Falácias: Falácia Genética

A Falácia Genética é algo mais comum do que se imagina, estando presente especialmente nos debates religiosos por tratar, dentre outras coisas, das origens de uma crença. Falar a respeito de crenças já é, por si só, uma tarefa homérica; falar de crenças religiosas, então! Tamanha dificuldade vem do fato de que crenças normalmente são algo com as quais nós costumamos nutrir profundas relações emocionais.

Contudo, acredito que a Falácia Genética deveria causar menos pânico do que costuma produzir. Ela na verdade protege a crença de certos ataques e não o contrário, como veremos a seguir. Não que eu acredite, ou mesmo que haja algo sequer próximo a um consenso, que as crenças devem ser sacramentadas. Muito pelo contrário, certas crenças devem ser combatidas, sempre com inteligência e honestidade e nunca pela autoridade ou pela agressão física ou emocional. E é justamente aí que a Falácia Genética entra! Ela visa combater aqueles que querem combater crenças de maneira desonesta ou, no mínimo, de maneira logicamente não-sólida.

Por definição, Falácia Genética é uma conclusão tirada única e exclusivamente da origem (gênese) do objeto de estudo. Segundo Damer, essa falácia é a “avaliação de um objeto em termos de seu contexto original e o posterior transporte de tal avaliação para o presente, ignorando as alterações relevantes que podem ter alterado seu caráter nesse intervalo.”

Ao ignorar o que realmente importa na discussão sobre um tema, focando nas origens do que está em discussão, falha-se na tarefa de avaliar a questão corretamente. Vejam bem, um bom argumento deve se basear em aspectos relevantes e a origem de um objeto é quase sempre irrelevante.

Pode-se usar a Falácia Genética para depreciar ou valorizar alguma prática, ideia, crença, objeto, instituição ou pessoa tendo em vista apenas a sua origem. Nesse sentido, afirmar que “você arrumou um namorado muito bom, minha filha, pois ele vem de uma família muito importante” é tão falacioso quanto dizer que “você arrumou um péssimo namorado, a família dele tem uma péssima reputação”. Uma pessoa pode ser boa ou ruim independente da reputação de sua família, apesar de que a educação recebida por ela seja um critério de fato relevante.

Dentro do campo religioso, há os religiosos que afirmam que certas práticas são condenáveis por causa de suas origens. Um exemplo são certos tipos de dança, que são (ou já foram) condenados por certas lideranças religiosas por serem originalmente parte de rituais pagãos condenáveis. Outro exemplo, no sentido oposto, são pessoas que condenam certas instituições religiosas por causa de práticas há muito abandonadas. Ambas práticas incorrem exatamente no mesmo erro.

A Falácia Genética torna-se um assunto muito mais delicado, como já adiantado, quando se trata de crenças. Não é correto dizer que uma crença é falsa meramente pela forma como foi adquirida, por mais que a crença de fato seja falsa. Não é porque você acredita que algo é verdadeiro que qualquer argumento a favor também o seja, e não é porque você acredita que algo é falso que qualquer argumento visando demonstrar isso seja sólido. Uma ideia verdadeira pode ser adquirida de maneiras contestáveis, pode ter origens contestáveis, mas nem por isso ela é menos verdadeira. Se um argumento pode atacar crenças verdadeiras com o mesmo vigor que crenças falsas (ou defender ideias falsas com a mesma eficiência que defende verdadeiras), então ele não é um argumento sério.

Não estou dizendo, contudo, que essa regra seja universal e infalível. Concordo que em certos casos, mediante uma argumentação sólida e relevante, pode-se até usar a origem de algo como argumento contra o estado atual. Sob quais contextos, não sei, só sei a velha máxima de que toda regra tem uma exceção. Até hoje nunca encontrei nenhuma e duvido que algum dia encontrarei, mas não acho prudente dizer que nunca encontrarei pois ‘nunca’ é uma palavra muito forte. Por exemplo, há filósofos ateus, ou mesmo ateus “amadores” que reivindicam que a crença em divindades deve ser desprezada pela forma como são adquiridas. Talvez essas pessoas tenham excelentes razões para dizer que tais crenças sejam erradas, e talvez até sejam mesmo, mas será que a origem dessas crenças é algo que pode ser usado como provas no tribunal de nossas razões e julgadas como procedentes pelo júri? Para explicar essa questão com a profundidade e rigor necessários, farei uma série de traduções em breve aqui no blog: “A Falácia Genética e o Ateísmo”, em três partes, seguidas de uma conclusão do ponto de vista mais religioso, ou seja, que será feita pelo Bruno Almeida.

Uma possibilidade de uso desse tipo de argumentação que poderia até ter algum valor seria em argumentos de comparação. Por exemplo, qual ideia merece mais credibilidade: uma que foi desenvolvida por um profundo estudioso da questão ou uma que não passa de um chute dado por alguém que não sabe nada sobre o que está falando? Oras, provavelmente a primeira. Não estou dizendo que isso seja um argumento de certa forma relevante, já que uma ideia proposta por um especialista com certeza será melhor defendida que um chute ou uma opinião (que aliás, é bem capaz de sequer possuir defesa por parte de seu proponente). Em última instância, não seria um argumento absurdo, mas faltaria com relevância, já que a discussão da ideia em si tem muito mais valor do que probabilidades e comparações baseadas em origem. Não consigo imaginar muitos contextos nos quais essa prática possa ser relevante.

Concluindo, é perfeitamente possível que ideias verdadeiras sejam depreciadas e que ideias falsas sejam promovidas da mesma forma que as verdadeiras podem ser promovidas e as falas denegridas quando se usa a origem como critério. Um critério tão descriterioso não serve para nada, e é uma falácia de irrelevância.

Até mais!

Referências:

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