Sobre Falhas Catastróficas

Falhas Catastróficas não são somente aquelas nas quais o dano é muito grande e há destruição completa. Não estamos falando somente sobre o tamanho da falha, até porque esse é um conceito relativo: às vezes a perda de uma vida já é considerada uma falha catastrófica, mas às vezes, considerando a quantidade de pessoas que poderiam ter morrido, uma vida perdida já passa a soar como um certo tipo de consolo. O que caracteriza uma falha catastrófica é também o que levou a ela: um conjunto de falhas simultâneas e independentes entre si, que isoladas não seriam capazes de gerar a catástrofe. Ou seja, falhas catastróficas acontecem quando tudo que podia dar errado dá errado e os resultados são os piores possíveis.

Um exemplo que dou é algo similar aquilo que aconteceu em Chernobyl (ver aqui). Suponhamos que um engenheiro deseja fazer um teste no reator de uma usina nuclear. Ora, para que não haja risco de falha, o projeto do teste deve ser feito e revisado com o mais elevado grau de rigor, pelo máximo possível de pessoas, atender a uma série de requisitos e normas de segurança e trabalhar com uma margem de segurança mais do que razoável (margem de segurança: nunca impor ao sistema uma carga maior que, digamos, 50% da sua capacidade máxima – quanto menor essa porcentagem, maior a margem de segurança).

Mas isso não é o suficiente. É preciso que se use uma série de sensores interligados a um sistema robusto de monitoramento das condições do reator para que se possa saber em tempo real o que acontece lá dentro. Se a temperatura subir muito, ou se a pressão começar a ameaçar a integridade estrutural, ou se a vazão de água saindo do reator começar a sofrer oscilações, ou se qualquer outra anormalidade estiver em curso, o ensaio deve ser abortado imediatamente. Tal sistema deve ser robusto, tanto o software quanto os sensores, ou seja, a probabilidade de falha deles deve ser pequena mesmo sob condições severas.

Mas isso também não é o suficiente. Pessoas treinadas devem ser capazes de notar irregularidades no funcionamento do reator. Dados inconsistentes podem mostrar que o sistema de monitoramento apresenta alguma falha. Ruídos e vibrações estranhos podem ser sintoma de alguma anormalidade dentro do reator. Medições manuais podem constatar problemas que não seriam vistos de outra forma. Experiência de vários anos pode mostrar que alguma coisa não está como deveria estar. Um operador experiente, bem treinado e acima de tudo atento, poderia mandar o teste ser abortado ao menor sinal de perigo.

Notemos que se o projeto do teste for adequado, a usina não irá explodir mesmo que o sistema de instrumentação falhe ou que a vigilância humana não esteja atenta. E se o sistema de sensores estiver funcionando corretamente, de nada adiantará um projeto falho ou uma vigilância descuidada. E obviamente, uma vigilância bem treinada e diligente será capaz de prevenir explosões mesmo quando os sensores falham e o projeto é inadequado. Ou seja, a usina só irá explodir quando estes três programas de segurança falharem simultaneamente. É lógico que a prática é bem mais complexa do que isso, mas aqui o que vale é a didática.

Agora notemos que no caso da Roberta Baêta, o que aconteceu foi justamente isso: uma falha catastrófica. Ela não morreu somente porque tinha problemas de saúde, mas também não foi somente por causa dos problemas com a família. Ela morreu por causa dos dois juntos, por causa da combinação fatal de dois fatores que, sozinhos, não são suficientes para causar essa perda lastimável. Este texto visa demonstrar duas coisas: 1) o caminho inevitável de uma pessoa com transtorno bipolar de humor (que ela supostamente portava) não é o suicídio e 2) os problemas particulares dela provavelmente contribuíram negativamente contra a saúde mental da estudante. Eu penso que se tivesse ela recebido todo apoio, compreensão e tratamento necessários, viveria mesmo sendo bipolar. E se ela não tivesse a infelicidade de ter esse problema, conseguiria lidar com o tratamento dispensado pela sociedade. Como ocorreu na nossa usina hipotética, a falha só ocorreu porque os dois problemas ocorreram simultaneamente.

TRANSTORNO BIPOLAR DE HUMOR

Quando se fala em bipolaridade, normalmente se imagina uma pessoa que muda de humor facilmente e com rapidez, que uma hora está triste, na outra está feliz e quando você menos percebeu está zangada e possuída de raiva, como na figura abaixo. Grande mito popular. Basicamente, a pessoa com Transtorno Bipolar de Humor alterna entre fases de euforia e hiperatividade e de depressão, com ciclos mínimos de uma semana, mas podendo durar até mais que um mês para haver a transição. Geralmente, os ciclos são intercalados de fases em que a pessoa se comporta de maneira absolutamente normal. É uma doença já bem conhecida e catalogada, como podemos ver no verbete da wikipedia (aqui).

Estima-se que entre 0,5% a 2,2% da população possuam tal distúrbio, seguindo conceitos médicos (esse número aumenta quando se segue conceitos mais abrangentes). Pessoas como Van Gogh, Edgar Allan Poe e Churchil possuíam o distúrbio. Van Gogh chegou a se matar, algo que pode acontecer tanto durante uma crise de euforia muito intensa (caso dele) quanto durante uma depressão muito profunda. Contudo, hoje em dia existem tratamentos disponíveis ao alcance de todas as pessoas e que possibilitam controlar o humor com medicamentos facilmente. Um portador desse distúrbio pode levar uma vida normal se tiver apoio e se for bem orientado por um médico. Pode-se ver mais numa entrevista que Drauzio Varela fez com o Psiquiatra e professor Valentim Gentil Filho neste link.

Além disso, segundo a ABRATA (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos) é importante que a família faça a sua parte. Entender a doença é o fundamental, mas o primeiro passo é procurar ajuda profissional. Dar apoio também é muito importante e, acima de tudo, tratar com carinho e evitar qualquer forma de preconceito para com a doença (chamar o portador de louco, por exemplo, pode agravar o problema). Ela deve contribuir para que o paciente não seja exposto a situações como stress em excesso, pois este funciona como catalisador de quadros de mania ou de depressão. Aliás, a família deve fazer parte do tratamento, pois muitas vezes problemas familiares como brigas podem se misturar com os casos de mudança de comportamento.

SUICÍDIO: Um terço dos pacientes com o distúrbio já tentaram (ou conseguiram) o suicídio. Do total, 0,4% conseguem (o que é 10 a 20 vezes o índice da população geral). Ambos os dados estão no verbete em inglês da wikipedia (link). É um absurdo afirmar, dessa forma, que pessoas com distúrbio bipolar normalmente se matam, dado um índice tão baixo em termos absolutos. Para que a pessoa chegue a tirar a própria vida, suponho que ela não esteja se tratando e nem recebendo apoio de ninguém.

ROBERTA BAÊTA

Roberta Baêta era uma garota de 17 anos que se matou em 28 de dezembro de 2012, depois de fazer inúmeras reclamações pelo fato de sofrer preconceito, especialmente dentro de casa, por ser ateia. Essa notícia demorou tempo para ficar conhecida no facebook e até agora foi ignorada pela mídia, salvas algumas exceções como o site de notícias sobre ateísmo do Paulo Lopes (link para a notícia). Supostamente, Roberta portava o TBH, entretanto não vi até agora nenhuma notícia ou fato que permita concluir isso com toda certeza. Ressalto que também não nutro grandes dúvidas disso, pois como já falei antes a probabilidade de uma pessoa saudável se matar é bem menor do que uma com algum tipo de transtorno afetivo. Além disso, os relatos que vi no facebook são uma evidência com certo grau de credibilidade: basta visitar a página que os amigos dela criaram para ela na rede social, Roberta Baêta – Amigos, e ver os relatos.

Considerando que seja verdade que ela era “bipolar”, chama a atenção o fato de não haver menção nenhuma de algum tratamento. Ausência de evidência não é evidência de ausência, mas isso chama atenção porque pacientes que recebem tratamento e cuidados especiais não costumam chegar ao extremo. Alguns meses antes do incidente, Roberta reportava que que tinha brigas constantes com a mãe pelo fato dela ser ateia e até que foi ameaçada de ser expulsa de casa. Mas a pressão que ela sentia não era só dentro de casa, pois ela relata ter sofrido preconceito fora dela também. Juntando tudo isso, percebemos que a frase do Padre supostamente com o qual a mãe da Roberta se orientava, apesar de brutalmente hipócrita, é pura verdade: “a tragédia já estava anunciada”.


Todo o stress obviamente presente nesse caso definitivamente seria capaz de contribuir para agravar o TBH, ainda mais porque adolescente costumam exagerar um pouco no drama. E os depoimentos de Roberta deixam a ideia de que se a família procurou ajuda sobre a doença, então parece que não levou a sério nenhuma orientação. Pelo fato dela ter chegado a se matar, é de se supor que ela não estava se medicando. Inclusive, penso que a polícia deveria investigar o caso, pois alguém cometeu um erro muito grande nessa história no que diz respeito ao tratamento.

Voltando ao caso da falha catastrófica, teria Roberta se matado somente por causa das brigas com a mãe e pelo tratamento recebido por ser uma ateia militante, mas que fora isso não tivesse um transtorno afetivo? Óbvio que não! São situações desagradáveis sim, que parecem ainda piores na idade dela, mas não é o suficiente para se desenrolar até um desfecho tão extremo. Teria ela se matado se apenas tivesse o transtorno, mas tivesse sendo tratada e medicada, sendo protegida de situações que causassem stress? Especialistas dizem que provavelmente não. Não posso fazer muito além de especular, mas a informação que temos até agora deixa claro que a catástrofe só aconteceria se os dois fatores trabalhassem juntos.

ATEÍSMO

O preconceito contra o ateísmo entra em pauta na discussão pública por causa disso? SIM! Por mais que uma pessoa acredite que o ateísmo seja errado, o comportamento da mãe narrado nas imagens abaixo não era justificável. Mesmo que a garota não tivesse morrido, isso é um absurdo. Este caso mostra o quanto o ódio contido no coração de muitas pessoas pode deixá-las cegas.

Não estou dizendo que tudo aconteceu por causa das brigas com a mãe. Longe disso. Acredito que tais brigas sejam reprováveis por si só, independente das consequências. Afinal de contas, quem gostaria de ter que passar pelo que ela passou? Será que a tortura é o castigo que todo ateu deve sofrer em vida? Onde ficam o respeito à dignidade humana, a compreensão e a sabedoria, virtudes que o cristianismo reivindica tanta exclusividade? Cristãos adoram dizer que são vítimas de preconceito por aí, até cunharam o termo cristianofobia, mas são capazes de dispensar um tratamento desse aos próprios filhos e até mesmo de apoiar uma mãe que age assim! Porque pimenta arde é nos olhos outros…

O que defendo aqui é que o suposto transtorno de Roberta pode ter sido agravado por uma série de fatores, dentre eles a falta de estabilidade familiar e possivelmente a falta de medicamentos. Mas isso tudo é outra história. Prestem atenção, pois não sou leviano a ponto de dizer que os conflitos por ela ser ateia foram fatores fundamentais nessa catástrofe (apesar de provavelmente terem tido um papel pequeno), mas sim que tais conflitos por si só já são um absurdo que não pode mais ser tolerado. Vejam este relato:

Outro exemplo é dado pela TV Lafaiete, da cidade onde ela morava, que publicou uma nota dizendo que a garota passava por uma fase. Ora quanta cegueira e quanta ignorância! Não era uma fase, mas (ao que tudo indica) uma doença. Uma hora trata ela como uma débil mental que só era ateia porque estava na puberdade e que eventualmente superaria isso, mas na outra hora já está fazendo declarações no facebook nem um pouco condizentes com tal postura.


Mas sejamos justos: nota-se como a mãe parecia estar em um conflito terrível também. Não quero colocá-la como vilã aqui, inclusive tive a séria impressão de que ela era só mais uma vítima. Cuidava de duas filhas sozinha e a julgar pelas constantes orações pedindo ajuda, tinha uma vida muito difícil. Sua fidelidade a Deus chegou a fazê-la considerar muito seriamente a hipótese de expulsar a filha de casa e até mesmo a preferir que a filha se prostituísse. Pobre alma, com a cabeça entre a cruz e a espada, sendo torturada por um dilema tão cruel quanto desnecessário. Imaginem o que não deve ter se passado na cabeça desta mulher nos últimos meses? A dúvida atordoante entre quem merece mais amor a consumindo por dentro, salpicada com uma vida de dificuldades. Sobre a expulsão de casa, prevaleceu o amor que tinha pela família. Mas infelizmente parece ter sido pouco.

PAPEL DA RELIGIÃO

Outra discussão cabível, e necessária, é o papel da religião na vida das pessoas. O furor cristão incutido pela igreja de que o ateísmo é mal a ser combatido. Há quem diga que a Igreja não se posiciona assim. Talvez nem toda a Igreja e talvez de forma nem tão explícita, mas como veremos a seguir, é de praxe para uma parcela dos cristãos desejar (e até praticar) o mal contra os ateus.

Mas esse não é o único problema que quero comentar aqui. Também quero perguntar que família é essa que quer resolver seus problemas orando?

Quando os ateus (ou mesmo certos religiosos) lutam por uma sociedade mais secular, lutam contra a desinformação que parece ser o caso aqui. Rezar não cura doenças e não tira ninguém da pobreza e está na hora de todo mundo compreender isso. É certo que estamos sujeitos a tantas coisas na nossa vida que se torna difícil dizer o que mais contribui para o nosso destino, mas a ação, especialmente aquela precedida de reflexão e pautada pela informação e pelo conhecimento, é sempre primordial. Não sou contra que se ore por pessoas doentes, mas acho que só se deve orar depois que começou-se um tratamento médico e mesmo assim só se ele estiver sendo levado a sério. (Sim, aqui já extrapolo um pouco a questão.)

Não é o caso da maioria dos cristãos brasileiros serem assim, mas existe uma minoria que infelizmente se encontra presa na ignorância por causa de um país que não prima pela educação e de uma religião cuja maioria dos membros não se importa muito com o problema: “nossa, é tão bonita a fé deles.” Não, não é uma questão de fé deixar de tomar uma atitude para ficar rezando. Isto se chama ignorância e tem cura: informação e conhecimento. E isso também não é bonito.

MÁRTIR

Nós humanos estamos sempre martirizando as pessoas. Roberta Baêta, apesar do silêncio da grande mídia, é candidata a mártir contra a intolerância religiosa e deveria se tornar também candidata a mártir contra a crendice e a superstição. Há quem não concorde que ela deva ser uma mártir, mas todos concordam que seu caso merece sim ser discutido no debate público em massa, com destaque em todos os jornais, pois as pessoas devem ser confrontadas com seus erros. Trazer esse caso à tona não é manobra política de ateu, nem vitimismo, mas sim a busca por respostas, o desabafo de uma indignação e a luta por melhoras. Não vejo como uma pessoa possa deixar de se indignar com esse fato a não ser que esteja cega com ideologias que desprezam o ser humano em detrimento de divindades mesquinhas que odeiam quem não gosta delas. Duvido muito que se o Deus cristão exista, ele ficaria triste com o ateísmo de Roberta, ou pelo menos que fosse ficar mais triste com isso do que com a vida que ela teve e com seu lamentável fim. Que Roberta sirva como uma mártir para que cada vez mais pessoas possam perceber isso, perceber que o respeito é uma virtude, e que o ateísmo dela é um problema que ela deve resolver com Deus caso ele exista. Que ela seja um mártir para que print-screens como os que coloquei aqui não se repitam, pois é justamente por isso que ela lutava.

Infelizmente, o que vejo são pessoas que usam o caso para promover a ignorância. Comentários no facebook dizendo que ela teve um fim merecido por ser ateia estão lá, tremulando digitalmente como uma bandeira do pior que a religião pode fazer a uma pessoa. Há até quem defenda no facebook que os ateus estão se fazendo de vítima por questões políticas, como se a pobre garota tivesse se matado somente por ser doente (ainda sequer temos uma fonte confiável que assegure disso!) e que estamos fingindo que não nos sentimos aterrorizados em pensar que qualquer um de nós poderia ser ela. Como se não nos importássemos com o óbvio fato de que esse caso não é único e que veio à tona por pura sorte mesmo depois de vários dias. Há idiotas que ousam dizer, mesmo sem conhecer nem 1% de nós todos, que choramos lágrimas de crocodilo só porque tem ideologias contrárias. Cliquem na imagem abaixo para ampliar e ver o monstro moral fazendo essa declaração absurda como parte da propaganda para seu blog.

Nossa sociedade falha em reconhecer que certos comportamentos religiosos são indesejáveis. Dizer que o que essa garota passou é merecido é de uma falta de humanidade que me recuso a cansar de realçar. Roberta Baêta lutava justamente contra o comportamento de pessoas que disseram isso sobre sua morte, e acho que ela se orgulharia em saber que está sendo usada para tocar tais pessoas. Repito: visitem a página do facebook dos amigos de Roberta para verem declarações infelizes como esta:

E para piorar, mesmo que muitos sejam tolerantes e que não sejam supersticiosos, a grande maioria desses não faz nada. Muito se diz que a omissão dos justos é pior do que a ação dos injustos. Então acordemos, paremos de nos omitir, e evitemos que novas Robertas apareçam.

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