mundo com veemência crescente. Mas Jesus pensou que Deus iria intervir em breve e destruir todos eles para trazer seu reino de bem na terra. Isso não viria do esforço humano – expansão da democracia, construção da defesa nacional, melhoria do sistema educacional, vencer a guerra contra as drogas, e assim por diante. O esforço humano não contava para nada. Isso viria de Deus, quando ele enviasse um juiz cósmico para destruir a atual ordem e estabelecer o reino de Deus aqui na terra. Isso não era uma metáfora para Jesus. Ele acreditava que ia acontecer. E acontecer em breve. Dentro de alguns anos.

Jesus estava enganado sobre isso. Ele estava confundido sobre um monte de coisas. As pessoas não querem ouvir isso, mas é verdade. Jesus era um homem de seu tempo. E assim como todos os homens e mulheres de seu tempo estavam errado sobre muitas coisas, assim também era Jesus. E assim também somos nós.

O problema então com Jesus é que ele não pode ser removido do seu tempo e transplantado para o nosso próprio, sem simplesmente recriá-lo. Quando nós criamos ele de novo, nós já não temos mais o Jesus da história mas o Jesus da nossa própria imaginação, uma invenção monstruosa criada para servir aos nossos próprios fins. Mas Jesus não é transportado e transformado tão facilmente. Ele é fortemente resistente. Ele permanece sempre em seu próprio tempo. À medida que modismos sobre Jesus vêm e vão, que novos Jesuses são inventados e depois esquecidos, que Jesuses mais novos vêm para tomar o lugar do velho, o verdadeiro e histórico Jesus continua a existir, lá no passado, o profeta apocalíptico que esperava que uma ruptura cataclísmica iria ocorrer dentro de sua geração e que Deus iria destruir as forças do mal, instituir seu reino, e instalar o próprio Jesus no trono. Este é o Jesus histórico. E ele é, obviamente, muito histórico para o gosto moderno. É por isso que muitos cristãos de hoje tentam reformá-lo.

A Agenda Mitologista

No meu ponto de vista, humanistas, agnósticos, ateus, mitologistas, e qualquer outra pessoa que não defende a crença em Jesus faria melhor se destacasse que o Jesus da história não é o Jesus do Cristianismo moderno ao invés de insistir — de forma errada e contraprodutiva — que Jesus nunca existiu. Jesus existiu. Ele simplesmente não era a pessoa que os crentes mais modernos hoje pensam que ele era.

Por que então mitologistas afirmam que ele não existiu? Eu não estou pedindo que os mitologistas ofereçam provas para a não-existência de Jesus. Eu já considerei a evidência e mostrei por que é problemática. Eu estou pedindo pela questão mais profunda: O que está impulsionando a agenda dos mitologistas? Por que trabalham tão duro para mostrar que Jesus nunca viveu realmente? Eu não tenho uma resposta definitiva para essa pergunta, mas eu tenho um palpite.

Não é por acaso que quase todos os mitologistas (na verdade, todos eles, a meu conhecimento) são ou ateus ou agnósticos. Os que eu conheço alguma coisa a respeito são ateus bastante virulentos, mesmo militantes. Na superfície, pode fazer sentido: quem mais poderia querer mostrar que Jesus nunca existiu? Mas quando você pensa sobre isso por um momento, isso não é inteiramente lógico. Saber se Jesus existiu é completamente irrelevante para a questão de saber se Deus existe ou não. (NdoT: A existência do Jesus Divino é bastante relevante para a discussão da existência de Deus, uma vez que o cristianismo criou uma forte relação de co-dependência entre seus conceitos. Mas a existência (ou não) de um Jesus histórico não diz muita coisa sobre o assunto. Acredito que seja isso que Ehrman quis dizer.) Então, por que os virulentos ateus (ou agnósticos) desejam tanto mostrar que Jesus não existiu?

É importante perceber o fato óbvio de que todos os mitologistas vivem em um mundo cristão no qual o cristianismo é a religião escolhida pela grande maioria da população. É claro que temos um grande número de judeus e muçulmanos entre nós, além de budistas, hindus, e pessoas de outras tradições de fé espalhadas em nossa cultura. Mas em geral, as pessoas avidamente religiosas que encontramos são cristãs. E mitologistas são avidamente anti-religiosos. Para desmistificar a religião, então, é preciso minar especificamente a forma cristã de religião. E qual o caminho mais fácil disponível para minar o cristianismo do que afirmar que a figura no centro do culto e devoção cristãos nunca existiu, mas que foi inventada, composta, criada? Se o cristianismo é baseado em Jesus, e Jesus nunca existiu, onde isso deixa a religião de bilhões de população do mundo? Isso deixa em total desordem, pelo menos no pensamento dos mitologistas. (Pode-se facilmente argumentar que o cristianismo iria sobreviver muito bem sem a figura histórica de Jesus, mas que seria uma história diferente e um livro diferente.)

O que isto significa é que, ironicamente, assim como os humanistas seculares gastam tanto tempo em suas reuniões anuais falando sobre religião, assim também os mitologistas que são tão empenhados em mostrar que o Jesus histórico nunca existiu não estão sendo levados por um interesse histórico. A agenda deles é religiosa, e eles são cúmplices de uma ideologia religiosa. Eles não estão fazendo história; eles estão fazendo teologia.

Para ter certeza, eles estão fazendo a sua teologia a fim de se opor à religião tradicional. Mas a oposição é impulsionada não por preocupações históricas, mas por preocupações religiosas.

Mas por que mitologistas seriam tão violentamente contra a religião tradicional? Minha sensação é que é porque eles acreditam que o cristianismo histórico—a forma de religião mais conhecida nos ambientes mitologistas—tem feito e continua a fazer mais mal do que bem ao mundo. Eles olham para os nossos sistemas de ensino e veem cristãos fervorosos trabalhando duro para promover a ignorância sobre o conhecimento, por exemplo, na insistência de que a evolução é apenas uma teoria e que o criacionismo deveria ser ensinado nas escolas. Eles olham para a nossa sociedade e veem o incrível dano que a religião fez a vidas humanas: desde o patrocínio da escravidão até a recusa de concessão de direitos reprodutivos às mulheres e a negação da possibilidade do amor e do casamento gay. Eles olham para a cena política e veem o poder político terrível que a direita religiosa produz: desde impor certos conjuntos de crenças religiosas em nossa sociedade ou em nossas escolas até eleger apenas as figuras políticas que apoiam certas agendas religiosas, não importa o quanto eles possam ser odiosas para outros seres humanos (pobres, ou não-americanos) e o quanto elas possam ser ignorantes sobre o mundo em geral.

Eu tenho que admitir que tenho uma boa dose de simpatia com estas preocupações. Mas eu também sou um historiador que pensa que é importante não promover versões revisionistas do passado por razões ideológicas arraigadas em agendas não-históricas. A escrita da história deve ser feita seguindo rigorosos protocolos históricos. Não é simplesmente um meio de promover um conjunto de gostos e desgostos pessoais.

Também devo dizer que mesmo que eu de fato compartilhe alguns dos vieses de muitos dos mitologistas quando se trata do dano que tem sido feito ao longo dos anos em nome de Cristo (e não apenas em cruzadas e inquisições, mas em nossa própria sociedade, aqui e agora), vejo também que uma quantidade enorme de bem tem sido feito em seu nome, e continua a ser feito, por cristãos bem-intencionados e trabalhadores, homens e mulheres que fazem bem incalculável no mundo, tanto em escalas em massa quanto individuais.

Mas nenhum lado—o bem feito em nome de Cristo ou o mal—será de alguma relevância para mim como historiador quando eu tentar reconstruir o que realmente aconteceu no passado. Eu me recuso a sacrificar o passado a fim de promover uma causa digna de minhas próprias agendas sociais e políticas. E ninguém mais deveria também. Jesus existiu, quer queiramos ou não.