Métodos Teológicos e Apologistas Aplicados a Super-Heróis

Quando vi a imagem acima, me vieram à cabeça as longas discussões nas quais teólogos e apologistas cristãos mergulham sua mente, aplicando métodos rigorosíssimas a… absolutamente p*%%@ nenhuma. Qual a natureza dos anjos? Os cabelos deles são sempre louros? A Bíblia nos diz que Maria morreu virgem ou não? Homens podem se tornar santos e continuar intercedendo por nós? Jesus era filho de Deus ou só mais profeta? Afinal, o Inferno existe ou não? Quando Maria Madalena descobriu a tumba vazia, estava sozinha ou acompanhada? O que realmente quer dizer a história da maçã no livro de Genêsis? Temos alma? – os adventistas dizem que não. O Papa é falível? As respostas a várias perguntas como estas acima não diferem em nada à resposta dada à pergunta acima: quem é mais forte, o Super Homem ou o Goku?

Mais engraçado ainda é ver como pessoas notavelmente inteligentes ao longo da história passaram preciosa parte da vida e empreenderam grande parte de suas capacidades à tentativa de justificar ideias de um bando de pastores de cabra da antiguidade e histórias sobre um judeu mágico que transformava água em vinho e que controlava o momento exato em que furos de prego apareciam em sua mãos para poder salvar o mundo dele mesmo (surpreendentemente, sem obter êxito algum).

Mas para não ficar só no campo da palhaçada, vamos nos lembrar que essas discussões por vezes se desdobram em inconvenientes. Acostumam-se a empregar esse método a coisas ridículas e acabam o aplicando também a coisas sérias. A escravidão (de forma geral) é condenada, é endossada ou é apoiada pela Bíblia? Podemos usar camisinha em relações sexuais? O que a Bíblia acha dos homossexuais? Seria engraçado, se não fosse um hábito que faz pessoas inteligentes se tornaram inúteis e que faz questões importantes receberem o mesmo tratamento que trivialidades irrelevantes.

Saber distinguir questões importantes de questões irrelevantes é o primeiro passo para que uma sociedade comece a caminhar na direção do desenvolvimento humano e a desenvolver conhecimentos que tragam o bem estar geral e não que saciem a curiosidade tola e sem sentido. É importante, acima de tudo, que as nossas mentes mais brilhantes não percam seu tempo aplicando rigorosos padrões de investigação a questões boçais como a existência ou não da Santíssima Trindade.

Mas não dá para esperar muito, já que o próprio líder deles preferiu usar sua suposta capacidade ilimitada para andar sobre a água e para atravessar portas trancadas pelo lado de dentro ao invés de ensinar noções básicas de higiene e saneamento básico, de metodologia científica e a importância da busca pela verdade, de cultivo de plantas e criação de animais de corte, de moralidade e filosofia, de economia, de política e etc. Então, porque esperar que seus seguidores hajam de forma diferente?

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4 comentários em “Métodos Teológicos e Apologistas Aplicados a Super-Heróis”

  1. Eu lembrei dessas discussões foi vendo um episódio recente de The Big Bang Theory, em que os quatro nerds vão pra uma convenção de fãs de Star Trek e as namoradas aproveitam a ausência deles para tentar descobrir o que eles tanto veem nas histórias em quadrinhos de super-heróis. A certa altura elas começam discutir sobre as propriedades mágicas do Mjolnir (o martelo do Thor), se ele pode ou não ser erguido por alguém indigno, e uma delas solta uma pérola mais ou menos assim: “Se o Hulk levantar o Thor e o Thor estiver empunhando o Mjolnir, então, pela transitividade da relação ‘ser levantado por’, o Hulk foi capaz de erguer o Mjolnir”. Quando não conseguem chegar a uma conclusão, elas decidem consultar a coleção dos rapazes! O debates filosóficos da Idade Média eram conduzidos praticamente da mesma maneira, com a Bíblia no lugar da coleção de HQ’s e os seres da mitologia judaico-cristã no lugar dos super-heróis. Naturalmente, o único campo que viu avanços significativos durante este período (e relevantes mesmo hoje em dia) foi a lógica, que prescinde de qualquer referência ao mundo concreto.

    Contudo, embora seja verdade que especulações teológicas sejam um desperdício obsceno de potencial humano, acredito que mais importante do que saber distinguir questões cruciais das triviais seja garantir a liberdade de pensamento e investigação impulsionadas por seja lá qual for a curiosidade (dentro de limites éticos, claro, o que inclui restrições quanto ao uso de recursos públicos em atividades indiscutivelmente estéreis). Digo isso porque boa parte dos filósofos, matemáticos e físicos (não somente, mas sobretudo estes) encontraria sérias dificuldades para convencer seus patrocinadores de que o resultado de suas pesquisas “agregaria valor social” à comunidade mais ampla à qual pertencem, e de que não passa de um mero hobby elitista. No entanto, mesmo de subáreas cujos objetos de pesquisa são tão ou mais abstratos do que o Deus dos Filósofos (como a Teoria dos Números) ou imensamente distantes da realidade cotidiana (como a Cosmologia ou a Física Quântica) pode, a médio ou longo prazo, surgirem tecnologias que incrementam muito o bem estar geral (criptografia no caso da Teoria dos Números, ou as tecnologias de imageamento de alta resolução na Física). Se não me engano, este é o ponto defendido por Carl Sagan no capítulo “Maxwell e os nerds” (se não for nesse, é em algum outro lugar do mesmo livro) de seu clássico “O Mundo Assombrado Pelos Demônios”.

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    1. Eu não busquei distinguir formalmente uma questão relevante de uma irrelevante por que julguei que demoraria tempo demais e estava querendo fazer algo mais rápido. Mas eu jamais faria uma distinção que coloca a cosmologia como um todo no campo das questões irrelevantes, apesar de que uma parte ou outra dela acabaria entrando mesmo. Dou até um exemplo mais chamativo: os átomos. Quando eles foram descobertos, também era algo que para o público geral não tinha tanto apelo prático imediato. A pergunta “do que somos feitos?” parecia mais filosófica do científica. Mas definitivamente, se não soubéssemos o que é um átomo, não teríamos avançado sequer a milésima parte do que avançamos no último século, posso afirmar isso sem medo nenhum de errar.

      Sobre a questão da curiosidade. O conhecimento sobre nossas origens e sobre nossa composição não é uma mera curiosidade tola e sem sentido, mas um conhecimento que pode, antes de gerar frutos na forma de tecnologia, apaziguar nossas mentes que desenvolveram a auto-consciência sozinhas mas que não sabem nem o que são si mesmas ainda. A cosmologia não é uma questão teológica, é uma questão humana que merece resposta. A teologia é que tentou monopolizar a cosmologia, impregnando ela com suas reflexões sem sentido.

      Não nego, porém, que questões propostas pelas religiões tenham sua utilidade. O entretenimento é uma necessidade humana e responder perguntas como “anjos são loiros?” pode ser tão divertido quanto “quem é mais forte: super homem ou goku?” ou até mesmo como “o hulk pode levantar o thor enquanto este empunha o Mjolnir?”.

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