Um Código para a Conduta Intelectual – Parte 1: Introdução

Olá a todos!

Desculpem o sumiço de alguns meses, mas é que com tantos assuntos que esse blog visa discutir, às vezes alguns devem ser deixados em segundo plano por um tempo e, infelizmente, quem levou a pior nos últimos tempos fui eu. Eu tinha feito uma pequena introdução sobre o que é argumentação e entrado na apresentação de algumas falácias mais importantes quando o blog decidiu que era melhor eu tirar umas férias, mas agora estou de volta, firme e forte, pronto para nos aventurarmos mais profundamente nesse mundo surpreendente e maravilhoso do debate.

Os meus textos até minha parada eram construídos a partir da compilação de diversos materiais que eu considero relevantes, somados com minhas leituras de fundo que já não podem ser distinguidas umas das outras. Continuarei assim, oferecendo aos leitores uma síntese de diversas leituras, a maioria indicada nas referências ao fim das postagens. Como toda boa regra, essa também terá sua exceção que, vejam a enorme coincidência, é justamente essa série que estou iniciando agora.

Ela se trata da tradução de trechos do excelente livro ATTACKING FAULTY REASONING – A Practical Guide to Fallacy-Free Arguments (Atacando Argumentos Deficientes – Uma Guia Prático Para Argumentos Livres de Falácias) de T. Edward Damer, professor de filosofia na Emory and Henry College de Emory, Virginia. Encontrei esse livro enquanto procurava por novas referências para trazer a vocês e fiquei maravilhado com as normas que ele propõe para o debate intelectual efetivo. Uma verdadeira joia que ainda não existe no português e que me senti na obrigação de trazer à nossa língua. Nele, Damer apresenta de maneira fragmentada entre seus capítulos iniciais um conjunto de doze princípios que devem nortear o debate efetivo e honesto, de modo a torná-lo justo e de modo a garantir, pelo menos, que nenhum dos lados irá perder seu precioso tempo em longas discussões estéreis, que por muitas vezes nos tiram algumas horas de vida por levar nosso corpo e mente a uma situação de estresse. Ele promete que podemos resolver qualquer disputa, inclusive disputas morais, religiosas e políticas, aplicando diligentemente todos os doze princípios por ele apresentados. E não duvidem da capacidade humana de chegar a consensos, desde que estudem antes e obedeçam a regras justas e bem definidas. Ele chega a defender que o não cumprimento desses princípios em um debate é uma atitude imoral, o que é uma alegação muito séria e pesada, mas que não deixa de fazer sentido.

Os doze princípios apresentados neste Código de Conduta Intelectual se dividem em pequenos subgrupos: os três primeiros se referem à postura do debatedor em uma discussão. O quarto e o quinto visam diferenciar argumentos de não-argumentos, enquanto que o sexto até o décimo visam diferenciar argumentos de bons argumentos. Ou seja, primeiro garantimos que aquilo que estamos produzindo é um argumento para então tentar transformá-lo em um bom argumento. Os dois últimos princípios tentam estabelecer regras para decidir quando um debate chegou ao fim.

No intervalo entre alguns princípios, Damer apresenta algumas definições relacionadas a debates e argumentações. A maioria delas já está na minha série sobre o tema, que modéstia a parte, ficou muito boa e quase no mesmo nível do apresentado neste maravilhoso livro. Inclusive, a pequena diferença entre ambos será trazida em alguns artigos que complementarão os atuais. Recomendo que leiam eles enquanto não leem o restante da tradução.

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Título Original: Attacking Faulty Reasoning: A Practical Guide to Fallacy-Free Arguments Autor: T. Edward Damer
Publicação: Wadsworth Publishing; 6ª ed. (2008), pgs. 5 a 8, 30
Tradução: Marco Aurélio Moura Suriani (Mr. Monk)

UM PADRÃO EFETIVO DE PROCEDIMENTO

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O primeiro padrão de comportamento representado pelo código de conduta é um de procedimento. Ele descreve as regras básicas que, quando seguidas, na maioria das vezes levam à resolução bem sucedida das questões que nos dividem. O código, então, é simplesmente uma formalização das formas eficazes de lidar racionalmente com questões controversas. O tipo de comportamento intelectual que é mais produtivo na resolução de litígios, na confirmação de juízos, e na revisão de crenças normalmente é realizado em acordo com tais princípios. De fato, pesquisadores da comunicação oral têm descoberto empiricamente que as discussões que seguem regras de procedimento semelhantes a essas têm mais sucesso na resolução de problemas do que aqueles que não o fazem. Minhas experiências como um argumentador e minha experiência com estes princípios em minhas aulas de faculdade produziram os mesmos resultados gratificantes.

Em meu próprio curso de raciocínio, eu geralmente começo com uma discussão sobre o “Código de Conduta Intelectual”, e eu o utilizo durante todo o curso. Perto do final do curso, peço aos membros da classe para escolher uma questão moral contemporânea, um assunto dentro do qual eles se dividem de modo mais ou menos uniforme e, algumas vezes, apaixonada. Em seguida, eles são divididos em dois grupos, cada grupo fisicamente de frente um para o outro na sala de aula, e discutem o assunto por três períodos consecutivos de aula, seguindo as regras do código descrito neste capítulo. Eu sirvo como moderador e me abstenho de dizer qualquer coisa relacionada à substância da questão; eu simplesmente aponto para o lado que acabou de violar o código. Os alunos são encorajados a fazer pesquisas sobre o tema entre os dias de discussão, e eles normalmente trazem os insights de suas pesquisas, provas, ou ambos para apresentar aos outros membros da classe, como parte da discussão. Tenho realizado esta experiência há mais de 20 anos, e quase sempre os membros da classe chegam (depois de três horas de discussão) a um consenso total sobre a questão moral em jogo. Ao longo dos anos, eles discutiram uma ampla gama de questões morais, de gays nas forças armadas ao vegetarianismo, e eles quase sempre ficam surpresos e encantados com o resultado. A posição de consenso obtida raramente é uma das duas posições originais; ela é geralmente uma “terceira” posição, melhorada.

UM PADRÃO ÉTICO IMPORTANTE

O segundo padrão de comportamento representado pelo código de conduta é um ético. Embora possa parecer um pouco estranho sugerir que a falha em levar adiante uma discussão de acordo com os princípios aqui descritos é imoral, certamente não é estranho sugerir que se deve argumentar de uma forma honesta. Na medida em que o espírito de “jogo limpo” demanda de todos os participantes na discussão racional um compromisso com os mesmos padrões mínimos de comportamento intelectual, essas regras claramente assumem uma dimensão ética. Considere como muitas vezes nos encontramos em situações em que o nosso adversário verbal se recusa a cumprir o que consideramos como as “regras do jogo.” Isso não somente encerra a discussão, mas mais do que isso, impede que o tema em questão seja decidido ou, pelo menos, explorado mais a fundo. Em tais situações, nós freqüentemente ficamos indignados com o nosso adversário, e nossa exigência de respeito a certas regras básicas é acompanhada com mais que uma leve irritação; ela tem entonação decididamente moral. Nós claramente esperamos “jogo limpo” por parte de outros, e nós obviamente não devemos esperar menos de nós mesmos.

UM CÓDIGO DE CONDUTA INTELECTUAL PARA A DISCUSSÃO EFETIVA

Uma “discussão” pode envolver dois ou mais participantes ou pode simplesmente ser uma discussão interna consigo mesmo. Em ambos os casos, alguém que deseje construir os argumentos mais fortes possíveis para os seus pontos de vista, e que deseje ter papel efetivo na resolução de conflitos sobre questões que realmente importam, deve agregar ao seu estilo intelectual cada um dos seguintes princípios.

* Os links aqui indicados só redirecionarão ao artigo em questão nas datas indicadas na frente deles.

1. O Princípio da Falibilidade (artigo)
Cada participante da discussão sobre uma questão em disputa deve estar disposto a aceitar o fato de que ele ou ela é falível, o que significa que se deve reconhecer que a própria visão inicial pode não ser a posição mais defensável sobre a questão.

2. O Princípio da Busca pela Verdade (artigo)
Cada participante deve estar comprometido com a tarefa de procurar sinceramente a verdade, ou pelo menos a posição mais defensável sobre a questão em disputa. Portanto, deve-se estar disposto a examinar posições alternativas a sério, buscar insights nas posições dos outros, e permitir que outros participantes apresentem argumentos a favor ou levantem objeções a qualquer posição sustentada sobre o problema.

3. O Princípio da Clareza (artigo)
As formulações de todas as posições, defesas e ataques devem ser livres de qualquer tipo de confusão linguística e claramente separadas de outras posições e questões.

4. O Princípio do Ônus da Prova (artigo)
O ônus da prova para qualquer posição normalmente recai sobre o participante que estabelece tal posição. Se e quando um oponente pede, o proponente deve fornecer um argumento para sua posição.

5. O Princípio da Caridade (artigo)
Se o argumento de um participante é reformulado por um adversário, deve ser cuidadosamente expresso na sua versão mais forte possível que seja consistente com o que se acredita ser a intenção original do argumentador. Se houver qualquer dúvida sobre essa intenção ou sobre qualquer parte implícita do argumento, o argumentador deve receber o benefício da dúvida na reformulação e/ou, quando possível, a oportunidade de alterá-lo.

6. O Princípio Estrutural (artigo)
Aquele que argumenta a favor ou contra uma posição deve usar um argumento que atenda aos requisitos estruturais fundamentais de um argumento bem formado. Tal argumento não usa motivos que se contradizem, que contradizem a conclusão, ou que explícita ou implicitamente assumem a verdade da conclusão. Também não deve tirar inferências dedutivas inválidas.

7. O Princípio da Relevância (artigo)
Aquele que apresenta um argumento a favor ou contra uma posição deve estabelecer apenas razões cuja verdade fornecem alguma evidência para a veracidade da conclusão.

8. O Princípio da Aceitabilidade (artigo) – 04/mar
Aquele que apresenta um argumento a favor ou contra uma posição deve fornecer razões que são susceptíveis de ser aceitas por uma pessoa madura e racional e que atendam aos critérios normais de aceitabilidade.

9. O Princípio da Suficiência (artigo) – 05/mar
Aquele que apresenta um argumento a favor ou contra uma posição deve tentar fornecer motivos relevantes e aceitáveis ​​do tipo certo que, juntos, são suficientes em número e peso para justificar a aceitação da conclusão.

10. O Princípio da Refutação (artigo) – 06/mar
Aquele que apresenta um argumento a favor ou contra uma posição deve incluir no argumento de uma refutação eficaz antecipando todas as críticas graves ao argumento que podem ser movidas contra ele ou contra a posição que ele suporta.

11. O Princípio da Suspensão do Julgamento (artigo) – 07/mar
Se nenhuma posição é defendida por um bom argumento, ou se duas ou mais posições parecem ser defendidas com igual força, deve-se, na maioria dos casos, suspender o julgamento sobre a questão. Se considerações práticas parecem exigir uma decisão mais imediata, deve-se pesar os benefícios relativos ou danos relacionados às consequências de suspender o julgamento e decidir a questão através desses fundamentos.

12. O Princípio da Resolução (artigo) – 08/mar
Uma questão deve ser considerada resolvida se o argumento para uma das posições alternativas é estruturalmente sólido e que usa motivos relevantes e aceitáveis que, juntos, fornecem motivos suficientes para justificar a conclusão e que também inclui uma réplica eficaz de todas as críticas sérias do argumento e/ou da posição que ele suporta. A menos que alguém possa demonstrar que o argumento não cumpriu essas condições com mais sucesso do que qualquer argumento apresentado para posições alternativas, esse alguém é obrigado a aceitar tal conclusão e considerar a questão como resolvida. Se o argumento for posteriormente demonstrado falho por qualquer participante de uma maneira que levanta novas dúvidas sobre o mérito da posição que ele suporta, esse alguém é obrigado a reabrir a questão para consideração e deliberação.

UM BOM ARGUMENTO DEVE ATENDER CINCO CRITÉRIOS

Existe uma diferença clara entre um argumento e um bom argumento. Uma pessoa que faz uma alegação que é suportada por pelo menos uma outra alegação criou um argumento, mas este pode não ser um argumento muito bom. Existem cinco critérios para um bom argumento. Ele deve possuir:

uma estrutura bem formada,
premissas que são relevantes para a verdade da conclusão,
premissas que são aceitáveis para uma pessoa razoável,
premissas que, em conjunto, constituem uma base suficiente para a verdade da conclusão, e
premissas que fornecem uma refutação efetiva a todas críticas antecipadas do argumento.

Um argumento que atende todas essas condições é um bom argumento, e sua conclusão deve ser aceita. Se um argumento falha em satisfazer estas condições, ele provavelmente não é um bom argumento.

Alguns argumentos deficientes, obviamente, são menos falhos do que outros, assim com alguns bons argumentos são melhores que os outros. Uma avaliação da qualidade de um argumento é quase sempre uma questão de julgamento, já que os critérios se prestam a uma ampla variedade de aplicações. Existem graus de relevância, assim como há graus de aceitabilidade, suficiência das premissas e efetividade da refutação. Entretanto, um número de orientações específicas estão disponíveis para auxiliar a aplicação desses critérios e podem ser úteis na avaliação da qualidade de um argumento.

2 opiniões sobre “Um Código para a Conduta Intelectual – Parte 1: Introdução”

    1. Não conhecia esse livro. Acabei de dar uma olhada e achei até interessante. Entretanto, ele segue uma linha bem diferente do Damer. O Damer fala sobre a postura em debate, que envolve desde os cuidados com a argumentação até a forma de encarar o adversário e a discussão.

      Weston, por sua vez, foca bastante na construção do argumento. Como escrever algo baseado em fatos de forma convincente e fácil de ser compreendida. Há um ano e meio atrás eu tinha estudado bastante esse tema para fazer provas de inglês que exigiam redação, mas era uma material mais “pragmático”. Eu planejava usá-los mesmo assim futuramente, como Mr. Monk, mas esse livro que você indicou será bem mais útil. Vlw pela dica!

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