Um Código para a Conduta Intelectual – Parte 2: O Princípio da Falibilidade

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Título Original: Attacking Faulty Reasoning: A Practical Guide to Fallacy-Free Arguments Autor: T. Edward Damer
Publicação: Wadsworth Publishing; 6ª ed. (2008), pgs. 8 a 10
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani (Mr. Monk)

O PRINCÍPIO DA FALIBILIDADE

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Cada participante da discussão sobre uma questão em disputa deve estar disposto a aceitar o fato de que ele ou ela é falível, o que significa que se deve reconhecer que a própria visão inicial pode não ser a posição mais defensável sobre a questão.

Empregar o princípio da falibilidade em uma discussão é conscientemente aceitar o fato de que você é falível, isto é, que a sua visão atual pode ser errada ou não ser a visão mais defensável sobre o assunto em disputa. Se você se recusa a aceitar a sua própria falibilidade, você está, na verdade, dizendo que você não está disposto a mudar de ideia, mesmo se você ouvir um argumento melhor. Esta é uma evidência muito forte de que você não pretende jogar limpo, e não há nenhum motivo real para continuar a discussão. Uma admissão de falibilidade, no entanto, é um sinal positivo de que você está realmente interessado no tipo de investigação honesta que pode levar a uma resolução justa do problema.

A suposição da falibilidade mútua é um primeiro passo fundamental que aqueles que buscam seriamente pela verdade devem tomar. Infelizmente, esta atitude raramente é tomada em discussões sobre religião e política, razão pela qual tão pouco progresso é feito nestas importantes áreas de disputa. É, no entanto, o princípio padrão na disputa entre os cientistas, filósofos e entre a maioria dos outros acadêmicos, que provavelmente argumentariam que é uma condição necessária para o progresso intelectual.

Se houver qualquer dúvida sobre a conveniência de aceitar o princípio de falibilidade, escolha um assunto sobre o qual as pessoas têm uma série de opiniões alternativas e conflitantes. Por exemplo, considere a sua própria posição religiosa. Uma vez que cada uma das centenas de posições teológicas conflitantes é diferente em algum aspecto de todas as outras, nós sabemos, antes de começar qualquer exame dessas posições, que apenas uma delas tem a possibilidade de ser verdade, e mesmo esta pode ser falha. Assim, acontece que não só é possível que a sua própria posição religiosa seja falsa ou indefensável, mas que é provável que seja. (NdoT: Aqui, Damer não se refere apenas a “acreditar no Deus certo”, mas a seguir a “religião que interpreta corretamente o Deus certo”. Muitos poderiam argumentar que o deus de todas as religiões é o mesmo, mas com nomes diferentes, mas isto é irrelevante na medida que existem tantas diferenças teológicas mais importantes que arrisco dizer que a identidade das divindades é o menor dos problemas.)

É claro, provavelmente a nossa própria posição teológica seja mais defensável do que muitas outras, especialmente se nós gastamos tempo desenvolvendo e refinando-a de acordo com a evidência disponível e as ferramentas da investigação racional. No entanto, de todas as posições conflitantes religiosas atuais, muitas das quais defendidas vigorosamente por boas mentes, é improvável que apenas a nossa posição seja a correta. Embora possamos acreditar que o nosso próprio ponto de vista é o mais defensável, devemos ter em mente que os outros acham a mesma coisa dos seus pontos de vista e apenas um de nós, na melhor das hipóteses, pode estar certo.

A evidência mais convincente da falibilidade da maioria das opiniões humanas vem da história da ciência. Foi-nos dito por alguns dos historiadores da ciência que praticamente todas reivindicações de conhecimento na história da ciência foi demonstrada por investigações posteriores como sendo falsas ou pelo menos falhas. E se isto é verdade para o passado, provavelmente é verdade para as reivindicações presentes e futuras da ciência, mesmo apesar das técnicas mais sofisticadas de investigação utilizados pela ciência moderna. Além disso, se tais observações podem ser feitas sobre uma área de investigação que possui exigências de prova bem desenvolvidas, parece razoável supor que as alegações não-científicas possuem um destino ainda pior. Em face de tais fatos, devemos pelo menos ser intelectualmente humildes o suficiente para estarmos dispostos a questionar nossas próprias reivindicações de verdade.

O ponto importante aqui é que o reconhecimento da falibilidade é uma clara indicação de que estamos conscientemente preparados para ouvir os argumentos dos outros. Embora não seja fácil admitir honestamente que uma posição defendida firmemente pode não ser verdadeira, é o melhor pontapé inicial para uma discussão. Tal postura não só acalma as emoções que cercam o tratamento de questões sobre as quais nos apegamos profundamente, mas também tem o potencial de abrir nossos ouvidos a argumentos diferentes e melhores.

Se você permanece cético sobre a eficácia do funcionamento do princípio da falibilidade, na próxima vez que você se encontrar em uma discussão acalorada com os outros, seja o primeiro a confessar a sua própria falibilidade. Pelo menos deixe claro que você está disposto a mudar de ideia. Seus adversários certamente irão seguir seu exemplo, só para escapar do constrangimento intelectual. Se eles se recusarem a fazê-lo, pelo menos você vai saber da futilidade de continuar a conversa sobre o assunto em questão.

Vários anos atrás, enquanto trabalhava em um painel sobre a definição de um “pensador crítico”, um amigo meu definiu um pensador crítico como “uma pessoa que, por força do argumento, mudou sua mente sobre uma questão importante, pelo menos uma vez durante o ano passado.” Ele prosseguiu dizendo que é altamente improvável que qualquer pessoa irá estar sempre correta em cada posição assumida em questões importantes. Pelo contrário, dado o grande número de questões que nos dividem e o grande número de posições diferentes em cada uma dessas questões, é mais provável que uma pessoa viria a estar errada em mais questões do que certa.

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