Um Código para a Conduta Intelectual – Parte 7: O Princípio Estrutural

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Título Original: Attacking Faulty Reasoning: A Practical Guide to Fallacy-Free Arguments Autor: T. Edward Damer
Publicação: Wadsworth Publishing; 6ª ed. (2008), pgs. 31 e 32
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani (Mr. Monk)

O PRINCÍPIO ESTRUTURAL

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Aquele que argumenta a favor ou contra uma posição deve usar um argumento que atenda aos requisitos estruturais fundamentais de um argumento bem formado. Tal argumento não usa proposições que se contradizem, que contradizem a conclusão, ou que explícita ou implicitamente assumem a verdade da conclusão. Também não deve tirar inferências dedutivas inválidas.

O primeiro critério utilizado para determinar se um argumento é bom é a exigência de que seja estruturalmente sólido. Um argumento deve parecer e funcionar como um argumento. Em outras palavras, ele deve ser formado de tal maneira que a conclusão seja necessariamente decorrente das suas premissas, no caso de argumentos dedutivos, ou provavelmente seja decorrente das suas premissas, no caso de os argumentos indutivos.

Um bom argumento também deve nos fornecer razões para acreditar que a conclusão merece a nossa aceitação. Como a maioria das discussões sobre temas polêmicos são iniciadas porque a conclusão do argumento ainda não foi aceita por todos os participantes, o argumentador vai usar premissas que são mais prováveis de serem aceitas do que a conclusão. Se essas premissas são aceitas e elas levam à conclusão, é mais provável que a conclusão também seja aceita.

Por esta razão, um bom argumento não deve usar uma premissa que assume a verdade da conclusão, que faz a mesma reivindicação que a conclusão, ou que faz uma afirmação que não é diferente da conclusão. Uma estrutura de argumento que usa tal premissa é chamada de “petição de princípio”, já que não é dada nenhuma razão independente para aceitar a conclusão. Tal argumento viola a própria natureza de um argumento, uma vez que o argumento é uma reivindicação apoiada por pelo menos uma outra alegação. Uma petição de princípio não fornece nenhuma outra alegação em apoio da sua conclusão; portanto ela é estruturalmente falha e não pode ser útil para nós na tarefa de determinar o que fazer ou o que acreditar.

Outra característica estrutural de um argumento que poderia torná-lo fatalmente falho seria uma cujas premissas são incompatíveis umas com as outras. Um argumento que tem tais premissas é aquele do qual qualquer conclusão, não importa o quão estranha, pode ser retirada. O fato de um argumento com premissas incompatíveis poder gerar um resultado absurdo demonstra que não pode sequer funcionar como um argumento. Ele certamente não pode nos ajudar a decidir o que fazer ou no que acreditar. O mesmo é verdade para um argumento cuja conclusão contradiz uma das premissas. Uma conclusão que contradiz uma alegação do mesmo argumento viola a lei da não-contradição (ou A ou não-A), o que significa que nenhuma conclusão lógica pode ser alcançada; ou para ser mais preciso, a “conclusão” não pode ser uma conclusão. Por exemplo, se uma pessoa alegou que a pena capital é moralmente aceitável (A), porque a pena de morte é moralmente errada (não-A), a “conclusão” não foi claramente estabelecida a partir da premissa, portanto, o argumento não se qualifica como um argumento.

Finalmente, há regras da lógica dedutiva bem estabelecidas que se aplicam tanto ao raciocínio condicional quanto ao silogístico. Violar qualquer uma delas seria criar uma falha estrutural em um argumento dedutivo. Por exemplo, uma regra estabelece que não se pode trocar o sujeito com o predicado em uma afirmação universal afirmativa (todos os X são Y) e assumir o mesmo valor de verdade para a declaração invertida (todos os Y são X); pois apesar de ser verdade que “todas as batatas são os vegetais”, não é verdade que “todos os vegetais são batatas.” Por isso, seria uma violação das regras da lógica dedutiva trocar a reivindicação original pela invertida. Uma vez que a violação deste ou de qualquer outra regra dedutiva cria uma situação em que nenhuma conclusão deveria ou poderia ser logicamente alcançada, qualquer argumento de que viola uma dessas regras é estruturalmente falho.

Deve-se fazer várias perguntas ao aplicar o princípio estrutural a um argumento particular. O argumento está de acordo com a estrutura fundamental de um argumento, fornecendo pelo menos uma reivindicação (a premissa) cuja verdade pode tornar mais provável que alguma outra alegação (a conclusão) seja verdadeira? Poderia alguma das premissas-chave do argumento ser interpretada como fazendo a mesma reivindicação que a conclusão? Alguma premissa contradiz outra premissa? A conclusão contradiz alguma premissa? Se o argumento é dedutivo, a estrutura do argumento viola qualquer lei conhecida de lógica dedutiva?

(NdoT.: Para quem não percebeu, qualquer argumento que viole o Princípio Estrutural de Damer está incorrendo em uma Falácia Formal. Existe uma lista de falácias formais mais comuns (podem ser encontradas em sites como a wikipedia facilmente), como a Afirmação do Consequente (“Se A implica em B e B é verdadeiro, então A é verdadeiro” é um argumento estruturalmente falho e formalmente falacioso.) Vejam meu artigo sobre Falácias Formais: Falácias: uma breve introdução – e poderão se aprofundar no assunto. Para quem não sabe o que é um argumento sólido, basta ver neste post aqui: O que é um Argumento? – Parte 3b: Validade e Solidez.)

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